Geógrafo publica atlas das eleições de 2016 em Campinas

Gustavo Teramatsu / AGB-Campinas

O geógrafo campineiro Lucas Coutinho Marcelino da Silva acaba de publicar, de forma independente, o Atlas – Geografia do voto de Campinas – Eleições 2016. Para o mapeamento, produzido no software livre QGIS a partir de dados do Repositório de dados eleitorais do TSE, o município de Campinas foi dividido em suas sete zonas eleitorais. O atlas inclui os dados gerais da votação em cada zona, como o número de eleitores, o comparecimento e a abstenção. Também apresenta a votação de cada candidato à Prefeitura – foi reeleito em primeiro turno o prefeito Jonas Donizette –, e também a votação para vereador por partido e para cada um dos 33 vereadores eleitos naquele pleito.

Lucas é geógrafo formado na Unesp de Rio Claro e atualmente faz o mestrado em Geografia Humana na USP, sob orientação de Hervé Théry.

Nota da AGB-Campinas à comunidade e aos gestores públicos em relação às ações de combate à Covid-19

O Brasil ultrapassou a triste marca de 1 milhão de casos de Covid-19 e o trágico número de 50 mil vidas perdidas. No estado de São Paulo são 215.793 casos e 12.494 óbitos. Na cidade de Campinas, são 5.317 casos e 211 óbitos, de um total de 9.160 casos e 360 óbitos na região metropolitana. Com isso em vista, a Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Campinas – vem a público se manifestar quanto à necessidade de balizar a tomada de decisão em critérios científicos, que se impõem diante do aumento do número de casos e óbitos, das evidências de subnotificação, do baixo índice de testagem, da inexistência de vacina ou de tratamento eficaz contra a doença e da sobrecarga do sistema de saúde. 

Nesse momento em que a pandemia se expande em direção ao interior do território nacional, notadamente do estado de São Paulo, conforme comprova o Radar COVID-19, é fundamental que medidas sejam tomadas para garantir o distanciamento social, que se fundamenta nos principais e mais aceitos estudos científicos realizados pela epidemiologia. Campinas e outros importantes centros urbanos regionais do estado possuem grande responsabilidade no combate ao novo coronavírus, já que concentram os principais serviços de atendimento hospitalar de alta complexidade, como leitos de Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs), além de equipamentos e insumos médicos necessários ao tratamento daqueles mais gravemente afetados pela doença. Tendo em vista a situação geográfica que se configura na cidade, defendemos que a Prefeitura não avance nos planos de flexibilização das medidas de isolamento social.

Diante da crise sanitária, que é igualmente social e econômica, a AGB-Campinas também manifesta sua posição quanto à imediata implementação de medidas de redução de danos voltadas às populações historicamente invisibilizadas pelas políticas públicas, e que se expressam no abismo urbano-social existente na região e no Brasil. Parcela significativa dessa população, além de possuir dificuldades de realizar o devido isolamento social em razão das péssimas condições de moradia a que está submetida, também é diretamente afetada pela precarização e pela ausência de direitos trabalhistas que poderiam assegurar o afastamento temporário de suas funções. É essencial que ações e políticas lhes garantam suporte financeiro, como a renda básica universal.

A AGB-Campinas defende também a aprovação urgente do projeto de lei e a implementação imediata de ações governamentais que organizem a fila única de acesso aos leitos nas redes pública e privada para o atendimento universal das pessoas infectadas com o novo coronavírus, sem discriminação por classe social. Não aprovar esta medida tornará ainda mais evidentes os preconceitos racistas e classistas, a mentalidade elitista e a postura exclusivista que funda a sociedade brasileira e se reflete na população campineira.

Campinas, 21 de junho de 2020

NOTA EM PDF

Lívia de Oliveira (1927-2020)

Memorial

Faleceu neste sábado, 6 de junho, aos 92 anos, a professora Lívia de Oliveira.

Lívia nasceu em Mairinque em 27 de agosto de 1927. Diplomada professora primária, foi para a Universidade de São Paulo, onde formou-se em Enfermagem, em 1948, bem antes de se formar em Geografia e História, em 1958. Matriculou-se no curso noturno, trabalhando como enfermeira no início e, já ao fim da graduação, como professora, em Pedro de Toledo. Foram seis décadas de vida devotadas à Geografia.

Em 1962 foi para Rio Claro ministrar a disciplina de Didática Especial de Geografia. O título de doutora veio em 1967, na época em que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro fez parte da Universidade de Campinas, com a tese “Contribuição ao Ensino da Geografia” – a primeira no Brasil a tratar especificamente do ensino da disciplina –, orientada pelo professor José Ribeiro de Araújo Filho (1911-1994), que a incentivou a seguir na Geografia.

A tese de livre-docência, “Estudo metodológico e cognitivo do mapa”, se tornou livro em 1978 e uma grande referência para a Cartografia Escolar.

Também em Rio Claro, em 1985, organizou o primeiro Encontro Nacional de Prática de Ensino em Geografia, que teve sua 14ª edição em Campinas, em julho passado. No evento, aconteceu exposição do Concurso Cartografia para Crianças, da Sociedade Brasileira de Cartografia, que oferece o Prêmio Profª Lívia de Oliveira. Naquele mesmo mês, a professora Lívia esteve em Campinas, em banca examinadora da tese “O sentido geográfico da identidade: metafenomenologia da alteridade Payayá“.

Costumava dizer que o conceito de percepção do espaço em Jean Piaget (1896-1980) a levou à percepção geográfica. Foi responsável pela tradução dos livros de Yi-Fu Tuan (1930-) para o português (Topofilia, em 1980; Espaço e Lugar, em 1983, ambos pela Difel; e Paisagens do Medo, pela Editora da Unesp, em 2005). E, assim, ajudou a estabelecer a Geografia Humanista no Brasil. Longeva, contribuía ainda ativamente com o Grupo de Pesquisa Geografia Humanista Cultural, onde se concentrou sua produção mais recente, no último decênio.

A AGB-Campinas, com pesar, compartilha o luto com a família e com os numerosos amigos, ex-alunos e admiradores da professora Lívia entre os geógrafos do Brasil.

Diretoria Executiva Local

Campinas, 6 de junho de 2020

Richard Sennett: As cidades na pandemia

Publicado no portal Newcities.org com o título “The State of Exception Becomes the Norm”, traduzido para o francês em versão ampliada por Hélène Borraz no portal AOC – Analyse Opinion Critique. Traduzido pelos geógrafos Luciano Duarte, Wagner Nabarro e Gustavo Teramatsu


Em Homo Sacer, o filósofo italiano Agamben fala da repressão que surge quando um estado de exceção é instaurado. A vida das pessoas se encontra reduzida a um mínimo biológico, como nos campos de concentração nazistas. Mas essa redução pode persistir uma vez que as condições excepcionais passem. O sociólogo Alain Touraine mostrou há muito tempo como a situação em tempos de guerra legitimou a regulamentação estatal da vida das pessoas, bem depois do fim da segunda guerra mundial. As estruturas do poder se servem das crises, usando-as para legitimar um controle mais amplo.

O pânico permite a exploração das crises. Nos países ricos, raros são os jovens que hoje em dia conhecem a disciplina militar, que não tem outro objetivo senão garantir que os soldados, sob fogo, mantenham o controle deles mesmos; entrar em pânico no campo de batalha é morte na certa ou quase isso. Mas a mídia hoje está embriagada de pânico, nos apresentando esses extremos que são a doença e a morte como um destino inevitável. Quando uma boa notícia surge – a redução da doença na China, por exemplo –  o lugar que a mídia lhe dedica, poderíamos dizer, é bem menor que aquela relacionada à comparação da pandemia do Covid-19 com a peste negra do século XIV. É absurdo, mas a comparação empolga. É assim que o poder da mídia serve ao Estado em seu projeto de normalização. 

Não estou minimizando a pandemia atual, apenas dizendo que é preciso respondê-la sem entrar em pânico, e que ela constitui uma “oportunidade”, na falta de uma expressão melhor, que deve ser aproveitada.

Esta é a perspectiva que as cidades enfrentam hoje: as regras de controle das cidades durarão mais do que a pandemia; em particular, as regras que regem o espaço público, que ditam a distância social e que dispersam as multidões persistirão mesmo após nós termos os meios médicos de suprimir a doença. Nós dispomos de um precedente histórico recente. Após o 11 de Setembro, a legislação que regula as reuniões públicas, o controle de acesso aos edifícios e as especificações para construção daqueles à prova de bombas permanecem inscritos nos textos legiferantes desses setores. O “distanciamento social”, necessário na atual crise, ameaça se tornar uma norma imposta pelo governo mesmo que posteriormente, graças a uma vacina eficaz, as pessoas não tenham mais razões imperiosas de temer a proximidade dos outros.

Essa situação nos desafia a refletir sobre os problemas urbanos, no entanto, que durarão mais do que a pandemia. O primeiro é o isolamento social, angustiante primo do distanciamento social. A pandemia nos fez tomar consciência – particularmente na Europa – do problema de lidar com um grande número de pessoas idosas vivendo sozinhas. Em Londres, de onde escrevo, 40% das pessoas idosas vivem sozinhas, em Paris, 68%. Elas já estão experienciando o distanciamento social e a solidão não faz nada bem para sua saúde física ou mental. Os governos, na minha opinião, são incapazes de votar leis capazes de superar a solidão criada pelo distanciamento social imposto. Este é um desafio para a sociedade civil urbana, para o qual precisaremos ter novos conceitos em matéria de comunidade.

A pandemia também desafia os urbanistas a repensar a arquitetura da densidade. A densidade é a lógica das cidades; a concentração das atividades em uma cidade estimula a atividade econômica (o que chamamos de “efeito de aglomeração”); a concentração de pessoas é um bom princípio ecológico para enfrentar a mudança climática, ao permitir economizar recursos de infraestrutura. E isso é uma coisa boa socialmente, ao expor as pessoas a outros grupos aos quais elas não pertencem,  numa cidade densa e diversificada. No entanto, para prevenir ou inibir futuras pandemias, é possível que nós tenhamos que encontrar novas configurações de densidade que permitiriam às pessoas se comunicar, ver seus vizinhos, participar da vida urbana mesmo que elas devam temporariamente que se manter distantes umas das outras. Faz muito tempo que os urbanistas chineses inventaram uma tal forma flexível: o pequeno pátio interior dos shikumen¹. Os arquitetos e urbanistas devem encontrar seu equivalente contemporâneo.

¹ N. dos T.: Estilo de arquitetura residencial que mescla elementos europeus e chineses, difundido durante o século XIX por diversas áreas do território chinês, principalmente em Xangai, mas também Wuhan, primeiro foco da COVID-19.

Os meios de transporte colocam um problema mais difícil de resolver no contexto da densidade. Os transportes públicos têm a vantagem de reunir passageiros de forma massiva e eficiente, mas esta não é uma forma saudável de densificação. Assim, os urbanistas de Paris e Bogotá exploram o que chamamos de “cidades em 15 minutos”, onde as pessoas podem ir a pé ou de bicicleta até pequenos polos de atividades densos, em vez de se deslocar mecanicamente em direção a alguns grandes centros da cidade. Mas isso exigiria uma revolução econômica a ser alcançada – particularmente nas cidades em vias de desenvolvimento ou, como em Bogotá, onde as fábricas se encontram longe dos barrios e favelas (bidonvilles) onde vivem os trabalhadores.

Eis o que coloca em evidência um problema gritante: como conciliar cidade saudável e cidade verde? Existem pontos em comum evidentes na pequena escala, por exemplo, a instalação de meios para que os mais desfavorecidos não tenham mais que queimar seus resíduos e cessem assim de contribuir com a poluição. Porém, considerar a adequação da cidade saudável/cidade verde nos obriga a repensar radicalmente a densidade.

Além disso, a pandemia revela a extensão das desigualdades sociais. O trabalho que as pessoas podem fazer desde suas casas em grande parte é um trabalho de classe média: a coleta de lixo, a canalização ou outros empregos terciários não menos manuais não podem ser feitos online. Se a pandemia atual deixa algum traço durável no mundo do trabalho, receio que este seja o aprofundamento da distância entre o trabalho manual e o trabalho intelectual e o de uma classe operária ainda mais exposta a condições de trabalho potencialmente  insalubres.

A pandemia pode finalmente, humanizar a utilização da alta tecnologia nas cidades. Até agora, os modelos de “cidade inteligente”, implementados há uma geração, foram orientados sobre a regulamentação e o controle – o Estado online. O que está surgindo nesta pandemia são excelentes programas e protocolos capazes de criar a comunidade. Eu estou particularmente impressionado com Londres, pelo número de redes de cuidados mútuos que estão se desenvolvendo nas comunidades como a minha, que se parece com o West Harlem em Nova York, cheia de diversidade, mas não dotada de verdadeira comunidade.  A comunicação online mudou na última semana tudo isso.

Em suma, é hora de temer a oportunidade que a pandemia oferece aos poderes dirigentes, de recusar o espetáculo do pânico produzido pela mídia, de encontrar os meios para lutar contra o fosso que se agrava entre a classe média protegida e a classe trabalhadora exposta, explorar as diferentes formas de diversidade capazes de conciliar a cidade verde e a cidade saudável, e utilizar as novas tecnologias para afirmar o poder da sociedade civil na cidade.

[Entrevista] Edgar Morin: “Sentir mais do que nunca a comunidade de destino de toda a humanidade”

Entrevista a Simon Blin publicada no Libération em 29 de março de 2020, traduzida pelos geógrafos Luciano Duarte, Wagner Nabarro e Gustavo Teramatsu


Quase centenário, o sociólogo, eterno otimista, considera o confinamento como uma ocasião inesperada para regenerar a própria noção de humanismo, mas também para cada um escolher entre o importante e o frívolo.

Confinado, ele diz se sentir “protegido fisicamente em uma comunicação e uma comunhão permanentes” com o mundo que permanece virtualmente conectado. Ele, que sempre viveu plenamente, cujo século de existência é composto de mudanças perpétuas e de engajamentos políticos e intelectuais. Nascido em 1921, Edgar Morin, sociólogo, filósofo, “humanólogo”, como diz ele, escritor mundialmente conhecido, pensador da “complexidade” da obra abundante e englobante (O Método é sua obra principal), viveu a Resistência¹, atravessou o século XX entre admiração e revolta. Ele aborda essas duas loucas semanas em que vimos o mundo inteiro atingido pela propagação do coronavírus. O diretor emérito de pesquisa do CNRS², nonagenário quase centenário de um otimismo inabalável e de um olhar luminoso, vê nesse momento de parada planetária a oportunidade de uma “crise existencial salutar”.

¹ Resistência francesa contra a invasão da Alemanha Nazista.

² Centre national de la recherche scientifique (Centro Nacional de Pesquisa Científica) o correlato francês do CNPq brasileiro.

Como você vive esse grave e inédito momento?

Nós sofremos um confinamento físico mas dispomos de meios para se comunicar por palavras que nos colocam em comunicação com o outro e com o mundo. No estágio atual, em relação ao encarceramento, nós estamos abertos, mais atentos e solidários uns com os outros. São os solitários sem telefone nem televisão, e sobretudo os não confinados, ou seja, os sem abrigo, os muito frequentemente esquecidos pelo poder e pela mídia, que são as vítimas absolutas do confinamento. No que me diz respeito, eu me sinto participando intensamente, mesmo que apenas do confinamento em si, do destino da nação e do cataclismo planetário. Eu me sinto mais protegido do que nunca, dentro da incerta e desconhecida aventura de nossa espécie. Eu sinto mais forte do que nunca a comunidade de destino de toda a humanidade.

Como você qualifica essa crise que nós atravessamos na história?

Atualmente nós estamos sujeitos a uma tripla crise. A crise biológica de uma epidemia que ameaça indiscriminadamente nossas vidas e ultrapassa as capacidades hospitalares, sobretudo onde as políticas neoliberais não cessam de reduzi-las. A crise econômica nascida das medidas de restrição tomadas contra a pandemia e que, reduzindo ou parando as atividades produtivas, de trabalho, de transporte, certamente se agravará se o confinamento se tornar duradouro. A crise de civilização: nós passamos bruscamente de uma civilização da mobilidade a uma obrigação de imobilidade. Nós vivíamos principalmente fora, no trabalho, no restaurante, no cinema, em reuniões, em festas. Aqui somos forçados a um estilo de vida sedentário e à vida privada. Nós vivemos sob  a influência de consumismo, ou seja, do vício em produtos de qualidade medíocre e em virtudes ilusórias, o incentivo ao aparentemente novo, em busca de mais, e não do melhor. O confinamento poderia ser uma oportunidade de desintoxicação mental e física, que nos permitiria selecionar o importante e rejeito o frívolo, o supérfluo, o ilusório. O importante é evidentemente o amor, a amizade, a solidariedade, a fraternidade, o desabrochar do Eu em um Nós. Nesse sentido, o confinamento poderia suscitar uma crise existencial salutar, em que nós refletiríamos sobre o sentido de nossas vidas.

Diante da pandemia, é o conjunto de nosso sistema que está abalado: sanitário, político, econômico e democrático. Seu trabalho intelectual consiste precisamente em pensar a complexidade e a transdisciplinaridade.

Essas crises são interdependentes e estabelecem relações umas com as outras. Se uma delas se agrava, mais ela agrava as outras. Se uma diminui, ela diminuirá as outras. Igualmente, enquanto a epidemia não regredir, as restrições serão mais e mais sensíveis e o confinamento será vivido cada vez mais como um impedimento (de trabalho, de praticar esportes, de ir a reuniões e a espetáculos, de cuidar de seu ciático ou de seus dentes). Mais profundamente, esta crise é antropológica: ela nos revela a face ínfima e vulnerável da formidável força humana, ela nos revela que a unificação técnico-econômica do globo criou, ao mesmo tempo, uma interdependência generalizada e uma comunidade de destino sem solidariedade.

É como se o mundo não entrasse mais em nossos quadros de análise. As referências intelectuais também são transformadas.

Essa policrise deveria suscitar uma crise do pensamento político e do próprio pensamento de fato. A fagocitação da política pelo econômico, a fagocitação do econômico pela ideologia neoliberal, a fagocitação da inteligência reflexiva por aquela do cálculo, tudo isso impede de conhecer os imperativos complexos que se impõem: combinar mundialização (para tudo que é cooperativo) e desmundialização (para salvar os territórios desertificados, as autonomias alimentares e sanitárias das nações); combinar desenvolvimento (que o lado positivo do individualismo) e envolvimento (que é solidariedade e comunidade); combinar crescimento e decrescimento (determinando o que deve crescer e o que deve decrescer). O crescimento traz em si mesmo a vitalidade econômica, o decrescimento traz em si mesmo a saúde ecológica e a despoluição generalizada. A associação do que parece contraditório é aqui logicamente necessária.

Nossa capacidade de “viver junto” é colocada à prova. Seria a ocasião de refundar um novo humanismo, de restaurar as bases de uma vida comum, mais solidária na escala do planeta?

Nós não precisamos de um novo humanismo, nós precisamos de um humanismo reforçado e regenerado. O humanismo tomou duas faces antagônicas na Europa. A primeira é aquela da quase-divinização do humano, destinado a dominar a natureza. O outro humanismo foi formulado por Montaigne em uma frase: “eu reconheço em todo homem meu compatriota”. É necessário abandonar o primeiro e regenerar o segundo. A definição do humano não pode se limitar à ideia de indivíduo. O humano se define por três termos tão inseparáveis um do outro quanto a trindade: o humano é ao mesmo tempo indivíduo, uma parte, um momento da espécie humana, e uma parte, um momento da sociedade. Ele é simultaneamente individual, biológico, social. A partir desse momento, o humanismo não saberia ignorar nossa ligação umbilical com a vida e nossa ligação umbilical com o universo. Ele não se esqueceria que a natureza está tanto em nós como nós estamos na natureza. A base intelectual do humanismo regenerado é a razão sensível e complexa. Não somente é necessário seguir o axioma “não há razão sem paixão, não há paixão sem razão”, mas nossa razão deve sempre ser sensível a tudo que afeta os humanos.

Isso suporia uma  inversão dos valores do mundo no qual vivemos antes do coronavírus…

O humanismo regenerado conscientemente extrai das fontes da ética, presentes em toda sociedade humana, que são a solidariedade e a responsabilidade. A solidariedade suscita a responsabilidade e a responsabilidade suscita a solidariedade. Essas fontes permanecem presentes, mas em parte secas e drenadas em nossa civilização sob o efeito do individualismo, da dominação do lucro, da burocratização generalizada. O humanismo regenerado é essencialmente um humanismo planetário. O humanismo passado ignoraria a interdependência concreta entre todos os humanos que se tornou comunidade de destino, que criou a mundialização e que ela faz aumentar sem parar. Como a humanidade está ameaçada por riscos mortais (multiplicação das armas nucleares, desencadeamento de fanatismos e multiplicação de guerras civis internacionais, degradação acelerada da biosfera, crises e desregulação de uma economia dominada pela especulação financeira enlouquecida), ao que se acrescenta agora a pandemia viral que reforça esses riscos, a vida da espécie humana e, inseparavelmente, a da biosfera se tornam um valor prioritário.

Essa mudança é fundamental?

Para que a humanidade possa sobreviver, ela deve se metamorfosear. Jaspers disse logo após a Segunda Guerra Mundial: “se a humanidade quer continuar a viver, ela deve mudar”. O humanismo, ao meu ver, não é somente a consciência de solidariedade humana, é também o sentimento de estar no interior de uma desconhecida e incrível aventura. No seio dessa aventura desconhecida cada um faz parte de um grande ser constituído de sete bilhões de humanos, como uma célula faz parte de um corpo entre centenas de bilhões de células. Cada um participa desse ilimitado, desse inacabado, dessa realidade fortemente tecida de sonho, desse ser de dor, de alegria e de incerteza que está em nós assim como nós nele. Cada um dentre nós faz parte dessa inaudita aventura, no seio da própria espantosa aventura do universo. Ela traz consigo sua ignorância, seu desconhecimento, seu mistério, sua loucura na sua razão, sua inconsciência de sua consciência, e cada um traz em si a ignorância, o desconhecido, o mistério, a loucura, a razão da aventura mais do que nunca incerta, mais do que nunca assustadora, mais do que nunca emocionante.

Vladimir Satafle: Bem-vindo ao Estado suicidário

Publicado pela n-1 edições. Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, professor convidado das universidades de Paris VII, Paris VIII, Toulouse, Louvain e Stellenboch. É um dos coordenadores do Laboratório de Pesquisas em Teoria social, Filosofia e psicanálise (Latesfip/USP)


Você é parte de um experimento. Talvez sem perceber, mas você é parte de um experimento. O destino do seu corpo, sua morte são partes de um experimento de tecnologia social, de nova forma de gestão. Nada do que está acontecendo nesse país que se confunde com nossa história é fruto de improviso ou de voluntarismo dos agentes de comando. Até porque, ninguém nunca entendeu processos históricos procurando esclarecer a intencionalidade dos agentes. Saber o que os agentes acham que estão a fazer é realmente o que menos importa. Como já se disse mais de uma vez, normalmente eles o fazem sem saber.

Esse experimento do qual você faz parte, do qual te colocaram à força tem nome. Trata-se da implementação de um “Estado suicidário” como disse uma vez Paul Virilio. Ou seja, o Brasil mostrou definitivamente como é o palco da tentativa de implementação de um Estado suicidário. Um novo estágio nos modelos de gestão imanentes ao neoliberalismo. Agora, é sua face a mais cruel, sua fase terminal.

Engana-se quem acredita que isto é apenas a já tradicional figura do necroestado nacional. Caminhamos para além da temática necropolítica do Estado como gestor da morte e do desaparecimento. Um Estado como o nosso não é apenas o gestor da morte. Ele é o ator contínuo de sua própria catástrofe, ele é o cultivador de sua própria explosão. Para ser mais preciso, ele é a mistura da administração da morte de setores de sua própria população e do flerte contínuo e arriscado com sua própria destruição. O fim da Nova República terminará em um macabro ritual de emergência de uma nova forma de violência estatal e de rituais periódicos de destruição de corpos.

Um Estado dessa natureza só apareceu uma vez na história recente. Ele se materializou de forma exemplar em um telegrama. Um telegrama que tinha número: Telegrama 71. Foi com ele que, em 1945, Adolf Hitler proclamou o destino de uma guerra então perdida. Ele dizia: “Se a guerra está perdida, que a nação pereça”. Com ele, Hitler exigia que o próprio exército alemão destruísse o que restava de infraestrutura na combalida nação que via a guerra perdida. Como se esse fosse o verdadeiro objetivo final: que a nação perecesse pelas suas próprias mãos, pelas mãos do que ela mesma desencadeou. Esta era a maneira nazista de dar resposta a uma raiva secular contra o próprio Estado e contra tudo o que ele até então havia representado. Celebrando sua destruição e a nossa. Há várias formas de destruir o Estado e uma delas, a forma contrarrevolucionária, é acelerando em direção a sua própria catástrofe, mesmo que ela custe nossas vidas. Hannah Arendt falava do fato espantoso de que aqueles que aderiam ao fascismo não vacilavam mesmo quando eles próprios se tornavam vítimas, mesmo quando o monstro começava a devorar seus próprios filhos.

O espanto, no entanto, não deveria estar lá. Como dizia Freud: “mesmo a auto-destruição da pessoa não pode ser feita sem satisfação libidinal”. Na verdade, esse é o verdadeiro experimento, um experimento de economia libidinal. O Estado suicidário consegue fazer da revolta contra o Estado injusto, contra as autoridades que nos excluíram, o ritual de liquidação de si em nome da crença na vontade soberana e na preservação de uma liderança que deve encenar seu ritual de onipotência mesmo quando já está claro como o sol sua impotência miserável. Se o fascismo sempre foi uma contrarrevolução preventiva, não esqueçamos que sempre soube transformar a festa da revolução em um ritual inexorável de auto-imolação sacrificial. Fazer O desejo de transformação e diferença conjugar a gramática do sacrifício da auto-destruição: essa sempre foi a equação libidinal que funda o Estado suicidário.

O fascismo brasileiro e seu nome próprio, Bolsonaro, encontraram enfim uma catástrofe para chamar de sua. Ela veio sob a forma de urna pandemia que exigiria da vontade soberana e sua paranoia social compulsivamente repetida que ela fosse submetida à ação coletiva e à solidariedade genérica tendo em vista a emergência de um corpo social que não deixasse ninguém na estrada em direção ao Hades. Diante da submissão a uma exigência de autopreservação que retira da paranoia seu teatro, seus inimigos, suas perseguições e seus delírios de grandeza a escolha foi, no entanto, pelo flerte contínuo com a morte generalizada. Se ainda precisássemos de uma prova de que estamos a lidar com uma lógica fascista de governo, esta seria a prova definitiva. Não se trata de um Estado autoritário clássico que usa da violência para destruir inimigos. Trata se de um Estado suicidário de tipo fascista que só encontra sua força quando testa sua vontade diante do fim.

É claro que tal Estado se funda nessa mistura tão nossa de capitalismo e escravidão, de publicidade de coworking, de rosto jovem de desenvolvimento sustentável e indiferença assassina com a morte reduzida a efeito colateral do bom funcionamento necessário da economia. Alguns acham que estão a ouvir empresários, donos de restaurantes e publicitários quando porcos travestidos de arautos da racionalidade econômica vêm falar que pior que o medo da pandemia deve ser o medo do desemprego.

Na verdade, eles estão diante de senhores de escravos que aprenderam a falar business english. A lógica é a mesma, só que agora aplicada à toda a população. O engenho não pode parar. Se para tanto alguns escravos morrerem, bem, ninguém vai realmente criar um drama por causa disso, não é mesmo? E o que afinal significa 5.000, 10.000 mortes se estamos falando em “garantir empregos”, ou seja, em garantir que todos continuarão sendo massacrados e espoliados em ações sem sentido e sem fim enquanto trabalham nas condições as mais miseráveis e precárias possíveis?

A história do Brasil é o uso contínuo desta lógica. A novidade é que agora ela é aplicada a toda a população. Até bem pouco tempo, o país dividia seus sujeitos entre “pessoas” e “coisas”, ou seja, entre aqueles que seriam tratados como pessoas, cuja morte provocaria luto, narrativa, comoção e aqueles que seriam tratados como coisas, cuja morte é apenas um número, uma fatalidade da qual não há razão alguma para chorar. Agora, chegamos à consagração final desta lógica. A população é apenas o suprimento descartável para que o processo de acumulação e concentração não pare sob hipótese alguma.

É claro que séculos de necropolítica deram ao Estado brasileiro certas habilidades. Ele sabe que um dos segredos do jogo é fazer desaparecer os corpos. Você retira números de circulação, questiona dados, joga mortos por corona vírus em outra rubrica, abre covas em lugares invisíveis. Bolsonaro e seus amigos vindos dos porões da ditadura militar sabem como operar com essa lógica. Ou seja, a velha arte de gerir o desaparecimento que o Estado brasileiro sabe fazer tão bem. De toda forma, there is no alternative. Esse era o preço a pagar para que a economia não parasse, para que os empregos fossem garantidos. Alguém tinha que pagar pelo sacrifício. A única coisa engraçada é que sempre são os mesmos quem pagam. A verdadeira questão é outra, a saber: Quem nunca paga pelo sacrifício enquanto prega o evangelho espúrio do açoite?

Pois vejam que coisa interessante. Na República Suicidária Brasileira não há chance alguma de fazer o sistema financeiro verter seus lucros obscenos em um fundo comum para o pagamento de salários da população confinada, nem de enfim implementar o imposto constitucional sobre grandes fortunas para ter a disposição parte do dinheiro que a elite vampirizou do trabalho compulsivo dos mais pobres. Não, essas possibilidades não existem. There is no alternative: será necessário repetir mais uma vez?

Essa violência é a matriz do capitalismo brasileiro. Quem pagou a ditadura para criar aparatos de crimes contra a humanidade na qual se torturava, estuprava, assassinava fazia desaparecer cadáveres? Não estavam lá dinheiro de Itaú, Bradesco, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Fiesp, ou seja, todo o sistema financeiro e empresarial que hoje tem lucros garantidas pelos mesmos que veem nossas mortes como um problema menor?

Na época do fascismo histórico, o Estado suicidário mobilizava-se através de uma guerra que não podia parar. Ou seja, a guerra fascista não era uma guerra de conquista. Ela era um fim em si mesmo. Como se fosse um “movimento perpétuo, sem objeto nem alvo” cujos impasses só levam a uma aceleração cada vez maior. A ideia nazista de dominação não está ligada ao fortalecimento do Estado, mas a um movimento em movimento constante. Hannah Arendt falará da: “essência dos movimentos totalitários que só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia”. Uma guerra ilimitada que significa a mobilização total de todo efetivo social, a militarização absoluta em direção a uma guerra que se torna permanente. Guerra, no entanto, cuja direção não pode ser outra que a destruição pura e simples.

Só que o Estado brasileiro nunca precisou de uma guerra porque ele sempre foi a gestão de uma guerra civil não declarada. Seu exército não serviu a outra coisa que se voltar periodicamente contra sua própria população. Esta é a terra da contrarrevolução preventiva, como dizia Florestan Fernandes. A pátria da guerra civil sem fim, dos genocídios sem nome, dos massacres sem documentos, dos processos de acumulação de capital feitos através de bala e medo contra quem se mover. Tudo isso aplaudido por um terço da população, por seus avós, seus pais, por aqueles cujos circuitos de afetos estão presos nesse desejo inconfesso do sacrifício dos outros e de si há gerações. Pobres dos que ainda acreditam que é possível dialogar com quem estaria nesse momento a aplaudir agentes da SS.

Pois alternativas existem, mas se elas forem implementadas serão outros afetos que circularão, fortalecendo aqueles que recusam tal lógica fascista, permitindo enfim que eles imaginem outro corpo social e político. Tais alternativas passam pela consolidação da solidariedade genérica que nos faz nos sentir em um sistema de mútua dependência e apoio, no qual minha vida depende da vida daqueles que sequer fazem parte do “meu grupo”, que estão no “meu lugar”, que tem as “minhas propriedades”. Esta solidariedade que se constrói nos momentos mais dramáticos lembra aos sujeitos que eles participam de um destino comum e devem se sustentar coletivamente. Algo muito diferente do: “se eu me infectar, é problema meu”. Mentira atroz, pois será, na verdade, problema do sistema coletivo de saúde, que não poderá atender outros porque precisa cuidar da irresponsabilidade de um dos membros da sociedade. Mas se a solidariedade aparece como afeto central, é a farsa neoliberal que cai, esta mesma farsa que deve repetir, como dizia Thatcher: “não há essa coisa de sociedade, há apenas indivíduos e famílias”. Só que o contágio, Margareth, o contágio é o fenômeno mais democrático e igualitário que conhecemos. Ele nos lembra, ao contrário, que não há essa coisa de indivíduo e família, há a sociedade que luta coletivamente contra a morte de todos e sente coletivamente quando um dos seus se julga viver por conta própria.

Como disse anteriormente, alternativas existem. Elas passam por suspender o pagamento da dívida pública, por taxar enfim os ricos e fornecer aos mais pobres a possibilidade de cuidar de si e dos seus, sem se preocupar em voltar vivo de um ambiente de trabalho que será foco de disseminação, que será a roleta russa da morte. Se alguém soubesse realmente fazer conta nas hostes do fascismo, ele lembraria o que acontece com um dos únicos países do mundo que recusa seguir as recomendações de combate à pandemia: ele será objeto de um cordão sanitário global, de um isolamento como foco não controlado de proliferação de uma doença da qual os outros países não querem nunca mais partilhar. Ser objeto de um cordão sanitário global deve ser realmente algo muito bom para a economia nacional.

Enquanto isto nós lutamos com todas as forças para encontrar algo que nos faça acreditar que a situação não é assim tão ruim, que tudo se trata de derrapadas e destemperos de um insano. Não, não há insanos nessa história. Esse governo é a realização necessária de nossa história de sangue, de silêncio, de esquecimento. História de corpos invisíveis e de capital sem limite. Não há insanos. Ao contrário, a lógica é muito clara e implacável. Isso só ocorre porque quando é necessário radicalizar sempre tem alguém nesse país a dizer que essa não é ainda a hora. Diante da implementação de um Estado suicidário só nos restaria uma greve geral por tempo indeterminado, uma recusa absoluta em trabalhar até que esse governo caia. Só nos restaria queimar os estabelecimentos dos “empresários” que cantam a indiferença de nossas mortes. Só nos restaria fazer a economia parar de vez utilizando todas as formas de contra-violência popular. Só nos restaria parar de sorrir, porque agora sorrir é consentir. Mas sequer um reles pedido de impeachment é assumido por quem diz fazer oposição. No que seria difícil não lembrar dessas palavras do evangelho: “Se o sal não salga, de que serve então?”. Deve servir só para nos fazer esquecer do gesto violento de recusa que deveria estar lá quando tentam nos empurrar nossa própria carne servida a frio.

[Entrevista] Achille Mbembe: “Pandemia democratizou poder de matar”

entrevista a Diogo Bercito publicada na Folha

Filósofo camaronês Achille Mbembe estuda como governos decidem quem viverá e quem morrerá

O coronavírus está mudando a maneira como pensamos sobre o corpo humano. Ele virou uma arma, diz o filósofo camaronês Achille Mbembe.

Ao sair de casa, afinal, podemos contrair o vírus ou transmiti-lo a outras pessoas. Já há mais de 775 mil casos confirmados e 37 mil mortes no mundo. “Agora todos temos o poder de matar”, Mbembe afirma. “O isolamento é justamente uma forma de regular esse poder.”

Mbembe, 62, é conhecido por ter cunhado em 2003 o termo “necropolítica”. Ele investiga, em sua obra, a maneira como governos decidem quem viverá e quem morrerá —e de que maneira viverão e morrerão.

Ele leciona na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo. Na sexta-feira (27), a África do Sul registrou as primeiras mortes pelo coronavírus.

A necropolítica aparece, também, no fato de que o vírus não afeta todas as pessoas de uma maneira igual.

Há um debate por priorizar o tratamento de jovens e deixar os mais idosos morrerem. Há ainda aqueles que, como o presidente Jair Bolsonaro, insistem que a economia não pode parar mesmo se parte da população precisar morrer para garantir essa produtividade.

“Alguns vão morrer? Vão morrer. Lamento, essa é a vida”, disse o brasileiro recentemente.

“O sistema capitalista é baseado na distribuição desigual da oportunidade de viver e de morrer”, diz Mbembe. “Essa lógica do sacrifício sempre esteve no coração do neoliberalismo, que deveríamos chamar de necroliberalismo. Esse sistema sempre operou com a ideia de que alguém vale mais do que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado.”

Quais são as suas primeiras impressões desta pandemia? Por enquanto, estou soterrado pela magnitude desta calamidade. O coronavírus é realmente uma calamidade e nos traz uma série de questões incômodas. Esse é um vírus que afeta nossa capacidade de respirar…

E obriga governos e hospitais a decidir quem continuará respirando. Sim. A questão é encontrar uma maneira de garantir que todo indivíduo tenha como respirar. Essa deveria ser a nossa prioridade política. Parece-me, também, que o nosso medo do isolamento, da quarentena, está relacionado ao nosso temor de confrontar o nosso próprio fim. Esse medo tem a ver com não sermos mais capazes de delegar a nossa própria morte a outras pessoas.

O isolamento social nos dá, de alguma maneira, um poder sobre a morte? Sim, um poder relativo. Podemos escapar da morte ou adiá-la. A contenção da morte é o cerne dessas políticas de confinamento. Isso é um poder. Mas não é um poder absoluto porque depende das outras pessoas.

Depende de outras pessoas também se isolarem? Sim. Outra coisa é que muitas pessoas que morreram até agora não tiveram tempo de se despedir. Diversas delas foram incineradas ou enterradas imediatamente, sem demora.

Como se fossem um lixo de que precisamos nos livrar o mais rapidamente possível. Essa lógica de descarte ocorre justamente em um momento em que precisamos, ao menos em tese, da nossa comunidade. E não existe comunidade sem podermos dizer adeus àqueles que partiram, organizar funerais. A questão é: como criar comunidades em um momento de calamidade?

Que sequelas a pandemia deixará na sociedade? A pandemia vai mudar a maneira como lidamos com o nosso corpo. Nosso corpo se tornou uma ameaça para nós próprios. A segunda consequência é a transformação da maneira como pensamos no futuro, nossa consciência do tempo. De repente, não sabemos como será o amanhã.

Nosso corpo também é uma ameaça a outros, se não ficarmos em casa. Sim. Agora todos temos o poder de matar. O poder de matar foi totalmente democratizado. O isolamento é precisamente uma forma de regular esse poder.

