A (des)ordem espacial do mundo e a epistemologia da ciência geográfica: percursos e travessias

O quinto webinar dos Diálogos Geográficos da Unicamp acontece na próxima quinta-feira, 26 de novembro, com início às 19 horas (horário de Brasília). O tema será A (des)ordem espacial do mundo e a epistemologia da ciência geográfica: percursos e travessias.

Os convidados são o Prof. Dr. Antonio Carlos Vitte, do Departamento de Geografia da Unicamp, e a Profª Drª Larissa Alves de Lira, da UFMG. A mediação é do Prof. Dr. Alexandre Domingues Ribas, da Unioeste — campus Francisco Beltrão.

Para garantir o certificado de participação, inscreva-se previamente. Participe no canal da AGB-Campinas no YouTube!

Espaço geográfico e brutalidade: racionalidades da digitalização da informação

ATUALIZAÇÃO: 19/11, 11:00 — O webinar será remarcado para nova data, a confirmar.

Chegamos ao quinto webinar dos Diálogos Geográficos da Unicamp, que acontece na próxima quinta-feira, 19 de novembro, com início às 19 horas (horário de Brasília). O tema será Espaço geográfico e brutalidade: racionalidades da digitalização da informação.

Os convidados são o Prof. Dr. Márcio Cataia, do Departamento de Geografia da Unicamp, e o Prof. Dr. Fábio Tozi, da UFMG. A mediação é do Prof. Dr. Carlos Eduardo Nobre, da UEMA.

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Geo News: Geografia da Unicamp promove aulões para estudantes do Ensino Médio

A Geografia da Unicamp, por meio de sua disciplina de Estágio Supervisionado, está promovendo um ciclo de quatro aulões de Geografia e Atualidades para estudantes do Ensino Médio, visando o Enem e os vestibulares. As aulas serão transmitidas no canal do APEGEO no YouTube. Para emissão do certificado, deve-se inscrever no evento.

As aulas terão os seguintes temas: Geografia e Fake News (12 de novembro), Mudanças Climáticas e seus Impactos Socioambientais (19 de novembro), Violência Urbana e Fragmentação Espacial (26 de novembro), Pandemia de Covid-19 e Globalização (3 de dezembro). Além disso, está previsto um simulado no dia 10 de dezembro.

Eventos de Geografia online em 2021: CBOE e Enanpege

Nos últimos dias, tivemos a notícia de que dois eventos serão realizados em 2021 de maneira remota.

O III Congresso Brasileiro de Organização do Espaço e XV Seminário de Pós Graduação em Geografia da UNESP – Campus de Rio Claro acontecerá em três dias alternados: 31 de maio, 2 de junho e 4 de junho de 2021 com o tema Impactos e Mutações no Território Brasileiro: da crise política à devastação ambiental no contexto da pandemia do COVID-19.

De acordo com a primeira circular, o envio de trabalhos completos é de 10 de novembro a 31 de dezembro de 2020. Serão 14 grupos de trabalho simultâneos, em três eixos.


A ANPEGE confirmou a realização do XIV Encontro Nacional de Pós-Graduação em Geografia (Enanpege) de 10 a 15 de outubro de 2021. Mais informações serão divulgadas em breve no site da associação.

Sedimentação e pedogênese em sistemas aluviais quaternários

O quarto webinar dos Diálogos Geográficos da Unicamp acontece na próxima quinta-feira, 5 de novembro, com início às 19 horas (horário de Brasília). O tema será Sedimentação e pedogênese em sistemas aluviais quaternários.

Os convidados são o Prof. Dr. Francisco Ladeira, do Departamento de Geografia da Unicamp e coordenador do grupo de pesquisa Solos, Paleossolos e Dinâmica da Paisagem, e o Prof. Dr. Mário Luís Assine, da Unesp — campus Rio Claro. A mediação é do Prof. Dr. André Luiz de Souza Celarino, do IFPR — campus Quedas do Iguaçu.

Para garantir o certificado de participação, inscreva-se previamente. Participe no canal da AGB-Campinas no YouTube!

Segundo encontro do Grupo de Estudos em Educação de Rio Claro — 10/11 às 13h30

O segundo encontro do Grupo de Estudos em Educação do Laboratório de Análise Espacial de Políticas Públicas (LAPP/UNESP/Rio Claro) e do Núcleo de Ensino de Geografia e Didática (NEGED/UNESP/Rio Claro) acontecerá no dia 10/11, terça-feira, entre 13h30 e 16h.

O grupo de estudos é uma iniciativa de associados da AGB-Campinas para estudos em Educação e Pedagogia Histórico-Crítica, tendo inicialmente participação de professoras(es) da rede pública municipal de Rio Claro. Esta reunião dará sequência aos debates iniciados no dia 27 de outubro, sobre os primeiros capítulos do livro História das Ideias Pedagógicas no Brasil, de Dermeval Saviani.

A leitura para discussão contempla o Capítulo 4 — A ‘Máquina Mercante’ e as metamorfoses na educação — a ser apresentado por Letícia Leal, mestranda no PPGeo – UNIFAL/MG, e o Capítulo 5 — As ideias pedagógicas do despotismo esclarecido (1759-1827) — por José Vitor Rossi Souza, licenciado em Geografia pela UNESP/Rio Claro.

A reunião será aberta a todos os interessados, que devem entrar em contato com Gabriel pelo e-mail gbairro [at] gmail.com para mais informações e para obter o link de acesso.

O raciocínio geográfico como método para o ensino de Geografia na Educação Básica

O terceiro webinar dos Diálogos Geográficos da Unicamp acontece na próxima quinta-feira, 29 de outubro, com início às 19 horas (horário de Brasília). O tema será O raciocínio geográfico como método para o ensino de Geografia na Educação Básica.

Os convidados são o Prof. Dr. Rafael Straforini, do Departamento de Geografia da Unicamp e coordenador do grupo de pesquisa Ateliê de Pesquisas e Práticas em Ensino de Geografia — APEGEO, e a Profª Drª Sônia Maria Vanzella Castellar, da Faculdade de Educação da USP. A mediação é do Prof. Dr. Marcone Denys dos Reis Nunes, da Uneb — campus Jacobina.

Para garantir o certificado de participação, inscreva-se previamente. Participe no canal da AGB-Campinas no YouTube!

Itamar Vieira Junior: o geógrafo vencedor do prêmio Jabuti

Gustavo Teramatsu / AGB-Campinas

Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado

Atualizado em 26/11/2020, quando do anúncio do Prêmio

No ano passado fizemos um levantamento da participação de geógrafos no Prêmio Jabuti, lembrando que nossa Associação foi uma das primeiras premiadas pela publicação de A Cidade de São Paulo – Estudos de Geografia Urbana, em 1959, na cerimônia que coroou Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado. O maior prêmio da literatura brasileira premiou ainda, ao longo dos anos, Milton Santos e Aziz Ab’Sáber.

Faltou, contudo, um nome importante na lista — que neste ano, na 62ª edição do Prêmio, esteve novamente entre os finalistas, desta vez, na categoria Romance Literário: Itamar Rangel Vieira Junior, autor de Torto Arado, que concorreu com veteranos como Chico Buarque, Edney Silvestre e Luiz Ruffato — e venceu!

Em 2018, Itamar havia vencido o Prêmio LeYa por Torto Arado e também havia sido finalista do Jabuti, na categoria Contos, com A Oração do Carrasco, seu segundo livro.