Outro debate que evoca a necropolítica é a questão sobre qual deveria ser a prioridade política neste momento, salvar a economia ou salvar a população. O governo brasileiro tem acenado pela priorização do resgate da economia. Essa é a lógica do sacrifício que sempre esteve no coração do neoliberalismo, que deveríamos chamar de necroliberalismo. Esse sistema sempre operou com um aparato de cálculo. A ideia de que alguém vale mais do que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado. A questão é o que fazer com aqueles que decidimos não ter valor. Essa pergunta, é claro, sempre afeta as mesmas raças, as mesmas classes sociais e os mesmos gêneros.

Como na epidemia de HIV, em que governos demoraram a agir porque as vítimas estavam nas margens: negros, homossexuais, usuários de droga? Na teoria, o coronavírus pode matar todo o mundo. Todos estão ameaçados. Mas uma coisa é estar confinado num subúrbio, numa segunda residência em uma área rural. Outra coisa é estar na linha de frente. Trabalhar num centro de saúde sem máscara. Há uma escala em como os riscos são distribuídos hoje.

Diversos presidentes têm se referido ao combate ao coronavírus como uma guerra. A escolha de palavra importa, neste momento? O senhor escreveu em sua obra que a guerra é um claro exercício de necropolítica. Existe dificuldade em dar um nome ao que está acontecendo no mundo. Não é apenas um vírus. Não saber o que está por vir é o que faz Estados em todo o mundo retomar as antigas terminologias utilizadas nas guerras. Além disso, as pessoas estão recuando para dentro das fronteiras de seus Estados-nação.

Há um maior nacionalismo durante esta pandemia? Sim. As pessoas estão retornando para o “chez-soi”, como dizem em francês. Para o seu lar. Como se morrer longe de casa fosse a pior coisa que poderia acontecer na vida de uma pessoa. Fronteiras estão sendo fechadas. Não estou dizendo que elas deveriam ficar abertas. Mas governos respondem a esta pandemia com gestos nacionalistas, com esse imaginário da fronteira, do muro.

Depois desta crise, vamos voltar a como éramos antes? Da próxima vez, vamos ser golpeados de uma maneira ainda mais forte do que fomos nesta pandemia. A humanidade está em jogo. O que esta pandemia revela, se a levarmos a sério, é que a nossa história aqui na terra não está garantida.

Não há garantia de que vamos estar aqui para sempre. O fato de que é plausível que a vida continue sem a gente é a questão-chave deste século.


ACHILLE MBEMBE, 62
Filósofo e cientista político camaronense, é formado em história na Sorbonne e em ciência política no Instituto de Estudos Políticos. Lecionou nas universidades Columbia, Yale e Duke; é atualmente professor na Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo. É conhecido pelo ensaio “Necropolítica”, publicado em 2003, em que discute como governos escolhem quem vive e quem morre; escreveu também sobre o pós-colonialismo no continente africano.

[Entrevista] Alain Touraine: “Choque econômico do coronavírus pode produzir reações fascistas”

entrevista por telefone a Marc Bassets publicada em El País


O sociólogo francês é um dos últimos sobreviventes de uma geração que marcou o pensamento ocidental. Ele diz que agora sente um grande vazio

Alain Touraine (Hermanville-sur-Mer, 1925) é um dos últimos sobreviventes de uma geração brilhante que marcou as ciências sociais e o pensamento ocidental desde meados do século XX até o início do XXI. Como sociólogo, seu campo de estudos abrangeu desde as fábricas que no pós-guerra elevaram o país à sociedade pós-industrial até os movimentos sociais e a crise da modernidade. Com suas intervenções no debate público —na França, mas também em outros países europeus, como a Espanha, e na América Latina—, Touraine se tornou uma referência do que em seu país chamam de segunda esquerda —de caráter social-democrata e claramente antitotalitária. O sociólogo conversou com o Ideias por telefone de sua quarentena em Paris.

PERGUNTA. Estamos em guerra, dizem Donald Trump, Emmanuel Macron e Pedro Sánchez. É correto?

RESPOSTA. Tecnicamente, quem enfrenta a guerra é um exército. Que invade o território do país B. São necessários pelo menos dois agentes e ocorre entre humanos. Aqui, em vez disso, o que vemos é o humano contra o não humano. Não critico o uso da palavra guerra, mas seria uma guerra sem combatentes. Não há estrategista: o vírus não é um chefe de Governo. E, do lado humano, acho que vivemos em um mundo sem atores.

P. Sem atores?

R. Nunca tinha visto um presidente dos Estados Unidos tão estranho como Donald Trump, tão pouco presidencial, um personagem tão fora das normas e fora de seu papel. E não é por acaso: os Estados Unidos abandonaram o papel de líder mundial. Hoje não já há nada. E na Europa, se você olhar para os países mais poderosos, ninguém responde. Não há ninguém no topo.

P. E abaixo?

R. Não existe um movimento populista, o que há é um colapso do que, na sociedade industrial, criava um sentido: o movimento operário. Em outras palavras, hoje não há atores sociais nem políticos, nem mundiais nem nacionais nem de classe. Então o que acontece é o oposto de uma guerra, com uma máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e grupos sem ideias, sem direção, sem programa, sem estratégia, sem linguagem. É o silêncio.

P. Recorda-se de algum momento semelhante em sua vida?

R. Talvez o mesmo sentimento existisse durante a crise de 1929, eu nasci um pouco antes: tudo desaparecia e não havia ninguém, nem à esquerda nem nos Governos. Mas é verdade que o vazio foi rapidamente preenchido pelo senhor Hitler. O que mais me impressiona agora, como sociólogo e historiador do presente, é que fazia muito tempo que eu não sentia esse vazio. Há uma ausência de atores, de sentido, de ideias, até mesmo de interesse: a única preferência do vírus é pelos velhos. Também não há remédio nem vacina. Não temos armas, estamos com as mãos nuas, estamos encerrados sozinhos e isolados, abandonados. Não se deve estar em contato e é preciso ficar trancado em casa. Isto não é a guerra!

P. O senhor tinha 14 anos em 1940, no início da verdadeira guerra, a Segunda Guerra Mundial. Isto o faz recordar daquele momento?

R. Não. Naquela época, para um garoto francês da minha idade, não havia nada mais banal do que uma guerra franco-alemã. Aquilo já fora jogado várias vezes. Mas, depois, a ocupação, sim, marcou toda a minha juventude. Agora é outra coisa: estamos no vazio, reduzidos ao nada. Não falamos, não devemos nos movimentar nem compreender.

P. Como chegamos aqui?

R. Vivemos dois bons séculos na sociedade industrial, em um mundo dominado pelo Ocidente por cerca de 500 anos. Hoje acreditamos, e foi o caso nos últimos 50 anos, que vivíamos em um mundo americano. Agora talvez viveremos em um mundo chinês, mas também não tenho certeza. Os Estados Unidos estão afundando e a China está em uma situação contraditória, que não pode durar eternamente: quer praticar o totalitarismo maoísta para gerenciar o sistema capitalista mundial. Nós nos encontramos em lugar nenhum, em uma transição brutal que não foi preparada nem planejada.

P. O senhor fala do momento de hoje, em confinamento total, ou do nosso tempo em geral?

R. Ambos. Mas eu gostaria de dar o ponto de vista de alguém trancado. Hoje mesmo não estou em lugar nenhum, pois não tenho o direito de sair à rua.

P. Esta situação o deixa angustiado?

R. Não, porque minha vida consiste em estar em casa trabalhando. Eu me sinto, de alguma forma, protegido nas mesmas condições de todos os dias.

P. Onde está a Europa?

R. O senhor ouviu muitas mensagens europeias nos últimos dias? Eu, não. Sou muito europeísta, provavelmente demais. A saída do Reino Unido não é pouca coisa. A ascensão de iliberais como Matteo Salvini na Itália, também não. Esta epidemia ocorre em um período em que não sabemos nem como nem por quê. É muito cedo para saber o que fazer financeiramente, e politicamente não nos pedem outra coisa a não ser ficar trancados em casa. Estamos no não sentido, e acho que muita gente ficará louca pela ausência de sentido.

P. Haverá um retorno do nacionalismo e do populismo?

R. Mas isso já estava aqui. Existem agora duas decisões fundamentais para a Europa. Primeiro, a libertação por meio das mulheres. Ou seja, a derrubada da razão no centro da personalidade e a recomposição dos afetos em torno da razão e da comunicação, uma sociedade do care [em inglês, cuidados]. E segundo, a recepção dos imigrantes, que considero um problema de peso. Nossos países europeus se definem hoje por sua atitude em relação aos imigrantes.

P. O vírus não muda tudo? As consequências econômicas, novos costumes sociais com mais distância, outras prioridades…

R. Acho que não. Haverá outras catástrofes. Eu ficaria muito surpreso se nos próximos dez anos não houver catástrofes ecológicas importantes, e os últimos dez anos foram perdidos. Atenção, as epidemias não são tudo. E acho que estamos entrando em um novo tipo de sociedade: uma sociedade de serviços, como diziam os economistas, mas de serviços entre humanos. Esta crise vai elevar a categoria dos cuidadores: não podem continuar sendo mal pagos. Ao mesmo tempo, com essas crises há possibilidades de que um choque econômico produza reações que chamo de tipo fascista. Mas não gostaria de falar muito sobre o futuro, prefiro me concentrar no presente.

P. Hoje o vírus nos governa.

R. Não o vírus, e sim nossa impotência para combatê-lo, mas acabará sendo encontrada uma vacina.

FEAC mapeia população mais vulnerável à Covid-19 em Campinas

O diagnóstico territorial divulgado pela Fundação FEAC (Federação das Entidades Assistenciais de Campinas) identificou quinze áreas de atenção em Campinas durante a pandemia da Covid-19, cruzando os dados microterritoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Censo de 2010) relacionados à densidade demográfica, à idade da população –considerando a população idosa do grupo de risco, mais de 60 anos – e à taxa de saneamento básico.

A geógrafa Thainá Oliveira, formada pela PUC-Campinas e integrante da Fundação FEAC, explica que o diagnóstico foi produzido pelo Núcleo de Inteligência que dá suporte a mais de uma centena de programas e projetos da fundação. “Lá centralizamos e analisamos evidências com dados quanti-qualitativos para melhor direcionar nossos investimentos sociais, baseados nos territórios de vulnerabilidade social. Todos esses dados são trabalhados dentro do SIG e análises geográficas”, destaca a pesquisadora. 

São elas:

  1. Conjunto Habitacional Mauro Marcondes e Conjunto Habitacional Vida Nova (Ouro Verde)
  2. Parque Floresta e Jardim Bassoli (Campo Grande)
  3. DICs (Ouro Verde)
  4. Jardim Campo Belo
  5. Jardim São Marcos
  6. CDHU San Martin
  7. Flamboyant
  8. Região Central
  9. Parque Oziel e Jardim Monte Cristo
  10. Vila Castelo Branco
  11. Parque Florence I e II e Jardim Rossin (Campo Grande)
  12. Parte do Jardim São Marcos e Matão e Arredores
  13. Sousas
  14. Região Central
  15. Jardim Londres e Jardim Garcia

Outras publicações da FEAC

MAPA DA VIOLÊNCIA DE CAMPINAS – Diagnóstico Socioterritorial (atualizado em outubro de 2019)

DIAGNÓSTICO SOCIOTERRITORIAL (Edição 2017)


Mobiliza Campinas

O #MobilizaCampinas, lançado pela FEAC com aporte inicial de R$ 5 milhões da própria fundação, pretende duplicar a meta e arrecadar até R$ 10 milhões para auxiliar até dez mil famílias de Campinas em situação de vulnerabilidade durante o período de cinco meses, por meio da distribuição de cartões alimentação com duzentos reais por mês.

As doações – de qualquer valor – devem ser feitas pelo site mobilizacampinas.org.br em uma conta da Fundação FEAC (Federação das Entidades Assistenciais de Campinas, CNPJ 46.002.176/0001-83, Banco Itaú (341), Agência 8484, Conta Corrente 01637-6) ou por meio do pagseguro que está no site.


A Campinas “que não se isolou”

Reportagem de capa do Correio Popular publicada hoje (1º de abril) dá conta de “uma Campinas que não se isolou”. E reproduz o depoimento do comandante da Guarda Municipal, Márcio Frizarin: “Podemos observar que, hoje, nós temos duas Campinas: a do lado de lá da [Rodovia] Anhanguera (região central e bairros do entorno) que está cumprindo o isolamento, e a do lado de cá, que não entendeu que a prioridade, agora, é manter as pessoas em casa e os comércios fechados” — região populosa que coincide com diversas áreas mapeadas pela FEAC como de risco.

Raúl Zibechi: O mundo pós-pandemia

Publicado em La Jornada, com tradução publicada na Revista IHU On-line


“O período compreendido entre 1990 a 2025/2050 provavelmente será um período de pouca paz, pouca estabilidade e pouca legitimação”, escrevia Immanuel Wallerstein em 1994 [1]. Em períodos de turbulência e confusão, convém consultar bússolas. Ele era uma das mais notáveis e, além disso, era um de nós.

A rigor, grandes eventos globais, como guerras e pandemias, não criam novas tendências, mas aprofundam e aceleram as existentes.

Três tendências fundamentais, que nasceram provavelmente como resultado da revolução de 1968, estão se desenrolando de maneira formidável no momento: a crise do sistema-mundo, com a consequente transição hegemônica do Ocidente-Oriente, a militarização das sociedades, diante da incapacidade dos Estados-nação de integrar e conter as classes perigosas, e as múltiplas insurgências dos de baixo, que são o aspecto central deste período.

Quem pensa na centralidade do conflito entre Estados, na hegemonia e na geopolítica, pode confiar que a tendência à ascensão da Ásia-Pacífico, em particular da China, e o declínio dos Estados Unidos está se acelerando durante a pandemia.

O Pentágono e outras agências farão tudo o que for possível para desacelerar esse processo, uma vez que não podem revertê-lo, com as mais diversas medidas, incluindo um não descartável confronto nuclear, que acreditam que podem vencer. Nem mesmo algo tão sinistro pode modificar as tendências de fundo.

Aqueles de nós envolvidos na luta contra o patriarcado, o colonialismo e o capitalismo não podemos confiar nos Estados que estão militarizando rapidamente nossas sociedades. Quero me concentrar em como a situação atual afeta os povos/sociedades em movimento na situação atual.

Primeiro, acelera-se a crise civilizatória, que se sobrepõe à crise do sistema-mundo. Não estamos enfrentando mais uma crise, mas o início de um longo processo (Wallerstein) de caos sistêmico, atravessado por guerras e pandemias, que durará várias décadas até que se estabilize uma nova ordem.

Este período que, insisto, não é uma conjuntura ou uma crise tradicional, mas algo completamente diferente, pode ser definido como colapso, desde que não entendamos por isso um evento pontual, mas um período mais ou menos prolongado.

Durante esse colapso ou caos, produz-se uma forte concorrência entre estados e capitais, um poderoso conflito entre classes e povos com esses poderes, em meio a uma crescente crise climática e de saúde.

Por colapso, entendo (seguindo Ramón Fernández e Luis González) [2] a diminuição drástica da complexidade política, econômica e social de uma estrutura social. Sistemas complexos perdem resiliência na medida em que aumentam sua complexidade para responder aos desafios que enfrentam. As sociedades baseadas na dominação tendem a aumentar sua complexidade em resposta aos desafios que vão enfrentando (p. 26, t. I).

Por exemplo: gastam energia, tornam-se mais hierárquicas e rígidas e não podem evoluir. Concretamente, a grande cidade é muito mais vulnerável do que uma comunidade rural. Esta é autossuficiente, usa a energia necessária, não polui, é menos hierárquica e, portanto, é mais eficiente. Aquela não tem saída, exceto o colapso.

Em segundo lugar, durante esse longo processo de colapso, mais parecido com uma pedra rolando por uma ladeira que caindo de um precipício, haverá uma enorme destruição material e, infelizmente, de vidas humanas e não humanas. É a condição para passar do complexo, grande, rápido e centralizado, para o simples, lento, pequeno e descentralizado (p. 337, t. II).

O que nos absorve como povos e classes é um processo de barbárie que implica a canibalização das relações sociais e no que diz respeito à natureza. Sobreviver como povos será tão árduo como foi para os povos originários da invasão colonial espanhola. Um cataclismo que chamaram de “pachakutik”.

A terceira questão é como agir como movimentos antissistêmicos. O básico é entender que vivemos no interior de um campo de concentração, algo evidente nestes dias de confinamento obrigatório. Como se resiste e muda o mundo dentro de um campo?

Organizarmo-nos é a primeira coisa. Fazer isso com discrição, para que os guardas não descubram (da direita e da esquerda), pois é uma condição de sobrevivência.

O que se segue: trabalhar em coletivo (minga/tequio), comunitariamente, para garantir autonomia de alimentos, água, saúde, em uma palavra: reprodução da vida. Decidir em coletivo, em assembleia.

Podemos agir assim. Os povos originários em movimento fazem isso diariamente: zapatistas, mapuche, nasa/misak, entre outros. Assim como os companheiros da Comunidade Acapantizingo de Iztapalapa (Cidade do México), na barriga do monstro.

Podemos construir arcas. Exemplos não nos faltam.

Notas
[1] “Paz, estabilidad y legitimación”, en “Capitalismo histórico y movimientos anti-sistémicos”, Akal, 2004.

[2] “En la espiral de la energia”, Libros en Acción/Baladre, 2014.

Raúl Zibechi: Epidemia de neoliberalismo

Publicado em La Jornada, com tradução publicada na Revista IHU On-line


Séculos atrás, pudemos aprender a importância dos ambientes sociais e naturais onde os vírus se enraízam e se multiplicam, porque vivemos com eles e nem sempre nos ameaçam. A peste negra deveria ter nos ensinado que os vírus pré-existentes se multiplicam e se espalham quando são criadas as condições apropriadas. No nosso caso, essas condições foram criadas pelo neoliberalismo.

Em Plagas y pueblos, William McNeill destaca algumas questões da atualidade, quando analisa a peste negra que varreu a Europa, a partir de 1347. Os cristãos, ao contrário dos pagãos, cuidavam dos doentes, ajudavam-se mutuamente em tempos de pestilência e, desse modo, continham os efeitos da peste (Siglo XXI, p. 122). A saturação de seres humanos, a superpopulação, foi fundamental na disseminação da peste (p. 163).

A pobreza, uma dieta pouco variada e a não observação dos hábitos, costumes locais das cidades, devido à chegada de novos habitantes, transformaram as pestes em desastres (p. 155).

Braudel acrescenta que a peste, ou hidra de mil cabeças, constitui uma constante, uma estrutura da vida dos homens (As estruturas do cotidiano, p. 54). No entanto, como aprendemos pouco.

A peste negra destruiu a sociedade feudal, devido à escassez aguda de mão de obra resultante da morte, em poucos anos, de metade da população europeia e, também, pela perda de credibilidade das instituições. Esse é o medo que agora leva os estados a fechar milhões.

A epidemia de coronavírus em andamento tem algumas peculiaridades. Vou me concentrar no social, porque ignoro questões científicas elementares.

A epidemia atual não teria o impacto que tem, se não fosse por três longas décadas de neoliberalismo, que causou danos ambientais, de saúde e sociais provavelmente irreparáveis.

A Organização das Nações Unidas, através do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), reconhecem que a epidemia é um reflexo da degradação ambiental. O relatório observa que as doenças transmitidas de animais para humanos estão crescendo e piorando na medida em que os habitats selvagens são destruídos pela atividade humana, porque os patógenos se espalham mais rapidamente para rebanhos e seres humanos.

Para prevenir e limitar as zoonoses, é necessário interromper as múltiplas ameaças aos ecossistemas e à vida selvagem, entre elas, a redução e fragmentação de habitats, o comércio ilegal, a contaminação e proliferação de espécies invasoras e, cada vez mais, a mudança climática.

As temperaturas no início de março (inverno) em algumas regiões da Espanha estão até 10 graus acima do normal. Além disso, as evidências científicas relacionam a explosão de doenças virais com o desmatamento”.

A segunda questão que multiplica a epidemia são os cortes acentuados no sistema de saúde. Na Itália, nos últimos 10 anos, 70.000 leitos hospitalares foram fechados, foram fechados 359 departamentos e vários pequenos hospitais foram abandonados. Entre 2009 e 2018, os gastos com saúde cresceram 10%, frente aos 37% da OCDE. Na Itália, existem 3,2 leitos para cada mil habitantes. Na França 6 e na Alemanha 8.

Entre janeiro e fevereiro, o setor de saúde espanhol perdeu 18.320 trabalhadores, em plena expansão do coronavírus. Os sindicatos do setor denunciam abuso na contratação de temporários e precariedade no emprego, enquanto as condições de trabalho são cada vez mais duras. Essa política neoliberal em relação ao sistema de saúde é uma das razões pelas quais a Itália colocou o país inteiro em quarentena e a Espanha pode seguir o mesmo caminho.

A terceira questão é a epidemia de individualismo e de desigualdade, cultivadas pelos grandes meios de comunicação que se dedicam a incutir medo, informando de maneira enviesada. Por mais de um século, sofremos uma poderosa ofensiva do capital e dos estados contra os espaços populares de socialização, enquanto são abençoadas as catedrais do consumo, como os shoppings.

O consumismo despolitiza, desidentifica e implica uma mutação antropológica (como alertou Pasolini). Hoje, há mais pessoas que desejam ter animais de estimação do que filhos. Este é o mundo que criamos e pelo qual somos responsáveis.

As medidas que se tomam, a longo prazo, podem agravar as epidemias. O Estado suspende a sociedade ao isolar e confinar a população em suas casas, proibindo até mesmo o contato físico.

A desigualdade é como a da Idade Média (por volta de 1500), quando os ricos corriam para suas casas de campo, quando se anunciava a peste, enquanto os pobres eram deixados sozinhos, prisioneiros da cidade contaminada, onde o Estado os alimentava, isolava, bloqueava e vigiava (Braudel p. 59).

O modelo do panóptico carcerário digitalizado, que suspende as relações humanas, parece ser o objetivo estratégico do capital para não perder o controle na atual transição sistêmica.

Raúl Zibechi: Coronavírus: a militarização das crises

Publicado em La Jornada, com tradução publicada na Revista IHU On-line


É necessário voltar aos períodos do nazismo e do estalinismo, há quase um século, para encontrar exemplos de controle de população tão extenso e intenso como os que acontecem na China, nesses dias, com a desculpa do coronavírus. Um gigantesco panóptico militar e sanitário, que limita a população a viver trancada e sob permanente vigilância.

As imagens que nos chegam sobre a vida cotidiana em amplas áreas da China, não apenas na cidade de Wuhan e na província de Hubei, onde vivem 60 milhões, dão a impressão de um enorme campo de concentração a céu aberto pela imposição de quarentena a todos os seus habitantes.

Cidades desertas, onde transita apenas gente da segurança e da saúde. Mede-se a temperatura de todas as pessoas na entrada de supermercados, centros comerciais e conjuntos residenciais. Se há membros da família em quarentena, apenas um membro tem o direito de sair, a cada dois dias, para comprar mantimentos.

Em algumas cidades, aqueles que não usam máscaras podem acabar na prisão. Estimula-se o uso de luvas descartáveis e lápis para pressionar os botões do elevador. As cidades da China parecem lugares fantasmas, a ponto de que em Wuhan você quase não encontra pessoas nas ruas.

É necessário insistir em que o medo está circulando em maior velocidade que o coronavírus e que, ao contrário do que se faz crer, o principal assassino na história da humanidade foi e é a desnutrição, como destaca uma imprescindível entrevista no portal Comune-info.

O habitual na história foi colocar em quarentena pessoas infectadas, mas nunca se isolou deste modo a milhões de pessoas saudáveis. O médico e professor do Instituto de Saúde Global, da University College London, Vageesh Jain, questiona: Justifica-se uma resposta tão drástica? O que acontece com os direitos das pessoas saudáveis?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cada infectado com o coronavírus pode contagiar mais dois, ao passo que o sarampo contagia de 12 a 18 pessoas. Por isso, Jain afirma que mais de 99,9% dos habitantes da província de Hubei não estão infectados e que a grande maioria da população presa na região não está mal e é pouco provável que se infecte.

O boletim 142 do Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP) reflete: A China desencadeou um plano de ação de emergência de magnitude sem precedentes, após somente 40 mortes em uma população de 1,2 bilhão de pessoas, sabendo que a gripe mata 3.000 pessoas na França todos os anos. Em 2019, a gripe matou 40.000 pessoas nos Estados Unidos. O sarampo mata 100.000 pessoas todos os anos e o influenza (gripe) meio milhão no mundo.

O LEAP argumenta que estamos enfrentando um novo modelo de gestão de crises, que conta com a aprovação do Ocidente. A Itália seguiu esse caminho ao isolar 10 povoados com 50.000 habitantes, quando havia apenas 16 pessoas com coronavírus.

A China exerce um sofisticado controle da população, desde a videovigilância, com 400 milhões de câmeras nas ruas, até o sistema de pontos de crédito social que regula o comportamento dos cidadãos. Agora, o controle se multiplica, incluindo a vigilância territorial com brigadas de moradores voluntários em cada bairro.

Gostaria de entrar em várias considerações, não do ponto de vista da saúde, mas daquele que deixa o manejo dessa epidemia aos movimentos antissistêmicos.

A primeira é que sendo a China o futuro hegemon global, as práticas do Estado em relação à população revelam o tipo de sociedade que as elites desejam construir e propõem ao mundo. As formas de controle que a China exerce são extremamente úteis às classes dominantes de todo o planeta, para manter os de baixo na linha, em períodos de profundas convulsões econômicas, sociais e políticas, de crise terminal do capitalismo.

A segunda é que as elites estão usando a epidemia como um laboratório de engenharia social, com a finalidade de estreitar o cerco sobre a população com uma dupla malha, em escala macro e micro, combinando um controle minucioso em escala local com outro geral e extenso, como a censura na Internet e a videovigilância.

Considero que estamos diante de um ensaio que será aplicado em situações críticas, como desastres naturais, tsunamis e terremotos, mas, sobretudo, diante das grandes convulsões sociais capazes de provocar devastadoras crises políticas para os de cima. Em suma, eles se preparam para eventuais desafios à sua dominação.

A terceira é que as pessoas ainda não sabem como enfrentaremos esses poderosos mecanismos de controle de grandes populações, que se combinam com a militarização das sociedades, diante de revoltas e levantes, como está acontecendo no Equador.

Manuel Castells: Depois da guerra

Publicado em La Vanguardia em 28/03/2020, com tradução dos geógrafos Gustavo Teramatsu e Wagner Nabarro


Todas as guerras terminam. Mesmo quando estão contra um inimigo invisível que ameaça os seres humanos como espécie. A questão é como, quando, com que sofrimento e quais serão suas consequências.

É difícil pensar no dia seguinte quando estamos mergulhados em angústia, confinados, mascarados, sentindo doenças e morte por toda parte. E, no entanto, sabemos que em algum momento haverá um surto de alegria, de voltar a sentir o prazer do passeio, do jogo, do abraço, da vida nas ruas, nos parques, nas praias, nos bosques e em restaurantes cheios de festa. A vida, agora em suspensão, retornará. Com a adição de uma nova filosofia espontânea do infinito prazer das pequenas coisas. Sentir a beleza da vida sem mais delongas, apreciar o simples fato de ser e de estar, de amar e ser amado, com um novo sentimento de solidariedade, como se estivéssemos sempre aplaudindo às oito horas. A luz retornará. Com seus tons rosados de amanhecer e avermelhados de pôr do sol, com um ar fresco renovado porque paramos de poluir por um tempo.

Nada será como antes. Todos sairemos transformados dessa experiência. Mas teremos aprendido alguma coisa sobre nosso modo de viver, de produzir, de consumir, de administrar? Seremos capazes de interpretar esse aviso brutal para evitar outras pandemias, claramente possíveis devido à nossa interconexão global? E a catástrofe ecológica prevista pelos cientistas e cujos sinais se multiplicam enquanto os congressos se divertem? Podemos corrigir coletiva e institucionalmente a dinâmica de autodestruição em que entramos? Nunca tivemos tanto conhecimento e nunca fomos tão irresponsáveis com o seu uso. Talvez o pós-guerra seja o ponto de virada que estávamos esperando.

Mas o pós-guerra será difícil, todos eles são. Após o momento de euforia para gozar o riso e os jogos de nossos filhos em liberdade, teremos que enfrentar a realidade de uma crise econômico-financeira que pode ser tão grave quanto a de 2008, com um aparato produtivo danificado, um sistema de saúde exaurido, uma cooperação europeia em risco, uma economia global caoticamente desglobalizada, um renascimento do nacionalismo primitivo de fechamentos de fronteiras contra o mal vindo de fora, uma proliferação de notícias falsas prejudiciais, disseminados por poderes de fato ou mentes febris, uma ordem geopolítica interrompida pela superioridade chinesa na resposta à crise, enquanto a política errática de outros países terá mostrado a destruição da ideologia neoliberal na vida das pessoas.

Esse pós-guerra deve ser preparado desde já, porque o modo como administramos a crise, com absoluta prioridade à saúde da população, tornará a reconstrução mais ou menos difícil. Uma economia de guerra terá que ser sucedida por uma economia pós-guerra, na qual os gastos públicos são o motor da recuperação, como tem sido em todos os períodos de pós-guerra. Mas isso só será consolidado se se gera emprego e se as pessoas se sentem seguras e recuperam sua vida cotidiana.

O financiamento dessa política expansionista, além do endividamento obrigatório, exigirá imaginação para criar uma nova arquitetura financeira e capacidade de gestão para operar uma economia diferente, que não caia na armadilha antiga da austeridade dos serviços essenciais. Porque o Estado de bem-estar é a fonte de produtividade que é a fonte de riqueza. Mas também seria hora de experimentar modelos não consumistas que levem à transição ecológica e cultural tão amplamente proclamada, mas ainda timidamente praticada. A economia pode ser reativada reduzindo o consumo supérfluo? Somente se houver uma mudança nos padrões de gastos que facilitam o investimento, mantêm o emprego e aumentam a produtividade.

Os serviços básicos (o que se cortou nas destrutivas políticas de austeridade) deveriam ser não apenas o motor do investimento, mas também da demanda. Não haverá outra forma de financiá-los a longo prazo a não ser mediante um aumento da carga fiscal de grandes bolsões de acumulação de capital que hoje em dia são pouco ou nada tributados. Reinventar a fiscalidade quer dizer superar o enfoque de tributar sobretudo as pessoas ou as empresas para centrar-se em uma regulação impositiva do mercado global de capitais que hoje em dia perdeu grande parte de sua função produtiva para incrementar seus ganhos mediante a criação de valor virtual e crescentemente instável. Uma fiscalidade inteligente adaptada a nosso tempo poderia, por sua vez, gerar recursos para gastos públicos de maneira não inflacionista e regular os fluxos globais de capital. Entre a desglobalização aventureira e a globalização descontrolada de capital há margem para iniciativas coordenadas dos Estados que assumam um controle estratégico da economia em um marco pelo menos europeu.

Essa economia deveria, além de ser sustentável, incluir um Estado de bem-estar desburocratizado e preparado para os choques vindouros. Choques que serão tanto menos danosos quanto encontremos um equilíbrio entre produzir, viver e conviver. Conviver entre nós e com esse maravilhoso planeta azul que seguimos maltratando. Depois da guerra podemos desembocar em uma espantosa crise econômico-social ou em uma nova cultura do ser, sem a qual não sobreviveremos muito tempo.

Manuel Castells: Tempo de vírus

Publicado em La Vanguardia e tradução publicada na Revista IHU On-Line


E de repente, tudo mudou. Nossa saúde, nossos hábitos, nossa economia, nossa política, nossa psicologia, nosso horizonte temporal e existencial. Ainda não absorvemos inteiramente o choque brutal que isto representa para nossas vidas, em particular o medo da doença ou a perda de nossos entes queridos.

Não estávamos preparados para uma pandemia destas proporções e com tal velocidade de propagação. Nós a subestimamos quando surgiu, inclusive eu mesmo. Há esperança de que possamos superá-la, ao menos em sua dimensão sanitária, como demonstra o fato de que a China e a Coreia já parecem ter conseguido frear o contágio. Embora a China tenha demorado mais de um mês para levar a sério a epidemia por ignorância burocrática dos avisos que foram dados pelos médicos de Wuhan, com o sacrifício da vida de um deles.

Agora, sabemos que a única coisa que funciona para deter a propagação é o isolamento social. Foi o que China e a Coreia fizeram com métodos diferentes. Além dos testes em todos, frente ao menor sintoma, o que foi essencial na Coreia. Investindo massivamente desde o início em material de saúde. Na Espanha, não pudemos fazer testes em todos simplesmente porque não havia material suficiente. Isso mudou, em parte mediante a doação e compra de material, obtido sobretudo da China, que está mostrando uma solidariedade internacional que contrasta com outros países.

Claro que só estaremos livres desta praga quando tivermos remédios para o abrandamento do contágio e, depois, uma vacina eficaz. Vacina que provavelmente terá que ser aplicada na maioria da população do planeta para poder consolidar as defesas que vão sendo geradas em nosso sistema imune. Embora a capacidade de mutação do vírus ainda seja desconhecida.

Agora, percebemos a importância da ciência e da tecnologia para nos proteger como espécie dos desastres que nós mesmos geramos. Porque a difusão massiva de um vírus originado em um mercado de uma cidade chinesa não pode ser entendida sem a globalização incontrolada na qual se baseia nosso sistema econômico e nossa forma de vida. A globalização, que dinamizou a economia mundial e contribuiu para a melhora das condições de vida de um quarto da população, também criou uma interconexão para qualquer processo, seja o terrorismo, a mudança climática ou epidemias antes locais.

Vivemos em uma rede global de redes globais que estruturam cada âmbito da atividade humana. De modo que tudo o que acontece funciona de acordo com uma lógica de rede, em que cada nó se comunica com múltiplos nós que, por sua vez, ampliam as conexões a outros tantos nós, o que se chama de “small world phenomenon”, onde um só nó pode gerar uma gigantesca estrutura, dependendo de sua velocidade de conexão. Assim funcionam as telecomunicações e assim funcionam os novos vírus que se expandem sem controle até que encontremos o antídoto. O que não previne de futuros vírus que possa haver, em particular por transmissão de outras espécies aos humanos (por isso não deveríamos comer animais).

E como a globalização implica contínuos movimentos de pessoas viajando de um continente a outro, em poucas horas, em um tráfego constante de atividades comerciais, burocráticas e turísticas, a abertura de fronteiras e o relaxamento de controles que a globalização acarreta tornam os sistemas de proteção do passado inoperantes. Daí a tentação de ressuscitar as fronteiras e os controles de todos os tipos, desmentindo a utopia liberal de “cidadãos do mundo”. Talvez a ordem liberal seja a primeira vítima desta pandemia.

Mais profundo ainda é a mudança no pessoal. Vamos percebendo, sem acreditar completamente, como em um pesadelo, a fragilidade de nossas vivências. Rotinas presentes em nosso cotidiano e que agora lamentamos com o desespero de não as ter valorizado em sua simplicidade. A maravilha de viver e de se relacionar livremente que, em momentos como agora, se torna uma ameaça constante, que esvazia de sentido o que fazemos, ainda que consigamos manter nossa sociabilidade pela internet, cuja utilidade agora apreciamos em seu justo valor.

Os problemas que nos pareciam insuportáveis agora cobram sua verdadeira dimensão de futilidades diante da ameaça de perder o trabalho, o ensino, a cultura, respirar em um parque ou pegar ondas. Sob pena de perder a saúde ou ser punidos por incivilidade. Porque só aceitando essas limitações poderemos sair desta crise multidimensional, na qual o vírus corrói nossos corpos, nossa economia, nossas paixões e nossas fantasias.

Sairemos, sim, mas não sairemos da mesma forma como entramos neste tempo de vírus. Pode ser que tenhamos que atravessar um longo período de mudança de modelo de consumo. Mas também pode ser que saiamos regenerados, recuperando o simples prazer de viver, ancorados em nossas famílias, nossas amizades e nossos amores. Porque para além da irritação normal de um longo período de clausura, são estes sentimentos e nosso apoio mútuo o que nos sustentará. Talvez reaprendamos o valor da vida e isso nos permita prevenir outras catástrofes que nos aguardam, caso sigamos em nossa corrida destrutiva e pretensiosa para não se sabe onde, nem por qual razão.

Paul B. Preciado: Aprendendo com o vírus

Publicado em El País em 28/03/2020. Tradução inédita dos geógrafos Gustavo Teramatsu e Wagner Nabarro

Paul B. Preciado é filósofo e ativista trans. É autor do Testo Junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica, lançado no Brasil pela n-1 edições.


Sr. García

A gestão política das epidemias põe em cena a utopia de comunidade e as fantasias de imunidade de uma sociedade, externalizando seus sonhos de onipotência de sua soberania política

Se Michel Foucault tivesse sobrevivido ao flagelo da Aids e resistido até a invenção da triterapia teria 93 anos hoje: teria aceitado de bom grado ter se trancado em seu apartamento na Rue de Vaugirard? O primeiro filósofo da história a morrer pelas complicações geradas pelo vírus da imunodeficiência adquirida nos deixou algumas das noções mais eficazes para pensar sobre a gestão política da epidemia que, em meio ao pânico e à desinformação, tornam-se tão úteis como uma boa máscara cognitiva.

O mais importante que aprendemos com Foucault é que o corpo vivo (e, portanto, mortal) é o objeto central de toda política. Il n’y a pas de politique qui ne soit pas une politique des corps (não existe uma política que não seja uma política dos corpos). Mas o corpo não é para Foucault um organismo biológico dado sobre o qual o poder age. A própria tarefa da ação política é fabricar um corpo, colocá-lo em funcionamento, definir seus modos de reprodução, prefigurar as modalidades de discurso por meio das quais esse corpo se torna ficcionalizado até poder dizer “eu”. Todo o trabalho de Foucault poderia ser entendido como uma análise histórica das diferentes técnicas pelas quais o poder gerencia a vida e a morte das populações. Entre 1975 e 1976, os anos em que publicou Vigiar e Punir e o primeiro volume da História da Sexualidade, Foucault usou a noção de “biopolítica” para falar de uma relação que o poder estabeleceu com o corpo social na modernidade. Ele descreveu a transição do que chamou de “sociedade soberana” para uma “sociedade disciplinar” como o passo de uma sociedade que define a soberania em termos de decisão e ritualização da morte para uma sociedade que gerencia e maximiza a vida das populações em termos de interesse nacional. Para Foucault, as técnicas governamentais biopolíticas se estendiam como uma rede de poder que transbordava a esfera legal ou a esfera punitiva, tornando-se uma força “somatopolítica”, uma forma de poder espacializado que se estendia pela totalidade do território até penetrar no corpo individual.