Nascido em Salvador em 1979, Itamar formou-se geógrafo e mestre em Geografia na Universidade Federal da Bahia — com a monografia A expansão de Salvador: a produção do espaço urbano em uma via metropolitana, de 2005, e a dissertação A valorização imobiliária empreendida pelo Estado e mercado formal de imóveis em Salvador: analisando a Avenida Paralela, defendida em 2007, ambos os trabalhos orientados pela professora Maria Auxiliadora da Silva. O doutorado em Estudos Étnicos e Africanos — “Trabalhar é tá na luta“: vida, moradia e movimento entre o povo Iuna, Chapada Diamantina — concluído em 2017, foi feito na mesma instituição com orientação da Profª Drª Maria Rosário Gonçalves de Carvalho.

Sua carreira profissional, como analista em reforma e desenvolvimento agrário no Serviço de Regularização de Territórios Quilombolas do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária — Incra, nos estados do Maranhão e da Bahia, foi construída paralelamente ao trabalho acadêmico e também ao trabalho como escritor.


Resenha de Torto Arado

pelo professor Marcelo de Andrade Lima da EE Dom João Nery de Campinas

Há um tempo, li um artigo de Gilberto Maringoni na revista Desafios do Desenvolvimento, do IPEA, que falava sobre o destino dos negros após a abolição. Sempre retorno a esse texto para preparar minhas aulas de Geografia — e, agora, de Sociologia.

Recentemente, graças a esses canais em redes sociais voltados à literatura, chegou em minhas mãos Torto Arado de Itamar Vieira Junior, que trata de um desses destinos possíveis do povo negro após a abolição, no sertão da Bahia.

Em primeiro plano, temos Bibiana e Belonísia, irmãs marcadas pelo resto de suas vidas por um acidente. São elas que nos apresentam a história.

O cenário é a Fazenda de Água Negra, onde os descendentes de escravos viviam “como gado, trabalhando sem ter nada em troca”, nem descanso, em uma condição de servidão, só com o “direito de morar”, se assim “os senhores quisessem”.

As tradições religiosas afro-brasileiras e a ancestralidade demonstram e oferecem uma capacidade de sobrevivência para um povo cujo “sofrimento era o sangue oculto a correr nas veias de Água Negra”. A força da mulher negra é o alicerce para a comunidade da fazenda.

As terras que “só tem valor se tem trabalho”, mas as mãos de seus “donos” não dariam conta de trabalhá-las todas, passam, a partir de uma tomada de consciência, a ser objeto pelo direito de posse por um povo que lhe deu sentido.

Em vários momentos li em voz alta, para me fazer escutar as lindas passagens desse livro com suas referências geográficas do lugar, bem como para descrever os personagens, como o pai das irmãs, Zeca Chapéu Grande, curador de Jarê, que tinha “sulcos profundos, vales na sua pele erodida pelo sol e pelo vento”… O escritor é geógrafo.

Que livro. Eu, como professor, vou trabalhar para que essa obra esteja nas salas de aulas. É preciso dar voz para aqueles que foram renegados da historiografia oficial, sempre…


Leia mais — bibliografia disponível gratuitamente

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. Discurso “verde“: produzindo espaço, vendendo paisagem. In: Seminário do Laboratório de Estudos Ambientais e Gestão do Território, 2005, Salvador. Cadernos do Leaget, 2005. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. A valorização imobiliária empreendida pelo Estado e o mercado informal de imóveis em Salvador: analisando a Avenida Paralela. Dissertação de mestrado — Programa de Pós-Graduação em Geografia, Instituto de Geociências, Universidade Federal da Bahia, 2007. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. Territorialidade e etnicidade: debates para a regularização fundiária de quilombos pelo Estado Brasileiro. In: Anales del XIV Encontro de Geógrafos de América Latina 2013 Perú. Lima: Unión Geográfica Internacional – Comité Nacional Perú, 2013. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel; SANTOS, Flavio Luis Assiz. Expressões de territorialidade entre trabalhadores e quilombolas na Chapada Diamantina, Bahia. In: Anais da 29ª Reunião Brasileira de Antropologia, Natal, 2014. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. Quando a memória é patrimônio: expressões de territorialidade de comunidades quilombolas. Geografia em Questão (Online), v. 08, p. 01-163, 2015. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. “Trabalhar é tá na luta”: vida, morada e movimento entre o povo da Iuna, Chapada Diamantina. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, 2017. [PDF]

Participe do primeiro encontro do Grupo de Estudos em Educação em Rio Claro

Professores e estudantes de Geografia de Rio Claro estão organizando um grupo de estudos em Educação e Pedagogia Histórico-Crítica. A primeira reunião acontecerá na próxima terça-feira, 27/10, das 13h30 às 15h30. Serão debatidos os três primeiros capítulos do livro História das Ideias Pedagógicas no Brasil, de Dermeval Saviani (professor da Faculdade de Educação da Unicamp).

O primeiro encontro se debruçará sobre o primeiro período delimitado por Saviani, correspondente às ideias pedagógicas no Brasil entre 1549 e 1759, com o denominado “monopólio da vertente religiosa da pedagogia tradicional”.

Os capítulos 1 e 2 (“Colonização e Educação” e “Uma Pedagogia Brasílica (1549-1599)”) serão discutidos pela professora Bruna Gomes Rossin (SME-Rio Claro). O terceiro capítulo (“A Institucionalização da Pedagogia Jesuítica ou o Ratio Studiorum (1599-1759)”) será apresentado por Gabriel Bairro (mestrando em Geografia na Unesp-Rio Claro e integrante do aboratório de Análise Espacial em Políticas Públicas — LAPP).

A reunião será aberta a todos os interessados, que devem entrar em contato com Gabriel pelo e-mail gbairro [at] gmail.com para mais informações e para obter o link de acesso.

Erundina e os geógrafos

A atuação da AGB pela criação do cargo de geógrafo e geógrafa na Prefeitura de São Paulo culminou com um projeto de lei assinado pela prefeita Luiza Erundina em 1992

Gustavo Teramatsu / AGB-Campinas

A prefeita Luiza Erundina no dia de sua posse, em 1º de janeiro de 1989 (Claudio Freitas/Folhapress)

A terça-feira 25 de agosto de 1992 foi um dia histórico. Enormes protestos pelo impeachment do presidente Fernando Collor aconteceram em todo o país, os maiores na cidade de São Paulo. Após a concentração em frente ao MASP, pela manhã, a passeata dos estudantes caras-pintadas percorreu a cidade. Ao cair da noite, um grande comício no Vale do Anhangabaú do “Movimento pela Ética na Política” atraiu milhares de pessoas. Falaram à multidão – a maior vista desde as Diretas Já – diversos políticos, entre eles Lula e Luiza Erundina, que declarou que “a indignação individual se transformou em reação coletiva”.

Mais cedo naquele dia, antes de subir no palanque, a prefeita havia finalmente enviado à Câmara Municipal de São Paulo o Projeto de Lei 288/92, que criava trinta cargos de geógrafo e instituía a carreira na Prefeitura. Na exposição de motivos, explicava:

“A matéria originou-se com a representação da Associação dos Geógrafos do Brasil (sic), entidade de classe que congrega esses profissionais, na qual foi solicitada a criação dos cargos e da carreira correspondente. Reconhecida a atuação dos geógrafos nos diversos campos – em especial nas questões relativas à utilização do solo, ao meio ambiente, à poluição e à habitação –, foram realizados estudos no âmbito da Prefeitura, que concluíram pela necessidade de serem criados os cargos, inclusive em razão de existirem servidores admitidos na função de geógrafo”.