Durante e após a crise da Aids, vários autores expandiram e radicalizaram as hipóteses de Foucault e suas relações com as políticas imunológicas. O filósofo italiano Roberto Espósito analisou as relações entre a noção política de “comunidade” e a noção biomédica e epidemiológica de “imunidade”. Comunidade e imunidade compartilham a mesma raiz, munus. Em latim o munus era o tributo que alguém tinha que pagar para viver ou fazer parte da comunidade. A comunidade é cum (com) munus (dever, lei, obrigação, mas também oferenda): um grupo humano estreitamente unido por uma lei e por uma obrigação comum, mas também por um presente, por uma oferenda. O substantivo immunitas é um vocábulo privativo que deriva da negação do munus. No direito romano, a immunitas era uma dispensa ou um privilégio que exonerava alguém dos deveres societários que são comuns a todos. Aquele que foi exonerado estava imune. Enquanto aquele que estava desmunido era aquele a que se havia retirado todos os privilégios da vida em comunidade.

Roberto Espósito nos ensina que toda biopolítica é imunológica: supõe uma definição de comunidade e o estabelecimento de uma hierarquia entre aqueles corpos que estão isentos de tributos (aqueles que são considerados imunes) e aqueles que a comunidade percebe como potencialmente perigosos (os démunis) e que eles serão excluídos em um ato de proteção imunológica. Esse é o paradoxo da biopolítica: todo ato de proteção implica uma definição de imunidade da comunidade, segundo a qual esta se dará a si mesma a autoridade para sacrificar outras vidas para o benefício de uma ideia de sua própria soberania. O estado de exceção é a normalização desse paradoxo insuportável.

A partir do século XIX, com a descoberta da primeira vacina contra varíola e os experimentos de Pasteur e Koch, a noção de imunidade migrou do âmbito do direito e adquiriu uma significação médica. As democracias liberais e patriarcais-coloniais europeias do século XIX constroem o ideal do indivíduo moderno não apenas como um agente econômico econômico livre (masculino, branco, heterossexual), mas também como um corpo imune, radicalmente separado, que não deve nada à comunidade. Para Espósito, a maneira pela qual a Alemanha nazista caracterizou parte de sua própria população (os judeus, mas também os ciganos, homossexuais, as pessoas com deficiência) como corpos que ameaçavam a soberania da comunidade ariana é um exemplo paradigmático dos perigos da gestão imunológica. Essa compreensão imunológica da sociedade não acabou com o nazismo, mas, pelo contrário, sobreviveu na Europa legitimando as políticas neoliberais de gestão de suas minorias racializadas e das populações migrantes. É esta compreensão imunológica que forjou a comunidade econômica europeia, o mito de Shengen e as técnicas da Frontex [Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas] nos últimos anos.

Em 1994, em Flexible Bodies, a antropóloga Emily Martin, da Universidade de Princeton, analisou a relação entre imunidade e política na cultura americana durante as crises de poliomielite e AIDS. Martin chegou a algumas conclusões pertinentes para analisar a crise atual. A imunidade corporal, argumenta Martin, não é apenas um mero fato biológico independente de variáveis culturais e políticas. Pelo contrário, o que entendemos por imunidade se constrói coletivamente por meio de critérios sociais e políticos que alternadamente produzem soberania ou exclusão, proteção ou estigma, vida ou morte.

Se voltamos a pensar a história de algumas das epidemias globais dos últimos cinco séculos sob o prisma oferecido por Michel Foucault, Roberto Espósito e Emily Martin, é possível elaborar uma hipótese que poderia assumir a forma de uma equação: conte-me como sua comunidade constrói sua soberania política e eu lhe direi quais formas de suas epidemias tomarão e como você as enfrentará.

As diferentes epidemias materializam no âmbito do corpo individual as obsessões que dominam a gestão política da vida e da morte das populações em um determinado período. Para colocar nos termos de Foucault, uma epidemia radicaliza e desloca as técnicas biopolíticas aplicadas no território nacional até o nível da anatomia política, inscrevendo-as no corpo individual. Ao mesmo tempo, uma epidemia possibilita estender a toda a população as medidas políticas de “imunização” que haviam sido aplicadas até agora de maneira violenta contra aqueles que eram considerados “estrangeiros” tanto dentro como nas fronteiras do território nacional.

A gestão política das epidemias põe em cena a utopia da comunidade e as fantasias de imunidade de uma sociedade, exteriorizando seus sonhos de onipotência (e os fracassos retumbantes) de sua soberania política. A hipótese de Michel Foucault, Roberto Espósito e Emily Martin não tem nada a ver com uma teoria da conspiração. Não se trata da ideia ridícula de que o vírus seja uma invenção de laboratório ou um plano maquiavélico para estender ainda mais políticas autoritárias. Pelo contrário, o vírus atua à nossa imagem e semelhança, não faz mais do que replicar, materializar, intensificar e estender a toda a população as formas dominantes da gestão biopolítica e necropolítica que já estavam trabalhando no território nacional e em suas fronteiras. Portanto, cada sociedade pode ser definida pela epidemia que a ameaça e pelo modo de se organizar frente a ela.

Pensemos, por exemplo, na sífilis. A epidemia atingiu a cidade de Nápoles pela primeira vez em 1494. O empreendimento colonial europeu havia acabado de começar. A sífilis era como a arma de partida para a destruição colonial e as políticas raciais que viriam com elas. Os ingleses a chamaram de “a doença francesa”, os franceses diziam que era “o mal napolitano” e os napolitanos, que ela tinha vindo da América: dizia-se ter sido trazida pelos colonizadores que haviam sido infectados pelos indígenas… O vírus, como Derrida nos ensinou, é, por definição, o estrangeiro, o outro, o estrangeiro. Infecção sexualmente transmissível, a sífilis materializou nos corpos dos séculos XVI ao XIX as formas de repressão e exclusão social que dominavam a modernidade patriarcal-colonial: a obsessão pela pureza racial, a proibição dos chamados “casamentos mistos” entre pessoas de diferentes classes e “raças” e as múltiplas restrições que pesavam sobre as relações sexuais e extraconjugais.

A utopia da comunidade e o modelo de imunidade da sífilis é o do corpo branco burguês sexualmente confinado na vida matrimonial como núcleo da reprodução do corpo nacional. Portanto, a prostituta tornou-se o corpo vivo que condensou todos os significantes políticos abjetos durante a epidemia: uma mulher trabalhadora e muitas vezes racializada, um corpo fora das normas domésticas e matrimoniais, que fazia de sua sexualidade seu meio de produção, a trabalhadora foi visibilizada, controlada e estigmatizada como o principal vetor da disseminação do vírus. Mas não foi a repressão da prostituição ou o confinamento de prostitutas em bordéis nacionais (como Restif de la Bretonne imaginou) o que curou a sífilis. Muito pelo contrário. O isolamento das prostitutas apenas as tornou mais vulneráveis ​​à doença. O que curou a sífilis foi a descoberta de antibióticos e especialmente penicilina em 1928, precisamente um momento de profundas transformações da política sexual na Europa com os primeiros movimentos de descolonização, o acesso das mulheres brancas ao voto, as primeiras descriminalizações da homossexualidade e uma relativa liberalização da ética matrimonial heterossexual.

Meio século depois, a AIDS foi para a sociedade neoliberal heteronormativa do século XX o que a sífilis havia sido para a sociedade industrial e colonial. Os primeiros casos surgiram em 1981, precisamente no momento em que a homossexualidade não era mais considerada uma doença psiquiátrica, depois de ter sido objeto de perseguição e discriminação social durante décadas. A primeira fase da epidemia afetou, prioritariamente, o chamado 4 H: homossexuais, hookers — profissionais do sexo —, hemofílicos e heroin users — heroinômanos. A AIDS remasterizou e atualizou a rede de controle sobre o corpo e a sexualidade que a sífilis havia tecido e que a penicilina e a descolonização, os movimentos feministas e gays haviam desarticulado e transformado nas décadas de 1960 e 1970. Como no caso das prostitutas na crise da sífilis, a repressão à homossexualidade apenas causou mais mortes. O que está transformando progressivamente a AIDS em uma doença crônica tem sido a despatologização da homossexualidade, a autonomia farmacológica do Sul, a emancipação sexual das mulheres, o direito de dizer não às práticas sem preservativo e o acesso da população afetada, independentemente de sua classe social ou grau de racialização, a triterapias. O modelo de comunidade / imunidade da AIDS tem a ver com a fantasia da soberania sexual masculina entendida como um direito inegociável de penetração, enquanto qualquer corpo penetrado sexualmente (homossexual, feminino, todas as formas de analidade) é percebido como desprovido de soberania.

Voltemos agora à nossa situação atual. Muito antes do surgimento da Covid-19, já tínhamos iniciado um processo de mudança planetária. Antes do vírus, já estávamos passando por uma transformação social e política tão profunda quanto a que afetou as sociedades que desenvolveram sífilis. No século XV, com a invenção da imprensa e a expansão do capitalismo colonial, passou-se de uma sociedade oral para uma sociedade escrita, de um modo de produção feudal para um modo de produção industrial-escravagista e de uma sociedade teocrática para uma sociedade regida por acordos científicos em que as noções de sexo, raça e sexualidade se tornariam dispositivos de controle necro-biopolítico da população.

Hoje, estamos passando de uma sociedade escrita para uma sociedade ciberoral, de uma sociedade orgânica para uma sociedade digital, de uma economia industrial para uma economia imaterial, de uma forma de controle disciplinar e arquitetônico para formas de controle microprotético e midiático-cibernéticas. Em outros textos, chamei de farmacopornográfica o tipo de gestão e produção do corpo e da subjetividade sexual dentro dessa nova configuração política. O corpo e a subjetividade contemporâneos já não são mais regulados unicamente pela passagem por instituições disciplinares (escola, fábrica, casa, hospital etc.), mas, e acima de tudo, por um conjunto de tecnologias biomoleculares, microprotéticas, digitais e de transmissão e de informação. No campo da sexualidade, a modificação farmacológica da consciência e do comportamento, a mundialização da pílula contraceptiva para todas as “mulheres”, bem como a produção de triterapias, terapias preventivas para a AIDS ou o viagra são alguns dos índices de gestão biotecnológica. A extensão planetária da Internet, a generalização do uso de tecnologias informáticas móveis, o uso de inteligência artificial e algoritmos na análise de big data, o intercâmbio de informação em alta velocidade e o desenvolvimento de dispositivos globais de vigilância informática por meio de satélites são indícios desta nova gestão semiótica-técnica digital. Se eu os chamei de pornográficas, é porque, em primeiro lugar, essas técnicas de biovigilância se introduzem dentro do corpo, atravessam na pele, nos penetram; e segundo, porque os dispositivos de biocontrole já não funcionam mais pela repressão da sexualidade (masturbatória ou não), mas pela incitação ao consumo e à produção constante de um prazer regulado e quantificável. Quanto mais consumimos e mais saudáveis ​​somos, melhor somos controlados.

A mudança que está ocorrendo também pode ser a passagem de um regime patriarcal-colonial e extrativista, de uma sociedade antropocêntrica e de uma política em que uma parte muito pequena da comunidade humana planetária se autoriza a si mesma a levar a cabo práticas de predação universal, a uma sociedade capaz de redistribuir energia e soberania. De uma sociedade de energia fóssil a uma sociedade de energia renovável. Também está em questão a transição de um modelo binário de diferença sexual para um paradigma mais aberto, no qual a morfologia dos órgãos genitais e a capacidade reprodutiva de um corpo não definem sua posição social a partir do momento do nascimento; e de um modelo heteropatriarcal a formas não hierárquicas de reprodução da vida. O que estará no centro do debate durante e após esta crise é quais serão as vidas que estaremos dispostos a salvar e quais serão sacrificadas. É no contexto desta mudança, da transformação das formas de entender a comunidade (uma comunidade que hoje é a totalidade do planeta) e da imunidade onde o vírus opera e se torna uma estratégia política.

Imunidade e política da fronteira

O que caracterizou as políticas governamentais dos últimos 20 anos, desde ao menos a queda das Torres Gêmeas, em face das aparentes ideias de liberdade de circulação que dominavam o neoliberalismo da era Thatcher, foi a redefinição dos estados-nação em termos neocoloniais e identitários e um retorno à ideia de uma fronteira física como condição para o restabelecimento da identidade nacional e da soberania política. Israel, Estados Unidos, Rússia, Turquia e a Comunidade Econômica Europeia lideraram o desenho de novas fronteiras que, pela primeira vez em décadas, não só foram vigiadas e protegidas, mas foram reinscritas por meio da decisão de erguer muros e construir diques, e defendidas com medidas não biopolíticas, mas necropolíticas, com técnicas de morte.

Como sociedade europeia, decidimos nos construir coletivamente como uma comunidade totalmente imune, fechada ao Oriente e ao Sul, enquanto o Oriente e o Sul, do ponto de vista dos recursos energéticos e da produção de bens de consumo, são nosso armazém. Fechamos a fronteira na Grécia, construímos os maiores centros de detenção ao ar livre da história nas ilhas que fazem fronteira com a Turquia e o Mediterrâneo e fantasiamos que assim conseguiríamos uma forma de imunidade. A destruição da Europa começou paradoxalmente com essa construção de uma comunidade européia imune, aberta em seu interior e totalmente fechada para estrangeiros e migrantes.

O que está sendo ensaiado em escala planetária por meio da gestão do vírus é um novo modo de entender a soberania em um contexto em que a identidade sexual e racial (eixos da segmentação política do mundo patriarcal e colonial até agora) está sendo desarticulado. A Covid-19 deslocou as políticas de fronteira que estavam ocorrendo no território nacional ou no super-território europeu para o nível de cada corpo individual. O corpo, seu corpo individual, como espaço vivo e como trama de poder, como centro de produção e consumo de energia, tornou-se o novo território no qual as políticas de fronteira agressivas que projetamos e testamos durante anos são expressas agora sob a forma de uma barreira e guerra contra o vírus. A nova fronteira necropolítica mudou das costas da Grécia até a porta do domicílio privado. Lesbos começa agora na sua porta de sua casa. E a fronteira não para de te cercar, ela empurra até ficar cada vez mais perto do seu corpo. Calais explode agora na sua cara. A nova fronteira é a máscara. O ar que você respira deve ser apenas seu. A nova fronteira é a sua epiderme. O novo Lampedusa é a sua pele.

Reproduzem-se agora sobre os corpos individuais as políticas da fronteira e as rigorosas medidas de confinamento e imobilização que nós, como comunidade, aplicamos nos últimos anos a migrantes e refugiados — até deixá-los fora de toda comunidade. Durante anos, nós os tivemos no limbo dos centros de detenção. Agora somos nós que vivemos no limbo do centro de detenção de nossas próprias casas.

A biopolítica na era ‘farmacopornográfica’

As epidemias, por seu apelo a um estado de exceção e à imposição inflexível de medidas extremas, também são grandes laboratórios de inovação social, ocasião para uma reconfiguração em larga escala das técnicas do corpo e das tecnologias do poder. Foucault analisou a mudança da gestão da lepra para o controle da peste como o processo pelo qual as técnicas disciplinares de espacialização do poder da modernidade foram implantadas. Se a lepra foi confrontada por medidas estritamente necropolíticas que excluíram o leproso, condenando-o, senão à morte, pelo menos à vida fora da comunidade, a reação à epidemia de peste inventou a gestão disciplinar e suas formas de inclusão excludente: segmentação rigorosa da cidade, confinamento de cada corpo em cada casa.

As diferentes estratégias adotadas por diferentes países diante da extensão da Covid-19 mostram dois tipos totalmente diferentes de tecnologias biopolíticas. A primeira, operando principalmente na Itália, Espanha e França, aplica medidas estritamente disciplinares que não são, em muitos aspectos, muito diferentes daquelas usadas contra a peste. Trata-se do confinamento doméstico de toda a população. Vale a pena reler o capítulo sobre a gestão da peste na Europa de Vigiar e Punir para perceber que as políticas de gestão da Covid-19 não mudaram muito desde então. Aqui, a lógica da fronteira arquitetônica funciona e o tratamento de casos de infecção em ambientes hospitalares clássicos. Essa técnica ainda não mostrou evidências de eficácia total.

A segunda estratégia, colocada em marcha pela Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura, Hong Kong, Japão e Israel, supõe a mudança de controle arquitetônico moderno e técnicas disciplinares para técnicas farmacopornográficas de biovigilância: aqui a ênfase está na detecção individual do vírus por meio da multiplicação de testes e vigilância digital constante e rigorosa dos pacientes através de seus dispositivos informáticos móveis. Telefones celulares e cartões de crédito aqui se tornam instrumentos de vigilância que permitem rastrear os movimentos do corpo individual. Não precisamos de pulseiras biométricas: o celular se tornou o melhor bracelete, ninguém está separado dele ou para dormir. Um aplicativo de GPS informa à polícia dos movimentos de qualquer corpo suspeito. A temperatura e o movimento de um corpo individual são monitorados por meio de tecnologias móveis e observados em tempo real pelo olho digital de um Estado ciber-autoritário para o qual a comunidade é uma comunidade de ciberusuários e a soberania é acima de tudo transparência digital e gestão de big data.

Porém, essas políticas de imunização política não são novas e não foram empregadas anteriormente somente para a busca e captura dos assim chamados terroristas: desde o início da década de 2010, por exemplo, Taiwan legalizou o acesso a todos os contatos de aplicativos de encontro sexual dos celulares com o objetivo de “prevenir” a expansão da AIDS e a prostituição na internet. A Covid-19 legitimou e estendeu essas práticas estatais de biovigilância e controle digital normalizando-as e fazendo-as “necessárias” para manter uma certa ideia de imunidade. No entanto, os mesmos Estados que implementam medidas de vigilância digital extrema não planejam proibir o tráfico e o consumo de animais selvagens ou a produção industrial de aves e mamíferos, nem reduzir as emissões de CO2. O que aumentou não é a imunidade do corpo social, mas a tolerância cidadã perante o controle cibernético estatal e corporativo.

A gestão política da Covid-19 como forma de administração da vida e da morte desenha os contornos de uma nova subjetividade. O que se terá inventado depois da crise é uma nova utopia da comunidade imune e uma nova forma de controle do corpo. O sujeito do tecnopatriarcado neoliberal que a Covid-19 fabrica não tem pele, é intocável, não tem mãos. Não troca bens físicos, nem toca moedas, paga com cartão de crédito. Não tem lábios, não tem língua. Não fala diretamente, deixa uma mensagem de voz. Não se reúne nem se coletiviza. É radicalmente indivíduo. Não tem rosto, tem máscara. Seu corpo orgânico se oculta para poder existir por trás de uma série indefinida de mediações semio-técnicas, uma série de próteses cibernéticas que lhe servem de máscara: a máscara do endereço de correio eletrônico, a máscara da conta do Facebook, a máscara do Instagram. Não é um agente físico, mas um consumidor digital, um teleprodutor, é um código, um pixel, uma conta bancária, uma porta com um nome, um domicílio a que Amazon pode enviar seus pedidos.

A prisão branda: bem-vindo à telerrepública da sua casa

Um dos deslocamentos centrais das técnicas biopolíticas farmacopornográficas que caracterizam a crise da Covid-19 é que o domicílio pessoal — e não as instituições tradicionais de confinamento e normalização (hospital, fábrica, prisão, colégio) — aparece agora como o novo centro de produção, consumo e controle biopolítico. Já não se trata só de que a casa seja o lugar de confinamento do corpo, como era o caso da gestão da peste. O domicílio pessoal se converteu agora no centro da economia do teleconsumo e da teleprodução. O espaço doméstico existe agora como um ponto em um espaço cibervigiado, um lugar identificável em um mapa do Google, uma caixa reconhecível por um drone.

Se me interessei em seu momento pela Mansão Playboy é porque ela funcionou em plena guerra fria como um laboratório no qual estavam sendo inventados novos dispositivos de controle farmacopornográfico do corpo e da sexualidade que haveriam de se estender a partir do início do século XXI e que agora se ampliam à totalidade da população mundial com a crise da Covid-19. Quando fiz minha pesquisa sobre a Playboy, me chamou atenção o fato de que Hugh Hefner, um dos homens mais ricos do mundo, passou quase 40 anos sem sair de sua Mansão, vestido unicamente com pijama, roupão e pantufas, bebendo coca-cola e comendo aperitivos e pôde dirigir e produzir a revista mais importante dos Estados Unidos sem sair de sua casa ou mesmo de sua cama. Suplementada com uma câmera de vídeo, uma linha direta de telefone, rádio e música ambiente, a cama de Hefner era uma autêntica plataforma de produção multimídia da vida de seu habitante.

O biógrafo Steven Watts denominou Hefner como um “um recluso voluntário em seu próprio paraíso”. Adepto de dispositivos de arquivo audiovisual de todo tipo, Hefner, muito antes que existisse o celular, o Facebook ou o Whatsapp, enviava mais de vinte fitas de áudio e vídeo com mensagens que iam de entrevistas ao vivo a diretrizes de publicação. Hefner havia instalado na mansão, na qual viviam também uma dúzia de Playmates, um circuito fechado de câmeras e podia, desde sua central de controle, acessar todos os cômodos em tempo real. Coberta de painéis de madeira e espessas cortinas, mas penetrada por milhares de cabos e repleta do que nesse momento se tinha como as mais altas tecnologias de telecomunicações (e que hoje nos pareceriam absolutamente arcaicas), era ao mesmo tempo totalmente opaca e totalmente transparente. Os materiais filmados pelas câmeras de vigilância acabavam também nas páginas da revista.

A revolução biopolítica silenciosa que Playboy liderou supunha, para além da transformação da pornografia heterossexual em cultura de massas, colocar em questão a divisão que a sociedade industrial do século XIX havia fundado: a separação das esferas da produção e da reprodução, a diferença entre a fábrica e a residência e com ela a distinção patriarcal entre masculinidade e feminilidade. Playboy acatou essa diferença propondo a criação de um novo enclave de vida: o apartamento de solteiro totalmente conectado às novas tecnologias da comunicação com as quais o novo produtor semiótico não necessita sair nem para trabalhar, nem para praticar sexo — atividades que, aliás, haviam se tornado indistinguíveis. Sua cama giratória era ao mesmo tempo sua mesa de trabalho, um escritório de direção, um cenário fotográfico e um lugar de compromissos sexuais, além do aparelho de televisão que transmitia o famoso programa Playboy After Dark. Playboy antecipou os discursos contemporâneos sobre o teletrabalho e a produção imaterial que a gestão da crise da Covid-19 transformou em um dever cidadão. Hefner chamou esse novo produtor social de “trabalhador horizontal”. O vetor de inovação social que Playboy colocou em marcha era a erosão (para não dizer a destruição) da distância entre trabalho e ócio, entre produção e sexo. A vida do playboy, constantemente filmada e difundida nos meios de comunicação da revista e da televisão, era totalmente pública, ainda que o playboy não saísse de sua casa ou mesmo de sua cama. Nesse sentido, Playboy colocava também em questão a diferença entre as esferas masculinas e femininas, fazendo com que o novo operário multimídia fosse o que parecia na época um oxímoro, um homem doméstico. O biógrafo de Hefner nos recorda que esse afastamento produtivo precisava de um suporte químico: Hefner era um grande consumidor de Dexedrina, uma anfetamina que eliminava o cansaço e o sono. Desse modo, paradoxalmente, o homem que nunca saía de sua cama, não dormia nunca. A cama como novo centro de operações multimídia era uma cela farmacopornográfica: só poderia funcionar com a pílula anticoncepcional, drogas que mantiveram o nível produtivo em alta e um constante fluxo de códigos semióticos que haviam se convertido no único e verdadeiro alimento que nutria o playboy.

Isso lhes soa familiar agora? Isso tudo parece estranho a suas próprias vidas confinadas? Recordemos agora as consignas do presidente francês Emmanuel Macron: estamos em guerra, não saiam de casa e teletrabalhem. As medidas biopolíticas de gestão do contágio impostas frente ao coronavírus têm feito com que cada um de nós nos transformemos em um trabalhador horizontal mais ou menos playboyesco. O espaço doméstico de qualquer um de nós está hoje dez mil vezes mais tecnificado do que estava a cama giratória de Hefner em 1968. Os dispositivos de teletrabalho e telecontrole estão agora na palma de nossas mãos.

Em Vigiar e Punir, Michel Foucault analisou as celas religiosas de confinamento unipessoal como autênticos vetores que serviram para modelizar a passagem das técnicas soberanas e sangrentas de controle do corpo e da subjetividade anteriores ao século XVIII para as arquiteturas disciplinares e os dispositivos de confinamento como novas técnicas de gestão da totalidade da população. As arquiteturas disciplinares foram versões secularizadas das células monásticas nas que se gesta pela primeira vez o indivíduo moderno como alma encerrada em um corpo, um espírito leitor capaz de ler as consignas do Estado. Quando o escritor Tom Wolfe visitou Hefner, disse que ele vivia em uma prisão tão branda quanto o coração de uma alcachofra. Podemos dizer que a mansão Playboy e a cama giratória de Hefner, convertidos em objeto de consumismo pop, funcionaram durante a guerra fria como espaços de transição nos quais se inventa um novo sujeito protético, ultraconectado e as novas formas de consumo e controle farmacopornográficas e de vigilância que dominam a sociedade contemporânea. Essa mutação se estendeu e amplificou mais durante a gestão da crise da Covid-19: nossas máquinas portáteis de telecomunicação são nossos novos carcereiros e nossos interiores domésticos se converteram na prisão branda e ultraconectada do futuro.

Mudança ou submissão

Porém, tudo isso pode ser uma má notícia ou uma grande oportunidade. É precisamente porque nossos corpos são os novos enclaves do biopoder e nossos apartamentos as novas células de biovigilância que se torna mais urgente do que nunca inventar novas estratégias de emancipação cognitiva e de resistência e colocar em marcha novos processos antagonistas.

Contrariamente ao que se poderia imaginar, nossa saúde não virá da imposição de fronteiras ou da separação, mas de um novo entendimento da comunidade com todos os seres vivos, de um novo equilíbrio com os outros seres vivos do planeta. Precisamos de um parlamento dos corpos planetário, um parlamento não definido em termos de políticas de identidade nem de nacionalidades, um parlamento de corpos vivos (vulneráveis) que vivem no planeta Terra. O evento Covid-19 e suas consequências nos chamam a liberar-nos de uma vez por todas da violência com que definimos nossa imunidade social. A cura e a recuperação não podem ser o simples gesto imunológico negativo da retirada do social, do confinamento  da comunidade. A cura e o cuidado só podem surgir de um processo de transformação política. Sanar-nos a nós mesmos como sociedade significa inventar uma nova comunidade para além das políticas de identidade e da fronteira com as que até agora produzimos a soberania, mas também para além da redução da vida a sua biovigilância cibernética. Seguir com vida, nos manter vivos como planeta perante o vírus, mas também perante o que possa acontecer, significa colocar em marcha formas estruturais de cooperação planetária. Como o vírus muda, se queremos resistir à submissão nós também devemos mudar.

É necessário passar de uma mudança forçada a uma mudança deliberada. Devemos nos reapropriar criticamente das técnicas de biopolítica e de seus dispositivos farmacopornográficos. Em primeiro lugar, é imperativo mudar a relação de nossos corpos com as máquinas de biovigilância e biocontrole: eles não são simples dispositivos de comunicação. Temos que aprender coletivamente a alterá-los. Mas também é preciso nos desalinharmos. Os Governos nos chamam ao confinamento e ao teletrabalho. Utilizemos o tempo e a força do confinamento para estudar as tradições de luta e resistência minoritárias que nos ajudaram a sobreviver até aqui. Desliguemos os celulares, desconectemos a internet. Façamos o grande blecaute perante os satélites que nos vigiam e imaginemos juntos a revolução que vem.

Paul B. Preciado: A conspiração dos perdedores

Publicado em Artforum, traduzido por Sara Wagner York

Paul B. Preciado é filósofo e ativista trans. É autor do Testo Junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica, lançado no Brasil pela n-1 edições.


EU ADOECI EM PARIS na quarta-feira, 11 de março, antes de o governo francês ordenar o confinamento da população, e quando me levantei no dia 19 de março, um pouco mais de uma semana depois, o mundo tinha mudado. Quando fui para a minha cama, o mundo estava próximo, coletivo, viscoso e sujo. Quando saí da cama, tinha-se tornado distante, individual, seco e higiênico. Durante a doença, eu era incapaz de avaliar o que estava acontecendo do ponto de vista político e econômico, porque a febre e o desconforto tomaram conta da minha energia vital. Ninguém pode ser filosófico com uma cabeça explodindo. De vez em quando, eu assistia às notícias, o que só aumentava o meu descontentamento. A realidade era indistinguível de um pesadelo, e a primeira página dos jornais era mais desconcertante do que qualquer pesadelo provocado pelas ilusões febris. Durante dois dias inteiros, como receita anti-ansiedade, decidi não visitar um único site. Atribuo a minha cura a isso e ao óleo essencial de orégano. Não tive dificuldade em respirar, mas era difícil acreditar que eu continuaria a respirar. Eu não tinha medo de morrer. Eu tinha medo de morrer sozinho.

Entre a febre e a ansiedade, pensei comigo que os parâmetros do comportamento social organizado tinham mudado para sempre e não podiam mais ser alterados. Senti isso com tanta convicção que me furou o peito, mesmo quando a minha respiração se tornou mais fácil. Tudo vai reter para sempre a nova forma que as coisas tinham tomado. De agora em diante, teríamos acesso a formas cada vez mais excessivas de consumo digital, mas nossos corpos, nossos organismos físicos, ficariam privados de todo contato e de toda vitalidade. A mutação se manifestaria como uma cristalização da vida orgânica, como uma digitalização do trabalho e do consumo e como uma desmaterialização do desejo.

A primeira coisa que fiz quando saí da cama depois de ter estado doente com o vírus durante uma semana tão vasta e estranha como um novo continente, foi fazer-me esta pergunta: Em que condições e de que forma a vida valeria a pena ser vivida?

Aqueles que eram casados estavam agora condenados a viver vinte e quatro horas por dia com a pessoa com quem se casaram, quer se amassem ou se odiassem, ou ambos ao mesmo tempo, o que, aliás, é o caso mais típico: Os casais são governados por uma lei de física quântica segundo a qual não há oposição entre termos contrários, mas sim uma simultaneidade de factos dialécticos. Nesta nova realidade, aqueles entre nós que haviam perdido o amor ou que não o haviam encontrado no tempo, isto é, antes da grande mutação da COVID-19, estavam condenados a passar o resto de suas vidas totalmente sozinhos. Nós sobreviveríamos, mas sem toque, sem pele. Aqueles que não se atreveram a dizer à pessoa que amavam que não podiam mais ter contato com eles mesmo que pudessem expressar seu amor e agora teriam que viver para sempre com a impossível antecipação de um encontro físico que nunca aconteceria. Aqueles que tinham escolhido viajar ficariam para sempre do outro lado da fronteira, e os ricos que fossem para o mar ou para o campo para passar o período de confinamento em suas agradáveis segundas casas (pobres!) nunca mais poderiam voltar à cidade. As suas casas seriam requisitadas para acomodar os sem-abrigo, que, de facto, ao contrário dos ricos, viviam a tempo inteiro na cidade. Sob a nova e imprevisível forma que as coisas tinham tomado depois do vírus, tudo seria colocado em pedra. O que parecia ser um fechamento temporário continuaria para o resto de nossas vidas. Talvez as coisas mudassem novamente, mas não para aqueles de nós com mais de quarenta anos. Essa era a nova realidade. A vida após a grande mutação. Por isso me perguntei se valia a pena viver uma vida como esta.

A primeira coisa que fiz quando saí da cama depois de ter estado doente com o vírus durante uma semana tão vasta e estranha como um novo continente, foi fazer-me esta pergunta: Sob que condições e de que forma valeria a pena viver a vida? A segunda coisa que fiz, antes de encontrar uma resposta a essa pergunta, foi escrever uma carta de amor. De todas as teorias conspiratórias que tinha lido, a que mais me seduziu foi a que diz que o vírus foi criado num laboratório para que todos os perdedores do mundo pudessem recuperar os seus ex — sem serem realmente obrigados a voltar para junto deles.

Explodindo com o lirismo e a ansiedade acumulados durante uma semana de doença, medo e incerteza, a carta ao meu ex não foi apenas uma declaração poética e desesperada de amor, foi sobretudo um documento vergonhoso para quem a tinha assinado. Mas se as coisas não podiam mais mudar, se aqueles que estavam distantes não podiam mais se tocar, qual era o significado de ser ridículo dessa maneira? Qual era o significado de agora dizer à pessoa que você ama que você a amava, sabendo que ela já o tinha esquecido ou substituído, se você nunca mais poderia vê-la de qualquer forma? O novo estado das coisas, na sua imobilidade escultórica, conferia um novo grau de que porra, mesmo no seu próprio ridículo.

Escrevi à mão aquela carta fina e horrivelmente patética, coloquei-a num envelope branco brilhante e, na minha melhor caligrafia, escrevi o nome e a morada da minha ex. Vesti-me, coloquei uma máscara, calcei as luvas e sapatos que tinha deixado à porta e desci até à entrada do prédio. Lá, de acordo com as regras do confinamento, não fui para a rua, mas em direção à área do lixo. Abri o caixote do lixo amarelo e coloquei lá a carta para a minha ex — o papel era realmente reciclável. Voltei lentamente para o meu apartamento. Deixei os meus sapatos à porta. Entrei, tirei as calças e as coloquei em um saco plástico. Tirei a minha máscara e coloquei-a na varanda para ela sair; tirei as minhas luvas, atirei-as para o lixo e lavei as mãos durante dois minutos intermináveis. Tudo, absolutamente tudo, foi colocado na forma que tinha tomado após a grande mutação. Voltei ao meu computador e abri meu e-mail: e lá estava, uma mensagem dela intitulada: “Penso em você durante a crise do vírus”.

Mike Davis: O coronavírus e a luta de classes: o monstro bate à nossa porta

Publicado originalmente em 12/03/2020 no International Journal of Socialist Renewal; uma versão ampliada foi enviada pelo autor ao Blog da Boitempo, recebendo tradução de Artur Renzo


O coronavírus¹ é o velho filme que temos assistido repetidas vezes desde que o livro Zona Quente, de Richard Prestonnos introduziu em 1995 ao demônio exterminador nascido em uma misteriosa caverna de morcegos na África Central, conhecido como Ebola. Aquela foi apenas a primeira de toda uma sucessão de novas doenças irrompendo no “campo virgem” (esse é o termo adequado) dos sistemas imunes inexperientes da humanidade. Depois do vírus da Ebola, logo se seguiu a influenza aviária, que os humanos pegaram em 1997, e a SARS, que surgiu no final de 2002. Em ambos casos, a doença surgiu primeiro em Guangzhou, o polo manufatureiro mundial.

¹ Tem havido muita confusão a respeito da terminologia científica: o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus denominou o vírus de SARS-CoV-2. COVID-19 refere-se ao surto. (Nota do autor).

Hollywood, é claro, abraçou com tudo esses surtos e produziu uma série de filmes para nos provocar e amedrontar – Contágio (2001), dirigido por Steven Soderbergh, se destaca pela precisão científica e pela espantosa antecipação do caos atual.) Além dos filmes e dos inúmeros romances lúgubres, centenas de livros e milhares de artigos científicos responderam a cada surto, muitos sublinhando o estado deplorável da preparação emergencial global de prevenção, detecção e reação a tais doenças novas.

Caos numérico

Assim, o coronavírus atravessa nossa porta da frente como um monstro já familiar. Sequenciar seu genoma (aliás muito semelhante ao de sua irmã, a amplamente estudada SARS) foi moleza. Ainda nos faltam, no entanto, os pedaços mais vitais de informação. À medida que os pesquisadores trabalham noite e dia para conseguir caracterizar o surto, eles enfrentam três enormes desafios. Em primeiro lugar, a continuada escassez de kits para diagnóstico da infecção viral, especialmente nos Estados Unidos e na África, tem impedido a projeção de estimativas precisas de parâmetros-chave, tais como a taxa de reprodução, o tamanho da população infectada e a quantidade de infecções de caráter benigno. O resultado vem sendo um completo caos numérico.

Alguns países, contudo, dispõem de dados mais confiáveis a respeito do impacto do vírus em certos grupos. E as informações são muito assustadoras. A Itália, por exemplo, registra uma espantosa taxa de mortalidade de 23% entre as pessoas maiores de 65 anos de idade; na Inglaterra, a cifra atualmente se encontra no patamar dos 18% para esse grupo. A “gripe corona” que Trump menospreza representa um perigo sem precedentes para populações geriátricas, com um potencial saldo de mortalidade na casa dos milhões.

Em segundo lugar, assim como as influenzas sazonais, o vírus está sofrendo mutações à medida que atravessa populações dotadas de diferentes composições etárias e condições de saúde. A variedade que os estadunidenses têm mais probabilidade de acabar pegando já é ligeiramente diferente daquela identificada no surto original em Wuhan. As futuras mutações do vírus podem tanto ser benignas quanto alterar a distribuição de virulência, que atualmente cresce vertiginosamente a partir dos cinquenta anos de idade. A “gripe corona” de Trump representa no mínimo um perigo mortífero ao quarto dos estadunidenses que são de idade, possuem sistemas imunes fracos ou problemas respiratórios crônicos.

Em terceiro lugar, mesmo se o vírus permanecer estável e sofrer poucas mutações, é possível que seu impacto sobre coortes etários mais jovens difira radicalmente em países pobres e entre grupos de elevada pobreza. Considere a experiência global da gripe espanhola de 1918-19, que, estima-se, matou cerca de 1-2% da humanidade. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, o vírus original do H1N1 teve maior índice de letalidade em jovens adultos, e a explicação que geralmente se dá para tanto é que seus sistemas imunes relativamente mais fortes acabavam reagindo com demasiada intensidade à infecção, atacando células pulmonares e acarretando uma pneumonia viral e um choque séptico. Mais recentemente, contudo, alguns epidemiologistas levantaram a hipótese de que adultos mais velhos podem ter adquirido “memória imune” por conta de um surto anterior ocorrido na década de 1890 que teria os protegido. De todo modo, é sabido que o vírus original da H1N1 encontrou um nicho privilegiado em acampamentos do exército e em trincheiras de batalha, onde ele ceifou a vida de dezenas de milhares de jovens soldados. Esse tornou-se um fator importantíssimo na batalha entre os impérios. Chegou-se a atribuir o colapso da grande ofensiva alemã na primavera de 1918, e portanto o resultado da guerra, ao fato de que os Aliados, em contraste com seus inimigos, tinham condições de reabastecer seus exércitos doentes com tropas estadunidenses recém-chegadas.

Já a gripe espanhola em países mais pobres teve um perfil diferente. Raramente se leva em conta que 60% da mortalidade global (e isso representa ao menos 20 milhões de mortes) ocorreu no Punjabi, em Bombaim, e em outras partes da Índia Ocidental onde exportações de grão para a Inglaterra e práticas brutais de requisição coincidiram com uma seca generalizada. A escassez de alimentos decorrente disso levou milhões de pobres à beira da fome. Essas populações tornaram-se vítimas de uma sinistra sinergia entre subnutrição, que suprimia sua resposta imune à infecção, e surtos desenfreados de pneumonias virais e bacterianas. Em outro caso semelhante, o Irã sob ocupação inglesa, tendo passado por muitos anos de seca, cólera e escassez alimentar, além de um surto generalizado de malária, precondicionou a morte de, estima-se, um quinto da população.

Essa história – especialmente as consequências desconhecidas das interações com subnutrição e infecções existentes – deveria nos alertar que a Covid-19 pode tomar um caminho diferente e mais letal nas favelas densas e insalubres da África e do Sul Asiático. Com casos agora sendo reportados em Lagos, Kigali, Addis Ababa e Kinshasa, ninguém sabe (e nem saberá por um bom tempo por conta da ausência de testes para diagnóstico) de que forma ele pode entrar em sinergia com as condições locais de saúde e as doenças da região. O perigo desse fenômeno para as populações pobres de todo o mundo vem sendo quase completamente ignorado por jornalistas e governos ocidentais. O único artigo publicado que li nesse sentido argumenta que por conta do fato da população urbana da África ser a mais jovem do mundo, a pandemia deve produzir lá apenas um impacto ameno. À luz da experiência de 1918, essa não passa de uma extrapolação tola. Assim como a suposição de que a pandemia, assim como a gripe sazonal, irá recuar diante de climas mais quentes. (Tom Hanks acabou de pegar o vírus na Austrália, onde ainda é verão.)

Um Katrina médico

É possível que daqui a um ano vejamos com admiração o sucesso da China em conter a pandemia, e que fiquemos horrorizados com o fracasso dos EUA. (Estou aqui fazendo a suposição heróica de que a declaração da China de que a taxa de transmissão está diminuindo rapidamente é mais ou menos precisa.) A incapacidade de nossas instituições de manter fechada a Caixa de Pandora, é claro, não é surpresa para ninguém. Desde o ano 2000 temos repetidamente visto colapsos na linha de frente do atendimento de saúde.

Tanto a temporada de gripe de 2009 quanto a de 2018, por exemplo, sobrecarregaram hospitais em todo o país, expondo a chocante escassez de leitos hospitalares depois de vinte anos de cortes na capacidade de internação movidos pela maximização dos lucros (a versão do setor hospitalar para a gestão de inventário just-in-time). A crise remonta à ofensiva corporativa que levou Reagan ao poder e converteu lideranças do Partido Democrata em seus porta-vozes neoliberais. De acordo com a Associação Hospitalar Estadunidense, o número de leitos hospitalares sofreu um espantoso declínio de 39% entre 1981 e 1999. O objetivo era elevar os lucros através de um aumento no “censo” (calculado a partir do número de leitos ocupados). Mas o objetivo da gerência de uma taxa de ocupação de 90% significava que os hospitais não tinham mais a capacidade de absorver um influxo de pacientes em situações de epidemia e de emergência médica.

Hospitais privados e de caridade fechando as portas e carências de enfermagem, igualmente provocados pela lógica de mercado, devastaram os serviços de saúde em comunidades mais pobres e em áreas rurais, transferindo o fardo para hospitais públicos subfinanciados e instalações médicas do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA. Se as condições do atendimento emergencial em tais instituições já são incapazes de dar conta de infecções sazonais, como esperar que elas deem conta de uma iminente sobrecarga de casos críticos?

No novo século, a medicina emergencial continuou a sofrer reduções no setor privado, por conta do imperativo de se preservar o “valor dos acionistas” e da busca pela maximização de lucros e dividendos de curto prazo, e no setor público, por meio de austeridade fiscal e reduções nos orçamentos estaduais e federias de prevenção e preparação emergencial. O resultado disso é que há apenas 45.000 leitos de UTI disponíveis para lidar com a avalanche projetada de casos graves e críticos de coronavírus. (Em comparação, os sul coreanos dispõem de três vezes mais leitos por milhar do que os estadunidenses.) De acordo com uma investigação feita pela USA Today “apenas oito estados teriam leitos hospitalares suficientes para tratar os 1 milhão de americanos de sessenta ou mais anos de idade que podem adoecer de Covid-19”.

Ao mesmo tempo, os Republicanos vem rechaçando todos os esforços de reconstruir as redes de segurança destruídas pelos cortes orçamentários da recessão de 2008. Os departamentos municipais e estaduais de saúde – a primeira (e vital) linha de defesa – dispõem hoje de equipes 25% menores do que  doze anos atrás, quanto ocorreu a crise financeira. Além disso, ao longo da última década o orçamento dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças caiu 10% em termos reais. Desde a coroação de Trump, as insuficiências fiscais só se exacerbaram. O New York Times recentemente noticiou que “21% dos departamentos municipais de saúde registraram reduções nos seus orçamentos para o ano fiscal referente a 2017.” Trump também fechou o escritório de pandemia da Casa Branca, uma diretoria instituída pelo Obama depois do surto de Ebola em 2014 para garantir uma resposta nacional rápida e bem-coordenada para novas epidemias.

Estamos nas fases iniciais de um Katrina médico. Ao desinvestirmos em prevenção e preparação emergencial médica no exato momento em que todas as avaliações de peritos recomendam uma expansão generalizada dessas capacidades, nos encontramos em uma situação em que nos faltam tanto suprimentos elementares quanto funcionários públicos de saúde e leitos emergenciais. As reservas nacionais e regionais de mantimentos hospitalares vêm sendo armazenadas em condições muito inferiores ao que indicam as orientações epidemiológicas. Por isso, a débacle de kits para testes de diagnóstico coincidiu com uma escassez crítica de equipamentos protetivos básicos para trabalhadores de saúde.

As enfermeiras militantes, nossa reserva nacional de consciência social, estão garantindo que todos nós compreendamos os graves perigos provocados pelo armazenamento inadequado de mantimentos protetivos essenciais tais como máscaras cirúrgicas faciais N95. Elas também nos lembram que os hospitais tornaram-se ambientes ideais para micro-organismos super-resistentes a antibióticos, tais como o C. Difficile, que podem tornar-se seríssimos agentes mortais secundários em alas hospitalares superlotadas. Ainda mais vulneráveis porque invisíveis são as centenas de milhares de trabalhadoras de lares de repouso e as equipes de enfermagem domiciliar, operando em condições de sub-remuneração e sobrecarga de trabalho.

A divisão de classes

O surto expôs instantaneamente a marcada divisão de classes no atendimento de saúde, que a Nossa Revolução colocou na agenda nacional. Em suma: quem dispõe de um bom plano de saúde e também tem condições de trabalhar ou lecionar de casa está confortavelmente isolado, contanto que siga com prudência as diretrizes de segurança. Funcionários públicos e outros grupos de trabalhadores sindicalizados que gozam de uma cobertura decente terão de fazer escolhas difíceis, optando entre renda e proteção. Enquanto isso, milhões de trabalhadores de baixa renda do setor de serviços, trabalhadores agrícolas, desempregados e sem-teto estão sendo atirados aos lobos.

Mesmo se Washington eventualmente der conta de resolver o fiasco dos testes e fornecer um número adequado de kits para diagnóstico, aqueles que não dispõem de plano de saúde ainda terão de pagar médicos ou hospitais para que estes apliquem os testes. As despesas médicas familiares gerais vão disparar, ao mesmo tempo em que milhões de trabalhadores estão perdendo seus empregos e seus planos de saúde fornecidos pelos empregadores. Poderia haver defesa mais forte e mais urgente da proposta de se estender o Medicare para todos?

Mas, como todos sabemos, cobertura universal em qualquer sentido minimamente eficaz requer provisão universal de ausências remuneradas por motivo de saúde. Quarenta e cinco por cento da força de trabalho atualmente tem esse direito negado: essas pessoas são portanto virtualmente compelidas a optarem entre transmitir a infecção ou abrir mão de suas rendas mensais. Da mesma forma, quatorze estados governados pelo Partido Republicano se recusaram a implementar a Affordable Care Act3, que expande o Medicaid aos trabalhadores pobres. É por isso que um em cada quarto texanos, por exemplo, não dispõe de cobertura e só pode contar com a sala emergencial do hospital municipal se precisar se tratar.

³ O “Patient Protection and Affordable Care Act” é a “Lei Federal de Proteção e Cuidado ao Paciente”, apelidada de “Obamacare”, sancionada pelo presidente estadunidense em março de 2010. (N. T.)

As contradições mortais dos planos privados de saúde em uma era de pestes são talvez mais visíveis no setor de enfermagem domiciliar e cuidado assistido, que administra 2,5 milhões de estadunidenses de idade – muitos deles dependentes de Medicare. A situação há muito constitui um escândalo nacional. Trata-se de um setor altamente competitivo, capitalizado em salários baixos, falta de pessoal e cortes ilegais de custos. De acordo com o New York Times, 380.000 pacientes de casas de repouso morrem a cada ano por conta da negligência dessas instalações diante de procedimentos básicos de controle de infecções. Muitas dessas casas de repouso – particularmente em estados do Sul do país – calculam ser mais barato arcar com as multas por violações sanitárias do que contratar funcionários adicionais e treiná-los adequadamente.

Não é de surpreender que o primeiro epicentro de transmissão comunitária foi o Life Care Center, uma casa de repouso em Kirkland, subúrbio de Seattle. Conversei com Jim Straub, um velho amigo que é líder sindical nas casas de repouso da região de Seattle e está atualmente escrevendo um artigo a respeito do tema para o The Nation. Ele caracterizou a instalação como “sendo uma das piores equipadas em de quadro de funcionários em todo o Estado” e descreveu a totalidade do sistema de casas de repouso de Washington como “o mais subfinanciado do país – um oásis absurdo de sofrimento de austeridade em um mar de dinheiro da indústria de tecnologia de ponta.”

Ele assinalou ainda que os oficiais de saúde pública estavam ignorando o fator crucial que explica a rápida taxa de transmissão da doença do Life Care Center para dez outras casas de repouso nas proximidades: “trabalhadores de casas de repouso situadas no mercado imobiliário mais caro dos Estados Unidos via de regra trabalham em mais de um emprego, geralmente atendendo em múltiplas casas de repouso.” Ele diz que as autoridades foram incapazes de descobrir os nomes e as localizações desses segundos empregos e assim perderam todo e qualquer controle sobre a disseminação da Covid-19. E até agora ninguém está propondo compensar a remuneração de trabalhadores expostos para que eles permaneçam em casa.

Agora, como nos alerta o exemplo de Seattle, mais dezenas, talvez centenas, de casas de repouso em todo o país deverão se tornar pontos de foco do coronavírus e seus funcionários, muitos deles recebendo salário mínimo, optarão racionalmente por permanecer em casa a fim de protegerem suas famílias. Numa situação dessas, o sistema poderia entrar em colapso – e ninguém há de esperar que a Guarda Nacional venha cuidar da reposição dos coletores de urina.

Solidariedade internacional

A cada passo de seu avanço mortífero, a pandemia promove a defesa de uma política de cobertura universal e ausência remunerada no trabalho. Enquanto Joe Biden se concentra em arranhar a popularidade de Trump, os progressistas precisam se unir, como propõe Bernie, para vencer a convenção com sua pauta de Medicare para Todos. Juntos, os delegados de Bernie Sanders e Elizabeth Warren têm um papel a desempenhar no Fiserv Forum em Milwaukee em meados de julho2, mas o resto de nós possui uma tarefa igualmente importante nas ruas, começando agora com lutas contra despejos, demissões e empregadores que se recusam a compensar trabalhadores ausentes (Está com medo de contágio? Permaneça a dois metros de distância do próximo manifestante e você ainda garante uma imagem mais poderosa para a TV. Mas precisamos reivindicar as ruas.)

² O autor refere-se aqui à Convenção Nacional Democrata de 2020, que definirá o candidato que o Partido escolherá para enfrentar Donald Trump nas eleições presidenciais deste ano. A disputa, como se sabe, atualmente entre Joe Biden e Bernie Sanders, e o apoio da base da candidata progressista Elizabeth Warren é um fator crucial para a vitória do Sanders. (Nota da tradução.)

Como sabemos, a cobertura universal é apenas um primeiro passo. É desapontador, para dizer o mínimo, que nos debates das primárias do Partido Democrata nem Sanders nem Warren chamaram atenção para como as grandes corporações farmacêuticas [Big Pharma] abriram mão de investir em pesquisa e desenvolvimento de novos antibióticos e antivirais. Das dezoito maiores empresas farmacêuticas, quinze abandonaram totalmente o campo. Medicamentos cardíacos, tranquilizadores viciantes e tratamentos para impotência masculina são alguns dos produtos mais rentáveis do setor, e não a defesa contra infecções hospitalares, doenças emergentes e doenças letais tradicionais dos trópicos, como a malária. A vacina universal para a influenza – isto é, uma vacina voltada para as partes imutáveis das proteínas de superfície do vírus – já é uma possibilidade há décadas, mas não é lucrativa o suficiente para ser considerada prioridade.

À medida que a revolução dos antibióticos retrocede, velhas doenças deverão reaparecer ao lado de novas infecções e os hospitais se converterão em ossuários. Até mesmo alguém como Trump pode esbravejar oportunisticamente contra os custos absurdos dos medicamentos de prescrição. O que precisamos, no entanto, é de uma visão mais audaciosa voltada para quebrar os monopólios farmacêuticos e fornecer ao público uma produção de medicamentos vitais. (As coisas já foram assim um dia: durante a Segunda Guerra Mundial, o exército convocou Jonas Salk e outros pesquisadores para desenvolverem a primeira vacina de gripe.) Como escrevi quinze anos atrás em meu livro O monstro bate à nossa porta: a ameaça global da gripe aviária:

“O acesso a medicamentos vitais, incluindo vacinas, antibióticos e antivirais, deveria ser um direito humano, universalmente disponível a preço zero. Se os mercados não tiverem condições de fornecer incentivos para produzir tais drogas de maneira barata, então os governos e as organizações sem fins lucrativos deveriam assumir a responsabilidade por sua manufatura e distribuição. A sobrevivência dos pobres deve sempre ser prioridade sobre os lucros do grande complexo farmacêutico [Big Pharma].”4

Edição brasileira: O monstro bate à nossa porta: a ameaça global da gripe aviária (São Paulo, Record, 2006). (N. T.)

A atual pandemia expande o argumento: sem uma infraestrutura verdadeiramente internacional de saúde pública, a organização capitalista agora parece se encontrar em situação biologicamente insustentável. Mas tal infraestrutura jamais existirá enquanto movimentos de pessoas não quebrarem o poder das grandes corporações farmacêuticas e de um sistema de atendimento à saúde organizado em função do lucro.

Isso exige um projeto socialista independente para a sobrevivência humana, que vá além de um Segundo New Deal. Desde a época do movimento Occupy, os progressistas vêm colocado a luta contra a desigualdade econômica e de renda na ordem do dia, um grande feito. Mas agora os socialistas precisam dar o próximo passo e, tendo as indústrias farmacêutica e de saúde como alvos imediatos, lutar pela propriedade social e a democratização do poder econômico.

Mas precisamos de uma avaliação honesta das nossas fraquezas políticas e morais. Por mais que tenho visto com entusiasmo a evolução à esquerda de uma nova geração e o retorno da palavra “socialismo” ao discurso político, há um elemento perturbador de solipsismo nacional no movimento progressista que é simétrico ao novo nacionalismo de direita. Tendemos a falar apenas da classe trabalhadora estadunidense e da história radical dos Estados Unidos (talvez nos esquecendo que Eugene V. Debs era um internacionalista até o último fio de cabelo). Às vezes isso passa perto de uma versão de esquerda do bordão “América em Primeiro Lugar”.

Diante dessa pandemia, os socialistas devem aproveitar toda oportunidade para lembrar os outros da urgência da solidariedade internacional. Concretamente, precisamos mobilizar nossos amigos progressistas e seus ídolos políticos a fim de reivindicar um aumento massivo na produção de kits para diagnóstico, equipamentos de segurança e medicamentos vitais para serem distribuídos gratuitamente a países pobres. Cabe a nós garantir que o Medicare para Todos torne-se uma tanto uma política externa quanto uma política doméstica nos EUA.

Judith Butler: O capitalismo tem seus limites

Publicado em Verso, com tradução de Artur Renzo no Blog da Boitempo


O imperativo de isolamento coincide com um novo reconhecimento de nossa interdependência global no novo tempo e espaço da pandemia. Por um lado, somos solicitados a nos recolhermos em unidades familiares, espaços compartilhados de moradia, ou domicílios individuais, privados de contato social e relegados a esferas de relativo isolamento. Por outro lado, estamos diante de um vírus que transpõe tranquilamente as fronteiras, completamente alheio à própria ideia de território nacional.

Quais são as consequências dessa pandemia no que diz respeito à reflexão sobre igualdade, interdependência global e nossas obrigações uns com os outros? O vírus não discrimina. Poderíamos dizer que ele nos trata com igualdade, nos colocando igualmente diante do risco de adoecer, perder alguém próximo e de viver em um mundo marcado por uma ameaça iminente. Por conta da forma pela qual ele se move e ataca, o vírus demonstra que a comunidade humana é igualmente precária. Ao mesmo tempo, contudo, o fracasso por parte de certos Estados ou regiões em se prepararem adequadamente de antemão (os EUA talvez sejam agora o membro mais notório desse clube), o fortalecimento de políticas nacionais e o fechamento de fronteiras (atitude muitas vezes acompanhada de xenofobia panicada), e a chegada de empreendedores ávidos para capitalizar em cima do sofrimento global, tudo isso atesta a velocidade com a qual a desigualdade radical – o que inclui nacionalismo, supremacia branca, violência contra as mulheres e contra as populações queer e trans – e a exploração capitalista encontram formas de reproduzir e fortalecer seus poderes no interior das zonas de pandemia. Isso não deve ser surpresa nenhuma.

A política do atendimento de saúde nos EUA traz isso à tona de maneira particular. Um cenário que já podemos imaginar é a produção e comercialização de uma vacina eficaz contra o COVID-19. Claramente ávido para marcar pontos políticos que poderão garantir sua reeleição, Trump já tentou comprar (com dinheiro) direitos exclusivos para os EUA a uma vacina de uma empresa alemã, a CureVac, financiada pelo governo alemão. O Ministro Alemão de Saúde, que certamente não deve ter ficado nada contente, confirmou à imprensa alemã que a oferta foi de fato feita. Um político alemão, Karl Lauterbach, comentou: “A venda exclusiva aos EUA de uma possível vacina precisa ser evitada a todo custo. Capitalismo tem limites.” Suponho que ele estava questionando o “uso exclusivo” e não ficaria nem um pouco mais satisfeito com a mesma provisão caso ela se aplicasse exclusivamente aos alemães. Assim esperemos, porque podemos imaginar um mundo no qual vidas europeias são valorizadas acima de todas as outras – vemos esse tipo de valoração se desenrolando violentamente nas fronteiras da União Europeia.

Não faz sentido recolocar novamente a questão, o que Trump estava pensando? A questão foi levantada tantas vezes em um estado de completa exasperação que não podemos nem ficar surpresos. Isso não significa que nossa raiva diminui com cada nova instância de auto-engrandecimento antiético ou criminoso. Se ele tivesse êxito no seu esforço de comprar uma potencial vacina e restringir seu uso apenas aos cidadãos estadunidenses, será que ele acredita que esses cidadãos aplaudiriam seus esforços, extasiados com a ideia de estarem livres de uma ameaça mortal quando outros povos não estão? Será que eles realmente adorariam esse grau de desigualdade social radical, de excepcionalíssimo americano, e validariam sua forma “brilhante” (a palavra é dele) de fechar um negócio? Será que ele imagina que boa parte das pessoas pensa que é o mercado que deve decidir como a vacina será desenvolvida e distribuída? Seria sequer concebível no interior do mundo dele insistir em uma preocupação mundial de saúde que deveria transcender a racionalidade de mercado numa hora destas? Ele está certo em supor que nós também vivemos no interior dos parâmetros de um mundo imaginado desses?

Mesmo se tais restrições com base em cidadania nacional não se aplicarem, nós certamente veremos os ricos e os plenamente assegurados correrem para garantir acesso a qualquer vacina dessas quando ela se tornar disponível, mesmo que o modo de distribuição só garanta que apenas alguns terão esse acesso e outros serão abandonados a uma precariedade continuada e intensificada. A desigualdade social e econômica garantirá a discriminação do vírus. O vírus por si só não discrimina, mas nós humanos certamente o fazemos, moldados e movidos como somos pelos poderes casados do nacionalismo, do racismo, da xenofobia e do capitalismo. Parece provável que passaremos a ver no próximo ano um cenário doloroso no qual algumas criaturas humanas afirmam seu direito de viver ao custo de outras, reinscrevendo a distinção espúria entre vidas passíveis e não passíveis de luto, isto é, entre aqueles que devem ser protegidos contra a morte a qualquer custo e aqueles cujas vidas são consideradas não valerem o bastante para serem salvaguardadas contra a doença e a morte.

Tudo isso ocorre sob o pano de fundo da disputa presidencial estadunidense na qual as chances de Bernie Sanders emplacar a nomeação do Partido Democrata parecem agora ser muito remotas, embora não sejam estatisticamente impossíveis. As novas projeções que colocam Joe Biden claramente como o candidato favorito são devastadoras nestes tempos precisamente porque tanto Sanders quanto Elizabeth Warren defendiam a pauta do “Medicare for All”, um programa abrangente de saúde pública que garantiria atendimento básico de saúde para todas as pessoas no país. Tal programa acabaria com as empresas de plano de saúde organizadas em função do mercado que regularmente abandonam os doentes, exigem deles despesas médicas adicionais literalmente impagáveis, e perpetuam uma hierarquia brutal entre os assegurados, os não-assegurados e os inasseguráveis.

A abordagem socialista de Sanders diante da saúde pública pode ser descrita mais apropriadamente como uma perspectiva social democrata, não substancialmente diferente daquela que Elizabeth Warren apresentou nas fases iniciais de sua campanha. No entender dele, a cobertura médica constitui um “direito humano”, e com isso ele quer dizer que todo ser humano tem direito ao tipo de atendimento de saúde que ele precisar. Mas por que não compreendê-la como uma obrigação social, que decorre de viver em sociedade com os outros? Para mobilizar o consenso popular em torno de uma noção dessas, tanto Sanders quanto Warren teriam que convencer o povo americano de que queremos viver em um mundo no qual nenhum de nós recusa atendimento de saúde a nenhum dos outros. Em outras palavras, teríamos que estar de acordo quanto a um mundo social e econômico no qual é radicalmente inaceitável que alguns tenham acesso a uma vacina que pode salvar suas vidas enquanto a outros é negado esse acesso com base no fato de não terem condições de pagar ou de garantir o plano de saúde capaz de bancar isso.

Um dos motivos pelos qual votei em Sanders na primária de Califórnia, junto com a maioria dos Democratas lá registrados é que ele, junto com Warren, abriram uma forma de reimaginar nosso mundo como se ele fosse organizado por um desejo coletivo por igualdade radical, um mundo no qual nós nos unimos a fim de insistir que os materiais exigidos para a vida, incluindo o cuidado médico, seriam igualmente disponíveis independentemente de quem somos ou se dispomos dos meios financeiros pra tanto. Essa política teria estabelecido solidariedade com outros países comprometidos com a saúde pública universal, e teria assim estabelecido uma política transnacional de atendimento médico comprometido com a realização dos ideais da igualdade. As novas pesquisas eleitorais que agora restringem a escolha nacional entre Trump e Biden surgem precisamente no momento em que a pandemia paralisa a vida cotidiana, intensificando a precariedade dos sem-teto, dos não-assegurados e dos pobres. A ideia de que talvez pudéssemos nos tornar um povo que deseja ver um mundo no qual a política de saúde seja igualmente comprometida com todas as vidas, com o desmantelamento do domínio do mercado sobre o atendimento médico, que distingue entre quem é digno e quem pode ser facilmente abandonado à doença e à morte – por um breve momento essa ideia esteva viva. Passamos a entender a nós mesmos de maneira diferente à medida que Sanders e Warren apresentavam essa outra possibilidade. Compreendemos que talvez seria possível começarmos a pensar e atribuir valor para além dos termos que o capitalismo nos apresenta.

Mesmo que Warren não seja mais candidata, e que Sanders dificilmente recuperará seu embalo eleitoral, devemos ainda nos perguntar, especialmente agora, por que nós como um povo ainda nos opomos à ideia de tratar todas as vidas como se elas tivessem o mesmo valor? Por que alguns ainda se entusiasmam com a ideia de que Trump buscaria garantir uma vacina que resguardaria as vidas americanas (como ele as define) antes de todas as demais? A proposta de uma saúde pública e universal revigorou um imaginário socialista nos EUA – um imaginário que agora precisa esperar para poder se realizar como uma política social e como compromisso público neste país. Infelizmente, na era da pandemia, nenhum de nós pode esperar. É preciso agora que se mantenha vivo esse ideal nos movimentos sociais ancorados menos na campanha presidencial do que na luta de longo prazo que temos pela frente. Essas visões corajosas e apaixonadas, ridicularizadas e rejeitadas por “realistas” capitalistas, já tiveram destaque suficiente na mídia, já mobilizaram atenção o bastante, para deixar cada vez mais pessoas – algumas pela primeira vez – desejando um mundo transformado.

Com sorte, conseguiremos manter vivo esse desejo.

Noam Chomsky: Não podemos deixar a COVID-19 nos levar ao autoritarismo

Publicado em Truth Out, com tradução de César Locatelli na Carta Maior


Enquanto a pandemia da Covid-19 revira a ordem política e econômica global, dois futuros muito diferentes parecem possíveis. Em um extremo do espectro, as sociedades que enfrentam o tributo imposto pelo vírus podem entrar em colapso no autoritarismo. Mas no outro extremo do espectro, temos a possibilidade de aprender as lições com esse desastre – outra colossal falha de mercado aprimorada por um ataque neoliberal e agora pela bola de demolição de Trump.

A crise atual oferece um argumento poderoso em favor da assistência universal à saúde e da reavaliação dos problemas mais profundos de nossas sociedades. O resultado que prevalecerá depende da força da opinião pública despertada, conforme descrito nos exemplos a seguir, que são adaptados, para este artigo para a Truthout, do meu livro Internationalism or Extinction [Internacionalismo ou extinção].

Se me permitem, gostaria de começar com uma breve reminiscência de um período que é estranhamente semelhante a hoje em muitos aspectos desagradáveis. Estou pensando em 80 anos atrás. Por acaso, foi o momento do primeiro artigo que me lembro de ter escrito sobre questões políticas. Fácil de datar: foi logo após a queda de Barcelona, em fevereiro de 1939.

O artigo era sobre o que parecia ser a disseminação inexorável do fascismo pelo mundo. Em 1938, a Áustria havia sido anexada pela Alemanha nazista. Alguns meses depois, a Tchecoslováquia foi traída, colocada nas mãos dos nazistas na Conferência de Munique.

Na Espanha, uma cidade após a outra estava caindo nas forças de Franco. Em fevereiro de 1939, Barcelona caiu. Esse foi o fim da República Espanhola. A notável revolução popular, revolução anarquista, de 1936, 1937, 1938, já havia sido esmagada pela força. Parecia que o fascismo se espalharia sem ter fim.

Não é exatamente o que está acontecendo hoje, mas, se pudermos emprestar a famosa frase de Mark Twain, “A história não se repete, mas às vezes rima” – muitas semelhanças para se ignorar. Quando Barcelona caiu, houve uma enorme inundação de refugiados da Espanha.

A maioria foi para o México, cerca de 40.000. Alguns foram para a cidade de Nova York, estabeleceram escritórios anarquistas na Union Square, sebos na 4th Avenue. Foi aí que recebi minha educação política inicial, perambulando por essa área. Isso foi há 80 anos. Agora é hoje.

Não sabíamos na época, mas o governo dos EUA também estava começando a pensar que na virtual impossibilidade de conter a disseminação do fascismo. Eles não o viam com o mesmo alarme que eu quando tinha 10 anos de idade. Agora sabemos que a atitude do Departamento de Estado era bastante dúbia em relação ao significado do movimento nazista.

Na verdade, havia um cônsul em Berlim, o cônsul dos EUA em Berlim, que estava enviando comentários bastante inconsistentes sobre os nazistas, sugerindo que talvez eles não fossem tão ruins quanto todo mundo dizia. Ele ficou lá até o dia do ataque de Pearl Harbor, quando foi exonerado – o famoso diplomata chamado George Kennan. Não é uma má indicação da atitude dúbia em relação a esses desenvolvimentos. Acontece que, não poderia saber na época, mas logo depois disso, em 1939, o Departamento de Estado e o Conselho de Relações Exteriores começaram a planejar o mundo pós-guerra, como seria o mundo pós-guerra.

E nos primeiros anos, exatamente naquela época, nos anos seguintes, eles assumiram que o mundo do pós-guerra seria dividido entre um mundo controlado pelos alemães, um mundo controlado pelos nazistas, a maior parte da Eurásia, e um mundo controlado pelos EUA, que incluiria o Hemisfério Ocidental, o antigo Império Britânico – que os EUA assumiriam partes do Extremo Oriente. E esse seria o formato do mundo pós-guerra. Agora, sabemos que essas opiniões foram mantidas até que os russos mudassem a maré.

Stalingrado, 1942–1943, a enorme batalha de tanques em Kursk, pouco depois, deixou bem claro que os russos derrotariam os nazistas. O planejamento mudou. A imagem do mundo pós-guerra mudou e passou para o que vimos no último período desde aquela época. Bem, isso foi há 80 anos.

Hoje não estamos enfrentando a ascensão de algo como o nazismo, mas estamos enfrentando a expansão do que às vezes é chamado de internacional reacionária ultranacionalista. A aliança no Oriente Médio consiste dos estados reacionários extremistas da região – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, sob a ditadura mais brutal de sua história, Israel no centro – confrontando o Irã.

Existem ameaças graves que estamos enfrentando na América Latina. A eleição de Jair Bolsonaro no Brasil colocou no poder o ultranacionalismo de direita mais extremo, mais ultrajante que agora assola o hemisfério. Lenín Moreno, do Equador, deu um grande passo em direção à união da extrema-direita expulsando Julian Assange da embaixada . Ele foi rapidamente preso pelo Reino Unido e enfrenta um futuro muito perigoso, a menos que haja um significativo protesto popular. O México é uma das raras exceções na América Latina a esses desenvolvimentos. Na Europa Ocidental, os partidos de direita estão crescendo, alguns deles de caráter muito assustador.

Há também contradesenvolvimentos. Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças da Grécia, um indivíduo muito significativo e importante, junto com Bernie Sanders, pediu a formação de uma Internacional Progressista para combater a internacional de direita que está se desenvolvendo. No nível dos estados, o equilíbrio parece esmagadoramente na direção errada.

Mas os estados não são as únicas entidades. No nível das pessoas, é bem diferente. E isso pode fazer a diferença. Isso significa a necessidade de proteger as democracias em funcionamento, de aprimorá-las, de aproveitar as oportunidades que elas oferecem, para os tipos de ativismo que levaram a progressos significativos no passado e que poderão nos salvar no futuro.

Quero fazer algumas observações abaixo sobre a grave dificuldade de manter e instituir a democracia, as forças poderosas que sempre se opuseram a ela, as façanhas de por algum modo forma salvá-la e melhorá-la, e a significância disso para o futuro.

Mas primeiro, algumas palavras sobre os desafios que enfrentamos, sobre os quais você já ouviu falar o suficiente e todos sabem. Não preciso entrar neles em detalhes.

Descrever esses desafios como “extremamente graves” seria um erro. A frase não captura a enormidade dos tipos de desafios que temos pela frente. E qualquer discussão séria sobre o futuro da humanidade deve começar por reconhecer um fato crítico, que a espécie humana agora enfrenta uma questão que nunca havia surgido na história da humanidade, uma pergunta que precisa ser respondida rapidamente: a sociedade humana sobreviverá por muito tempo?

Bem, como todos sabem, há 70 anos vivemos sob a sombra da guerra nuclear. Aqueles que analisaram os registros só podem se surpreender com o fato de termos sobrevivido até agora. Vez após outra, o desastre terminal tem ficado extremamente próximo, a alguns minutos de distância. É um milagre que tenhamos sobrevivido. Milagres não duram para sempre.

Isso tem que ser interrompido e rapidamente. A recente Revisão da Postura Nuclear [Nuclear Posture Review] do governo Trump aumenta drasticamente a ameaça de conflagração, que seria de fato terminal para a espécie. Podemos lembrar que esta Revisão da Postura Nuclear foi patrocinada por Jim Mattis, que era considerado civilizado demais para ser mantido no governo.

Havia três tratados principais de armas: o Tratado ABM, Tratado de Mísseis Antibalísticos; o Tratado INF, Forças Nucleares Intermediárias; o novo tratado START.

Os EUA se retiraram do Tratado ABM em 2002. E qualquer um que acredite que mísseis antibalísticos são armas defensivas esta iludido com a natureza desses sistemas. Os EUA acabaram de sair do Tratado INF, estabelecido por Gorbachev e Reagan em 1987, que reduziu drasticamente a ameaça de guerra na Europa, que se espalharia muito rapidamente.

Manifestações públicas maciças foram o pano de fundo para levar a um tratado que fez uma diferença muito significativa. Vale lembrar desse e de muitos outros casos em que o ativismo popular significativo fez uma enorme diferença. As lições são óbvias demais para enumerar. O governo Trump retirou-se do Tratado INF. Os russos se retiraram logo depois.

Se você der uma olhada mais de perto, verá que cada um dos lados tem uma argumentação credível, dizendo que o oponente não cumpriu o tratado. Para aqueles que querem uma imagem de como os russos podem olhar para a situação, o Bulletin of Atomic Scientists, o principal periódico sobre questões de controle de armas, publicou recentemente um artigo de Theodore Postol, destacando o quão perigosas são as instalações americanas de mísseis antibalísticos na fronteira com a Rússia – quão perigosos eles são e podem ser percebidos pelos russos. Observem, na fronteira com a Rússia. As tensões estão aumentando.

Ambos os lados estão realizando ações provocativas. Em um mundo racional, o que aconteceria seriam negociações entre os dois lados, com especialistas independentes para avaliar as acusações que cada um está fazendo contra o outro, para levar a uma resolução dessas acusações, para restaurar o tratado. Isso seria num mundo racional. Infelizmente, porém, não é o mundo em que vivemos. Nenhum esforço foi feito nesse sentido. E não será, a menos que haja pressão significativa.

Bem, resta o novo tratado START. O novo tratado START já foi designado pela figura responsável (que se descreveu modestamente como o maior presidente da história americana) como o pior tratado que já aconteceu na história da humanidade, a designação usual para qualquer coisa que tenha sido feita por seus antecessores.

Trump acrescentou que precisamos nos livrar dele. Na verdade, o tratado entra em renovação logo após a próxima eleição, muito estará em jogo. Muito estará em jogo na questão da renovação desse tratado. Ele conseguiu reduzir significativamente o número de armas nucleares, muito acima do que deveriam ser, mas muito abaixo do que eram antes. E poderia continuar.

Enquanto isso, o aquecimento global prossegue em seu curso inexorável. Durante este milênio, cada ano, com uma exceção, foi mais quente do que o anterior. Existem trabalhos científicos recentes, de James Hansen e outros, que indicam que o ritmo do aquecimento global, que vem aumentando desde 1980, pode estar aumentando acentuadamente e pode passar de um crescimento linear para um crescimento exponencial, o que significa dobrar a cada duas décadas.

Já estamos nos aproximando das condições de 125.000 anos atrás, quando o nível do mar era cerca de 10 metros mais alto do que é hoje. Com o derretimento, o derretimento rápido, dos enormes campos de gelo da Antártica, esse ponto pode ser alcançado. As consequências disso são quase inimagináveis. Quer dizer, nem vou tentar descrevê-las, mas vocês podem descobrir rapidamente o que isso significa.

Enquanto isso acontece, você lê regularmente relatos eufóricos da imprensa sobre como os Estados Unidos estão avançando na produção de combustíveis fósseis. Agora ultrapassamos a Arábia Saudita. Estamos na liderança da produção de combustíveis fósseis. Os grandes bancos, JPMorgan Chase e outros, estão despejando dinheiro em novos investimentos em combustíveis fósseis, incluindo os mais perigosos, como as areias betuminosas do Canadá. E tudo isso é apresentado com grande euforia, com excitação. Agora estamos alcançando a “independência energética”. Podemos controlar o mundo, determinar o uso de combustíveis fósseis no mundo.

Apenas uma palavra sobre qual é o significado disso, o que é bastante óbvio. Não é que os repórteres, comentaristas não saibam disso, que os CEOs dos bancos não saibam disso. Claro que eles sabem. Mas essas são pressões institucionais das quais é extremamente difícil se livrar. Tente colocar-se na posição de, digamos, o CEO do JPMorgan Chase, o maior banco, que está direcionando grandes somas para investimentos em combustíveis fósseis. Ele certamente sabe tudo o que todos sabem sobre o aquecimento global. Não é segredo.

Mas quais são suas escolhas? Basicamente, ele tem duas opções. Uma opção é fazer exatamente o que ele está fazendo. A outra opção é renunciar e ser substituído por outra pessoa que fará exatamente o que está fazendo. Não é um problema individual. É um problema institucional que pode ser resolvido, mas apenas sob tremenda pressão pública.

E vimos recentemente, de maneira muito dramática, como a solução pode ser alcançada. Um grupo de jovens, o Movimento Sunrise, organizado, chegou ao ponto de se sentar nos escritórios do Congresso e despertou algum interesse das novas figuras progressistas que conseguiram chegar ao Congresso. Sob muita pressão popular, a congressista Alexandria Ocasio-Cortez, acompanhada pelo senador Ed Markey, colocou o Green New Deal na agenda.

Essa é uma conquista notável. É claro que o plano recebeu ataques hostis de todos os lados: isso não importa. Alguns anos atrás, era inimaginável que fosse discutido. Como resultado do ativismo desse grupo de jovens, ele está agora no centro da agenda. Ele precisa ser implementado de uma forma ou de outra. É essencial para a sobrevivência, talvez não exatamente dessa forma, mas com algumas modificações.

Enquanto isso, o Relógio do Juízo Final do Boletim de Cientistas Atômicos, em janeiro passado, estava marcado para dois minutos para meia-noite. É o ponto mais próximo do desastre terminal desde 1947. O anúncio desse horário – desse cenário – mencionou as duas principais ameaças conhecidas: a ameaça da guerra nuclear, que está aumentando, e a ameaça do aquecimento global, que está aumentando ainda mais. E acrescentou uma terceira ameaça pela primeira vez: o enfraquecimento da democracia. Essa é a terceira ameaça, junto com o aquecimento global e a guerra nuclear.