Comício no Anhangabaú pelo impeachment de Collor em 1992 (Antonio Milena/Veja)

O projeto de lei, disponível no SPLEGIS [aqui, em PDF], é acompanhado por um ofício da AGB assinado pela presidente Arlete Moysés Rodrigues, da Unicamp, datado de 2 de maio de 1989 — a AGB-Campinas seria fundada no mês seguinte. No documento, a professora Arlete argumentava:

“O geógrafo tem, sem dúvida, contribuições a dar na administração municipal, sejam nas questões relativas ao plano diretor que em breve será objeto de estudo e trabalho nas municipalidades, sejam nas questões de utilização do solo e meio ambiente, do abastecimento alimentar, poluição visual, acústica e do ar, habitação, densidade e fluxo de transporte e da distribuição e classificação das sub-regiões que compõe a aglomeração paulistana, além das questões metropolitanas (…). Dadas as características da formação e atribuições dos geógrafos, consideramos que os mesmos poderão contribuir com competência para a obtenção do pleno exercício da cidadania”.

Arlete havia sido eleita presidenta da AGB no ano anterior, no 7º Encontro de Geógrafos em Maceió, que ficou marcado justamente pela interpelação que a AGB fez ao então governador Fernando Collor na porta do Palácio Floriano Peixoto, sede do governo alagoano, sobre as enchentes do Mundaú, na região de União dos Palmares.


Três anos depois do início dos debates pela criação dos cargos de geógrafos junto à AGB, a proposta encaminhada pelo governo do Partido dos Trabalhadores, devidamente aprovada pela Secretaria Municipal de Planejamento — cujo chefe de gabinete era Guido Mantega —, estava perto de se tornar lei.

Na Câmara Municipal, o projeto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça em 25 de setembro, pela Comissão de Administração Pública em 9 de novembro e, por fim, pela Comissão de Finanças e Orçamento em 26 de novembro. Enquanto isso, ocorriam as eleições municipais. Em 3 de outubro, Paulo Maluf e o senador Eduardo Suplicy (primo em segundo grau do geógrafo Aroldo de Azevedo [1910-1974]), foram ao segundo turno. Em 15 de novembro, Maluf derrotou Suplicy, obtendo 58,08% dos votos válidos, o que marcava uma ruptura iminente na continuidade dos projetos do governo petista.

Era necessário agir. Apensados ao processo do projeto de lei estão diversos documentos pela aprovação do projeto. São apelos dirigidos ao vereador Paulo Kobayashi (1945-2005), então presidente da Câmara, que era formado em Geografia pela PUC São Paulo e se tornou conhecido como professor de Geografia no Objetivo da Paulista.

O professor de Geografia Paulo Kobayashi, então presidente da Câmara Municipal de São Paulo (autoria desconhecida)

A Seção São Paulo da AGB, em 29 de outubro, por meio de seu secretário Dalterli Rubens Castrisana (lamentavelmente falecido no ano seguinte, aos 27 anos), encaminhou à Câmara um documento de seis páginas intitulado O papel do geógrafo na administração do município, que mencionava que a AGB tinha, então, 5 mil associados em todo o Brasil, 1500 dos quais em São Paulo.

Finda a 43ª Reunião de Gestão Coletiva da AGB, realizada em Curitiba, no feriado de Finados daquele ano, o professor Zeno Soares Crocetti, que presidia a Diretoria Executiva Nacional da AGB, assinou ofício defendendo a aprovação do projeto: “Diversos municípios brasileiros já contam com geógrafos em seus quadros e nos causa estranheza o fato de que em São Paulo — a maior cidade do Brasil — não se dispõe destes profissionais na administração”.

Há também telegramas, incluindo dois enviados pela Seção Local Presidente Prudente, todos com textos semelhantes, evidenciando uma campanha: “Solicitamos vossa especial atenção na análise do projeto de criação de cargo e carreira de geógrafo”.

A Geografia da UFRGS também enviou apoio por meio de ofício assinado pela professora Neiva Otero Schäffer, chefe do Departamento.

Na USP, os professores do Departamento de Geografia organizaram um abaixo-assinado pela aprovação do projeto. “Entendemos que os trabalhos de planejamento e gestão do território desta Metrópole, bem como o estudo de prevenção dos impactos ambientais de grandes projetos não podem prescindir da contribuição e conhecimentos destes profissionais”, diz o texto, subscrito por diversos docentes, alguns dos quais já falecidos: Milton Santos (1926-2001), Armando Corrêa da Silva (1931-2000), Eduardo Abdo Yázigi (1941-2019), Felisberto Cavalheiro (1945-2003) e Antonio Carlos Robert Moraes (1954-2015).

O Centro de Estudos Geográficos – CEGE também organizou outro abaixo-assinado: “Temos a certeza da necessidade do trabalho do Geógrafo junto aos órgãos municipais, visto que sua formação lhe permite atuar competentemente nesta, contribuindo assim, nas diversas ações desenvolvidas pela PMSP”. Seguem centenas de assinaturas, entre as quais as de Anselmo Alfredo, Júlio Cesar Suzuki, Vicente Eudes Lemos Alves, Larissa Mies Bombardi, Nilo Américo Rodrigues Lima de Almeida, Rita de Cássia Ariza da Cruz, Rubens de Toledo Junior, Paula Borin, Flávia Christina Andrade Grimm, Silvia Lopes Raimundo e Paulo Roberto de Albuquerque Bomfim. Quantos deles foram caras-pintadas?

O projeto de lei, contudo, não foi à votação em 1992. Em 13 de janeiro de 1993, Paulo Maluf, de volta à Prefeitura, solicitou seu arquivamento, para ser “objeto de reexame pelos órgãos municipais competentes”. O processo foi arquivado em março daquele ano e não foi reaberto desde então.


Em 2020, Erundina é candidata a vice-prefeita de Guilherme Boulos pelo Partido Socialismo e Liberdade. Circula na internet um manifesto de geógrafos (com geólogos e engenheiros) em apoio à candidatura que está colhendo assinaturas. A deputada federal teve participação nas últimas cinco eleições municipais da capital paulista. Em 2016, foi candidata pelo PSOL com Ivan Valente como vice, tendo obtido 184 mil votos (5º lugar); em 2012, declinou da candidatura como vice-prefeita de Fernando Haddad por divergências políticas com o PT (entrou Nádia Campeão, do PCdoB); em 2008, foi impedida pelo PSB de ser candidata a vice-prefeita de Marta Suplicy (entrou Aldo Rebelo, do PCdoB); em 2004, foi candidata do PSB com Michel Temer (PMDB) como vice, tendo obtido 244.090 votos (4º lugar); em 2000, com Emerson Kapaz (PPS), foi candidata com 546.766 votos (5º lugar); em 1996, com Aloizio Mercadante, foi ao segundo turno contra Celso Pitta, obtendo 1.291.120 votos no 1º turno e 1.924.630 no 2º.

Brasil e a pandemia de Covid-19: um olhar a partir da Geografia da Saúde

O Prof. Dr. Raul Borges Guimarães, Departamento de Geografia da Unversidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho — Unesp de Presidente Prudente será entrevistado por Beatriz Jucá, repórter do El País, pelo Prof. Dr. Ricardo Mendes Antas Jr., do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo — USP, e pela Profa. Dra. Natacha Cintia Regina Aleixo, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas — UFAM.