E isso foi bastante apropriado, porque o funcionamento da democracia oferece a única esperança de superar essas ameaças. Eles não serão tratados pelas principais instituições, estatais ou privadas, agindo sem pressão pública maciça, o que significa que os meios de funcionamento democrático devem ser mantidos vivos, usados da maneira que o Movimento Sunrise fez, da maneira como a grande massa demonstração no início dos anos 80, e da maneira como continuamos hoje.

O novo coronavírus está causando uma calamidade hedionda – que estava prevista e poderia ter sido evitada. Análises credíveis, de cenários extremos possíveis, avaliam que milhões podem morrer, e como sempre, com os pobres e mais vulneráveis sofrendo mais no mundo inteiro. Houve outras catástrofes de saúde na história humana. A “Peste Negra” matou pelo menos um terço da população da Europa, que se recuperou. Também haverá recuperação neste caso, a um custo humano terrível.

Também enfrentamos outras ameaças, que são incomparavelmente mais graves, mesmo que não sejam tão perturbadoras para a vida cotidiana – hoje. Uma é a ameaça de destruição praticamente total pela guerra nuclear, que é ameaçadora e crescente. Outra é a ameaça de uma catástrofe ambiental, que é iminente e devastadora.

Não haverá recuperação. E não há tempo a perder ao tratar decisivamente com as ameaças.

Diante da imensa tragédia do Covid-19, pode parecer cruel colocar a calamidade em perspectiva, e também instar uma busca por suas raízes. Mas o realismo é, no entanto, imperativo, pelo menos se esperamos evitar mais desastres.

Na raiz estão colossais falhas de mercado e malignidades mais profundas da ordem socioeconômica, elevadas da crise ao desastre pelo capitalismo brutal da era neoliberal. Questões que valem a pena considerar, particularmente no país mais poderoso da história mundial, que enfrenta a decisão de permitir ou não que o aríete continue a ser brandido com força devastadora total.

Leituras para a quarentena

Nestes dias de quarentena, vamos utilizar a plataforma de nossa seção local como um espaço para compartilhar ideias, reunindo textos e vídeos.

Sugestões de publicações podem ser encaminhadas para secretaria@agbcampinas.com.br!

Desterritorialização sem limites: reflexões geográficas em tempos de pandemia (I), por Rogério Haesbaert

Entre a contenção e o confinamento dos corpos-território: reflexões geográficas em tempos de pandemia (II), por Rogério Haesbaert

Política anticapitalista em tempos de coronavírus, por David Harvey

Vírus: tudo o que é sólido se desfaz no ar, por Boaventura de Sousa Santos


Geografia e pandemia, por Maria Adélia Souza

A globalização sem limites nos confinou em casa, por Gilberto Maringoni

Coronavírus anuncia revolução no modo de vida que conhecemos, por Domenico de Masi


Coronavírus é um golpe estilo “Kill Bill” para o capitalismo e pode levar à reinvenção do comunismo, por Slavoj Žižek

O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã, por Byung-Chul Han

A crise sanitária incentiva a nos prepararmos para as mudanças climáticas, por Bruno Latour [tradução inédita]


Não podemos deixar a COVID-19 nos levar ao autoritarismo, por Noam Chomsky

O capitalismo tem seus limites, por Judith Butler

O coronavírus e a luta de classes: o monstro bate à nossa porta, por Mike Davis


A Editora Terra Sem Amos compilou alguns textos no formato de um pequeno e-book (48 páginas) gratuito com o título Coronavírus e a luta de classes.


Aprendendo com o vírus, por Paul B. Preciado [tradução inédita]

A conspiração dos perdedores, por Paul B. Preciado

Tempo de vírus, por Manuel Castells

Depois da guerra, por Manuel Castells [tradução inédita]

Coronavírus: a militarização das crises, por Raúl Zibechi

Epidemia de neoliberalismo, por Raúl Zibechi

O mundo pós-pandemia, por Raúl Zibechi


Uma Geografia da Medicina [1977], por Milton Santos, em resposta a Michel Foucault

“Pandemia democratizou poder de matar”, entrevista de Achille Mbembe

“Choque econômico do coronavírus pode produzir reações fascistas”, entrevista de Alain Touraine

Bruno Latour: A crise sanitária incentiva a nos prepararmos para as mudanças climáticas

Publicado no Le Monde em 25 de março de 2020. Tradução inédita dos geógrafos Gustavo Teramatsu, Luciano Duarte e Wagner Nabarro

Bruno Latour, sociólogo e filósofo, antropólogo das ciências, é o notável autor de Les Microbes. Guerre et paix, suivi de Irréductions (Métailié, 1984) e de Où atterrir ? Comment s’orienter en politique (La Découverte, 2017).


A coincidência entre um confinamento geral e o período da Quaresma, ainda que imprevisível, foi muito bem-vinda por aqueles a quem, por solidariedade, pedimos que não façam nada e que estão atrás da linha de frente. Esse jejum forçado, esse Ramadã laico e republicano, pode ser uma bela ocasião para que eles pensem sobre o que é importante e o que é irrisório…

Como se a intervenção do vírus pudesse servir como um ensaio geral para a crise seguinte, aquela em que a reorientação das condições de vida vai se colocar para todo mundo e em todos os detalhes da existência cotidiana que teremos que aprender a organizar com cuidado. Suponho, como muitos, que a crise sanitária está preparando, induzindo e estimulando as pessoas a se prepararem para as mudanças climáticas. Ainda será necessário testar essa hipótese.

O vírus não é mais do que um elo de uma corrente

O que nos autoriza a encadear as duas crises é a súbita e dolorosa percepção de que a definição clássica de sociedade – os humanos entre si – não faz sentido. O estado do social depende a cada instante das associações entre muitos atores, cuja maioria não possui forma humana. Isso é válido para os micróbios – como sabemos desde Pasteur –, mas também para a internet, o direito, a organização dos hospitais, as capacidades do Estado e também para o clima. E, é claro, apesar da confusão em torno de um “estado de guerra” contra o vírus, isto não é nada além de um dos elos de uma corrente em que a gestão de estoques de máscaras ou de testes, a regulamentação de direitos de propriedade, os hábitos civis e os gestos de solidariedade importam igualmente para definir o grau de virulência do agente infeccioso.

Uma vez levada em conta toda a rede da qual ele é apenas um elo, o mesmo vírus não age da mesma maneira em Taiwan, em Singapura, em Nova York ou em Paris. A pandemia não é um fenômeno mais “natural” do que as crises de fome do passado ou a atual crise climática. Há muito tempo a sociedade não se mantém mais dentro dos estreitos limites do social.

A extensão dos poderes e a sirene das ambulâncias

Dito isso, não está claro para mim que o paralelo vá muito além. Pois, de fato, as crises da saúde não são novas e a intervenção rápida e radical do Estado até agora não parece inovar muito. Basta ver o entusiasmo do presidente Macron em assumir a figura de chefe de Estado que tão pateticamente lhe faltava até agora. Muito melhores do que os atentados – que são apenas assuntos de polícia –, as pandemias despertam, nos líderes e nos liderados, uma espécie de obviedade – “nós devemos protegê-los”, “vocês devem nos proteger” – que recarrega a autoridade do Estado e lhe permite exigir aquilo que, em qualquer outra circunstância, seria recebido com protestos.

Mas esse Estado, que não é aquele do século XXI e das mudanças ecológicas, mas sim aquele do século XIX e do que se convencionou chamar de “biopoder”. Para falar como o falecido estatístico Alain Desrosières, é o Estado das assim denominadas estatísticas: gestão das populações sobre uma grade territorial vista de cima e conduzida pelo poder de especialistas. Exatamente o que vemos ressuscitar agora – com a única diferença de que é replicado passo a passo, a ponto de ter se tornado planetário.

Parece-me que a originalidade da situação atual é que, ao permanecermos trancados em casa enquanto do lado de fora não há nada além da extensão dos poderes da polícia e a sirene das ambulâncias, nós interpretamos coletivamente, de uma forma caricatural, a figura do biopoder que parece saída diretamente de um curso do filósofo Michel Foucault. Não falta sequer a obliteração de grande número de trabalhadores invisíveis forçados a trabalhar para que os outros pudessem continuar a se esconder em suas casas – sem esquecer os imigrantes, impossíveis de acomodar. Mas justamente, essa caricatura é a de uma época que não é mais a nossa.

Um abismo imenso

Existe um abismo imenso entre o Estado capaz de dizer “eu protejo vocês da vida e da morte”, ou seja, da infecção por um vírus cujo rastro não é conhecido pelos pesquisadores e cujos efeitos não são compreensíveis para além dos levantamentos estatísticos, e o Estado que ousaria dizer “eu protejo vocês da vida e da morte, porque mantenho as condições de habitabilidade de todos os seres vivos de quem vocês dependem”.

Faça o experimento mental: imagine que o presidente Macron venha a anunciar, com o mesmo tom churchilliano, uma série de medidas para deixar as reservas de gás e do petróleo na terra, para impedir a comercialização de pesticidas e reduzir as aragens profundas e, audácia suprema, proibir o aquecimento dos fumantes na varanda dos bares… Se o imposto sobre a gasolina desencadeou este movimento dos “gillets jaunes”, é estremecedor pensar nos tumultos que incendiariam o país. E, no entanto, a exigência de proteger os franceses para seu próprio bem contra a morte é infinitamente mais justificada no caso da crise ecológica do que no caso da crise sanitária, porque se trata literalmente de todo mundo, e não de alguns milhares de humanos – e não por um tempo, mas para sempre.

Ora, nós notamos que esse Estado não existe. E o que é mais preocupante é que não está claro como ele se prepararia para passar de uma crise à outra. Na crise sanitária, a administração tem o papel pedagógico bastante clássico, e sua autoridade coincide perfeitamente com as velhas fronteiras nacionais – o arcaísmo do retorno das fronteiras europeias é a prova dolorosa.

Para a mudança ecológica, a relação é invertida: é a administração que deve aprender com um povo multifacetado, em múltiplas escalas, a quem pode parecer que a existência sobre os territórios inteiramente redefinidos pela exigência de sair da produção globalizada atual. Ela será absolutamente incapaz de ditar as medidas a partir de cima. Na crise sanitária, é de fato o corajoso povo que deve reaprender, como na escola primária, a lavar as mãos e a tossir no cotovelo. Para a mudança ecológica, é o Estado que se encontra em situação de aprendizagem.

Mas há outra razão para que a imagem da “guerra contra o vírus” se torne incompreensível: na crise sanitária, talvez seja verdade que os humanos, colocados em conjunto, “lutem contra” os vírus – mesmo que estes não se interessem nem um pouco por nós e sigam seu caminho da garganta ao nariz, nos matando sem que esperemos.

A situação é tragicamente inversa na mudança ecológica: dessa vez, o agente patogênico cuja virulência terrível modificou as condições de existência de todos os habitantes do planeta não é o vírus, são os humanos! E não todos os humanos, mas alguns que lutam contra nós sem declarar guerra. Para essa guerra, o Estado nacional está menos preparado, mal calibrado, tão mal desenhado quanto possível, pois as frentes são múltiplas e atravessam cada um de nós. É nesse sentido que a “mobilização geral” contra o vírus não prova em nada que nós estaremos prontos para a mobilização seguinte. Não são apenas os militares que estão sempre atrasados para uma guerra.

De qualquer forma, nunca se sabe, um tempo de Quaresma, mesmo que laica e republicana, pode levar a conversões espetaculares. Pela primeira vez depois de anos, milhões de pessoas, trancadas em casa, reencontram este luxo esquecido: o tempo para refletir e discernir sobre o que geralmente os faz se mover inutilmente em todos os sentidos. Respeitemos esse longo jejum imprevisto.

Byung-Chul Han: O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã

Versão publicada primeiro no El País


Países asiáticos estão lidando melhor com essa crise do que o Ocidente. Enquanto lá se trabalha com dados e máscaras, aqui se chega tarde e fecham fronteiras

O coronavírus está colocando nosso sistema à prova. Ao que parece a Ásia controla melhor a epidemia do que a Europa. Em Hong Kong, Taiwan e Singapura há poucos infectados. Em Taiwan foram registrados 108 casos e 193 em Hong Kong. Na Alemanha, pelo contrário, após um período muito mais breve já existem 19.000 casos confirmados, e na Espanha 19.980 (dados de 20 de março). A Coreia do Sul já superou a pior fase, da mesma forma que o Japão. Até a China, o país de origem da pandemia, já está com ela bem controlada. Mas Taiwan e a Coreia não decretaram a proibição de sair de casa e as lojas e restaurantes não fecharam. Enquanto isso começou um êxodo de asiáticos que saem da Europa. Chineses e coreanos querem regressar aos seus países, porque lá se sentem mais seguros. Os preços dos voos multiplicaram. Já quase não é possível conseguir passagens aéreas para a China e a Coreia.

A Europa está fracassando. Os números de infectados aumentam exponencialmente. Parece que a Europa não pode controlar a pandemia. Na Itália morrem diariamente centenas de pessoas. Retiram os respiradores dos pacientes idosos para ajudar os jovens. Mas também vale observar ações inúteis. Os fechamentos de fronteiras são evidentemente uma expressão desesperada de soberania. Nós nos sentimos de volta à época da soberania. O soberano é quem decide sobre o estado de exceção. É o soberano que fecha fronteiras. Mas isso é uma vã tentativa de soberania que não serve para nada. Seria muito mais útil cooperar intensamente dentro da Eurozona do que fechar fronteiras alucinadamente. Ao mesmo tempo a Europa também decretou a proibição da entrada a estrangeiros: um ato totalmente absurdo levando em consideração o fato de que a Europa é justamente o local ao qual ninguém quer ir. No máximo, seria mais sensato decretar a proibição de saídas de europeus, para proteger o mundo da Europa. Depois de tudo, a Europa é nesse momento o epicentro da pandemia.

As vantagens da Ásia

Em comparação com a Europa, quais vantagens o sistema da Ásia oferece que são eficientes para combater a pandemia? Estados asiáticos como o Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan e Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos relutantes e mais obedientes do que na Europa. Também confiam mais no Estado. E não somente na China, como também na Europa e no Japão a vida cotidiana está organizada muito mais rigidamente do que na Europa. Principalmente para enfrentar o vírus os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Suspeitam que o big data pode ter um enorme potencial para se defender da pandemia. Poderíamos dizer que na Ásia as epidemias não são combatidas somente pelos virologistas e epidemiologistas, e sim principalmente pelos especialistas em informática e macrodados. Uma mudança de paradigma da qual a Europa ainda não se inteirou. Os apologistas da vigilância digital proclamariam que o big data salva vidas humanas.

A consciência crítica diante da vigilância digital é praticamente inexistente na Ásia. Já quase não se fala de proteção de dados, incluindo Estados liberais como o Japão e a Coreia. Ninguém se irrita pelo frenesi das autoridades em recopilar dados. Enquanto isso a China introduziu um sistema de crédito social inimaginável aos europeus, que permitem uma valorização e avaliação exaustiva das pessoas. Cada um deve ser avaliado em consequência de sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido à observação. Cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais são controlados. Quem atravessa no sinal vermelho, quem tem contato com críticos do regime e quem coloca comentários críticos nas redes sociais perde pontos. A vida, então, pode chegar a se tornar muito perigosa. Pelo contrário, quem compra pela Internet alimentos saudáveis e lê jornais que apoiam o regime ganha pontos. Quem tem pontuação suficiente obtém um visto de viagem e créditos baratos. Pelo contrário, quem cai abaixo de um determinado número de pontos pode perder seu trabalho. Na China essa vigilância social é possível porque ocorre uma irrestrita troca de dados entre os fornecedores da Internet e de telefonia celular e as autoridades. Praticamente não existe a proteção de dados. No vocabulário dos chineses não há o termo “esfera privada”.

Na China existem 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas com uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam até mesmo as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância. Essas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer um nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos aeroportos.

Toda a infraestrutura para a vigilância digital se mostrou agora ser extremamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus celulares. Não é por acaso que o sistema sabe quem estava sentado em qual local no trem. As redes sociais contam que estão usando até drones para controlar as quarentenas. Se alguém rompe clandestinamente a quarentena um drone se dirige voando em sua direção e ordena que regresse à sua casa. Talvez até lhe dê uma multa e a deixe cair voando, quem sabe. Uma situação que para os europeus seria distópica, mas que, pelo visto, não tem resistência na China.

Na China e em outros Estados asiáticos como a Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Japão não existe uma consciência crítica diante da vigilância digital e o big data. A digitalização os embriaga diretamente. Isso obedece também a um motivo cultural. Na Ásia impera o coletivismo. Não há um individualismo acentuado. O individualismo não é a mesma coisa que o egoísmo, que evidentemente também está muito propagado na Ásia.

Ao que parece o big data é mais eficaz para combater o vírus do que os absurdos fechamentos de fronteiras que estão sendo feitos nesses momentos na Europa. Graças à proteção de dados, entretanto, não é possível na Europa um combate digital do vírus comparável ao asiático. Os fornecedores chineses de telefonia celular e de Internet compartilham os dados sensíveis de seus clientes com os serviços de segurança e com os ministérios de saúde. O Estado sabe, portanto, onde estou, com quem me encontro, o que faço, o que procuro, em que penso, o que como, o que compro, aonde me dirijo. É possível que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue etc. Uma biopolítica digital que acompanha a psicopolítica digital que controla ativamente as pessoas.

Em Wuhan se formaram milhares de equipes de pesquisa digitais que procuram possíveis infectados baseando-se somente em dados técnicos. Tendo como base, unicamente, análises de macrodados averiguam os que são potenciais infectados, os que precisam continuar sendo observados e eventualmente isolados em quarentena. O futuro também está na digitalização no que se refere à pandemia. Pela epidemia talvez devêssemos redefinir até mesmo a soberania. É soberano quem dispõe de dados. Quando a Europa proclama o estado de alarme e fecha fronteiras continua aferrada a velhos modelos de soberania.

Não somente na China, como também em outros países asiáticos a vigilância digital é profundamente utilizada para conter a epidemia. Em Taiwan o Estado envia simultaneamente a todos um SMS para localizar as pessoas que tiveram contato com infectados e para informar sobre os lugares e edifícios em que existiram pessoas contaminadas. Já em uma fase muito inicial, Taiwan utilizou uma conexão de diversos dados para localizar possíveis infectados em função das viagens que fizeram. Na Coreia quem se aproxima de um edifício em que um infectado esteve recebe através do “Corona-app” um sinal de alarme. Todos os lugares em que infectados estiveram estão registrados no aplicativo. Não são levadas muito em consideração a proteção de dados e a esfera privada. Em todos os edifícios da Coreia foram instaladas câmeras de vigilância em cada andar, em cada escritório e em cada loja. É praticamente impossível se mover em espaços públicos sem ser filmado por uma câmera de vídeo. Com os dados do telefone celular e do material filmado por vídeo é possível criar o perfil de movimento completo de um infectado. São publicados os movimentos de todos os infectados. Casos amorosos secretos podem ser revelados. Nos escritórios do Ministério da Saúde coreano existem pessoas chamadas “tracker” que dia e noite não fazem outra coisa a não ser olhar o material filmado por vídeo para completar o perfil do movimento dos infectados e localizar as pessoas que tiveram contato com eles.

Uma diferença chamativa entre a Ásia e a Europa são principalmente as máscaras protetoras. Na Coreia quase não existe quem ande por aí sem máscaras respiratórias especiais capazes de filtrar o ar de vírus. Não são as habituais máscaras cirúrgicas, e sim máscaras protetoras especiais com filtros, que também são utilizadas pelos médicos que tratam os infectados. Durante as últimas semanas, o tema prioritário na Coreia era o fornecimento de máscaras à população. Diante das farmácias enormes filas se formaram. Os políticos eram avaliados em função da rapidez com que eram fornecidas a toda a população. Foram construídas a toda pressa novas máquinas para sua fabricação. Por enquanto parece que o fornecimento funciona bem. Há até mesmo um aplicativo que informa em qual farmácia próxima ainda se pode conseguir máscaras. Acho que as máscaras protetoras fornecidas na Ásia a toda a população contribuíram decisivamente para conter a epidemia.

Os coreanos usam máscaras protetoras antivírus até mesmo nos locais de trabalho. Até os políticos fazem suas aparições públicas somente com máscaras protetoras. O presidente coreano também a usa para dar o exemplo, incluindo em suas entrevistas coletivas. Na Coreia quem não a usa é repreendido. Na Europa, pelo contrário, frequentemente se diz que não servem para muita coisa, o que é um absurdo. Por que então os médicos usam as máscaras protetoras? Mas é preciso trocar de máscara frequentemente, porque quando umedecem perdem sua função filtradora. Os coreanos, entretanto, já desenvolveram uma “máscara ao coronavírus” feita de nanofiltros que podem ser lavados. O que se diz é que podem proteger as pessoas do vírus durante um mês. Na verdade, é uma solução muito boa enquanto não existem vacinas e medicamentos.

Na Europa, pelo contrário, até mesmo os médicos precisam viajar à Rússia para consegui-las. Macron mandou confiscar máscaras para distribui-las entre os funcionários da área de saúde. Mas o que acabaram recebendo foram máscaras normais sem filtro com a indicação de que bastariam para proteger do coronavírus, o que é uma mentira. A Europa está fracassando. De que adianta fechar lojas e restaurantes se as pessoas continuam se aglomerando no metrô e no ônibus durante as horas de pico? Como guardar a distância necessária assim? Até nos supermercados é quase impossível. Em uma situação como essa, as máscaras protetoras realmente salvariam vidas humanas. Está surgindo uma sociedade de duas classes. Quem tem carro próprio se expõe a menos riscos. As máscaras normais também seriam de muita utilidade se os infectados as usassem, porque dessa maneira não propagariam o vírus.

Nos países europeus quase ninguém usa máscara. Há alguns que as usam, mas são asiáticos. Meus conterrâneos residentes na Europa se queixam de que são olhados com estranheza quando as usam. Por trás disso há uma diferença cultural. Na Europa impera um individualismo que traz atrelado o costume de andar com o rosto descoberto. Os únicos que estão mascarados são os criminosos. Mas agora, vendo imagens da Coreia, me acostumei tanto a ver pessoas mascaradas que o rosto descoberto de meus concidadãos europeus me parece quase obsceno. Eu também gostaria de usar máscara protetora, mas aqui já não existem.

No passado, a fabricação de máscara, da mesma forma que tantos outros produtos, foi externalizada à China. Por isso agora não se conseguem máscaras na Europa. Os Estados asiáticos estão tentando prover toda a população com máscaras protetoras. Na China, quando também começaram a escassear, fábricas chegaram a ser reequipadas para produzir máscaras. Na Europa nem mesmo os funcionários da área de saúde as conseguem. Enquanto as pessoas continuarem se aglomerando nos ônibus e metrôs para ir ao trabalho sem máscaras protetoras, a proibição de sair de casa logicamente não adiantará muito. Como é possível guardar a distância necessária nos ônibus e no metrô nos horários de pico? E uma lição que deveríamos tirar da pandemia deveria ser a conveniência de voltar a trazer à Europa a produção de determinados produtos, como máscaras protetoras, remédios e produtos farmacêuticos.

Apesar de todo o risco, que não deve ser minimizado, o pânico desatado pela pandemia de coronavírus é desproporcional. Nem mesmo a “gripe espanhola”, que foi muito mais letal, teve efeitos tão devastadores sobre a economia. A que isso se deve na realidade? Por que o mundo reage com um pânico tão desmesurado a um vírus? Emmanuel Macron fala até de guerra e do inimigo invisível que precisamos derrotar. Estamos diante de um retorno do inimigo? A gripe espanhola se desencadeou em plena Primeira Guerra Mundial. Naquele momento todo o mundo estava cercado de inimigos. Ninguém teria associado a epidemia com uma guerra e um inimigo. Mas hoje vivemos em uma sociedade totalmente diferente.

Na verdade, vivemos durante muito tempo sem inimigos. A Guerra Fria terminou há muito tempo. Ultimamente até o terrorismo islâmico parecia ter se deslocado a áreas distantes. Há exatamente dez anos afirmei em meu ensaio Sociedade do Cansaço a tese de que vivemos em uma época em que o paradigma imunológico perdeu sua vigência, baseada na negatividade do inimigo. Como nos tempos da Guerra Fria, a sociedade organizada imunologicamente se caracteriza por viver cercada de fronteiras e de cercas, que impedem a circulação acelerada de mercadorias e de capital. A globalização suprime todos esses limites imunitários para dar caminho livre ao capital. Até mesmo a promiscuidade e a permissividade generalizadas, que hoje se propagam por todos os âmbitos vitais, eliminam a negatividade do desconhecido e do inimigo. Os perigos não espreitam hoje da negatividade do inimigo, e sim do excesso de positividade, que se expressa como excesso de rendimento, excesso de produção e excesso de comunicação. A negatividade do inimigo não tem lugar em nossa sociedade ilimitadamente permissiva. A repressão aos cuidados de outros abre espaço à depressão, a exploração por outros abre espaço à autoexploração voluntária e à auto-otimização. Na sociedade do rendimento se guerreia sobretudo contra si mesmo.

Limites imunológicos e fechamento de fronteiras

Pois bem, em meio a essa sociedade tão enfraquecida imunologicamente pelo capitalismo global o vírus irrompe de supetão. Em pânico, voltamos a erguer limites imunológicos e fechar fronteiras. O inimigo voltou. Já não guerreamos contra nós mesmos. E sim contra o inimigo invisível que vem de fora. O pânico desmedido causado pelo vírus é uma reação imunitária social, e até global, ao novo inimigo. A reação imunitária é tão violenta porque vivemos durante muito tempo em uma sociedade sem inimigos, em uma sociedade da positividade, e agora o vírus é visto como um terror permanente.

Mas há outro motivo para o tremendo pânico. Novamente tem a ver com a digitalização. A digitalização elimina a realidade, a realidade é experimentada graças à resistência que oferece, e que também pode ser dolorosa. A digitalização, toda a cultura do “like”, suprime a negatividade da resistência. E na época pós-fática das fake news e dos deepfakes surge uma apatia à realidade. Dessa forma, aqui é um vírus real e não um vírus de computador, e que causa uma comoção. A realidade, a resistência, volta a se fazer notar no formato de um vírus inimigo. A violenta e exagerada reação de pânico ao vírus se explica em função dessa comoção pela realidade.

A reação de pânico dos mercados financeiros à epidemia é, além disso, a expressão daquele pânico que já é inerente a eles. As convulsões extremas na economia mundial fazem com que essa seja muito vulnerável. Apesar da curva constantemente crescente do índice das Bolsas, a arriscada política monetária dos bancos emissores gerou nos últimos anos um pânico reprimido que estava aguardando a explosão. Provavelmente o vírus não é mais do que a gota que transbordou o copo. O que se reflete no pânico do mercado financeiro não é tanto o medo ao vírus quanto o medo a si mesmo. O crash poderia ter ocorrido também sem o vírus. Talvez o vírus seja somente o prelúdio de um crash muito maior.

Žižek afirma que o vírus deu um golpe mortal no capitalismo, e evoca um comunismo obscuro. Acredita até mesmo que o vírus poderia derrubar o regime chinês. Žižek se engana. Nada disso acontecerá. A China poderá agora vender seu Estado policial digital como um modelo de sucesso contra a pandemia. A China exibirá a superioridade de seu sistema ainda mais orgulhosamente. E após a pandemia, o capitalismo continuará com ainda mais pujança. E os turistas continuarão pisoteando o planeta. O vírus não pode substituir a razão. É possível que chegue até ao Ocidente o Estado policial digital ao estilo chinês. Com já disse Naomi Klein, a comoção é um momento propício que permite estabelecer um novo sistema de Governo. Também a instauração do neoliberalismo veio precedida frequentemente de crises que causaram comoções. É o que aconteceu na Coreia e na Grécia. Espero que após a comoção causada por esse vírus não chegue à Europa um regime policial digital como o chinês. Se isso ocorrer, como teme Giorgio Agamben, o estado de exceção passaria a ser a situação normal. O vírus, então, teria conseguido o que nem mesmo o terrorismo islâmico conseguiu totalmente.

O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não chegará a ocorrer. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução. O vírus nos isola e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. De alguma maneira, cada um se preocupa somente por sua própria sobrevivência. A solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permite sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa. Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus. Precisamos acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso belo planeta.

Slavoj Žižek: Coronavírus é um golpe estilo “Kill Bill” para o capitalismo e pode levar à reinvenção do comunismo

Original em rt.com, tradução de Simone Paz em OutrasPalavras


Kill Bill: Vol. 2 Dir: Quentin Tarantino (2004) © Miramax

A disseminação contínua da epidemia do coronavírus acabou desencadeando, também, certas epidemias de vírus ideológicos que estavam adormecidos em nossas sociedades: fake news, teorias da conspiração paranoicas e explosões de racismo.

A quarentena, devidamente fundamentada em evidências médicas, encontrou um eco na pressão ideológica por estabelecer fronteiras estritas e isolar os inimigos que representam uma ameaça à nossa identidade.

Mas, talvez, outro vírus muito mais benéfico também se espalhe e, se tivermos sorte, irá nos infectar: o vírus do pensar em uma sociedade alternativa, uma sociedade para além dos Estados-nação, uma sociedade que se atualiza nas formas de solidariedade e cooperação global.

Especula-se que o coronavírus pode levar à queda do regime comunista chinês, do mesmo jeito que a catástrofe de Chernobyl foi a gota d’água que levou ao fim o comunismo soviético (como o próprio Gorbachev admitiu). Mas existe um paradoxo nesta situação: o coronavírus também nos levará a reinventar o comunismo, com base na confiança nas pessoas e na ciência.

Na cena final de Kill Bill 2, do diretor Quentin Tarantino, Beatrix derruba o vilão Bill, destruindo-o com a “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” — o golpe mais fatal das artes marciais. O movimento consiste numa combinação de cinco golpes com as pontas dos dedos em cinco pontos de pressão diferentes no corpo do alvo. Assim que a vítima se afasta e dá cinco passos, seu coração explode dentro do seu corpo, e ele desmorona no chão.

Este ataque faz parte da mitologia das artes marciais e não é factível nos combates da vida real. Porém, voltando ao filme, depois que Beatrix ataca Bill, ele faz as pazes com ela, calmamente, anda cinco passos e morre…

O que torna esse ataque tão fascinante é o tempo existente entre o golpe e o momento da morte: posso manter uma agradável conversa enquanto eu permanecer sentado e sossegado, mas durante todo esse tempo estarei ciente de que no momento em que eu começar a andar, meu coração irá explodir e eu cairei morto.

Não se parece com a ideia daqueles que especulam sobre como o coronavírus levaria o sistema comunista da China à sua queda? Numa espécie de “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” social, no regime comunista do país, as autoridades podem sentar-se, observar e atravessar os movimentos da quarentena, mas qualquer mudança real na ordem social (como confiar nas pessoas) resultará em sua queda.

Minha modesta opinião é muito mais radical: a epidemia do coronavírus é uma espécie de “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” de ataque ao sistema capitalista internacional — um sinal de que não podemos seguir pelo mesmo caminho que viemos até agora, de que precisamos uma mudança radical.

Fato triste: será preciso uma catástrofe

Há alguns anos, Fredric Jameson chamou a atenção para o potencial utópico dos filmes sobre catástrofes cósmicas (um asteroide que ameaça a vida na Terra ou um vírus que mata a humanidade, por exemplo). Tal ameaça global dá origem à solidariedade global, nossas pequenas diferenças se tornam insignificantes, todos trabalhamos juntos para encontrar uma solução — e aqui estamos hoje, na vida real. O ponto não é sobre curtir sadicamente o sofrimento generalizado, porque ele ajudaria nossa causa: pelo contrário, o ponto é refletir sobre o triste fato de que precisemos de uma catástrofe para nos permitirmos repensar as características básicas da sociedade na qual vivemos.

O primeiro esboço de modelo de uma coordenação global do tipo é da Organização Mundial da Saúde, da qual não estamos recebendo a tagarelice burocrática usual, mas avisos precisos, anunciados sem pânico. Tais organizações devem receber mais poder executivo.

Os céticos zombam de Bernie Sanders por sua defesa a uma saúde universal nos EUA — e não é que a lição da epidemia de coronavírus não apenas demonstra como ela é muito necessária, mas também que devemos começar a criar algum tipo de rede global de saúde?

Um dia após o vice-ministro da Saúde do Irã, Iraj Harirchi, aparecer em uma coletiva de imprensa para minimizar a disseminação do coronavírus e afirmar que as quarentenas em massa não seriam necessárias, teve de fazer uma breve declaração admitindo que contraiu o coronavírus e se isolou (inclusive, na sua primeira aparição na TV, ele já apresentava sinais de febre e fraqueza). Harirchi acrescentou: “Este é um vírus democrático, que não faz diferença entre pobres ou ricos, ou entre políticos e cidadãos comuns”.

Nesse ponto, ele estava correto — estamos todos no mesmo barco. É difícil não reparar na enorme ironia do fato: aquilo que nos uniu e nos levou à solidariedade global se expressa, no nível da vida cotidiana, em orientações severas para evitar o contato com os outros, e até de se isolar.

Além do mais, não estamos lidando apenas com ameaças virais — outras catástrofes já estão surgindo no horizonte ou mesmo acontecendo: secas, ondas de calor, tempestades fora de controle, etc. Para todos esses casos, a resposta não é o pânico, mas o trabalho árduo e urgente para estabelecer algum tipo de coordenação global eficiente.

Só estaremos a salvo na realidade virtual?

A primeira ilusão a ser dissipada é aquela formulada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, durante sua recente visita à Índia, onde ele disse que a epidemia recuaria rapidamente e que só precisamos esperar pelo seu pico, que a vida voltará ao normal.

Contra essas esperanças fáceis, a primeira coisa que precisamos aceitar é que a ameaça veio para ficar. Mesmo se a onda passar, ela reaparecerá em novas formas — quiçá bem mais perigosas.

Por esse motivo, podemos esperar que as epidemias virais afetem nossas interações mais elementares com outras pessoas e objetos ao nosso redor, incluindo nosso próprio corpo — evitar tocar em coisas que possam estar (invisivelmente) sujas, não sentar em assentos sanitários ou bancos públicos, evitar abraçar pessoas ou apertar as mãos. Podemos até passar a ter mais cuidado com gestos espontâneos: não encostar no nariz nem esfregar os olhos.

Portanto, não serão apenas o Estado e outras instituições nos controlando, devemos também aprender a nos autocontrolar e disciplinar. Talvez apenas a realidade virtual seja considerada segura e a movimentação livre em espaços abertos fique restrita às ilhas pertencentes aos ultrarricos.

Mas mesmo no nível da realidade virtual e da internet, devemos lembrar que, nas últimas décadas, os termos “vírus” e “viral” foram usados principalmente para designar vírus digitais que infectavam nossos espaços na web e dos quais não tínhamos consciência, pelo menos até que seu poder destrutivo fosse liberado (por exemplo, a destruição de nossos dados ou de discos rígidos). O que vemos agora é um forte retorno ao significado literal original do termo: as infecções virais trabalham de mãos dadas em ambas as dimensões, real e virtual.

O Retorno do Animismo Capitalista

Outro fenômeno bizarro que podemos observar é o retorno triunfante do animismo capitalista, de tratar fenômenos sociais como mercados ou o capital financeiro como uma entidade viva. Lendo a mídia empresarial, ficamos com a impressão de que, na verdade, não deveríamos nos preocupar com os milhares que morreram (nem com os outros milhares que ainda vão morrer), mas com os “mercados que estão ficando apreensivos”. O coronavírus perturba cada vez mais o bom funcionamento do mercado mundial e, segundo o que ouvimos, o crescimento pode cair dois ou três por cento.

Tudo isso não indica claramente a necessidade urgente de uma reorganização da economia global, que não esteja mais à mercê dos mecanismos de mercado? É óbvio que não estamos falando de comunismo às antigas, mas de alguma forma de organização mundial que consiga controlar e regular a economia — bem como limitar a soberania dos estados-nação quando necessário. Os países já conseguiram fazer isso no contexto da guerra no passado, e agora todos nós estamos, efetivamente, nos aproximando de uma guerra clínica.

Além do mais, não devemos ter medo de reparar em alguns efeitos colaterais positivos da epidemia. Um de seus símbolos são os passageiros aprisionados (em quarentena) em grandes cruzeiros — boa maneira de se libertar da obscenidade desses navios, devo dizer. (Só precisamos tomar cuidado para que as viagens a ilhas isoladas ou a outros resorts exclusivos não se torne, novamente, o privilégio de uns poucos ricos, como aconteceu décadas atrás com voos de avião). A produção de automóveis também se vê seriamente afetada pelo coronavírus — o que não é de todo ruim, já que isso pode nos levar a pensar em alternativas à nossa obsessão pelos veículos individuais. E a lista não para por aí.

Num discurso recente, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, declarou: “Não existe essa coisa de liberal. Um liberal nada mais é do que um comunista com um diploma”.

E se o contrário estiver certo? Se designarmos como “liberais” todos aqueles que se preocupam com a nossa liberdade; e, como “comunistas”, aqueles que sabem que só poderemos salvá-la por meio de mudanças radicais — já que o capitalismo global está cada vez mais próximo de uma crise? Então, deveríamos dizer que, atualmente, aqueles que ainda se reconhecem comunistas são liberais com diplomas — liberais que estudaram seriamente o porquê de nossos valores liberais estarem sob ameaça, e que tomaram consciência de que só uma mudança radical poderá salvá-los.

Boaventura de Sousa Santos: Vírus: tudo o que é sólido se desfaz no ar

Publicado originalmente Jornal Público


Como foram expulsas do sistema político, as alternativas irão entrar cada vez mais frequentemente na vida dos cidadãos pela porta dos fundos das crises pandémicas, dos desastres ambientais e dos colapsos financeiros. Ou seja, as alternativas voltarão da pior maneira possível.

Existe um debate nas ciências sociais sobre se a verdade e a qualidade das instituições de uma dada sociedade se conhecem melhor em situações de normalidade, de funcionamento corrente, ou em situações excepcionais, de crise. Talvez os dois tipos de situação sejam igualmente indutores de conhecimento, mas certamente permitem-nos conhecer ou relevar coisas diferentes. Que potenciais conhecimentos decorrem da pandemia do coronavírus?