Com mediação de Daniel Bruno Vasconcelos, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da USP, a atividade do GT Geografia e Covid-19 da USP acontece na terça-feira, 20 de outubro, às 16h30, horário de Brasília, com transmissão pelo YouTube.

Geotecnologias e Gestão Territorial

O segundo webinar dos Diálogos Geográficos da Unicamp acontece na próxima quinta-feira, 22 de outubro, com início às 19 horas (horário de Brasília). O tema será Geotecnologias e Gestão Territorial.

Os convidados são o Prof. Dr. Lindon Fonseca Matias, do Departamento de Geografia da Unicamp e coordenador do grupo de pesquisa Geotecnologias Aplicadas à Gestão do Território — GeoGet, e o Geógrafo Dr. Marcelo Fernando Fonseca, da Embrapa Territorial. A mediação é do Prof. Dr. Ederson do Nascimento, da UFFS — Campus Chapecó.

Para garantir o certificado de participação, inscreva-se previamente. Participe no canal da AGB-Campinas no YouTube!

Eleita Diretoria Executiva Nacional para o biênio 2020-2022

A Chapa Primavera nos Dentes foi eleita para a Diretoria Executiva Nacional da Associação dos Geógrafos Brasileiros para o biênio 2020-2022. Foram 117 votos, sendo 116 na chapa eleita e um voto em branco. A posse ocorreu em Assembleia Geral Extraordinária realizada por meio virtual, devido à pandemia de covid-19, no dia 3 de outubro.

Em seu plano de trabalho, a chapa pontua que “neste período, entende-se a necessidade de pensar a entidade em si, seu funcionamento, sua estrutura, e o contexto no qual ela tem se inserido, em busca de (re)organizar a AGB em relação aos dilemas sociais, políticos e ambientais que o país vem enfrentando nos últimos anos”.

Presidenta: Lorena Izá Pereira (SL Presidente Prudente)

Vice-presidenta: Amanda Emiliana Santos Baratelli (SL Três Lagoas)

Primeiro secretário: Vinicius Lima Lemes (SL Vitória)

Segunda secretária: Amanda Amaral (SL Juiz de Fora)

Primeiro tesoureiro: Felipe Rodrigues Leitão (SL Fortaleza)

Segundo tesoureiro: Gabriel Henrique de Oliveira Bragança (SL Belo Horizonte)

Coordenadora de Publicações: Rachel Facundo Vasconcelos de Oliveira (SL Fortaleza)

Suplente da coordenadora de Publicações: Maria Clara Salim Cerqueira (SL Belo Horizonte)

Coletivo de Comunicações: Igor Carlos Feitosa Alencar (SL João Pessoa), Lucas Araújo Martins (SL João Pessoa) e Paola Luchesi Braga (SL Belo Horizonte)

A diretoria da AGB-Campinas saúda a DEN eleita!

Hilton Federici, o inesquecível professor de Geografia de Aziz Ab’Sáber

Gustavo Teramatsu * / AGB-Campinas

Entrada principal da EE Hilton Federici, na rua Eduardo Modesto

O loteamento da Vila Santa Isabel, no distrito de Barão Geraldo em Campinas, quase no limite setentrional com Paulínia, começou a ser ocupado no fim da década de 1960. O bairro, com população de cerca de 4 mil pessoas, sedia a Moradia Estudantil da Unicamp e está a três quilômetros do campus da universidade, fundada na mesma época.

Na semana passada, um carro de som circulava pelo bairro com a vinheta do “Plantão da Globo” e um recado dos professores da Escola Estadual Hilton Federici, “o Hilton”:

“Prezada comunidade da Escola Hilton Federici: é com tristeza que comunicamos que a nossa escola foi selecionada para se tornar uma escola integral em novo formato. O Programa Ensino Integral, conhecido como PEI, não deveria ser implantado neste momento, pois dependeria de esclarecimentos à comunidade e decisão do conselho de escolar. Ter a resposta por meio de questionários não torna a mudança justa, pois muitos não têm tempo ou acesso à internet. É uma decisão muito importante para todos que fazem parte da nossa amada escola. A grande maioria dos professores da Escola Hilton Federici é contra essa mudança. Amamos nossos alunos e lutamos muito para que a escola se tornasse cada vez melhor e mais amada pela comunidade. Seguimos na luta para que possamos continuar fazendo parte dessa comunidade, pois muitas professoras e muitos professores terão de mudar de escola caso o novo formato seja implantado. Neste momento, precisamos de todo apoio da comunidade. (…) Nos apoie, converse com seus professores e suas professoras e participe das reuniões online. Não queremos transformar um ‘até breve’ em ‘adeus’. Contamos com a ajuda de vocês”.

Para a pedagoga Fabíola Machado da Rosa, que pesquisou a relação do Hilton com o entorno em seu TCC “Recontando a escola e reconhecendo o bairro”, defendido na Unicamp em 2013, “a história da escola não se fez isolada do desenvolvimento do bairro e da relação entre seus habitantes”.

A partir de depoimentos de antigos moradores e comerciantes da vila, Fabíola concluiu que “discursos e práticas, dentro e fora de seus muros, parecem ser resultado de uma construção coletiva que passa por relações pessoais, concepções de educação, expectativas, busca e execução de políticas públicas, embates e interesses em diversos níveis. Conhecer esses elementos torna-se importante para tentar entender as dinâmicas envolvidas entre comunidade e escola a fim de ampliar o olhar sobre as questões educacionais influenciadas por elas”.

Considerando as relações com a comunidade, Fabíola arrisca dizer que “realizar a escuta dos moradores talvez seja uma forma de formular novas relações”. O corpo docente do Hilton está justamente buscando maneiras de envolver a comunidade como um todo para fazer frente à implantação do PEI, ainda que por meio de reuniões virtuais que se tornaram comuns nestes últimos meses de pandemia. O Hilton da Vila Santa Isabel, portanto, completa quarenta anos discutindo seu futuro.

Leia mais sobre o PEI:


O professor Hilton Federici

Em 2020, também completa quarenta anos o falecimento do professor Hilton Federici. Em 13 de outubro de 1980, o governador Paulo Maluf publicava decreto denominando “Prof. Hilton Federici” a recém-criada EEPG da Vila Santa Isabel. Era a segunda instituição de ensino na cidade — depois da inauguração, em julho, de um Parque Infantil (atualmente EMEI) homônimo na Vila 31 de Março — que passaria a carregar em seu nome uma homenagem ao professor de Geografia e História falecido no dia 20 de junho daquele ano, aos 67 anos de idade.

A sala-ambiente do professor Hilton no Colégio Culto à Ciência (data e autoria desconhecidas)
Retrato de Hilton Federici

Hilton Federici chegou a Campinas em 1949. Foi professor de Geografia na Universidade Católica de Campinas e no Colégio Culto à Ciência, onde estudaram seus filhos Reinaldo e Lucilio Plauto. Foi sócio da nossa Associação dos Geógrafos Brasileiros e da Associação Nacional de História — ANPUH, então Associação Nacional dos Professores Universitários de História. Também foi membro da Academia Campinense de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, e teve papel importante na inauguração do Brinco de Ouro da Princesa. Participou da diretoria do Guarani Futebol Clube e em 1964 publicou o pequeno livro A Razão do Nome Guarani.

Quando se aposentou, em 1968, encerrando trinta anos de magistério, o professor Hilton também ocupou o cargo de secretário de Educação e Cultura na gestão do prefeito Ruy Hellmeister Novaes, substituindo a professora Jacy Milani.

Aziz e Hilton

Depois de se formar em História e Geografia na USP e fazer o curso de formação pedagógica no Instituto de Caetano de Campos, em 1938, o jovem professor Hilton Federici se mudou para Caçapava, no Vale do Paraíba, onde lecionou História Geral e do Brasil por cerca de dois anos no Ginásio Estadual. A escola foi instalada de forma improvisada no Paço Municipal, , na Praça da Bandeira. O edifício que abrigava a Câmara Municipal estava sem uso, já que o Governo Vargas havia dissolvido o poder legislativo em 1937, com o Estado Novo. Atualmente funciona ali, em um prédio mais moderno, a EE Prof. João Gonçalves Barbosa, o Estadinho.

O Paço Municipal de Caçapava, onde foi instalado do Ginásio (autoria desconhecida)

Aqueles anos no ginásio permaneceram nas reminiscências de seus antigos estudantes, entre os quais um adolescente vindo de São Luiz do Paraitinga: Aziz Nacib Ab’Sáber (1924-2012). Em diversas ocasiões, como à Ciência Hoje, em 1992, e em um depoimento que deu à revista Fórum em 2002, o geógrafo relatou a influência decisiva que o professor Hilton teve em sua escolha profissional. No antológico depoimento a Cynara Menezes, a Socialista Morena, que originou o livro “O que é ser geógrafo” (Record, 2007), explicou:

“Até então ninguém tinha conseguido fazer com que eu me interessasse pela geografia. Os professores exigiam que os alunos decorassem muitos nomes — litoral, país, capital, litoral da América do Sul, desde Venezuela até Argentina —, só. Nem cenários apareciam. De repente, assisti às aulas de um professor de história que se apoiava em fatos da geografia regional, situava os acontecimentos em cima do espaço real, a expansão de certos tipos de fatos sobre áreas diversas do mundo. E me senti muito estimulado e interessado por aquela interface entre tempo e espaço — ou espaço e tempo. O professor de chamava Hilton Friedericci [sic], que depois veio para Campinas e passou a ser professor da PUC (…) — infelizmente, perdi a trajetória dele.

(…) Estava com 17 anos ao terminar o ginásio e, por influência indireta de Friedericci [sic], resolvi ir para São Paulo fazer uma sondagem sobre o curso de história e geografia”.

Enquanto o jovem Aziz tentava a sorte na capital, o professor Hilton tinha se transferido para Itapira, onde lecionou no ginásio de 1940 a 1944. Mudou-se então, para Guaratinguetá, onde lecionou na Escola Normal entre 1944 e 1949. Neste anos esteve novamente perto de sua terra natal, Cruzeiro, onde nascera em 9 de março de 1913, às margens do Paraíba do Sul.

É certo que Hilton e Aziz tiveram contato novamente em Campinas — este foi professor de Geografia do Brasil e de Elementos de Geologia na FFCL da Universidade Católica de Campinas, no Solar do Barão de Itapura, e não deixou de mencionar o nome de seu antigo mestre em seu artigo Vinte e cinco anos de Geografia em São Paulo (1934-1959), publicado na 34ª edição do Boletim Paulista de Geografia em 1960 e republicado em 2005.

Um dos graduandos em Geografia da época, vale dizer, era Antonio Christofoletti, que publicaria o livro A Terra Campineira com Federici em 1972.

Universidade Católica de Campinas na década de 1950 / Acervo Museu da PUC-Campinas

Em maio de 2011, aos 87 anos de idade — mais de sete décadas depois das aulas de Hilton em Caçapava — em entrevista ao Boletim Paulista de Geografia, de maneira mais resumida, Aziz ainda recordava: “A partir do último ano do ginásio eu conheci alguns professores que foram formados aqui na Universidade de São Paulo, os primeiros, os mais antigos e entre eles um historiador que marcou muito a minha vida, Hilton Federici, que dava história, mas em cima dos fatos geográficos. Eu achei aquilo maravilhoso e então foi por essa razão que escolhi História e Geografia”.

Naquele mês, o geógrafo visitou Campinas pela última vez, para o lançamento do livro A Obra de Aziz Nacib Ab’Sáber.

* aos colegas Ricardo de Sampaio Dagnino, que percebeu antes a relação entre Hilton (e a escola) e Aziz, e Bruna Regina de Oliveira Lima, professora de Geografia e diretora da APM do Hilton

Convocatória: Assembleia ordinária, 15/10/2020, às 19h

Prezados(as) associados(as),

a Diretoria Executiva da Seção Local de Campinas da Associação dos Geógrafos Brasileiros convoca assembleia geral local ordinária a ser realizada no dia 15 de outubro de 2020 (quinta-feira), às 19 horas em primeira chamada e às 19 horas e 15 minutos em segunda chamada, por meio virtual (Google Meet), para discussão da seguinte pauta:

Informes

Ordem do dia

  1. Debate da pauta e indicação de delegado(s) para a Reunião de Gestão Coletiva Extraordinária
  2. Atividades do GT Cidade – AGB-Campinas
  3. Outros assuntos

Diretoria Executiva Local

Instruções para participação: Confirme presença neste formulário. O link para a reunião será enviado em seu e-mail.


Documentos

Convocatória da RGC Extraordinária (23 e 24 de outubro de 2020)

Anexo I: Propostas de Políticas Financeiras da AGB realizada pelas Seções Locais (apresentadas na 139a RGC – 20 a 22 de setembro de 2019, Presidente Prudente/SP)

Ata da RGC Extraordinária (29/08/2020)

CAPES premia tese de Geografia da USP; UFES e Unicamp recebem menção honrosa

A tese de doutorado Redes digitais, espaços de poder: sobre conflitos na reconfiguração da internet e as estratégias de apropriação civil, defendida por Carolina Batista Israel em fevereiro de 2019 e orientada pela professora Mónica Arroyo no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da USP venceu o Prêmio CAPES de Tese 2020.

Receberam a menção honrosa as teses A cidade como espaço da batalha urbicida, de Márcio José Mendonça, defendida em agosto de 2019 na Universidade Federal do Espírito Santo, com orientação do professor Cláudio Zanotelli, e Espacialização e geocronologia das coberturas superficiais em terraços marinhos, fluviomarinhos e fluviais na foz das bacias dos rios Itapocu e Araranguá (SC) decorrentes dos episódios de transgressões e regressões marinhas associadas às oscilações/pulsações climática, defendida por Felipe Gomes Rubira na Unicamp em junho de 2019, orientado pelo professor Archimedes Perez Filho.


Rubira e Perez Filho participarão de webinar nesta quinta-feira à noite, no canal da AGB-Campinas no YouTube. As inscrições estão abertas.

Nesta quarta-feira, receberemos, também no YouTube, o ganhador do prêmio CAPES de Tese 2016 — Luis Henrique Leandro Ribeiro, que participará da mesa-redonda virtual Direito à cidade: a situação alimentar e a saúde em Campinas.

Baixos terraços fluviais e marinhos como geoindicadores e respostas a pulsos climáticos holocênicos

O primeiro webinar dos Diálogos Geográficos da Unicamp acontece nesta quinta-feira, 8 de outubro, com início às 19 horas (horário de Brasília). O tema será Baixos terraços fluviais e marinhos como geoindicadores e respostas a pulsos climáticos holocênicos.