A normalidade da excepção. A actual pandemia não é uma situação de crise claramente contraposta a uma situação de normalidade. Desde a década de 1980 – à medida que o neoliberalismo se foi impondo como a versão dominante do capitalismo e este se foi sujeitando mais e mais à lógica do sector financeiro – o mundo tem vivido em permanente estado de crise. Uma situação duplamente anómala. Por um lado, a ideia de crise permanente é um oximoro, já que, no sentido etimológico, a crise é por natureza excepcional e passageira e constitui a oportunidade para ser superada e dar origem a um melhor estado de coisas. Por outro lado, quando a crise é passageira, ela deve ser explicada pelos factores que a provocam. Mas quando se torna permanente, a crise transforma-se na causa que explica tudo o resto. Por exemplo, a crise financeira permanente é utilizada para explicar os cortes nas políticas sociais (saúde, educação, previdência social) ou a degradação dos salários. E assim impede que se pergunte pelas verdadeiras causas da crise. O objectivo da crise permanente é não ser resolvida. Mas qual é o objectivo deste objectivo? Basicamente, são dois os objectivos: legitimar a escandalosa concentração de riqueza e impedir que se tomem medidas eficazes para impedir a iminente catástrofe ecológica. Assim temos vivido nos últimos 40 anos. Por isso, a pandemia vem apenas agravar uma situação de crise a que a população mundial tem vindo a ser sujeita. Daí a sua específica periculosidade. Em muitos países, os serviços públicos de saúde estavam há dez ou 20 anos mais bem preparados para enfrentar a pandemia do que estão hoje.

A elasticidade do social. Em cada época histórica, os modos dominantes de viver (trabalho, consumo, lazer, convivência) e de antecipar ou adiar a morte são relativamente rígidos e parecem decorrer de regras escritas na pedra da natureza humana. É verdade que eles se vão alterando paulatinamente, mas as mudanças passam quase sempre despercebidas. A irrupção de uma pandemia não se compagina com tal tipo de mudanças. Exige mudanças drásticas. E, de repente, elas tornam-se possíveis como se sempre o tivessem sido. Torna-se possível ficar em casa e voltar a ter tempo para ler um livro e passar mais tempo com os filhos, consumir menos, dispensar o vício de passar o tempo nos centros comerciais, olhando para o que está à venda e esquecendo tudo o que se quer mas só se pode obter por outros meios que não a compra. A ideia conservadora de que não há alternativa ao modo de vida imposto pelo hipercapitalismo em que vivemos cai por terra. Mostra-se que só não há alternativas porque o sistema político democrático foi levado a deixar de discutir as alternativas. Como foram expulsas do sistema político, as alternativas irão entrar cada vez mais frequentemente na vida dos cidadãos pela porta dos fundos das crises pandémicas, dos desastres ambientais e dos colapsos financeiros. Ou seja, as alternativas voltarão da pior maneira possível.

A fragilidade do humano. A rigidez aparente das soluções sociais cria nas classes que tiram mais proveito delas um estranho sentimento de segurança. É certo que sobra sempre alguma insegurança, mas há meios e recursos para os minimizar, sejam eles os cuidados médicos, as apólices de seguro, os serviços de empresas de segurança, a terapia psicológica, as academias de ginástica. Este sentimento de segurança combina-se com o de arrogância e até de condenação para com todos aqueles que se sentem vitimizados pelas mesmas soluções sociais. O surto viral interrompe este senso comum e evapora a segurança de um dia para o outro. Sabemos que a pandemia não é cega e tem alvos privilegiados, mas mesmo assim cria-se com ela uma consciência de comunhão planetária, de algum modo democrática. A etimologia do termo pandemia diz isso mesmo: todo o povo. A tragédia é que neste caso a melhor maneira de sermos solidários uns com os outros é isolarmo-nos uns dos outros e nem sequer nos tocarmos. É uma estranha comunhão de destinos. Não serão possíveis outras?

Os fins não justificam os meios. O abrandamento da actividade económica, sobretudo no maior e mais dinâmico país do mundo, tem óbvias consequências negativas. Mas tem, por outro lado, algumas consequências positivas. Por exemplo, a diminuição da poluição atmosférica. Um especialista da qualidade do ar da agência especial dos EUA (NASA) afirmou que nunca se tinha visto uma quebra tão dramática da poluição numa área tão vasta. Quererá isto dizer que no início do século XXI a única maneira de evitar a cada vez mais iminente catástrofe ecológica é por via da destruição massiva de vida humana? Teremos perdido a imaginação preventiva e a capacidade política para a pôr em prática?

É também conhecido que, para controlar eficazmente a pandemia, a China accionou métodos de repressão e de vigilância particularmente rigorosos. É cada vez mais evidente que as medidas foram eficazes. Acontece que a China, por muitos méritos que tenha, não tem o de ser um país democrático. É muito questionável que tais medidas pudessem ser accionadas ou accionadas com igual eficácia num país democrático. Quer isto dizer que a democracia carece de capacidade política para responder a emergências? Pelo contrário, The Economist mostrava no início deste ano que as epidemias tendem a ser menos letais em países democráticos devido à livre circulação de informação. Mas como as democracias estão cada vez mais vulneráveis às fake news, teremos de imaginar soluções democráticas assentes na democracia participativa ao nível dos bairros e das comunidades e na educação cívica orientada para a solidariedade e cooperação, e não para o empreendedorismo e competitividade a todo custo.

A guerra de que é feita a paz. O modo como foi inicialmente construída a narrativa da pandemia nos media ocidentais tornou evidente a vontade de demonizar a China. As más condições higiénicas nos mercados chineses e os estranhos hábitos alimentares dos chineses (primitivismo insinuado) estariam na origem do mal. Subliminarmente, o público mundial era alertado para o perigo de a China, hoje a segunda economia do mundo, vir a dominar o mundo. Se a China era incapaz de prevenir tamanho dano para a saúde mundial e, além disso, incapaz de o superar eficazmente, como confiar na tecnologia do futuro proposta pela China? Mas terá o vírus nascido na China? A verdade é que, segundo a Organização Mundial da Saúde, a origem do vírus ainda não está determinada. É, por isso, irresponsável que os meios oficiais dos EUA falem do “vírus estrangeiro” ou mesmo do “coronavírus chinês”, tanto mais que só em países com bons sistemas públicos de saúde (os EUA não são um deles) é possível fazer testes gratuitos e determinar com exactidão os tipos de influenza ocorridos nos últimos meses. Do que sabemos com certeza é que, muito para além do coronavírus, há uma guerra comercial entre a China e os EUA, uma guerra sem quartel que, como tudo leva a crer, terá de terminar com um vencedor e um vencido. Do ponto de vista dos EUA, é urgente neutralizar a liderança da China em quatro áreas: o fabrico de telemóveis, as telecomunicações da quinta geração (a inteligência artificial), os automóveis eléctricos e as energias renováveis.

A sociologia das ausências. Uma pandemia desta dimensão causa justificadamente comoção mundial. Apesar de se justificar a dramatização é bom ter sempre presente as sombras que a visibilidade vai criando. Por exemplo, os Médicos Sem Fronteiras estão a alertar para a extrema vulnerabilidade ao vírus por parte dos muitos milhares de refugiados e imigrantes detidos nos campos de internamento na Grécia. Num desses campos (campo de Moria) há uma torneira de água para 1300 pessoas e falta sabão. Os internados não podem viver senão colados uns aos outros. Famílias de cinco ou seis pessoas dormem num espaço com menos de três metros quadrados. Isto também é Europa – a Europa invisível.

Domenico De Masi: Coronavírus anuncia revolução no modo de vida que conhecemos

Em tradução de Francesca Cricelli, publicado originalmente no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo


Domenico De Masi relata drama na Itália e diz que lógica neoliberal tem que mudar

[RESUMO] Sociólogo italiano narra situação dramática em seu país e argumenta que as imposições em decorrência da pandemia, como o trabalho em casa, a solidariedade e o papel da esfera pública, demonstram que é possível e desejável mudar a lógica mercadista da economia e criar modos de viver mais racionais e proveitosos para o mundo contemporâneo.

Florença em quarentena no dia 15 de março – dia de manifestações bolsonaristas no Brasil – em registro do fotógrafo brasileiro Jean Laverdi

A Itália de onde escrevo, um dos países mais vivazes e alegres do mundo, é hoje apenas um deserto. Cada um dos seus 60 milhões de habitantes acha que é imortal, que o vírus não o tocará, que irá matar não ele mas alguma outra pessoa. Porém, no silêncio do seu coração, cada um sabe que essa ilusão é pueril e que essa pandemia misteriosa, abstrata e tangível ao mesmo tempo, escolhe suas vítimas ao acaso, como numa roleta russa.

Em algum tempo vamos saber se o vírus pode ser debelado ou se nos matará em massa, assim como fez no século passado a famosa gripe espanhola, que matou 1 milhão de pessoas por semana durante 25 semanas seguidas.

Moro há 50 anos no centro de Roma, na rua mais movimentada da cidade, que leva da praça Veneza à Basílica de São Pedro.

Normalmente, essa rua está 24 horas por dia entupida de trânsito, de turistas e peregrinos. Há duas semanas, está muda e deserta. Só de vez em quando ouve-se o grito de uma sirene de ambulância e algum sem-teto passa. A cidade inteira está fantasmagórica como a Los Angeles de “Blade Runner”. Aqui, porém, desapareceram até os replicantes extraterrestres.

Fechados os lugares públicos, as escolas, as fábricas, as lojas, as estações, os portos e os aeroportos, a Itália é agora um país separado do resto da Europa e do mundo. Cada cidade está parada, cada família trancafiada em casa. Quem sai à revelia dos pouquíssimos motivos permitidos é interceptado imediatamente pelas rondas policiais que aplicam penas bastante severas.

Os gregos antigos consideravam que, quando algo é indispensável e todavia impossível, a situação é trágica. Foram necessários 50 dias, milhares de doentes e mortos para que os italianos entendessem que a situação é, enfim, irremediavelmente trágica.

O que significa uma pandemia como essa para Roma, para a Itália, para a humanidade como um todo? Como ela age nas mentes e nos corações de todos nós que, armados com tecnologias poderosas e inteligência artificial, até poucas semanas atrás nos sentíamos os senhores do céu e da terra?

Subitamente nos descobrimos frágeis pigmeus diante da onipotência imaterial de um vírus que, por vias misteriosas, escapou de um morcego chinês para vir matar homens e mulheres em nossas cidades.

A sujeição a um vírus desconhecido, para o qual não há nem cura nem vacina, transformou a Itália numa enorme caserna blindada e os 60 milhões de italianos noutros tantos dóceis soldadinhos empenhados num gigantesco exercício militar no qual estão obrigados a aprender a verdade que antes ignoravam obstinadamente. O que não quer dizer que irão apreendê-la.

Numa Europa onde, até ontem, era permitida a livre circulação de pessoas, mercadorias e dinheiro, agora cada país, em vez de abraçar uma colaboração ainda mais solidária com os demais, tranca suas próprias fronteiras, iludindo-se de forma cínica e infantil que seja possível deter o vírus com barreiras aduaneiras.

Contudo, hoje, mais do que nunca, os soberanismos parecem tentativas fantasiosas contra a globalização. Hoje, mais do que nunca, a difusão da pandemia e sua rápida volta ao mundo demonstraram que deter a globalização é como se opor à força de gravidade. Nosso planeta já é aquela “aldeia global” da qual falava McLuhan, unida por infortúnios e pela vontade de viver, precisando de uma direção unitária, capaz de coordenar a ação sinérgica de todos os povos que desejam se salvar. Nessa aldeia global, nenhum homem, nenhum país é uma ilha.

Talvez tenhamos aprendido que o caso agora é de vida ou morte e que ninguém pode enfrentar sozinho um vírus tão ardiloso e potente. Por isso, são necessários recursos, inteligências, competências, ações e instituições coletivas. Coordenação e coesão geral. É necessária uma cabine de comando, um governo competente que tenha autoridade, uma equipe formada por um vértice político de grande inteligência e apoiada pelos máximos representantes das ciências médicas, da economia, da sociologia, da psicologia social e da comunicação.

Talvez tenhamos aprendido que os fatos e os dados devem prevalecer sobre as opiniões, a competência reconhecida deva prevalecer sobre o simples bom senso, a prudência e a gradualidade das intervenções devem prevalecer às tomadas de decisões arrogantes e à improvisação imprudente. Por outro lado, é necessário tolerar os erros de quem possui a responsabilidade terrível de tomar decisões, líder que deve ser generosamente amparado para que sejam melhoradas.

Talvez tenhamos aprendido que, perante um vírus desconhecido, assim como diante de um problema complexo, as decisões sobre a pandemia não apenas devem ser tomadas pelas pessoas competentes mas também ser comunicadas de forma unívoca, com autoridade, prontamente, de forma abrangente e clara. Todo o alarmismo, todo o exagero, toda a subestimação é terrível porque confunde as ideias e nos faz perder um tempo precioso. Carência e excesso de informações são parâmetros nocivos. Talk shows superficiais e fake news delirantes levam ao cinismo e à desumanização.

Talvez tenhamos aprendido que, nos países civilizados, o bem-estar é uma conquista irrenunciável. Por sorte e pela sabedoria dos nossos pais, a Constituição italiana de 1948 considera a saúde como um direito fundamental de cada ser humano. Já a reforma sanitária de 1978 instituiu um serviço nacional universal que considera a saúde não como meramente a ausência de doença, mas como o bem-estar físico, psíquico e social completo.

Graças a esse regime de saúde, todos os residentes (e também os turistas) fruem dos cuidados médicos sem qualquer custo. Isso nos possibilitou descobrir e curar prontamente os contágios e reduzir o número de mortes.

No país mais rico e mais poderoso do mundo, os EUA, onde o bem-estar é estupidamente mortificado, os suspeitos de Covid-19 precisam desembolsar o equivalente a 1.200 euros pelo teste. O vírus corona, ao se difundir, causaria uma verdadeira hecatombe entre 90 milhões de estadunidenses que, desprovidos de seguro-saúde, seriam cinicamente rejeitados pelos hospitais.

A propaganda neoliberal, que se alastrou sob a bandeira insana de Reagan e Thatcher, desacreditou tudo o que é público em favor do setor privado. Porém, pelo contrário, nessas semanas trágicas, a reação eficiente dos hospitais e dos funcionários públicos diante do surgimento da pandemia nos ensinou que a nossa saúde pública, da mesma forma que outras funções públicas, dispõe, muito mais do que o setor privado, de pessoas preparadas profissionalmente, motivadas e generosas até o heroísmo.

Toda noite, às 18h, todas as janelas da Itália se escancaram e cada um canta ou toca o hino nacional para agradecer aos médicos e a todos os profissionais da saúde.

A pandemia está nos ensinando que o pensamento de Keynes permanece precioso. Em 1980, o prêmio Nobel Robert Lucas Jr. observou: “Não é possível encontrar nenhum bom economista com menos de 40 anos que se diga ‘keynesiano’. Nas universidades, as teorias keynesianas não são levadas a sério e provocam sorrisinhos de superioridade”.

Hoje, essa crise histórica, com seus mortos e com suas tragédias, se porum lado nos leva à recessão, por outro nos lembra que, para evitar uma crise irreparável, em vez de políticas de austeridade, é preferível dar lugar aos investimentos públicos maciços e “open-ended”, ainda que isso leve ao déficit público.

Talvez tenhamos aprendido tudo isso e várias outras coisas com aquilo que ocorreu fora do recinto doméstico, isto é, entre o governo e todo o povo do país. Entretanto, hoje, a nossa vida está segregada entre as paredes domésticas. Todos estão restritos entre as quatro paredes da própria casa: não só as famílias que vivem em harmonia e acordo, mas também os solitários, os casais em crise e os núcleos familiares em que o diálogo entre pais e filhos há muito tempo andava claudicante.

A sociedade industrial nos habituara a separar o local de trabalho do local de vida, nos fazendo passar a maior parte do nosso tempo com chefes e colegas nas empresas: os que a sociologia chama de grupos “secundários”, frios, formais, nos quais as relações são quase exclusivamente profissionais. Uma parte mínima do nosso tempo nos via reunidos em família ou com os amigos, ou seja, com grupos “primários”, calorosos, informais, envolventes.

De repente, o descanso compulsório em casa nos obrigou de forma inédita ao isolamento total, a uma convivência forçada que para alguns parece agradável e tranquilizadora, mas que para outros é invasiva e até opressora. Os mais sortudos conseguem transformar o ócio depressivo em ócio criativo, conjugando a leitura, o estudo, o lúdico com a parcela de trabalho que é possível desempenhar em regime de “smart working”.

Sabíamos teoricamente que essa modalidade de trabalho à distância permite aos trabalhadores uma preciosa economia de tempo, dinheiro, stress e alienação; e às empresas, evita os microconflitos, despesas na manutenção do local de trabalho e promove incremento da eficiência, recuperando de 15 a 20% da produtividade; à coletividade, evita a poluição, o entupimento de trânsito e despesas de manutenção das estradas.

Agora que 10 milhões de italianos, forçados pelo vírus, rapidamente adotaram o teletrabalho, minimizando seu sentimento de inutilidade e os danos à economia nacional, nos perguntamos por que as empresas não haviam adotado antes uma forma de organização tão eficaz e enxuta. A resposta está naquilo que os antropólogos definem como “cultural gap” —lacuna cultural— das empresas, dos sindicatos, dos chefes.

O tempo livre que, até um mês atrás, nos parecia um luxo raro, hoje abunda. O espaço, que nas cidades vazias se dilatou, por sua vez falta nas casas. Por isso, estamos apreciando a ajuda que nos chega da internet, graças à qual, mesmo permanecendo forçosamente distantes, é possível nos reunirmos virtualmente, nos informarmos, nos confrontarmos, nos encorajarmos.

Nessa reclusão, os jovens têm a maior vantagem, graças à sua facilidade com os computadores, enquanto os velhos têm mais vantagem por serem mais independentes, mais acostumados a estar em casa, fazendo pequenos trabalhos e jogos sedentários, contentando-se com a televisão.

Em todos se insinua o medo de que, mais cedo ou mais tarde, possa terminar o abastecimento dos mantimentos. O colapso da economia torna-se cada vez mais inevitável, já que tanto a produção como o consumo encontram-se bloqueados.

Há alguns anos, Kennet Building, um dos pais da teoria geral dos sistemas, comentando a sociedade opulenta, afirmou: “Quem acredita na possibilidade do crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou é economista”. E Serge Latouche acrescentou: “O drama é que agora somos todos mais ou menos economistas. Aonde estamos nos encaminhando? Diretamente contra um muro. Estamos a bordo de um bólido sem piloto, sem marcha a ré e sem freios que irá se chocar contra os limites do planeta”. Latouche propõe abandonar a sociedade de consumo com um decrescimento planificado, progressivo e sereno.

A marcha a ré e os freios que a cultura neoliberal se recusou obstinadamente a usar agora foram desencadeados: não graças a uma revolução violenta, mas sim a um vírus invisível que um morcego soprou sobre a sociedade opulenta, obrigando-a a se repensar.

“A Peste” (1947), obra-prima profética de Albert Camus, talvez possa nos ajudar nesse repensar. Naquele romance, a ciência era protagonista, ou seja, o médico Bernardo Rieux, ocupado até o fim, como médico e como homem, de socorrer os contagiados, enquanto “o cheiro de morte emburrecia todos os que não matava”.

Hoje, nós também, como o nosso tão humano irmão Rieux, estamos presos num limbo entre o pesar e a esperança, no qual temos que aprender que “a peste pode vir e ir embora sem que o coração do homem seja modificado”; que “o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, que pode permanecer adormecido por décadas nos móveis e nas roupas, que espera pacientemente nos quartos, nas adegas, nas malas, nos lenços e nos papéis, que talvez chegue o dia em que, infortúnio ou lição aos homens, a peste acordará seus ratos para mandá-los morrer numa cidade feliz”.

Maria Adélia de Souza: Geografia e Pandemia

A professora Maria Adélia de Souza, nos últimos dias, está publicando pequenos vídeos sobre o assunto em seu canal do YouTube, que compartilhamos a seguir:

15/03 Primeiro vídeo para ir formulando um esboço de uma interpretação geográfica da pandemia que semeia o pânico no mundo. O que a Geografia tem a dizer? Por que começa na China? Se ele se transmite por contato, ele foi criado e implantado? Por que na China? Podem ser produtos científicos? Quem os produz? Onde? Quais interesses? As Geografias contam? Com a palavra a China – império global vencedor e os Estados Unidos, criador de guerras inclusive químicas no século passado! Questões geográficas!


18/03 Trazendo os conceitos de ESPAÇOS OPACOS, com carências de toda ordem, especialmente de equipamentos e serviços de interesse coletivo, espaço dos pobres que caracterizam as grandes cidades e metrópoles do mundo pobre e, os ESPAÇOS LUMINOSOS, característica do MEIO TÉCNICO-CIENTIFICO INFORMACIONAL, expressão capitalista do USO DO TERRITÓRIO nesta atualidade, espaço dos ricos, com altas densidades técnicas, de redes técnicas (rodovias, infovias, vias urbanas asfaltadas,etc.), equipamentos e serviços de toda ordem: água, esgoto, luz, etc. etc.


20/03 Aprofundando a compreensão sobre a difusão e contaminação do Coronavirus, eventos eminentemente geográficos.


25/03 Este vídeo exibe mais uma reflexão geográfica sobre a Pandemia do Coronavirus que hoje preocupa a população mundial. Nele, exibimos algumas hipóteses, após termos dialogado para preparar este vídeo com a Biologia, a Infectologia, a Geopolítica sobre a localidade e o lugar indicado como origem do primeiro caso de contaminação, a cidade de Wuhan, na Província de Hubei, na extremidade ocidental do região sudoeste da China, indicada por muitas informações, como sendo região central. Proximamente virá o Pandemia 5, detalhando as hipóteses aqui colocadas. A Pandemia é um fenômeno geográfico.


26/03 Aprofundando conceitos geográficos para compreender a questão do surgimento do Coronavirus em Wuhan, provincia de Hubei na China, iniciada no video Geografia e Pandemia 4.


Gilberto Maringoni: A globalização sem limites nos confinou em casa

Publicado originalmente no blog da Boitempo


Toda a lógica societária à qual nos acostumamos desde os anos 1980 se desmanchou no ar nas últimas semanas. Para nós brasileiros, mais exatamente desde o último fim de semana (14/15 de março), quando os números da disseminação do coronavírus mostraram expansão geométrica.

A percepção dessa mudança de lógica é tão abrupta, tão repentina e violenta que afeta nossos sentidos. É como se estivéssemos em um voo acrobático, após dois loopings, um parafuso e um tunô de barril. Com a cabeça meio girada, você leva alguns segundos para perceber onde está o horizonte, de que lado estão o céu e a terra e em que direção ficou a pista para a qual você deve voltar. Isso sem contar, para os novatos, aquela horripilante sensação do cérebro ter trocado de lugar com o estômago.

Ao longo de quatro décadas digerimos a ideia de que a felicidade chegara para todos e haveria um pote de ouro no fim de um ajuste fiscal. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu, em 1995, que assistíamos à chegada de um “Novo Renascimento”.

O mundo teria se globalizado, as informações, a circulação de dinheiro e os limites entre países estariam em dissolução. O Estado-nação seria um conceito anacrônico e a TV a cabo, a internet, o multiculturalismo e uma série de quinquilharias simbólicas vieram para mudar nossas vidas para sempre. Passamos a fazer MBAs e a assistir palestras de conselheiros de mercado vindos de fora – hoje chamam-se coaches – a nos ensinar como ser eficientes e competitivos na vida profissional. Haveria até mesmo um estatuto de cidadania global, que a classe média traduzia como a possibilidade de ir a Miami duas vezes ao ano. Com a queda relativa dos preços de passagens aéreas e a expansão do crédito pessoal após o advento do Plano Real – que nos deu acesso a uma moeda mais valorizada que o dólar -, o planeta estaria ao alcance das mãos. E esse planeta falava inglês, obviamente. Os supermercados ficaram abarrotados de marcas que conhecíamos de filmes e, apesar da qualidade dos vinhos ter melhorado, a vida real seguia na periferia daquele admirável mundo novo, com estatais e serviços públicos privatizados.

*

A crise econômica a partir de 2015, a retração brutal no nível de emprego e a queda de renda cortaram um pouco nossas asas. “Dilma, devolva meu dólar a R$1! Quero voltar à Disney” era a consigna-símbolo dos órfãos irados dos anos petistas.

Mas nada, nada mesmo tem paralelo à trombada dos últimos dias. Se já era difícil materializar a festa das viagens ao exterior – quando até “as empregadas domésticas” lotavam aeroportos (GUEDES, P. Abertura do ano legislativo 2020, revista Voto, BSB, 2020) –, agora as restrições chegam a um nível absurdo. Uma tal bolha estourou.

Não posso sair às ruas. Uma praga invisível me impede. Como a carruagem que vira abóbora de um segundo a outro, deixei de ser global, deixei de ser nacional e sequer sou local. Não sou mais do bairro e nem mesmo da rua. Sou de casa, dessas quatro paredes que me isolam, se eu tiver a sorte de ter casa. “Proibiram-me de percorrer uma cidade, um ponto; mas deixaram-me o universo inteiro”, confinado ao meu aposento por 42 dias, escreveu Xavier de Maistre (1863-1852) em “Viagem à roda de meu quarto”, em 1794.

Como ele, estou agora exilado dentro de casa e cada saída dela é uma expedição aos Martírios, repleta de perigos. Um parêntesis. Sou um “parasita” com emprego público estável, no dizer do mesmo Guedes citado acima. Posso ficar no meu canto com relativo conforto. Nesses dias não tenho de pegar metrôs, trens e ônibus lotados para trabalhar. Fecha parêntesis.

Minha globalização se dá num espaço menor que a aldeia de Tolstói. Falarei de meu cômodo e serei universal. Olharei por essa janela virtual na qual talvez você me leia e tentarei ser global, como toneladas de lixo informativo da grande mídia garantiram incessantemente.

*

Minha globalização agora é pautada por um ser de tamanho infinitesimal que saiu de províncias chinesas, invadiu o sul da Itália – como os árabes no século IX ou os aliados em 1943 -, ganhou a França, a Espanha, Portugal, pedaços da Alemanha e cruzou o Canal da Mancha. Em seguida, atravessou o Atlântico e chegou aos Estados Unidos e ao Brasil.

Meu único consolo mundializado é saber que a essa hora, alguém em Seul, Teerã, Milão, Paris ou Londres está como eu, enfurnado atrás da porta de um barraco, de uma quitinete, de um apartamento ou de uma casa, apavorado por não saber como se proteger de um espectro que ronda a Europa e o mundo.

“Estamos em guerra”, afirmou Emmanuel Macron, na segunda, 16. Britânicos limpam gôndolas de supermercados, como se aguardassem o próximo ataque da Luftwaffe. Até mesmo o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, cujas maiores proximidades com campos de batalha se deram em filmes de Steven Spielberg e Quentin Tarantino, fala em “guerra”. Uma guerra, essa sim, global. Uma guerra, com a lógica que martelaram em nossas cabeças por quarenta anos, vista agora da janela virtual de meu computador.

Uma quantidade oceânica de empregos será destruída em diversos países. Chuta-se algo em torno de 200 milhões. Chuta-se, pois a pandemia não tem parâmetros ou paralelos conhecidos. Botequins, restaurantes, cafés, papelarias, armarinhos, livrarias, pequenos e médios comércios fecharão as portas. A construção civil e a produção entrarão em recesso.

A última doença planetária dessas proporções tem exatamente um século. Foi a gripe espanhola de 1918, que contaminou um quarto da população mundial e matou entre 30 e 50 milhões de pessoas em pouco mais de um ano. Mesmo assim, aquela influenza se difundiu num tempo em que o capitalismo ganhava musculatura para uma arrancada de desenvolvimento no Ocidente, que acabaria na crise de 1929.

*

Estamos no início do turbilhão, sem conhecer ao certo o ciclo vital de um vírus que avança sobre territórios com velocidade inusitada. Projeções sobre sua curva ascendente e descendente são apenas projeções até agora. A invasão está em andamento. Autoridades agora dão graças aos céus por termos os SUS, sistema público de saúde que ainda outro dia queriam privatizar. Só ele pode realizar atendimentos em massa, tratar em rede e mapear o território dominado pela praga.

A doença potencializa o mergulho recessivo – e até depressivo – em economias de baixíssimo crescimento. No Brasil, após cinco anos de recuos sem fim, os próximos meses se afiguram tétricos.

Branko Milanovic, professor da London School of Economics escreveu quinta (19) na Foreign Affairs seu temor de um “colapso social”. Segundo ele:

“O mundo enfrenta a perspectiva de mudança profunda: um retorno à economia natural – ou seja, autossuficiente. Essa mudança é exatamente o oposto da globalização. Enquanto a globalização implica uma divisão do trabalho entre economias díspares, um retorno à economia natural significa que as nações se moveriam em direção à autossuficiência. Esse movimento não é inevitável. […] Mas se a crise continuar, a globalização poderá se desfazer. Quanto mais dura a crise, e quanto mais obstáculos ao livre fluxo de pessoas, bens e capitais, mais esse estado de coisas parecerá normal. […] O movimento para a economia natural seria impulsionado não por pressões econômicas comuns, mas por preocupações muito mais fundamentais, a saber, doenças epidêmicas e medo da morte”.

*

Confinado ao meu quadrado, planejo um contato cada vez mais egoísta e mesquinho com o mundo. Não quero sair, não quero passear, não quero fazer compras. Temo o contágio, a enfermidade e a morte. Almejo apenas uma caverna com geladeira cheia e sinal estável de wi-fi. Um individualismo regressivo, medíocre, tacanho e antissocial. Um ambiente de átomos que não se misturam e não chegam a menos de um metro e meio dos demais.

É muito precipitado e arriscado assegurar que algo mudará na geopolítica mundial quando a irradiação virótica recuar. Ou se mudará a vida em sociedade. Como ficará a percepção de cada um em relação ao seu semelhante? Se a globalização neoliberal até aqui nos fez ver no outro alguém a ser derrotado em uma competição sem fim, a desglobalização conoravírica constrói um outro que pode me contaminar e me levar a morte. Ele agora é minha negação. Ele, o diverso, o de cor de pele diferente, o pobre, o invisível que se torna fantasmagórico. O outro a ser eliminado!

*

A história está em curso. Este eterno episódio de Black Mirror, um presente distópico em que nos metemos, passará algum dia, quem sabe. Ninguém tem ideia de como será o mundo para os que ficarem. A mudança das lógicas espacial, territorial, cultural e afetiva do que virá a ser um ambiente global que nunca aboliu suas fronteiras para seres humanos pode ser estrutural. Para melhor ou para pior.

A resposta não virá da medicina, embora esta seja essencial. Virá da luta política. Virá da possibilidade de invertermos a lógica da globalização do capital especulativo, repetida até a náusea, dada como inevitável e imposta como se fosse a oitava maravilha. There is no alternative! Privatizem, vendam, desinvistam, mercadizem-se.

Esse caminho desembocou no pânico sem fronteiras. É hora de exaltar tudo o que foi tido como pecado mortal desde as duas últimas décadas do século passado. Queremos mais Estado, mais espaço e serviços públicos, mais dinheiro para a produção, para a vida e não para a farra especulativa. Mais Estado! Mais Estado! Mais Estado! É o caminho para se romper o quatro por quatro em que a miragem ultraliberal nos enfiou e para podermos sair da roda dos nossos mesquinhos quartos!

Vencer a bola de ferro home-office precário. Por um world-office mais justo e menos desigual! Disputemos!

David Harvey: Política anticapitalista em tempos de coronavírus

Publicado originalmente na Jacobin Brasil, em tradução de Cauê Segner Ameni

Como argumenta o geógrafo marxista David Harvey, quarenta anos de neoliberalismo deixaram a população totalmente exposta e mal preparada para enfrentar uma crise de saúde pública na escala do coronavírus. As únicas políticas que podem funcionar globalmente terão que vir dos EUA e são muito mais socialistas do que as propostas de Bernie Sanders.


Ao tentar interpretar, entender e analisar o fluxo diário de notícias, tenho a tendência de localizar o que está acontecendo em dois cenários distintos, mas interligados, de como o capitalismo funciona. O primeiro cenário é um mapeamento das contradições internas da circulação e acumulação de capital, à medida que o valor monetário flui em busca de lucro através dos diferentes “momentos” (como Karl Marx os chama) de produção, realização (consumo), distribuição e reinvestimento. Este é o arranjo da economia capitalista como uma espiral de expansão e crescimento sem fim. Fica mais complicado à medida que é analisado, por exemplo, através das rivalidades geopolíticas, desenvolvimentos geográficos desiguais, instituições financeiras, políticas estatais, reconfigurações tecnológicas e a rede em constante mudança de divisões do trabalho e relações sociais.

Eu imagino esse modelo incorporado, no entanto, em um contexto mais amplo de reprodução social (em lares e comunidades), em uma relação metabólica contínua e em constante evolução com a natureza (incluindo a “segunda natureza” da urbanização e do ambiente) e todas maneira de formações culturais, científicas (baseadas no conhecimento), religiosas e sociais contingentes que as populações normalmente criam no espaço e no tempo. Esses últimos “momentos” incorporam a expressão ativa das vontades, necessidades e desejos humanos, o desejo de conhecimento e significado e a busca pela realização em um cenário de mudanças nos arranjos institucionais, nas disputas políticas, nos confrontos ideológicos, nas perdas, nas derrotas, nas frustrações e alienações, todas elaboradas em um mundo de acentuada diversidade geográfica, cultural, social e política. Esse segundo cenário constitui, por assim dizer, minha compreensão prática do capitalismo global como uma formação social distinta, enquanto o cenário é sobre as contradições dentro do mecanismo econômico que alimenta essa formação social ao longo de certos caminhos dentro da sua evolução histórica e geográfica.

Espiral produtiva

Quando, em 26 de janeiro de 2020, li pela primeira vez sobre o coronavírus ganhando espaço na China, pensei imediatamente nas repercussões para a dinâmica global da acumulação de capital. Eu sabia dos meus estudos sobre o modelo econômico que bloqueios e interrupções na continuidade do fluxo de capital resultariam em desvalorizações e que, se as desvalorizações se tornassem generalizadas e profundas, isso sinalizaria o início de crises. Eu também estava ciente de que a China é a segunda maior economia do mundo e que, na prática, resgatou o capitalismo global no período pós-2007–8. Portanto, qualquer impacto na economia chinesa provavelmente teria sérias conseqüências para uma economia global que já estava em péssima condição.

Pareceu-me que o modelo existente de acumulação de capital já estava com muitos problemas. Movimentos e protesto estavam ocorrendo em quase todos os lugares (de Santiago a Beirute), muitos focados no fato de que o modelo econômico dominante não estava funcionando bem para a maioria da população. Esse modelo neoliberal repousa cada vez mais no capital fictício e em uma vasta expansão na oferta de moeda e na criação de dívida. Entretanto, já está enfrentando o problema da demanda por ser insuficiente para realizar os valores que o capital é capaz de produzir.

Como o modelo econômico dominante, com sua legitimidade decadente e saúde delicada, será que ele pode absorver e sobreviver aos impactos inevitáveis ​​de uma pandemia? A resposta dependia fortemente de quanto tempo a interrupção poderia durar e se espalhar, pois, como Marx apontou, a desvalorização não ocorre porque as mercadorias não podem ser vendidas, mas porque não podem ser vendidas a tempo.

Há muito que recusei a ideia de que a “natureza” estivesse fora e separada da cultura, economia e vida cotidiana. Adoto uma visão mais dialética e relacional da relação metabólica com a natureza. O capital modifica as condições ambientais de sua própria reprodução, mas o faz em um contexto de conseqüências não intencionais (como as mudanças climáticas) e no contexto de forças evolutivas autônomas e independentes que estão remodelando perpetuamente as condições ambientais. Deste ponto de vista, não existe um desastre verdadeiramente natural. Os vírus sofrem mutação o tempo todo para ter certeza. Mas as circunstâncias em que uma mutação se torna ameaçadora e fatal dependem das ações humanas.

Existem dois aspectos relevantes para isso. Primeiro, condições ambientais favoráveis ​​aumentam a probabilidade de mutações vigorosas. Por exemplo, é plausível esperar que sistemas de suprimento de alimentos nos subtrópicos úmidos possam contribuir para isso. Tais sistemas existem em muitos lugares, incluindo na China ao sul do Yangtse e o Sudeste Asiático. Em segundo lugar, as condições que favorecem a transmissão rápida através dos organismos hospedeiros variam muito. Populações de alta densidade pareceriam um alvo fácil para o hospedeiro. É sabido que as epidemias de sarampo, por exemplo, apenas florescem em grandes centros populacionais urbanos, mas morrem rapidamente em regiões pouco populosas.

Conforme os seres humanos interagem, se movimentam, se disciplinam ou esquecem de lavar as mãos, as formas como as doenças são transmitidas são afetadas. Nos últimos tempos, a SARS, a gripe aviária e suína parecem ter saído da China ou do Sudeste Asiático. A China também sofreu muito com a peste suína no ano passado, implicando no abate em massa de porcos e o aumento dos preços da carne suína. Não digo tudo isso para indiciar a China. Existem muitos outros lugares onde os riscos ambientais para mutação e difusão viral são altos. A gripe espanhola de 1918 pode ter saído do Kansas e a África pode ter incubado o HIV / AIDS e certamente iniciado o Nilo Ocidental e o Ebola, enquanto a dengue parece florescer na América Latina. Mas os impactos econômicos e demográficos da propagação do vírus dependem de fendas e vulnerabilidades preexistentes no modelo econômico hegemônico.

Não fiquei indevidamente surpreso que o COVID-19 tenha sido encontrado inicialmente em Wuhan (embora não seja conhecido onde ele se originou). Claramente, os efeitos locais são substanciais e, dado que lá era um centro de produção sério, provavelmente haveria repercussões econômicas globais (embora eu não tivesse idéia desta magnitude). A grande questão era como o contágio e a difusão poderiam ocorrer e quanto tempo duraria (até que uma vacina pudesse ser encontrada). Experiências anteriores haviam mostrado que uma das desvantagens do aumento da globalização é como é impossível impedir uma rápida difusão internacional de novas doenças. Vivemos em um mundo altamente conectado, onde quase todo mundo viaja. As redes humanas para potencial difusão são vastas e abertas. O perigo (econômico e demográfico) era que a interrupção durasse um ano ou mais.

Embora houvesse uma queda imediata nos mercados financeiros quando as notícias iniciais foram divulgadas, foi impressionante como os mercados atingiram novos picos no mês seguinte. As notícias pareciam indicar que os negócios estavam normais em todos os lugares, exceto na China. Acreditavam que iríamos experimentar uma reprise da SARS que acabou sendo contida rapidamente e manteve um baixo impacto global, apesar de ter uma alta taxa de mortalidade e criar um pânico desnecessário (em retrospecto) nos mercados financeiros. Quando o COVID-19 apareceu, a reação dominante foi descrevê-lo como uma repetição da SARS, tornando o pânico redundante. O fato de a epidemia ter ocorrido na China, que rapida e implacavelmente se moveu para conter seus impactos, também levou o resto do mundo a tratar erroneamente o problema como algo acontecendo “lá” e, portanto, fora do horizonte (acompanhada por alguns problemas que sinalizam uma visão de xenofobia anti-chinesa em certas partes do mundo). O pico que o vírus colocou na história triunfante do crescimento chinês foi recebido com alegria em certos círculos do governo Trump.

No entanto, histórias de interrupções nas cadeias produtivas globais que passavam por Wuhan começaram a circular no noticiário. Estes foram amplamente ignorados ou tratados como problemas pontuais para determinados produtos ou corporações (como a Apple). As desvalorizações foram locais e particulares e não sistêmicas. Os sinais de queda na demanda do consumidor também foram minimizados, embora empresas como McDonald’s e Starbucks, que tinham grandes operações no mercado interno chinês, precisassem fechar suas portas por um tempo. A sobreposição do Ano Novo Chinês com o surto do vírus mascarou os impactos ao longo de janeiro. A complacência dessa resposta foi mal interpretada.

As notícias iniciais sobre a disseminação internacional do vírus foram ocasionais e episódicas, com um surto grave na Coréia do Sul e em alguns outros pontos críticos como o Irã. Foi o surto italiano que desencadeou a primeira reação mais violenta. O colapso do mercado financeiro, que começou em meados de fevereiro, oscilou um pouco, mas em meados de março levou a uma desvalorização líquida de quase 30% nas bolsas de valores do mundo todo.

A escalada exponencial das infecções provocou uma série de respostas muitas vezes incoerentes e às vezes em pânico. O presidente Donald Trump fez uma imitação do rei Canute diante de uma potencial maré crescente de doenças e mortes. Algumas das respostas parecem estranhas. Ter o Federal Reserve com taxas de juros mais baixas diante de um vírus parecia estranho, mesmo quando se reconheceu que a medida pretendia aliviar os impactos do mercado em vez de impedir o progresso do vírus.

As autoridades públicas e os sistemas de saúde foram, em quase todos os lugares, pegos em flagrante. Quarenta anos de neoliberalismo na América do Norte e do Sul e na Europa deixaram o público totalmente exposto e mal preparado para enfrentar uma crise de saúde pública desse calibre, apesar de sustos anteriores como a SARS e o Ebola fornecerem avisos abundantes e lições convincentes sobre o que seria necessário ser feito. Em muitas partes do suposto mundo “civilizado”, os governos locais e as autoridades regionais, que invariavelmente formam a linha de frente da defesa em emergências de saúde e segurança pública desse tipo, tinham sido privados de financiamento graças a uma política de austeridade projetada para financiar cortes de impostos e subsídios para as empresas e os ricos.

corporativismo da grande indústria farmacêutica tem pouco ou nenhum interesse em pesquisas não remuneradas sobre doenças infecciosas (como toda a categoria do coronavírus que são bem conhecidas desde a década de 1960). A industria farmacêutica raramente investe em prevenção. Tem pouco interesse em investir na prevenção de crises na saúde pública. Adora desenhar curas. Quanto mais doentes estamos, mais eles ganham. A prevenção não contribui para o valor do acionista. O modelo de negócios aplicado à provisão de saúde pública eliminou as capacidades excedentes de enfrentamento que seriam necessárias em uma emergência. A prevenção não é nem uma hipótese de trabalho suficientemente atraente para justificar parcerias público-privadas.

O presidente Trump cortou o orçamento do Centro de Controle de Doenças e dissolveu o grupo de trabalho sobre pandemias no Conselho de Segurança Nacional no mesmo espírito que cortou todo o financiamento de pesquisas, inclusive sobre as mudanças climáticas. Se eu quisesse ser antropomórfico e metafórico sobre isso, concluiria que o COVID-19 é a vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos e abuso nas mãos de um extrativismo neoliberal violento e não regulamentado.

Talvez seja sintomático que os países menos neoliberais, China e Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura, tenham passado melhor pela pandemia do que a Itália. Embora houvesse muitas evidências de que a China lidava mal com a SARS, com muita dissimulação e negação inicial, desta vez o presidente Xi Jinping passou rapidamente a exigir transparência, tanto nos relatórios quanto nos testes, assim como a Coréia do Sul. Mesmo assim, na China, perdeu-se um tempo valioso (apenas alguns dias fazem toda a diferença). O que foi notável na China, no entanto, foi o confinamento da epidemia à província de Hubei, com Wuhan no centro. A epidemia não se mudou para Pequim, nem para o oeste nem para o sul. As medidas tomadas para confinar geograficamente o vírus foram draconianas. Seria quase impossível replicar em outros lugares por razões políticas, econômicas e culturais. Os relatórios que saem da China sugerem que os tratamentos e as políticas não foram nada cuidadosos.

Além disso, a China e Cingapura empregaram seus poderes de vigilância pessoal em níveis invasivos e autoritários. Mas eles parecem ter sido extremamente eficazes em conjunto. Embora as medidas tenham sido acionadas alguns dias antes, os modelos sugerem que muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Esta é uma informação importante: em qualquer processo de crescimento exponencial, existe um ponto de inflexão além do qual a massa ascendente fica totalmente fora de controle (observe aqui, mais uma vez, o significado da massa em relação à taxa). O fato de Trump ter demorado por tantas semanas ainda pode ser oneroso a muitas vidas.

Os efeitos econômicos estão agora fora de controle, tanto na China quanto fora dela. As interrupções no trabalho nas cadeias de produção das empresas e em certos setores se mostraram mais sistêmicas e substanciais do que se pensava inicialmente. O efeito a longo prazo pode ser o de encurtar ou diversificar as cadeias de suprimentos, enquanto se move para formas de produção menos intensivas de mão-de-obra (com enormes implicações para o emprego) e maior dependência de sistemas de produção inteligentes. A ruptura das cadeias produtivas implica demitir ou dispensar trabalhadores, o que diminui a demanda final, enquanto a demanda por matérias-primas diminui o consumo produtivo. Esses impactos no lado da demanda já teriam produzido por si só uma leve recessão.

Mas as maiores vulnerabilidades existiam em outros lugares. Os modos de consumismo que explodiram após 2007–8 caíram com conseqüências devastadoras. Esses modos eram baseados na redução do tempo de rotatividade do consumo. A enxurrada de investimentos em tais formas de consumo teve tudo a ver com a absorção máxima de volumes de capital exponencialmente crescentes em formas de consumismo rápida rotatividade. O turismo internacional foi emblemático. As visitas internacionais aumentaram de US$ 800 milhões para US$ 1,4 bilhão entre 2010 e 2018.

Essa forma de consumismo instantâneo exigiu investimentos maciços em infra-estrutura de aeroportos e companhias aéreas, hotéis e restaurantes, parques temáticos e eventos culturais e etc.. Este local de acumulação de capital está agora morto: as companhias aéreas estão perto da falência, os hotéis estão vazios e o desemprego em massa nas indústrias hoteleira é iminente. Comer fora não é uma boa ideia e restaurantes e bares foram fechados em muitos lugares. Até a comida para viagem parece arriscada. O vasto exército de trabalhadores na economia de freelancers e autônomos ou em outras formas de trabalho precário estão sendo demitido sem meios visíveis de apoio. Eventos como festivais culturais, torneios de futebol e basquete, shows, convenções profissionais e de negócios e até reuniões políticas em torno das eleições estão sendo cancelados. Essas formas de consumismo experiencial “baseadas em eventos” foram encerradas. As receitas dos governos locais foram afetadas. Universidades e escolas estão fechando.

Grande parte do modelo mais avançado no consumismo capitalista contemporâneo é inoperável nas condições atuais. O esforço em direção ao que André Gorz descreve como “consumismo compensatório” (no qual os trabalhadores alienados deveriam recuperar o ânimo através de um pacote de férias em uma praia tropical) foi sabotado.

As economias capitalistas contemporâneas são 70% ou até 80% motivadas pelo consumismo. Nos últimos quarenta anos, a confiança e o sentimento do consumidor tornaram-se a chave para a mobilização da demanda efetiva e o capital tornou-se cada vez mais orientado pela demanda e pelas necessidades. Essa fonte de energia econômica não foi sujeita a flutuações violentas (com algumas exceções, como a erupção vulcânica da Islândia que bloqueou os vôos transatlânticos por algumas semanas). Mas o COVID-19 não está sustentando uma flutuação violenta, mas um colapso onipotente no coração da forma de consumismo dominante nos países mais ricos. A forma espiral de acumulação infinita de capital está entrando em colapso interior, de uma parte do mundo para outra. A única coisa que pode salvá-lo é um consumismo em massa financiado pelo governo, evocado do nada. Isso exigirá socializar toda a economia dos Estados Unidos, por exemplo, sem chamar isso de socialismo.

As linhas de frente

Existe um mito conveniente de que as doenças infecciosas não reconhecem classe social ou outras barreiras e fronteiras sociais. Como muitos dizem, há uma certa verdade nisso. Nas epidemias de cólera do século XIX, a transcendência das barreiras de classe foi suficientemente dramática para gerar o nascimento de um movimento público de saneamento e saúde que se profissionalizou e perdurou até os dias de hoje. Se esse movimento foi projetado para proteger todos ou apenas as classes altas nem sempre foi uma história clara. Hoje, porém, o diferencial de classe e os efeitos e impactos sociais contam uma história diferente. Os impactos econômicos e sociais são filtrados através de discriminações “costumeiras” que estão em toda parte em evidência. Para começar, a força de trabalho que deve cuidar do número crescente de doentes é altamente seccionada por gênero, raça e etnia na maior parte do mundo. Nisso reflete as forças de trabalho baseadas em classe encontradas em, por exemplo, aeroportos e outros setores logísticos.

Essa “nova classe trabalhadora” está na vanguarda e tem o peso de ser a força de trabalho que está com o maior risco de contrair o vírus por meio de seus empregos ou de ser demitida sem ter garantias por causa da contenção econômica imposta pelo vírus. Há, por exemplo, a questão de quem pode trabalhar em casa e quem não pode. Isso aumenta a divisão social, assim como a questão de quem pode se dar ao luxo de se isolar ou se colocar em quarentena (com ou sem pagamento) em caso de contato ou infecção. Da mesma maneira que aprendi a chamar os terremotos na Nicarágua (1973) e na Cidade do México (1995) de “terremotos de classe”, o progresso do COVID-19 exibe todas as características de uma pandemia de classe, de gênero e de raça.

Embora os esforços de mitigação estejam convenientemente ocultos na retórica de que “estamos todos juntos nisso”, as práticas, principalmente por parte dos governos nacionais, sugerem motivações mais sinistras. A classe trabalhadora contemporânea nos Estados Unidos (composta predominantemente por afro-americanos, latino-americanos e mulheres assalariadas) enfrenta a falta de escolha entre contrair a contaminação em nome de cuidar e manter os principais recursos da provisão (como supermercados) abertos ou ficar desempregada sem benefícios (com cuidados de saúde adequados). O pessoal assalariado, como eu, podem trabalhar em casa e receber seus salários, enquanto os CEOs voam em jatos particulares e helicópteros para se isolarem.

As forças de trabalho em muitas partes do mundo são socializadas há muito tempo para se comportarem como bons sujeitos neoliberais, o que significa culpar a si mesmas ou a Deus se algo der errado, mas nunca ousar sugerir que o capitalismo pode ser o problema. Mas mesmo bons indivíduos que defendem o neoliberalismo podem ver que há algo errado com a maneira como esta pandemia está sendo respondida.

A grande questão é: quanto tempo isso vai durar? Pode demorar mais de um ano e, quanto mais tempo, mais desvalorização, inclusive da força de trabalho. Os níveis de desemprego quase certamente subirão para níveis comparáveis ​​aos da década de 1930 na ausência de intervenções estatais maciças que terão que ir contra o mantra neoliberal. As ramificações imediatas para a economia e para o cotidiano social são múltiplas. Mas eles não são todos ruins. Na medida em que o consumismo contemporâneo estava se tornando excessivo, estava se aproximando do que Marx descreveu como “consumo excessivo e consumo insano, alimentando, por sua vez, o monstruoso e a bizarra queda” de todo o sistema.

A imprudência desse consumo excessivo tem desempenhado um papel importante na degradação ambiental. O cancelamento de voos de companhias aéreas e a restrição radical de transporte e movimentação tiveram conseqüências positivas em relação às emissões de gases de efeito estufa. A qualidade do ar em Wuhan está muito melhor, como também ocorre em muitas cidades dos EUA.

Os locais de ecoturismo terão tempo para se recuperar das pegadas ambientais. Os cisnes retornaram aos canais de Veneza. Na medida em que o gosto pelo excesso de consumo imprudente e insensato for reduzido, poderá haver alguns benefícios a longo prazo. Menos mortes no Monte Everest podem ser uma coisa boa. E, embora ninguém diga isso em voz alta, o viés demográfico do vírus pode acabar afetando as pirâmides etárias, com efeitos a longo prazo sobre os encargos da Previdência Social e o futuro da “indústria de assistência médica”. A vida cotidiana diminui e, para algumas pessoas, isso será uma bênção. As regras sugeridas de distanciamento social podem, se a emergência persistir por tempo suficiente, levar a mudanças culturais. A única forma de consumismo que quase certamente se beneficiará com tudo isso é o que eu chamo de economia “Netflix”, que atende a “binge watchers” de qualquer maneira.

Na frente econômica, as respostas foram condicionadas pelo êxodo na crise de 2007–8. Isso implicou uma política monetária ultra-flexível, associada ao resgate dos bancos, complementada por um aumento dramático no consumo produtivo conduzido pela expansão maciça do investimento em infra-estrutura na China. Este último não pode ser repetido na escala necessária. Os pacotes de resgate criados em 2008 focavam nos bancos, mas também envolviam a estatização da General Motors. Talvez seja significativo que, diante do descontentamento dos trabalhadores e do colapso da demanda do mercado, as três grandes montadoras de Detroit estejam fechando, pelo menos temporariamente.

Se a China não pode repetir seu papel de 2007–8, então o ônus de sair da atual crise econômica agora muda para os Estados Unidos e aqui está a ironia final: as únicas políticas que funcionarão, tanto econômica quanto politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que Bernie Sanders possa propor e esses programas de resgate terão que ser iniciados sob a égide de Donald Trump, presumivelmente sob a máscara do “make America Great again”.

Todos os republicanos que se opuseram visceralmente ao resgate de 2008 terão que engolir a seco ou desafiar Donald Trump. Este último, se for sagaz, cancelará as eleições em caráter emergencial e declarará a origem de uma presidência imperial para salvar a capital e o mundo dos “tumultos e revoluções”.

Rogério Haesbaert: Entre a contenção e o confinamento dos corpos-território: reflexões geográficas em tempos de pandemia (II)

Publicado originalmente no Facebook


A atual crise planetária desencadeada pela pandemia do Covid-19 (um tipo de coronavírus) está mergulhada em problemáticas de ordem geográfica. É fundamental avaliarmos nossas categorias à luz do que se passa pelo mundo. O território e os processos de des-reterritorialização nunca foram tão relevantes como agora, no combate à expansão do vírus.

Há um padrão recorrente nas medidas ditas de contenção promovidas por diferentes países, todas elas, em menor ou maior grau, voltadas para o controle da mobilidade daquele que já vinha sendo apontado, principalmente no pensamento decolonial feminista e indígena latino-americano, como nosso primeiro território, o corpo-território – nunca dissociado, é claro, do domínio e apropriação territorial, maior ou menor, do seu entorno.

O controle (e docilização) dos corpos, sabemos bem, é empreitada antiga, e Michel Foucault foi o autor que melhor trabalhou a relação entre corpo e disciplina no mundo moderno. Ele propôs um interessante modelo que opunha as iniciativas de controle da lepra e da peste – o primeiro criando o que sugeri denominar “territórios de reclusão”, com completo isolamento em relação ao restante da sociedade, e o segundo impondo o que chamei de “contenção territorial”, tipo muro-barragem, onde o fechamento é relativo e temporário, e no qual sempre existe alguma forma de ultrapassar a barreira e entrar – ou fugir, dependendo da perspectiva. É esse o caso dos muros fronteiriços, que o migrante sempre se encarrega, de alguma forma, de contornar.

A globalização da pandemia impôs esse jogo entre reclusão ou confinamento e contenção ou barragem em múltiplas escalas. Num mundo moldado pelos territórios-rede onde os corpos se deslocam com muito mais rapidez e intensidade ao longo de circuitos que canalizam fluxos, malhas aéreas à frente, não é nada fácil restaurar os controles do tipo território-zona, em que se pode impedir a mobilidade dentro de áreas de menor ou maior amplitude, como sempre pretendeu fazer (cada vez com menos sucesso) o Estado-nação e suas unidades político-administrativas.

Pois são exatamente as tentativas de retorno a esse controle territorial zonal que se impuseram desde o início no combate à expansão do coronavírus. Como era de se esperar, nesse mundo neoliberal em que vivemos, quem até aqui obteve maior êxito no combate foi um dos Estados mais fortalecidos, a China (há todo um debate sobre a especificidade de um “neoliberalismo chinês”, “variegado” ou “de exceção”, que será impossível tratar aqui). Como foi ali que teve início o processo e identificou-se o foco inicial – a grande metrópole de Wuhan – os esforços foram concentrados inicialmente no bloqueio completo dessa metrópole e na província de Hubei. Ter um único foco geográfico inicial de emissão ajudou muito – ao contrário de outros países, como os Estados Unidos, com focos nos estados de Washington, Califórnia e Nova York.

Um fator que parece decisivo no caso do regime autoritário chinês diz respeito aos dispositivos de controle da informação e vigilância da população, acumulados ao longo do tempo e que têm sua base nos comitês de vizinhança que monitoram cada quarteirão ou pequeno grupo de famílias. Além disso, temos a capacidade organizativa do sistema de saúde estatal e a difusão, por exemplo, do uso de máscaras por praticamente toda a população (sem falar que em algumas cidades já era um hábito usual contra a poluição).

O processo de quarentena que, no caso chinês, alia dinâmicas de contenção e de confinamento, associado à própria natureza autoritária do regime, foi muito mais severo que em outros países. As saídas de casa foram rigidamente controladas – inicialmente saída individual apenas a cada dois dias, depois confinamento total, somente permitida a recepção de alimentos e medicamentos por encomenda. No final, em Wuhan, policiais seguiam de casa em casa para checar as condições de saúde e, em caso de doença, os isolamentos forçados tornaram-se comuns. Reportou-se até mesmo fiscalização do uso de máscaras através de drones, muito comuns como instrumento de vigilância pública.

Um controle fundamental que, este sim, atua diretamente sobre o que denominamos territórios-rede, é o dos fluxos aéreos internacionais. Wuhan é um grande hub aéreo com voos para diversos países da Ásia (Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Emirados Árabes, Austrália, Singapura, Indonésia, Malásia…). Poderia se transformar (como em parte ocorreu) num grande difusor da contaminação. Muitos países, como o Brasil, tiveram um controle muito tardio da principal porta de entrada do vírus: os aeroportos internacionais. Optou-se primeiro pelo controle zonal de algumas fronteiras para só mais tarde atuar sobre o fluxo aéreo, provavelmente sob pressão do forte lobby das empresas aéreas e do setor de turismo. Hoje, diante da chamada “segunda onda” de contaminação, por aqueles que vêm de fora, a China volta a endurecer o controle das chegadas nos aeroportos, impondo quarentena de duas semanas para quem chega ao país.

A partir desse quadro mais empírico da dinâmica chinesa de contenção e confinamento, verifica-se o quanto se torna mais difícil para um país ocidental e, especialmente, de periferias como a América Latina e a África (onde o Covid-19 ainda não chegou pra valer), implementar o mesmo tipo e rigidez de controle territorial. Alguns questionam, frente ao relativo sucesso também de países como Coreia do Sul, Taiwan e Singapura, se a China não teria ido além do necessário. Uma medida comum a explicar o êxito desse bloco de países é, além da disciplina no confinamento e no distanciamento social (menos rígida fora da China), a detecção generalizada da presença do vírus entre as pessoas – já que o maior dilema é a disseminação do vírus por portadores assintomáticos. Detectá-la e isolar seus portadores é decisivo.

Pois é sobre esse isolamento que gostaria de me deter agora. O que vimos nos países europeus e americanos foi uma crítica e rechaço inicial ao caráter excessivamente restritivo das medidas (como continua a pensar o presidente brasileiro, responsabilizando antecipadamente os governadores estaduais pelos reflexos negativos na economia), para depois mudarem radicalmente de opinião e condenarem essas mesmas medidas por seu caráter incipiente, exigindo ainda maior rigor em sua aplicação. A principal delas é a rigidez da quarentena, hoje com amplo apoio popular entre nós, principalmente diante das cenas deploráveis vindas de países com sistemas de saúde relativamente consistentes, como Itália e Espanha.

Uma característica básica dessa pandemia, de importante manifestação geográfica, é que ela, ao sair da China, começa no topo da pirâmide socioeconômica, entre as classes mais privilegiadas – basta ver o mapa de difusão da pandemia até aqui numa metrópole periférica como o Rio de Janeiro, onde afeta inicialmente os bairros mais ricos, de onde chegaram os viajantes internacionais, primeiros portadores do vírus. A grande questão agora é que tipo de dinâmicas de contenção e/ou confinamento territorial são plausíveis em realidades “periférico-coloniais” como as do continente mais desigual do planeta, nossa América Latina. O vírus ainda não atingiu mas está começando a chegar a nossas favelas e villas miseria.

Entrará em ação, como já circulam informações, o aparato paramilitar das milícias a forçar os habitantes das favelas a permanecer em casa? Surtirá efeito propor o isolamento individual quando se sabe que, somente na área metropolitana do Rio de Janeiro, 300 mil domicílios só possuem um quarto para três pessoas ou mais e a maioria são casas geminadas, muitas vezes com corredores e cômodos partilhados?

Voltemos então ao nosso corpo-território: sem dúvida, no contexto da colonialidade do poder latino-americana, mais que discutir medidas de autocontenção territorial, barrando o acesso a favelas (como tentam fazer algumas associações de moradores em comunidades de morros que têm apenas uma, ou poucas entradas), precisamos pensar diretamente naqueles que, mais precarizados, só têm o corpo como território a ser defendido, como espaço sobre o qual ainda tentam manter algum controle – já que nem com um quarto individual em suas casas podem contar. Triste sina, diante de um vírus ardiloso: praticamente impossível “fechar”, controlar sua entrada em nosso corpo quando não se dispõe nem do mínimo, a água e o sabão para a higiene pessoal, como ocorre agora em diversas favelas do Rio.

Sem pintar aqui o quadro sombrio que se anuncia, gostaria de finalizar com uma breve reflexão teórica, entre as muitas evocadas neste texto. A contenção territorial que definimos (no livro “Viver no Limite”) se refere aos macroprocessos socioeconômicos que acabam destinando aos grupos subalternos os territórios mais vulneráveis da cidade – periferias distantes, sem infraestrutura, encostas ecologicamente instáveis, várzeas inundáveis … De qualquer forma, eles aí estão apartados e, de certa forma, “contidos” como se fosse para não “contaminar” o resto da cidade.

Agora, porém, trata-se de uma contenção às avessas. A pandemia, quem diria, veio subverter essa ideia de contenção dos subalternos pelos hegemônicos: são os próprios privilegiados que precisam se autoconter, confinar-se, pois são eles que, inicialmente, no caso latino-americano, “carregam o mal”. Embora muitos tenham solicitado que suas empregadas domésticas ficassem em casa, inúmeros trabalhadores – porteiros, faxineiros, garis, atendentes de supermercados, postos de gasolina e farmácias, sem falar nos profissionais de saúde – devem ter garantida sua mobilidade, ainda que sob condição de grande vulnerabilidade (como nos transportes públicos superlotados do Rio de Janeiro).

Os pouco esclarecidos, entretanto, dizem que o vírus “é democrático”, que “atinge a todos por igual”. O vírus não tem nada de democrático – primeiro, porque afeta de modo mais brutal os já mais frágilizados: idosos, enfermos, incapacitados e, a partir de agora, os pobres; segundo, porque, ao exigir para seu combate a autocontenção (ou reclusão temporária), ela só é realmente possível e segura para os mais ricos, que dispõem de condições para o distanciamento social e o isolamento.

Assim, temos muitas lições geográficas a aprender através dos distintos mecanismos de contenção e confinamento territorial em função da pandemia. Aprendemos que, num mundo “informacional” de tantas tecnologias, ao final, o que realmente continua importando é o nosso corpo-território, o corpo enquanto condição última e inexorável de nossa existência. Seja o padrão da lepra, que nos confina, numa reclusão definitiva, seja o modelo da peste, com sua quarentena de contenção temporária, todos têm no controle dos corpos seu derradeiro alvo. Resta saber, por fim, quem de fato vai continuar exercendo controle sobre o conjunto da população e de seus corpos-territórios. Sem dúvida, uma outra biopolítica, centrada no afeto e no cuidado, urge construir. Uma advertência, apenas: a ilusão com o alegado êxito do modelo autoritário chinês. Ele oculta um padrão totalmente falido de crescimento e consumismo sem freios – além de um monitoramento individual irrestrito – que a pandemia poderia ajudar a destruir (uma utopia).

Rogério Haesbaert: Desterritorialização sem limites: reflexões geográficas em tempos de pandemia (I)

Publicado originalmente no Facebook


Alguns dos mantras do globalismo planetário até aqui dominantes foram: movam-se, viajem, acelerem, cresçam, expandam-se, extraiam (os recursos), consumam, privatizem, flexibilizem (as relações de trabalho), “deslocalizem” (as empresas) … Tudo isso, frente à pandemia de coronavírus, repentinamente se inverteu: parem, não viajem, desacelerem, retraiam-se, não consumam, invistam em políticas públicas, estatizem (empresas em crise) … Aqui, em pleno boom neoliberal, como uma praga, o último mantra a ser contestado ainda não se inverteu: para os trabalhadores continua-se propondo uma flexibilização ainda maior das relações de trabalho, como se estivessem testando até onde vai a resignação dessa massa de (des)empregados extremamente vulneráveis. É como se enquanto os ricos podem parar e se resguardar, os pobres devem continuar em movimento, se arriscando para garantir a nossa sobrevivência.

Há dezessete anos atrás, em “O mito da desterritorialização”, eu escrevi que, ao contrário do que se propagava a partir da Europa e dos Estados Unidos, não estava ocorrendo o “fim dos territórios” (Bertrand Badie), o “fim das fronteiras” e do Estado-nação (Kenichi Ohmae) ou até mesmo o “fim da geografia” (Paul Virilio). Quando se dizia que estávamos em um processo de perda de laços territoriais, utilizava-se muito mal o termo “desterritorialização”, aplicado muito mais aos ricos que se deslocavam com frequência e tinham mais de uma residência (inclusive em países diferentes) do que aos pobres que realmente sofriam a perda do controle sobre seus espaços de vida. Propus então, para os ricos, especialmente os executivos de grandes corporações transnacionais, o termo multiterritorialidade, por terem pleno controle sobre os múltiplos territórios que frequentam, sempre na “bolha móvel” das mesmas cadeias de hotéis, resorts, lojas, restaurantes … Mesmo aí, entretanto, eles dependem de um grande manancial de serviços oferecidos por trabalhadores – em geral migrantes, estes sim, desterritorializados (ou precariamente multiterritorializados).

Num olhar a partir de nossa realidade latino-americana tão desigual, reservei então o termo desterritorialização muito mais para a efetiva perda de controle territorial dos mais pobres, grupos subalternos que lutam cotidianamente por sua sobrevivência. Cheguei a afirmar que um morador em situação de rua, por exemplo, pode fazer da defesa da marquise de um prédio durante a noite o seu território, assim como um presidiário em uma cela superlotada pode fazer de um colchonete seu território durante as poucas horas em que, em revezamento, consegue dormir. Nesse sentido é que desterritorialização pode ser encarada, sobretudo, como precarização dos controles territoriais que garantem nossa própria condição de vida. Dá para imaginar, como resultado mais brutal dessa pandemia, num mundo em que saúde pública nunca foi prioridade, o que ela poderá causar em países de desigualdade histórica tão aviltante como os nossos da América Latina. A começar pelos milhares de moradores em situação de rua, o extremo dessa pirâmide e os mais vulneráveis por serem os que têm menor condição para se isolar ou “se afastar” socialmente.

Chegou-se a afirmar que um mundo fluido e líquido se projetava cada vez mais impetuoso, uma “dádiva” da globalização neoliberal que a tudo consome e refaz, numa reinvenção tecnológica atroz, o tempo inteiro recriando “necessidades desnecessárias” que, estimuladas com os bilhões gastos em publicidade, mesmo endividados, consumimos com vigor. Nessa avidez pelo novo e pelo movimento esqueceu-se, contudo, que o velho pode não morrer e que a fixação e o fechamento são a outra metade, indissociável, da abertura e do movimento. Seria preciso um vírus assassino para nos lembrar essas velhas lições. E também para reforçar nossa tese de que aquela desterritorialização tão decantada, a dos “turistas”, era um mito.

A metáfora dos “turistas” globalizados de Zigmunt Bauman, com o cuidado para não exagerar, também ajuda a compreender a rápida difusão do coronavírus. Para além da metáfora, na última década o número de turistas pelo mundo quase dobrou, atingindo hoje cerca de 1,5 bilhão de pessoas. Se lembrarmos que as migrações internacionais também aumentaram substancialmente nas últimas décadas, atingindo 272 milhões de pessoas em 2019 (ou seja, 3,5% da população mundial, contra 2,8% no ano 2000), percebemos a intensidade da movimentação de nossos corpos pelo planeta. Tudo isso sem falar na enorme mobilidade internacional cotidiana em função do trabalho. E ainda havia quem menosprezasse essa dimensão material, corpórea, da vida humana, em nome de uma virtualização ou desmaterialização generalizada (erroneamente denominada, também, desterritorialização).

Paradoxalmente, quem diria, a grande desigualdade que move o sistema econômico revela-se agora com toda a sua crueza entre aqueles que podem ficar isolados, hipoteticamente “imunizados” nos territórios-abrigo de suas casas, com condições econômicas para se manter aí, e aqueles que, sem a garantia de seus territórios-recurso, são obrigados a atravessar a cidade para assegurar a alimentação, a saúde, a limpeza ou a segurança para toda a população.

Lembrando a distinção que Jean Gottman propôs (depois incorporada por Milton Santos) entre o território como abrigo e o território como recurso, fica patente que é impossível levar nossa vida sem a imbricação dessas duas propriedades. Nossas casas, como último espaço-refúgio, podem nos garantir certo abrigo, protegendo-nos (relativamente) da difusão do vírus, mas essa condição só se realiza de fato pela imbricação com o acesso a múltiplos recursos: a água e o esgoto canalizados, a energia por fios, o telefone por antena, a alimentação que precisamos buscar no supermercado, os medicamentos na farmácia, o combustível para o transporte dessas mercadorias nos postos de gasolina, etc. – cada uma dessas redes com sua própria escala geográfica de articulação.

Há muito se foi o tempo em que estávamos autonomamente “abrigados” em nossas moradas. Muito poucos hoje usufruem desse privilégio. Mas temos outro enorme privilégio do qual raramente nos damos conta. Precisamos nos conscientizar sobre o quanto a segurança de nossas individualistas quarentenas se deve a uma massa de trabalhadores (vulneráveis) que nos garantem o acesso a esses tantos recursos necessários para nossa sobrevivência. Essa pandemia poderia nos ensinar um pouco mais a reconhecer nossa própria fragilidade e o grau de dependência que temos para com os tantos serviços garantidos por esses trabalhadores com os quais deveríamos ter o maior respeito e solidariedade. Ir às janelas aplaudir os profissionais de saúde é um tímido começo.

Em sentido mais amplo, o inédito e avassalador desafio que nos coloca essa pandemia é o de parar – no mínimo desacelerar – ou perecer. Ela escancara o que, para muitos, incompreensivelmente, ainda não parecia suficientemente claro: a falência de um sistema que, em tese, aboliu a ideia de limite e se intitulou soberano do planeta. Como afirmamos num artigo há quatro anos atrás, ao contrário de discursos dominantes, a fluidez da globalização planetária trouxe à tona, ainda com mais força, o debate sobre os limites:

“… limites como restrição, contenção, numa conotação negativa, mas também no sentido de constituírem parte indissociável de nossa dinâmica civilizatória, na medida em que, biopoliticamente falando, o modelo societário hegemônico, baseado na acumulação e/ou no “crescimento” capitalista, colocou em jogo até mesmo nossa sobrevivência enquanto espécie biológica sobre a Terra”.

Caso não se priorizar o pronto combate à precarização e à brutal desigualdade não teremos saída. A defesa da bio e da etnodiversidade do planeta exigem, mais do que nunca, uma cultura e uma política planetárias do comum que prezem, em primeiro lugar, a redução da desigualdade perversa entre os povos da Terra.

Essa parada compulsória, além das muito prováveis convulsões sociais que irá desencadear (já ensaiadas nos protestos recentes pela América Latina e vários cantos do mundo, do Líbano a Hong Kong), poderá trazer à tona uma séria rediscussão dos rumos civilizatórios. Se o Grande Irmão da extrema-direita não se aproveitar da ocasião para impor controles ainda mais perversos, talvez seja esta nossa última chance. A tremenda desterritorialização em termos da precarização social dela resultante será o indicador mais impiedoso de que, ou nos solidarizamos com os mais frágeis e reconhecemos nosso destino comum, ou perecemos todos juntos, pois o barco, mais do que nunca, revelou-se um só, e está afundando. Não haverá trincheira doméstica ou individual capaz de nos proteger desse naufrágio.

Charles Alcantara: Cada um dá o que tem

Charles Alcantara é auditor Fiscal de Receitas do Estado do Pará e presidente da Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco). Publicado originalmente no Portal Vermelho e no Portal da Fenafisco.


Se o país criasse um imposto de apenas 3% ao ano sobre R$ 1,2 trilhão de milionários, seria possível arrecadar R$ 36 bilhões anuais. A bilionária família Marinho defendeu a redução dos salários dos servidores públicos para colaborar com a crise gerada pela pandemia da Covid-19

O Brasil possui 206 bilionários que, juntos, acumulam uma fortuna de mais de R$ 1,2 trilhão.

Esses 206 bilionários pagam proporcionalmente menos impostos que a classe média e os pobres.

Se o país criasse um imposto de apenas 3% por ano sobre a fortuna de R$ 1,2 trilhão, seria possível arrecadar R$ 36 bilhões anuais, valor superior ao orçamento de 1 ano de todo o programa Bolsa-Família.

A soma de toda a riqueza das famílias brasileiras é de cerca de R$ 16 trilhões de reais, estando a quase metade de toda essa riqueza – ou seja, R$ 8 trilhões – nas mãos de apenas 1 % das famílias.

Se o país taxasse o patrimônio trilionário dessas famílias em apenas 1%, seria possível arrecadar R$ 80 bilhões, o que equivale ao valor de toda a receita estimada em 2020 para o Estado de Minas Gerais, o segundo mais populoso do Brasil, com mais de 20 milhões de habitantes.

Façam as contas: R$ 36 bilhões cobrados sobre a renda dos 206 bilionários (+) R$ 80 bilhões cobrados sobre o patrimônio do 1% das famílias mais ricas (=) R$ 116 bilhões.

Esses R$ 116 bilhões a mais nos cofres públicos sequer representam sacrifício para esse punhado de bilionários, mas equivale a praticamente todo o orçamento federal da saúde.

Se chamados a contribuir um pouquinho mais com o país, garanto que nenhum desses bilionários deixaria de frequentar os melhores restaurantes do mundo, satisfazer todos os seus desejos mais extravagantes ou deslocar-se nos seus jatinhos executivos de última geração.

Os donos do jornal O Globo fazem parte dos 206 bilionários e também das famílias brasileiras que detém, juntas, um patrimônio de R$ 8 trilhões.

Em editorial publicado no jornal de sua propriedade, edição desta sexta-feira (20), a bilionária família Marinho defendeu a redução dos salários dos servidores públicos como forma de colaborar com a crise gerada pela pandemia da Covid-19.

A família Marinha não se dispõe a abrir mão de uma parcela insignificante da sua fortuna para ajudar o país, mas se acha no direito de propor que os servidores públicos sejam confiscados em seus salários.

A contribuição em termos monetários que O Globo se dispôs a oferecer ao país num momento tão dramático foi um editorial indigno, desonesto e covarde.

Cada um dá o que tem, não é mesmo?

Nota de repúdio da AGB-Rio ao editorial de O Globo de 20 de março de 2020

Leia o Editorial de O Globo de 20 de março de 2020

Baixe a nota de repúdio em PDF

A AGB-Rio vem a público manifestar o seu repúdio ao irresponsável e nada imparcial editorial do jornal O Globo, de 20 de março de 2020. De mãos dadas com os interesses do atual ministro da Economia do governo Bolsonaro e do capital financeiro, o referido jornal faz coro com a fragilização das condições trabalhistas dos trabalhadores brasileiros. Em vez de realizar um exercício de real compreensão da complexidade e das opções políticas do governo com relação à destinação dos recursos públicos, o jornal propõe a redução dos salários dos servidores públicos neste momento de crise. Com uma cínica argumentação de defesa de justiça, o periódico defende que a cruel medida proposta pelo Governo Federal para o setor privado, de redução salarial, também seja aplicada aos servidores públicos. Ou seja, argumenta por justiça e igualdade no prejuízo aos trabalhadores, chamando os servidores públicos de “intocáveis”, mas esconde os reais intocáveis da atual política de ajuste fiscal, o capital financeiro.

Este editorial ataca os direitos dos trabalhadores sob a retórica de responsabilização dos mesmos a respeito da fragilidade do sistema de saúde brasileiro, e esconde os desdobramentos nefastos à economia que tal medida proposta pelo jornal levaria. É abissal a distância entre tal afirmação e a realidade dos fatos, sobretudo em um país que destina mais de 40% do seu orçamento com juros e amortização da dívida pública (fonte: auditoriacidada.org.br), e figura ainda entre os 10 países do mundo com as maiores taxas de juros reais. O jornal prefere colocar a culpa nos servidores públicos e atacá-los, em vez de apontar que o atual governo com suas reformas liberais favorece os interesses do capital financeiro, não priorizando a geração de postos formais de emprego – o que levaria ao maior recolhimento de impostos, aumento do poder de consumo da população e à “saúde” da economia nacional (e não apenas de uma fração de classe).