Os convidados são o Prof. Dr. Archimedes Perez Filho, do Departamento de Geografia da Unicamp e o Prof. Dr. Antonio Carlos de Barros Corrêa, da UFPE. A mediação é do Prof. Dr. Felipe Gomes Rubira, da UFOB – Barreiras.

Para garantir o certificado de participação, inscreva-se previamente. Participe no canal da AGB-Campinas no YouTube!

Diálogos Geográficos da Unicamp

O Programa de Pós-Graduação da Unicamp, em parceria com a AGB-Campinas, está promovendo os Diálogos Geográficos da Unicamp, um ciclo de webinares que acontecem às quintas-feiras, com início às 19 horas.

Os webinares percorrem diversos temas relacionados às linhas de pesquisa e dos grupos de pesquisa da Geografia da Unicamp.

Garanta sua participação certificada fazendo previamente sua inscrição!

GT Cidade: último encontro tratará da situação alimentar e da saúde em Campinas, 7/10, às 19h

O quarto e último encontro do primeiro ciclo de atividades do novo GT Cidade da AGB-Campinas discutirá Direito à cidade: a situação alimentar e a saúde em Campinas. São nossos convidados Nil Sena, mestra griote, estudante de pedagogia da PUC-Campinas e agente comunitária de saúde, e os geógrafos Livia Cangiano Antipon e Luis Henrique Leandro Ribeiro.

A atividade terá transmissão ao vivo pelo canal da AGB-Campinas no YouTube e no Facebook no dia 7/10, quarta-feira, com início às 19 horas e duração estimada de duas horas. Participe!

Confira os três primeiros encontros:

Balanço crítico das políticas urbanas e caminhos para o direito à cidade em Campinas

Direito à cidade: pensando classe, raça e gênero em Campinas

Ocupações urbanas e a luta pelo direito à moradia na Região Metropolitana de Campinas

Chapa Primavera nos Dentes se candidata à Diretoria Executiva Nacional

A Comissão Eleitoral, composta por Jhiovanna Braghin (SL Três Lagoas), Uelinton Barbosa (Seção Local Cidade de Goiás) e José Carlos Dantas (SL João Pessoa/Presidente Prudente) confirmou que a Chapa Primavera nos Dentes (leia o plano de trabalho) é a única pleiteante à Diretoria Executiva Nacional da Associação dos Geógrafos Brasileiros na gestão 2020-2022. A apresentação da chapa aconteceu na noite desta segunda-feira, 28 de setembro. A votação ocorrerá entre 30/09 às 20h do dia 02/10. A Assembleia Geral Extraordinária será realizada no dia 03/10, às 15h. Todos os sócios quites com a anuidade receberão instruções para participação na votação e na assembleia.

Chapa Primavera nos Dentes

Presidenta: Lorena Izá Pereira (SL Presidente Prudente)

Vice-presidenta: Amanda Emiliana Santos Baratelli (SL Três Lagoas)

Primeiro secretário: Vinicius Lima Lemes (SL Vitória)

Segunda secretária: Amanda Amaral (SL Juiz de Fora)

Primeiro tesoureiro: Felipe Rodrigues Leitão (SL Fortaleza)

Segundo tesoureiro: Gabriel Henrique de Oliveira Bragança (SL Belo Horizonte)

Coordenadora de Publicações: Rachel Facundo Vasconcelos de Oliveira (SL Fortaleza)

Suplente da coordenadora de Publicações: Maria Clara Salim Cerqueira (SL Belo Horizonte)

Coletivo de Comunicações: Igor Carlos Feitosa Alencar (SL João Pessoa), Lucas Araújo Martins (SL João Pessoa) e Paola Luchesi Braga (SL Belo Horizonte)

Ailton Krenak e Chico Mendes na Terra Livre

Gustavo Teramatsu / AGB-Campinas. Fotos: Alice Yumi Hattori (Ailton Krenak) Denise Zmekhol (Chico Mendes)

Em tempos em que pessoas como Salles (o ministro do meio ambiente que desconhecia Chico Mendes), Bolsonaro (o presidente da que alegou na Assembleia Geral da ONU que “a floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior” e que “os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados”), Pazuello (o general ministro da saúde e ex-comandante da 12ª Região Militar que se atrapalhou ao relacionar o inverno amazônico com a influência do hemisfério norte), Mourão (o vice-presidente que recentemente afirmou que as queimadas são “narrativas tiradas da cartola”) et caterva estão no poder e promovem intensa campanha de desinformação sobre a Amazônia brasileira, vale a pena a leitura de dois breves textos publicados pela AGB na revista Terra Livre (que acaba de chegar à 54ª edição) no fim da década de 1980.

Ailton Krenak: Tradição Indígena e Ocupação Sustentável da Floresta

Chico Mendes: A Luta dos Povos da Floresta

“Desde o assassinato de Chico Mendes, a Amazônia tem sido palco de debates em todos os setores da sociedade e em escala mundial”, afirmava o professor Bernardo Mançano Fernandes, então coordenador de publicações da AGB, apresentando a edição n. 6 da revista Terra Livre, com o tema “Território e Cidadania: da luta pela terra ao direito à vida”.

O assassinato de Chico Mendes, divulgado amplamente pela mídia internacional, deu visibilidade à luta dos povos da floresta. Meses depois de seu assassinato, o sindicalista morto chegou mesmo a receber uma homenagem do ex-beatle Paul McCartney, que lhe dedicou uma música em seu novo disco.

Continuava o geógrafo: “O Governo Federal apresenta o programa ‘Nossa Natureza’, sob a égide de um protecionismo desavisado. As Nações indígenas, em sua organização, procuram sobreviver às estradas, barragens e outros projetos. A BR-364 e as usinas hidrelétricas, inclusive a ex-Kararaô, são citadas como meios de desagregação e/ou destruição das comunidades amazônicas. A grilagem de terras, prática constante nas terras do Brasil, gerando violência, expulsão e migração e, por conseqüência, gerando a luta popular e a re-volta para a terra, estudada através do processo de conscientização de grupos que criam o agir, a ação própria e o avanço da luta na reconquista do direito de ser CIDADÃO”.

Ailton Krenak, coordenador Nacional da União das Nações Indígenas, fez um discurso na Assembleia Nacional Constituinte pelos direitos dos indígenas que se tornou muito conhecido. Era setembro de 1987.

No texto da Terra Livre – Tradição Indígena e Ocupação Sustentável da Floresta – Ailton provocada: “Como assegurar regiões preservadas e garantir uma economia sustentável para nossas comunidades, diante da barbárie do progresso? O que fazer com regiões tradicionais que foram agredidas ao ponto do grave comprometimento dos ecossistemas?”. Estas são, ainda hoje, questões prementes.

Em abril deste ano, Ailton foi o primeiro entrevistado na série de vídeos Vozes da Floresta – A Aliança dos Povos da Floresta de Chico Mendes a Nossos Dias. Além disso, publicou recentemente os livros Ideias para adiar o fim do mundo (2019), O amanhã não está à venda (2020) e A vida não é útil (2020) pela Companhia das Letras.


Em junho de 1988, Chico Mendes esteve na USP a convite da AGB e do Departamento de Geografia. A transcrição da palestra, em cinco partes no canal do YouTube da professora Arlete Moysés Rodrigues, que era então a presidente da AGB, foi publicada postumamente na sétima edição da Terra Livre (Geografia: Pesquisa e Prática Social). O texto recebeu o título de A Luta dos Povos da Floresta.

“Se continuar o desmatamento, se continuar se investindo nos incentivos e na criação de grupos agropecuários para a Amazônia, então o nosso futuro estará ameaçado. Eu acho que o futuro da Amazônia depende muito da organização da resistência da sociedade brasileira e principalmente dos trabalhadores brasileiros. E quando eu falo em trabalhadores não são só os seringueiros, nem os índios, mas também os estudantes, os professores, enfim todos os segmentos da sociedade brasileira”, declarava o líder dos seringueiros de Xapuri.

Ele seria assassinado em dezembro daquele ano. Na palestra, que fazia parte de um périplo que fazia pelo país, Chico Mendes comentou sobre os atentados que havia sofrido e as ameaças de morte. “Eu pelo menos fui vítima até hoje, a partir de 1977, de seis atentados; felizmente escapei de todos eles por incrível que pareça. Recentemente eles atacaram um acampamento nosso, no dia 26 de maio, e dois companheiros foram baleados; um seringueiro recebeu sete balaços e outro companheiro duas balas. Felizmente eles conseguiram sobreviver até hoje. A minha casa está sendo guarnecida por quatro seringueiros, onde dois permanecem até meia-noite e os outros dois até o amanhecer do dia. A sede do sindicato diariamente está sendo cercada por pistoleiros; hoje mesmo recebi notícias de Xapuri de que esta noite vários pistoleiros tentaram invadir a sede do sindicato”.

Mauricio Waldman, que esteve na palestra na USP, conta que a partir dali se formou o Comitê de Apoio aos Povos da Floresta de São Paulo, que no ano seguinte publicaria a cartilha Chico Mendes – O Seringueiro em colaboração com o Conselho Nacional de Seringueiros e com o Departamento Rural da Central Única dos Trabalhadores, que também deixamos disponível para download (clique na capa ao lado).

GT Cidade: terceiro encontro debate as ocupações urbanas e a luta pelo direito à moradia na RMC, 30/09, às 19h

O terceiro encontro do novo GT Cidade da AGB-Campinas discutirá Ocupações urbanas e a luta pelo direito à moradia na Região Metropolitana de Campinas. São nossos convidados Antonio Douglas Campos, estudante de Direito na UFMG, representando a Ocupação Vila Soma; Thamires Gomes, uma das coordenadoras da Ocupação Nelson Mandela; e Alexandre Mandl, advogado popular das duas ocupações.

A atividade terá transmissão ao vivo pelo canal da AGB-Campinas no YouTube e no Facebook no dia 30/09, quarta-feira, com início às 19 horas e duração estimada de uma hora e meia.

GT Cidade: segundo encontro coloca em questão classe, raça e gênero em Campinas, 23/09, às 19h

O segundo encontro do novo GT Cidade da AGB-Campinas tem como convidados as geógrafas Helena Rizzatti Fonseca e Maria Júlia Buck Rossetto e do estudante de pedagogia, produtor cultural e militante Allhan William “Lumumba” de Oliveira, que debaterão o tema Direito à cidade: pensando classe, raça e gênero em Campinas. A atividade terá transmissão ao vivo pelo canal da AGB-Campinas no YouTube e no Facebook no dia 23/09, quarta-feira, com início às 19 horas e duração estimada de uma hora e meia.

A relação atividades econômicas/espaço, ontem e hoje: uma introdução à Geografia Econômica, 24/9, às 19h

A aula inaugural da disciplina de Geografia Econômica da Unicamp será aberta e transmitida pela AGB-Campinas, em canal do YouTube e no Facebook.

O encontro será no dia 24 de setembro, quinta-feira, com início às 19 horas, professora Silvia Selingardi Sampaio (Unesp-Rio Claro) falará sobre A relação atividades econômicas/espaço, ontem e hoje: uma introdução à Geografia Econômica. A organização é do pós-doutorando Fernando Campos Mesquita, responsável pela disciplina neste semestre.

GT Cidade: primeiro encontro fará balanço de políticas urbanas e discutirá o direito à cidade em Campinas, 16/09 às 19h

O primeiro encontro do novo GT Cidade da AGB-Campinas tem como convidados o geógrafo Rogério Bezerra da Silva, a arquiteta e urbanista Eleusina Freitas e o geógrafo André Pasti, vice-diretor da AGB-Campinas, que debaterão o tema Balanço crítico das políticas urbanas e caminhos para o direito à cidade em Campinas. A atividade terá transmissão ao vivo pelo canal da AGB-Campinas no YouTube no dia 16/09, quarta-feira, com início às 19 horas e duração estimada de uma hora e meia.

Cidade e pandemia: o que temos aprendido com a Covid-19 até o momento

A Profa. Dra. Ligia Vizeu Barroso, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, debaterá o tema Cidade e pandemia: o que temos aprendido com a Covid-19 até o momento no dia 8 de setembro de 2020, terça-feira, às 17:30 (horário de Brasília), no canal do GT Geografia e Covid-19 no Youtube.

Informações sobre as próximas atividades e consulta de trabalhos já realizados podem ser obtidos na página do GT Geografia e Covid-19.

Fome, desigualdade e a geografia do Bolsa Família

Quais os estados brasileiros onde quase metade da população depende do programa. Por que, mesmo em regiões “mais ricas”, repasses são cruciais. Tímida, porém pioneira, iniciativa garantiu comida na mesa, mas também justiça espacial.

Homenagem ao Dr. Fernando Antônio da Silva (In memoriam) na coluna Outras Cartografias, por Igor Venceslau. Leia mais

Como Mentir com Mapas: webinar dia 28/08 às 16 horas

A Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF campus Senhor do Bonfim) e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB campi I e IV), por meio do Núcleo de Estudos das Paisagens Semiáridas Tropicais (NEPST), promovem o webinar Como mentir com mapas: Desvendando o caráter ideológico dos mapas, oferecido pelo professor Lindon Fonseca Matias, do Departamento de Geografia da Unicamp. A atividade foi oferecida pela AGB-Campinas em 2017, com ótima avaliação dos participantes.

Os interessados devem realizar a inscrição no evento identificado como “7ª Webinar do NEPST – 28/08/20 (NOVA DATA)” clicando aqui.

Lúcio Kowarick (1938-2020)

Faleceu nesta segunda-feira (24/08), aos 82 anos, Lúcio Félix Frederico Kowarick. Autor de A Espoliação Urbana (1979), obra muito lida e debatida entre os geógrafos, o professor Lúcio era docente aposentado do Departamento de Ciência Política da FFLCH/USP. Entre suas obras mais recentes, publicadas pela Editora 34, estão Escritos Urbanos, Viver em Risco (vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas em 2010), São Paulo: Novos Percursos e Atores – Sociedade, Cultura e Política (com Eduardo Marques) e Pluralidade Urbana em São Paulo: Vulnerabilidade, Marginalidade, Ativismos (com Heitor Frúgoli Júnior). O sepultamento acontecerá nesta terça-feira (25/08), às 16h30, no Cemitério Redentor em São Paulo (Avenida Doutor Arnaldo, 1105), precedido por breve velório, a partir das 14h30.