Em vez de propor a manutenção (ou construção) de políticas capazes de garantir a saúde, segurança, o emprego e a sobrevivência da população, o jornal defende a retirada de direitos e a penalização de parte significativa dos trabalhadores brasileiros. São esses servidores públicos e sua estabilidade que garantirão o mínimo de condições de funcionamento de estabelecimentos comerciais e dos serviços, pois terão condições de pagar suas contas em dia e poderão continuar pagando seus prestadores de serviços em um contexto em que grande parte da população estará desamparada – pois seus direitos foram por anos seguidos atacados e retirados, sendo jogados em condições de subemprego, negociação direta com os patrões (como se houvesse condições de igualdade nessa negociação), informalidade e, agora, mesmo os que ocupam postos formais de emprego, enfrentarão a possibilidade de redução salarial justificada pela pandemia. Sem o funcionalismo público e a sua estabilidade a economia nacional quebra, e não o contrário.

É sabido que não há imparcialidade no jornalismo, mas deveria haver limites éticos. O referido jornal promove a desinformação quando utiliza um momento de crise e apreensão por uma situação nunca antes vivida em escala global, para capitalizar o medo das pessoas em prol dos interesses privados, defendendo posicionamentos com baixa complexidade analítica.

O estudo Três Décadas de Evolução do Funcionalismo Público no Brasil (1986-2017) mostrou que o pagamento do funcionalismo público representa somente 10,5% do PIB (dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)). Segundo dados do DIEESE, o país está longe de comprometer suas contas por causa da folha de pagamento, pois destina menos de 50% de sua receita corrente líquida à folha da União (limite, determinado pela Lei de Responsabilidade Fiscal). Os dados do Relatório Resumido de Execução Orçamentária de dezembro de 2019 nos mostram que o governo gastou somente 34% da Receita Corrente Líquida da União.

Além disso, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que o Brasil figura entre os países que têm menos servidores públicos em relação ao total de pessoas empregadas e em relação à população economicamente ativa.

Promover o terrorismo com argumentos difamatórios que colocam os servidores públicos como responsáveis pela falência do serviço público de saúde é promover, escancaradamente, mitos liberais que escondem as origens da crise do setor, criada por políticas de enfraquecimento do Estado, em especial a Emenda do Teto de Gastos que enfraquece os serviços públicos e abre caminhos para que o orçamento público reserve mais fatias para a iniciativa privada.

Isto posto, sugerimos que no lugar de criar recursos discursivos para ludibriar a população brasileira colocando-a contra os servidores públicos, destinem sua atenção às reais incongruências da política econômica governamental. Se houver de fato alguma intenção em informar a população, defendam os seus interesses promovendo jornalismo de qualidade e que apresente a complexidade das situações expostas, sem invisibilizar dados que não sustentam os seus argumentos.

Fazer justiça não é generalizar a precarização e a retirada de direitos, fazer justiça é destinar os recursos públicos para amparar a população neste momento de grave crise, em vez de continuar a remunerar regiamente os rentistas.

Fazer justiça é instituir o imposto sobre grandes fortunas (como a da família Marinho) e utilizar estes recursos para fortalecer o SUS e garantir uma renda mínima para cada brasileiro para que ninguém morra por falta de dinheiro para comprar comida, sabonete ou remédio.

Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Local Rio de Janeiro

COVID-19: XX ENG e o coronavírus

A Diretoria Executiva Nacional da Associação dos Geógrafos Brasileiros acaba de publicar, na noite desta quarta-feira, 18 de março, o seguinte comunicado:

Saudações AGBeanas,

Como sabem o Brasil passa pelo início da pandemia de Covid-19 (Corona Vírus). Até a presente data, em todo território nacional somam-se 372 casos já confirmados pelas secretarias de Saúde dos estados, mais de 2 mil aguardando confirmação e 5 mortes.

Ocorre que a cidade de São Paulo – que vai sediar o XX encontro Nacional de Geógrafas e Geógrafos, previsto para ocorrer entre 13 a 17 de julho na USP – é o epicentro da disseminação (156 casos e 3 mortes) do Covid-19 no país.

A situação é grave e merece que a encaremos com seriedade e responsabilidade. Para manter a segurança de todas/os estamos em constante contato com a USP e seguindo todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde, Governo do Estado de São Paulo, Prefeitura de São Paulo e demais órgãos responsáveis.

Como o encontro ocorrerá em Julho, as recomendações sobre a manutenção ou adiamento do XX ENG tem sido esperar para ver como a pandemia vai evoluir em nosso país. Destacamos, que em caso de adiamento, disponibilizaremos – para aqueles que não puderem participar na nova data – a opção de reembolso da inscrição.

Como primeira medida para não prejudicar as/os futuras/os encontristas, informamos que o prazo para a submissão de resumos para EDPs será adiado para o dia 03 de abril de 2020. Essa medida se justifica pois com as medidas de restrição de deslocamento, muitas seções locais não conseguiram fazer os plantões de associações (e renovações) de 2020.

Ressaltamos que o Encontro Nacional de Geógrafas/os é o maior encontro da Geografia brasileira e continuamos (DEN, Seções Locais e Comissões) nos empenhando na organização do XX ENG. Aproximem-se das Seções Locais, associem-se, inscrevam-se no evento, enviem trabalhos (EDPs), fiquem atentas/os aos prazos e acima de tudo, se cuidem.

Nos próximos dias retornaremos com novas informações.

Esperamos a compreensão de todas(os) e a ouvidoria (no site do ENG) está à disposição em caso de dúvidas.


Atenciosamente,
Coletivo Diretoria Executiva Nacional
2019-2020

COVID-19: DEN cancela 141ª RGC em São Paulo

A Diretoria Executiva Nacional da Associação dos Geógrafos Brasileiros cancelou a 141ª Reunião de Gestão Coletiva, marcada para os dias 10 a 12 de abril, em São Paulo, que trataria, entre outros assuntos, da organização do XX Encontro Nacional de Geógrafos. O evento está marcado para acontecer na mesma cidade, entre 13 e 17 de julho. Leia a nota:


Saudações AGBanas,

Como sabem o Brasil passa pelo início da pandemia de Covid-19 (Corona Vírus), em todo território nacional soma-se 230 casos já confirmados e mais de 2.000 aguardando confirmação.

Quem vem acompanhando a organização da AGB Nacional está ciente que a 141° Reunião de Gestão Coletiva (RGC) ocorreria entre os dias 10 e 12 de abril de 2020 na cidade de São Paulo.

Ocorre que São Paulo é o epicentro da disseminação  (152 casos) do Covid-19 no país e estima-se que nos próximos meses cerca de 40 mil pessoas contrairão o vírus em sua região metropolitana.

A situação é grave e merece que a encaremos com seriedade. Nesse momento é essencial diminuirmos a circulação do vírus e cuidar do bem estar e da saúde dos mais vulneráveis.

A implementação de estratégias de isolamento social estão entre as medidas temporárias e emergenciais de prevenção de contágio pelo Covid -19 de maior eficácia recomendadas pela Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde, Governo do Estado de São Paulo, Prefeitura de São Paulo e demais orgãos competentes.

Dessa maneira, nós da Diretoria Executiva Nacional em contato com a Seção Local São Paulo seguiremos a recomendação das instituições competentes e acataremos a ideia do isolamento social, portanto, decidimos por adiar a referida RGC.

Os acontecimentos em torno do desenvolvimento da pandemia são muito dinâmicos e no momento não somos capazes de propor um indicativo de nova data.

Porém, ressaltamos que continuamos nos empenhando (DEN, Seções Locais e Comissões) na organização do XX Encontro Nacional de Geógrafas e Geógrafos.

Nos próximos dias retornaremos com novas informações.

Esperamos a compreensão de todas (os) e estamos a disposição em caso de dúvidas.

Atenciosamente,
Coletivo DEN 2019-2020

COVID-19: comunicado sobre o funcionamento da sede da AGB-Campinas

Informamos que o funcionamento de nossa sede está interrompido devido à execução do plano de contingência do Instituto de Geociências da Unicamp. As medidas preventivas preveem o fechamento do edifício de 13 a 29 de março de 2020, em função da suspensão de parte das atividades da Universidade neste período como parte dos esforços frente à pandemia do novo coronavírus (COVID-19).

A comunicação com a Diretoria da AGB-Campinas, especialmente com a Secretaria e a Tesouraria, deverá ser feita pelo e-mail secretaria@agbcampinas.com.br e a quitação de anuidades poderá ser feita conforme instruções publicadas em nossa página.

Diretoria Executiva Local da AGB-Campinas

13 de março de 2020

Envie seu resumo para o XX ENG até dia 18 de março

Informamos que o prazo para envio dos resumos aos espaços de diálogos e práticas (EDP) foi prorrogado até 18 de março de 2020.

Os aceites dos trabalhos aprovados serão divulgados até a data de 05 de abril de 2020.

Saiba mais sobre as normas de submissão dos EDPs, clique aqui.

Atualização: o prazo foi prorrogado novamente até 3 de abril de 2020.

Centro de Memória da Unicamp abre vagas de estágio para estudantes de Geografia!

Estão abertas as inscrições para estágio no Centro de Memória da Unicamp (CMU), entre os dias 09/03/2020 a 23/03/2020. O Processo seletivo 33/2020 prevê uma vaga. Podem se candidatar estudantes do curso de e Geografia, História, Letras, Linguística, Estudos Literários , em Instituição de Ensino Superior reconhecida pelo MEC, que no 1º semestre do ano de 2020 esteja cursando a partir do 2º semestre do curso.

O estágio tem duração de um ano, podendo ser prorrogado por mais um, com dedicação de 20 horas semanais e remuneração de R$ 601,43 (seiscentos e um reais e quarenta e três centavos), além de auxílio transporte.

As atividades de estágio envolvem conservação e preservação de documentos, digitalização de documentos, atendimento a pesquisadores, descrição, organização de documentos e inserção das descrições em base de dados

Acesse o edital.

Comunicado sobre inscrições no XX ENG: inscreva-se agora, pague depois!

INSCREVA-SE NO XX ENG > ENVIE SEU RESUMO > ASSOCIE-SE À AGB-CAMPINAS > ALTERE SUA MODALIDADE DE PARTICIPAÇÃO > PAGUE A INSCRIÇÃO NO EVENTO COM DESCONTO

Prezada comunidade geográfica:

em razão da grande procura para quitação de anuidade deste ano junto a esta seção local, a AGB-Campinas informa que é possível fazer a inscrição no XX Encontro de Geógrafas e Geógrafos e submissão de resumos antes do pagamento da anuidade de 2020 (saiba como se associar neste link).

Para isso, quem tiver interesse em participar do maior evento da Geografia brasileira deverá fazer sua inscrição informando inicialmente o CPF nesta página.

Deverá, em seguida, escolher a modalidade “Não Associados” e informar demais dados pessoais como RG, nome completo, gênero, titulação, situação profissional, CEP e município de residência e e-mail. Neste momento, poderá optar também pela inscrição ou não do resumo — o prazo para submissão é até 18 de março.

Os dados de acesso (login e senha) serão enviados por e-mail.

Posteriormente, o encontrista associado deverá acessar a Área do Inscrito.

Caso não tenha recebido, basta clicar em “Esqueci minha senha” e informar e-mail ou CPF.

Poderá, caso não o tenha feito, submeter o resumo e aguardar uma data oportuna para realizar a associação conosco — não deixe, contudo, para a última hora.

Após o login na Área do Inscrito, entre as opções disponíveis, basta clicar em “Alterar modalidade de participação”, selecionar a modalidade correspondente (Professores da Educação Básica, Estudante de Graduação, Estudante de Pós-Graduação e Demais Associados), escolher a Seção Local Campinas e informar o número de talonário junto com uma foto do mesmo.

Depois, é só fazer o pagamento via PagSeguro com o desconto e garantir sua inscrição!

Diretoria Executiva Local da AGB-Campinas

11 de março de 2020

Minicurso: Circulação, transporte e logística como atributos da competitividade entre os territórios – Prof. Márcio Rogério Silveira

O objetivo do minicurso é apresentar e discutir os temas circulação, transportes e logísticas no contexto das revoluções logísticas, destacando a competitividade entre os territórios em diferentes escalas e períodos históricos. Destaca-se, portanto, no Brasil, a discussão sobre a importância dos sistemas de transportes – com destaque para a logística, as normas e a tributação – como elementos da “disputa por maior competitividade entre os territórios”, por meio da ampliação da fluidez.

O minicurso será ministrado pelo Prof. Dr. Márcio Rogério Silveira, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), durante os dias 10, 11 e 12 de março de 2020, sempre entre as 14h e 18h e tem como público-alvo alunos de graduação e pós-graduação.

As inscrições são gratuitas, mas os lugares são limitados! Portanto, faça o quanto antes a sua inscrição.

Os participantes do curso receberão certificados.

INSCREVA-SE AQUI

Obs.: O minicurso ocorrerá no prédio do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, na Rua Carlos Gomes, 250. As salas onde ele acontecerá será divulgado em breve neste portal.

O programa do minicurso, contendo os planos de aula e bibliografia utilizada pode ser consultado no PDF abaixo.

Mini-Curso_Logistica

Fórum de Reforma Urbana lança dossiê sobre desmonte da política urbana nacional

Os graves retrocessos da política urbana brasileira recentes são objeto de um novo dossiê lançado hoje (8/2) pelo Fórum Nacional de Reforma Urbana na Habitat Brasil, em Recife. O documento “Dossiê do Desmonte da Política Urbana Federal nos Governos Temer e Bolsonaro e seus Impactos Sobre as Cidades” denuncia o desmonte da política urbana federal e o impacto da política de austeridade fiscal e da política conservadora sobre as cidades.

O dossiê foi organizado por Orlando Alves dos Santos Jr. (Observatório das Metrópoles), Tânia Maria Ramos de Godoi Diniz (Conselho Federal de Serviço Social – CFESS) e Nelson Saule Junior (Instituto Polis). Ele aborda o desmonte da política de promoção do direito à cidade e da reforma urbana sob os seus diversos temas, sinalizando seus impactos sobre as cidades e a sobre a vida das pessoas que são cotidianamente marginalizadas e criminalizadas por lutar pelo direito de morar e de participar democraticamente das cidades.

Acesse ou baixe o Dossiê completo!

Capa do Dossiê do FNRU que denuncia desmonte das políticas urbanas nacionais.

O documento está organizado em sete capítulos:

  1. A inflexão conservadora e seus impactos na gestão democrática das cidades
  2. A Política Nacional de Moradia: breve panorama do ciclo recente e os desafios da nova conjuntura
  3. A luta pela terra, conceitos e regularização fundiária: a inflexão a partir do golpe de 2016 e as perspectivas atuais
  4. A inflexão ‘ultraliberal’ alcança as águas e o saneamento
  5. A política de austeridade e as ameaça ao direito à mobilidade urbana
  6. A inflexão conservadora e o aumento das desigualdades de renda e da pobreza urbana
  7. As violações de direitos humanos na perspectiva dos pactos internacionais, da nova agenda urbana e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)

O documento faz parte das ações do Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU). O Fórum é uma articulação nacional que reúne movimentos populares, sociais, ONGs, associações de classe e instituições de pesquisa com a finalidade de lutar pelo direito à cidade, modificando o processo de segregação social e espacial para construirmos cidades verdadeiramente justas, inclusivas e democráticas. O FNRU está organizado nas cinco regiões do país e atua desde 1987. A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) faz parte dessa articulação.

Roda de diálogo de entidades e movimentos populares, realizada em Recife, marcou o lançamento do Dossiê do Desmonte da Política Urbana Federal nos Governos Temer e Bolsonaro e seus Impactos Sobre as Cidades.

2ª chamada: Comissão Científica do XX Encontro Nacional de Geógrafos (São Paulo, 13 a 17 de julho de 2020)

A Diretoria Executiva da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Campinas – abre segundo período da chamada para cadastro de interessados(as) em participar da Comissão Científica do XX Encontro Nacional de Geógrafos, que acontecerá na Universidade de São Paulo (Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira, São Paulo, SP) de 13 a 17 de julho de 2020.

Conforme deliberação da Assembleia da Seção Local, os indicados para a Comissão Científica deverão:

– possuir titulação mínima de bacharel(a) ou licenciado(a) em Geografia e estar cursando a pós-graduação;
estar quite com a anuidade da AGB-Campinas no ano de 2020.
– preencher formulário específico até o dia 14/02/2020.

Os membros da Comissão Científica deverão avaliar os resumos enviados para apresentação nos Espaços de Diálogo e Práticas (EDPs), conforme instruções que serão encaminhadas oportunamente.

Diretoria Executiva Local
Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Campinas
6 de fevereiro de 2020

Convocatória: Assembleia ordinária, 06/02/2020, às 17h30

Prezados(as) associados(as),

a Diretoria Executiva da Seção Local de Campinas da Associação dos Geógrafos Brasileiros convoca assembleia geral local ordinária a ser realizada no dia 06 de fevereiro de 2020 (quinta-feira), às 17 horas e 30 minutos em primeira chamada e às 17 horas e 45 minutos em segunda chamada, sala 211 do Instituto de Geociências da Unicamp (Rua Carlos Gomes, 250, Cidade Universitária, Campinas), para discussão da seguinte pauta:

Informes

Ordem do Dia

  1. Mudança de sede da AGB-Campinas
  2. 140ª Reunião de Gestão Coletiva (Niterói, 17 a 19 de janeiro de 2020)
  3. Comissões do XX ENG
  4. Calendário de atividades do 1º semestre de 2020
  5. Outros assuntos

Diretoria Executiva Local


Documentos

Sumário Executivo da 140ª RGC (Niteroi, 17 a 19 de janeiro de 2020)

Cursinhos populares em Campinas e região abrem inscrições para 2020

Atualizado em 14/01/2020

A Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Campinas preparou um levantamento dos cursinhos pré-vestibulares e pré-vestibulinhos populares de Campinas e região que estão ativos em 2020, muitos dos quais já estão com inscrições abertas neste início de ano.

São cursos totalmente gratuitos ou com taxas de manutenção módicas. Em comum, está a missão de contribuir para a democratização do ensino superior.

Navegue no mapa acima para ver a localização e o contato de cada cursinho.

Caso queira atualizar alguma informação desta postagem, entre em contato por secretaria@agbcampinas.com.br


Cursinho Popular de Vinhedo: inscrições prorrogadas até 13/01

O Cursinho Popular de Vinhedo está com inscrições abertas até dia *13 de Janeiro* para a turma de 2020! Você que sonha…

Posted by Cursinho Popular de Vinhedo on Monday, January 6, 2020

Dandara dos Palmares (São Marcos): inscreva-se já

[INSCRIÇÕES ABERTAS] A partir de hoje estão abertas as inscrições para a turma de 2020.Para se inscrever,…

Posted by Cursinho Popular Dandara dos Palmares on Tuesday, November 5, 2019

Emancipa Toninho (Unicamp): inscrições até 17/01

Atenção! O período de inscrições está acabando!Para se inscrever, basta preencher o formulário no link…

Posted by Emancipa Toninho Campinas on Tuesday, January 7, 2020

Herbert de Souza (Vila União): inscrições abertas e matrícula a partir de 20/01

A espera acabou!! O processo de inscrições para o cursinho vão começar e você não pode perder.Se liga!! Antes de ir ao…

Posted by Cursinho Alternativo Herbert de Souza on Monday, January 6, 2020

Identidade Popular (Jardim Amazonas, próximo à Band e EPTV): inscrições até 19/02

Maloca (Vila União): inscrições de 14/01 a 14/02

ABRIMOS hoje as inscrições para o cursinho popular GRATUITO pré vestibular da Maloca Arte e Cultura.Confira no post…

Posted by Maloca Arte e Cultura on Tuesday, January 14, 2020

Marielle Franco (Centro de Referência LGBT, próximo à E. E. Culto à Ciência, Botafogo): inscrições abertas e início das aulas em 02/03

Há várias formas de se inscrever no cursinho: por e-mail, whatsapp ou presencialmente no @cr.lgbt, você escolhe o que…

Posted by Cursinho Popular Marielle Franco on Friday, January 3, 2020

STU (Unicamp): inscrições de 15/01 a 15/02

Estão abertas as inscrições para o Processo Seletivo do 1º semestre de 2020 !!!! Quem tiver interesse em concorrer…

Posted by Cursinho Popular STU on Wednesday, January 15, 2020

TRIU: inscrições abertas e avaliação diagnóstica em 17/02

Chegou o momento mais esperado do ano! Inscrições para o cursinho triu 2020 abertas no site: www.cursinhotriu.com.br Compartilhem!!!

Posted by Cursinho Triu on Monday, December 16, 2019

Vida Nova: inscrições abertas

Estudar é a base da realização dos teus sonhos!Link para inscrição onlinehttps://forms.gle/beuLWN4FpiefYLSDA

Posted by Coletivo Vida Nova on Wednesday, January 1, 2020

Zilda Arns (Unicamp): inscrições prorrogadas até 15/01

Prorrogamos o final das nossas inscrições para 15/01/2020! Não perca essa oportunidade e se inscreva no site www.cursinhozilda.com

Posted by Cursinho Popular Zilda Arns on Saturday, January 11, 2020

Convocatória: Assembleia ordinária, 09/12/2019, às 17h30

Prezados(as) associados(as),

a Diretoria Executiva da Seção Local de Campinas da Associação dos Geógrafos Brasileiros convoca assembleia geral local ordinária a ser realizada no dia 09 de dezembro de 2019 (segunda-feira), às 17 horas e 30 minutos em primeira chamada e às 17 horas e 45 minutos em segunda chamada, sala 209 do Instituto de Geociências da Unicamp (Rua Carlos Gomes, 250, Cidade Universitária, Campinas), para discussão da seguinte pauta:

Informes

  1. Apresentação e aprovação do Relatório de Contas da Gestão 2017-2019
  2. Discussão e definição das propostas da AGB-Campinas para as mesas-redondas do ENG 2020
  3. Debate a aprovação dos demais pontos da convocatória da 140ª RGC
  4. Eleição de delegados da AGB-Campinas para a 140ª RGC

Diretoria Executiva Local


Documentos

Convocatória: Assembleia ordinária, 03/12/2019, às 17h30

Prezados(as) associados(as),

a Diretoria Executiva da Seção Local de Campinas da Associação dos Geógrafos Brasileiros convoca assembleia geral local ordinária a ser realizada no dia 03 de dezembro de 2019 (terça-feira), às 17 horas e 30 minutos em primeira chamada e às 17 horas e 45 minutos em segunda chamada, sala 209 do Instituto de Geociências da Unicamp (Rua Carlos Gomes, 250, Cidade Universitária, Campinas), para discussão da seguinte pauta:

Informes

  1. Propostas de recriação de GTs da AGB-Campinas
  2. 2ª Plenária do Fórum Popular da Natureza (São Paulo, 30/11/2019)
  3. Apoio da AGB-Campinas à Semana de Geografia da Unicamp de 2020

Diretoria Executiva Local

30/11: Colóquio de Iniciação Científica em Geografia do Cotuca/Unicamp

O Departamento de Humanidades e o PIBIC-EM de Geografia do Colégio Técnico de Campinas (Cotuca) organizam o Colóquio de Iniciação Científica em Geografia do Cotuca/Unicamp neste sábado, dia 30/11, na sede da Associação de Docentes da Unicamp (ADUnicamp), na Avenida Érico Veríssimo, 1479, no campus da Unicamp em Barão Geraldo, Campinas.

A programação tem início às 13h30. A abertura será feita com o MC Dr. Renan Inquérito, que fará a apresentação O relevo da voz: um grito geográfico de atrito e resistência.

A programação segue com a roda de conversa Perspectivas das/dos estudantes sobre a formação científica no Ensino Médio, com as alunas do PIBIC-EM Geografia do Cotuca e com a apresentação das pesquisas realizadas no Cotuca com orientação do Prof. Dr. André Pasti, vice-diretor da AGB-Campinas.

Às 18h, haverá a mesa-redonda A cidade tem gênero? com Isadora Garcia, mestranda em Planejamento Urbano e Regional na UFRJ e Malu de Barros, da coletiva Terra Preta, e mediação da doutoranda Jéssica Cecim, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Unicamp.

Aula aberta “A América Latina em Chamas: as políticas neoliberais e as manifestações populares no Chile em 2019”

A AGB-Campinas, o Geoplan e a Pós-Graduação em Geografia da Unicamp convidam para a aula aberta “A América Latina em Chamas: as políticas neoliberais e as manifestações populares no Chile em 2019”, com o professor Fabián Almonacid Zapata, da Universidad Austral de Chile de Valdivia.

A aula acontece no Auditório do Instituto de Geociências no dia 05/12/2019 (quinta-feira), a partir das 19 horas.

Fotografia do cartaz: Susana Hidalgo

Atualização: a aula foi transmitida ao vivo pelo Facebook e está disponível na íntegra em nosso canal do YouTube, a seguir:

Morre o geógrafo goiano João Alves de Castro, o Fiinho

Faleceu neste domingo, 24 de novembro de 2019, o professor João Alves de Castro, o Fiinho, agebeano fundador da Seção Goiânia, professor emérito da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (cujo Centro Acadêmico de Geografia recebe seu nome) e Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Goiás.

Em fotografia recente, de Delduque Caetano Pereira, ao lado de Izú Feitosa

texto de Euler de França Belém, publicado no Jornal Opção

Na década de 1980, o mestre contribuiu para formar uma geração de historiadores e geógrafos críticos e preparados para interpretar o mundo

No início da década de 1980, com a ditadura civil-militar ativa, os movimentos sociais e políticos praticamente renasciam. A sociedade ganhava vida, pulsava. Nas universidades, notadamente na Universidade Federal de Goiás (UFG) e na Universidade Católica de Goiás (UCG, hoje PUC), o movimento estudantil era forte (imperavam grupos liderados pelo PC do B, Viração, PCB, Unidade, e PT, além das correntes trotskistas (fortes na Arquitetura em parte da Geografia). Os professores eram, no geral, de esquerda. Nas ciências humanas da Católica, pontificavam mestres categorizados como o padre espanhol Luis Palacín (grande mestre, não era de esquerda, que dava aulas num portunhol às vezes difícil de entender), Maria Amélia (outra mestre de excelente qualidade), José Carlos Debrey, Wilson Ferreira da Cunha (que havia chegado da União Soviética havia pouco tempo. O mestre em Antropologia se formara lá), Nasr Chaul (ainda um garoto, mas sábio), Goiás do Araguaia Leite (da economia, outro grande mestre) e João Alves de Castro (brilhante professor de “Geografia Humana” — algo assim). Naquela época, os alunos estudavam, discutiam e participavam com intensidade. Todos queriam participar da reconstrução democrática do país. Eram tempos radicais — a turma do PC do B, por exemplo, não tolerava as turmas do PCB e do PT. Os comunistas do B eram tachados de stalinistas e “albaneses”. E eles rotulavam o PCB de reformista e o PT de socialdemocrata (naquele tempo, um “xingamento” dos mais fortes).

João Alves de Castro, conhecido por todos como Fiinho, era, naturalmente, de esquerda. Mas não de uma esquerda ortodoxa. Pelo contrário, era aberto ao debate com os alunos e apreciava quando divergiam a respeito de determinados temas. Era, acima de tudo, um grande professor. É de duvidar que alguns de seus alunos tenham esquecido de suas, digamos, palestras, orientações e dicas de leitura. Ele contribuía para que o alunado, que mais tarde seria professor, redescobrisse o mundo, para que o percebesse de maneira mais ampla. Fiinho propugnava pela formação de um estudante crítico, mas crítico não apenas no sentido de querer substituir o capitalismo pelo socialismo. Ele ficava contente, isto sim, quando percebia que o aluno era capaz de interpretar o mundo real e, sobretudo, de pensar pela própria cabeça. Era mais “aberto” do que os marxistas tradicionais.

Os alunos de Fiinho o adoravam. Porque, depois de suas aulas, o mundo “deixava” de ser o mundo em que eles viviam antes. O mundo era visto, a partir de então, de maneira mais ampla — integrada pela economia e, eventualmente, pela política. O mundo, às vezes escuro e sombrio, ficava mais claro — dada a interpretação luminosa do mestre. Leitor (e intérprete) de Karl Marx — mas sem dogmatismo — e de Milton Santos, o notável geógrafo (praticamente um pensador) brasileiro, compartilhava o que havia de melhor e mais moderno em termos do estudo de Geografia — que conectava com mestria com História e outros saberes (como economia política).

Alunos de Fiinho — Antônio Luiz de Souza (o mais brilhante de todos), Sérgio Murillo de Souza, Heloísa Capel, entre tantos outros (fui um deles) — sabem que a morte de Fiinho deixa uma lacuna na universidade. Mas não só. Fiinho era um grande indivíduo, solidário e tinha um humor refinado — por isso deixa uma lacuna na vida de muita gente. O mestre era um homem de bem e do bem. Um homem bom — que sempre quis um mundo melhor para todos (não só para os proletários). Sobretudo, era um democrata.

Fiinho estava doente, convalesceu e morreu na madrugada de domingo, 24. Ele foi enterrado no Jardim das Palmeiras.

Convocatória: Assembleia ordinária, 19/11/2019, às 17h30

Prezados(as) associados(as),

a Diretoria Executiva da Seção Local de Campinas da Associação dos Geógrafos Brasileiros convoca assembleia geral local ordinária a ser realizada no dia 19 de novembro de 2019 (terça-feira), às 17 horas e 30 minutos em primeira chamada e às 17 horas e 45 minutos em segunda chamada, sala 211 do Instituto de Geociências da Unicamp (Rua Carlos Gomes, 250, Cidade Universitária, Campinas-SP), para discussão da seguinte pauta:

Informes

  1. Informes gerais
  2. Reunião de Gestão Coletiva Extraordinária (São Paulo, 2-3/11/2019)
  3. Fórum de GTs de Assuntos Agrários da AGB (Recife, 14/11/2019)
  4. 2ª Plenária do Fórum Popular da Natureza (São Paulo, 30/11/2019)

Diretoria Executiva Local

Há 60 anos, ao lado de Jorge Amado, a Associação dos Geógrafos Brasileiros foi a primeira ganhadora do Prêmio Jabuti

por Gustavo Teramatsu

Jorge Amado, em foto de autoria desconhecida

SÃO PAULO, NOVEMBRO DE 1959 – Na noite do dia 25, em sua sede no décimo andar do Edifício Andradas, na Avenida Ipiranga, 1267, a Câmara Brasileira do Livro distribuiu os troféus do recém-criado Prêmio Jabuti para os destaques literários mais recentes. A ocasião ficou marcada especialmente pela coroação de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado (1912-2001), best-seller publicado no ano anterior que levou o prêmio na categoria Romance, cuja importância para a literatura brasileira seria confirmada com o passar dos anos. Pouco tempo depois, em 1961, Amado seria eleito para a Academia Brasileira de Letras. E a “crônica de uma cidade do interior” ganhou o país e o mundo, em adaptações para a televisão e traduções em mais de trinta idiomas.

A geógrafa Gabriele Caricchio Ferreira, em TCC inédito defendido na Unicamp sobre as dimensões geográficas implícitas no romance, a produção intelectual de Jorge Amado “contribuiu para que a sociedade se transformasse de forma crítica, não apenas através de seu ativismo político, mas, principalmente, pela disseminação implícita da crítica social por meio da circulação de seus romances”.

Em sua leitura, o escritor baiano “constrói a sua trama de modo a demonstrar o impacto nos costumes, ideias e valores da sociedade de Ilhéus pela modernização processada por meio das transformações das estruturas sócio-produtivas do coronelismo sob a prosperidade do cultivo do cacau”. E, do ponto de vista da Geografia, a obra discute temas como planejamento e urbanização a partir da decadência da economia agrário-exportadora e o surgimento de uma economia urbano-industrial, as desigualdades regionais e o processo de migração.

* * *

Naquela noite de novembro, a Seção Regional de São Paulo da Associação dos Geógrafos Brasileiros também saiu premiada. A Cidade de São PauloEstudos de Geografia Urbana venceu na categoria Ensaios.

A indicação foi da comissão formada por José Aderaldo Castello (1921-2011), Caio Prado Junior (1907-1990) e Ernani Silva Bruno (1912-1986). Caio Prado Junior, fundador da AGB, ao lado de Antonio D’Elia e Sergio Milliet (1898-1966), também havia feito parte da comissão que escolheu a estatueta de bronze de Bernardo Cid de Souza Pinto (1925-1982) como símbolo das premiações.

Planejada, ainda no fim da década de 1940, para ser publicada em janeiro de 1954, nas comemorações do Quarto Centenário da cidade de São Paulo, a premiada obra veio à luz apenas em outubro de 1956, por iniciativa de Aroldo de Azevedo (1910-1974), em quatro volumes pela Companhia Editora Nacional, com 1400 páginas e mais de trezentas ilustrações, fazia parte da Coleção Brasiliana.

“O melhor do grande edifício bibliográfico que os geógrafos da Universidade de São Paulo puderam dar à Geografia Brasileira nesses últimos anos”, nos dizeres de Aziz Ab’Sáber, em 1960, e “ainda a melhor obra coletiva sobre São Paulo”, na avaliação da geógrafa Sandra Lencioni, em 2012.

As obras dirigidas por Aroldo de Azevedo, para a geógrafa, “atestam a sua capacidade de integrar facetas de um determinado tema envolvendo vários autores. Capacidade esta pouco presente nas inúmeras obras atuais nas quais se reúnem vários textos de diferentes autores que não passam de uma verdadeira somatória de textos que, mesmo interessantes e importantes para o conhecimento, são desintegrados entre si revelando a ausência de um plano comum e integrado metodologicamente, situando-se apenas no nível da composição temática”.

E conclui: “A sabedoria na incorporação de cada elemento do conjunto de uma obra não se constitui num texto em si, muito embora fale por si mesma e permita olhar além das linhas. De certa forma, a construção de uma obra coletiva é como a construção de uma casa, requer um projeto de integração entre as partes, guardando a independência de cada parte”.

Assinam os capítulos, em ordem alfabética, todos sócios da AGB e geógrafos da Universidade de São Paulo, Antonio Rocha Penteado, Aroldo de Azevedo, Ary França, Aziz Nacib Ab’Sáber (1924-2012), Dirceu Lino de Mattos, Elina de Oliveira Santos, Emilia Viotti da Costa (1928-2017), Fernando Flávio Marques de Almeida (1916-2013), José Ribeiro de Araújo Filho, Maria de Lourdes Pereira de Sousa Radesca, Odilon Nogueira de Matos, Pasquale Petrone, Raul de Andrada e Silva, Renato da Silveira Mendes. Colaborou ainda João Soukup, que fora cartógrafo do antigo Império Austro-Húngaro.

Reprodução do sumário da obra

A SEMANA DO LIVRO GEOGRÁFICO DE 1959

Correio da Manhã, n 20302, ano 56, p. 2, edição de 4 de junho de 1959

Mais cedo naquele ano de 1959, no início de junho, Aroldo de Azevedo esteve no Rio de Janeiro, durante a 1ª Semana do Livro Geográfico, organizada pelo Conselho Nacional de Geografia, para o lançamento de A Cidade de São PauloEstudos de Geografia Urbana na Livraria Civilização Brasileira, em coquetel com a presença de Américo Jacobina Lacombe (1909-1993). Na Semana, também foi lançada a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros.


OS GEÓGRAFOS E OS JABUTIS

Jabuti na sede da Associação dos Geógrafos Brasileiros, na Universidade de São Paulo. Foto: Paulo Rufino/AGB-Campinas

Não há notícia de que tenha havido outras edições da Semana do Livro Geográfico. O Prêmio Jabuti, contudo, ampliou-se e chega à 61ª edição neste ano de 2019. Além da equipe de São Paulo, coordenada por Aroldo de Azevedo por meio da AGB, outros geógrafos receberam o prêmio, em diferentes momentos.

Em 1986, a geógrafa Magda Adelaide Lombardo (1951-) levou o Jabuti na categoria Ciências (Tecnologia) pelo livro llha de Calor nas Metrópoles: o Exemplo de São Paulo (Hucitec, 1985), decorrente de sua pesquisa de doutorado em Geografia Física na USP, orientado pelo professor José Roberto Tarifa (1946-).

Em 1997, os geógrafos Aziz Nacib Ab’Sáber e Milton Santos (1926-2001) fizeram dobradinha e foram agraciados com os prêmios Jabuti em Ciências Humanas pela publicação dos livros Amazônia: do Discurso à Práxis (Edusp, 1996) e A Natureza do Espaço (Hucitec, 1996).

Naquele mesmo ano, Jurandyr Ross (1947-) levou o prêmio na categoria de livros didáticos de 1º e 2º graus pela publicação de Geografia do Brasil (Edusp, 1996). Na mesma categoria, o casal Maria Madalena Cavalcanti Lacerda e Gilberto Giovannetti foram premiados pelo Dicionário de Geografia da Editora Melhoramentos.

Em 2001, Marcelo Lopes de Souza (1963-) foi vencedor na categoria Ciências Humanas pela publicação do livro O Desafio Metropolitano: um Estudo sobre a Problemática Sócio-Espacial nas Metrópoles Brasileiras (Bertrand Brasil, 2000).

Em 2002, aconteceu uma nova dobradinha nas Ciências Humanas, com O Brasil: Território e Sociedade no Início do Século XXI, de Milton Santos e María Laura Silveira (1965-) (Record, 2001) e Espaço-Tempo na Metrópole (Contexto, 2001), de Ana Fani Alessandri Carlos (1952-), fruto de sua tese de livre-docência.

Naquele ano, na categoria “Didático 1° e 2° Graus”, venceu o Atlas Geográfico Escolar de Juiz de Fora, publicado em 2001 pela Editora UFJF, de autoria de Valéria Trevizani Burla de Aguiar (1951-). Valéria, estudiosa dos atlas escolares, fez uma tese de doutorado na Unesp de Rio Claro orientada por Livia de Oliveira e é uma referência no assunto.

Em 2003, O País Distorcido (Publifolha, 2002), coletânea de textos publicados por Milton Santos na Folha de S. Paulo entre 1981 e 2001, ganhou o prêmio na categoria Capa, produzida pela designer Paula Astiz – um retrato em close-up do geógrafo baiano. E o Atlas Geográfico Melhoramentos – edição de 2002 do famoso atlas do Padre Geraldo José Pauwels (1883-1960) – ganhou menção honrosa na categoria Didático do Ensino Fundamental e Médio.

Em 2005, São Paulo – Ensaios Entreveros, de Aziz Ab’Sáber (Edusp, 2004) foi vencedor na categoria Ciências Humanas.

Neste ano de 2019, Roberto Marques Neto (1978-) está entre os finalistas na categoria Ciências, com o livro Zoogeografia do Brasil: a fauna, a paisagem e as organizações espaciais, publicado pela editora CRV. Em 2015, Marcos César Ferreira (1957-), do Departamento de Geografia da Unicamp, foi finalista na categoria Engenharias, Tecnologias e Informática com Iniciação à análise geoespacial (Editora da Unesp, 2014).

A Geografia no Prêmio Jabuti