Diretoria Executiva Local

AGB-Campinas

Convocatória: Assembleia ordinária, 13/08/2020, às 18h

Prezados(as) associados(as),

a Diretoria Executiva da Seção Local de Campinas da Associação dos Geógrafos Brasileiros convoca assembleia geral local ordinária a ser realizada no dia 13 de agosto de 2020 (quinta-feira), às 18 horas em primeira chamada e às 18 horas e 15 minutos em segunda chamada, por meio virtual (plataforma Google Meet), para discussão da seguinte pauta:

Informes

  1. Relatório da tesouraria (1º semestre de 2020)

Ordem do dia

  1. Debate da pauta e indicação de delegado(s) para a Reunião de Gestão Coletiva Extraordinária
  2. Atividades do GT Cidade – AGB-Campinas
  3. Outros assuntos

Diretoria Executiva Local


Documentos

Convocatória da RGC Extraordinária (29/08/2020, às 15 horas)

Convocatória da Assembleia Geral Extraordinária (03/10/2020, às 15 horas)

Do neodesenvolvimentismo ao neoliberalismo radical: transformações geográficas em curso (22/07 às 15h)

Luciano Duarte, diretor-presidente da AGB-Campinas, faz palestra para o Núcleo de Estudos em Território, Cultura e Planejamento – Marielle da Universidade Estadual do Maranhão com o tema “Do neodesenvolvimentismo ao neoliberalismo radical: transformações geográficas em curso” nesta quarta-feira, 22/07, às 15h. A mediação será do Prof. Dr. Carlos Eduardo Nobre. Link para a palestra.

1º Seminário GT Geografia e Covid-19

Em resposta ao difícil contexto em que vivemos, os estudantes da pós-graduação e pesquisadores associados ao Departamento de Geografia da USP tomaram a iniciativa, em abril de 2020, de criar o Grupo de Trabalho Geografia e Covid-19, como ferramenta de mobilização e reflexão crítica acerca das dimensões geográficas da pandemia. O objetivo foi incentivar os discentes do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (PPGH-DG/USP) a produzir e publicar textos, podcasts e vídeos com análises e reflexões sobre a pandemia feitas a partir da perspectiva da Geografia. 

Assim, buscamos oferecer à sociedade subsídios para uma leitura crítica sobre que está ocorrendo no panorama atual, fortemente impactado pela pandemia da Covid-19.

1° Seminário Virtual do GT Geografia e Covid-19 trará a apresentação dos trabalhos publicados entre abril e junho de 2020, buscando oferecer à sociedade subsídios para uma leitura crítica sobre que está ocorrendo no panorama atual, fortemente impactado pela pandemia da Covid-19.

O evento será realizado de 20 a 22 de julho de 2020, às 19 horas, com transmissão ao vivo pelo canal do Youtube GT Geografia e Covid-19.

Inscreva-se aqui!

Programação

Realização: Laboratório de Geografia Política (GEOPO) e Laboratório de Regionais em Geografia (LERGEO)

Coordenação do GT Geografia e Covid-19: Daniel Bruno Vasconcelos, Rinaldo de Castilho Rossi, Simone Affonso da Silva, Tatiana de Souza Leite Garcia e Thiago Oliveira Neto

A Metrópole de Campinas e a REGIC 2018: live com o geógrafo Bruno Hidalgo (IBGE), dia 30/07 às 19h

Clique na imagem para acessar o canal da AGB-Campinas no YouTube

A AGB-Campinas convida para sua primeira live, com a transmissão em seu canal do YouTube com o tema A Metrópole de Campinas e a REGIC 2018, com o geógrafo mestre Bruno Dantas Hidalgo, gerente de redes e fluxos geográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O início será às 19 horas do dia 30 de julho (horário de Brasília).

A atividade celebra a recente publicação pelo IBGE da aguardada Regiões de Influências das cidades: 2018 [download aqui, PDF com 93 MB], em que o Arranjo Populacional de Campinas aparece pela primeira vez com o status de Metrópole, assim como Florianópolis e Vitória.

O geógrafo Bruno Hidalgo explicará a metodologia da pesquisa, a hierarquia dos centros urbanos brasileiros e suas regiões de influência. Ao fim da exposição, os participantes poderão enviar questões pelo chat.

A atividade tem duração estimada de uma hora a uma hora e meia.


O Arranjo Populacional de Campinas/SP é a única Cidade que não é Capital Estadual dentre as que compõem o primeiro nível da hierarquia urbana. O ingresso de Campinas no grupo de Metrópoles se deve ao alto dinamismo empresarial existente tanto no núcleo quanto na área de influência, bem como ao porte demográfico, que ultrapassa os 2 milhões de habitantes. Localizada no interior do Estado de São Paulo, a menos de 100 km da Grande Metrópole Nacional, a rede de Campinas se estende para o norte e divide influência tanto com a Metrópole de São Paulo quanto com Belo Horizonte, conforme seu alcance se aproxima de Minas Gerais. Assim, caracteriza-se pela menor extensão territorial dentre as Metrópoles (apenas 14 mil km²), menor número de Cidades componentes de sua rede (apenas 34) e pela segunda mais alta densidade demográfica, comparável à do Rio de Janeiro, com 312 hab./km². A rede apresenta poucos níveis de encadeamento, truncada pelo próprio porte das Cidades atraídas que, em geral, já são Centros Sub-Regionais com dinamismo gerado pelas próprias atividades internas às Cidades, sem que haja um grande conjunto de Centros Locais a serem atraídos. Um exemplo disso é que a Capital Regional da região de influência de Campinas, que é o Arranjo Populacional de Americana – Santa Bárbara d’Oeste/SP, possui população elevada e produção industrial tão significativa que alçou à condição de Capital Regional sem ter nenhuma Cidade subordinada. A renda gerada pelas atividades econômicas existentes na região de influência de Campinas produziu o maior valor de PIB per capita dentre as Metrópoles, alcançando quase R$ 49 mil anuais por habitante.

Nota de pesar: Fernanda Bomfim Soares (1989-2020)

Comunicamos com imenso pesar o falecimento da jovem geógrafa e professora Fernanda Bomfim Soares, ocorrido no sábado, 11 de julho. Fernanda se graduou em Geografia na Unesp de Presidente Prudente e em Pedagogia na Universidade Metropolitana de Santos. Enquanto fazia o mestrado pela FCT-Unesp, com orientação do professor Antonio Cezar Leal, participou da Diretoria da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Local de Presidente Prudente. Também fez estágio de pesquisa em Munique e lecionou na rede estadual. Da pesquisa de mestrado decorre trabalho que apresentou em Campinas, no Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada em 2017. Ultimamente, fazia o doutorado no mesmo Programa e era professora assistente do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Maringá.

A AGB-Campinas transmite as condolências à família, especialmente aos pais Cláudio e Maria de Lourdes, ao namorado André e aos amigos e amigas.

Diretoria Executiva Local, 13 de julho de 2020

A Geografia toma partido: Geografia para resistir e AGB para construir (13-17/07/2020)

A Associação dos Geógrafos Brasileiros está organizando diversas atividades virtuais durante esta semana em que aconteceria o XX ENG, adiado em razão da pandemia de covid-19.

As conjunturas neoconservadoras e neoliberais que se desenham em escala mundo no primeiro quartel do século XXI tem se expressado de modo particular nas periferias do capitalismo mundial. A questão da periferia não se evidencia como localização, mas como condição de estar à margem do poder. Nesses termos, a condição periférica é uma realidade em toda a América Latina em relação a sua posição na organização do capitalismo mundial, que reverbera na realidade produzida dentro de suas próprias fronteiras. Os fundamentos estruturais da sociedade capitalista e a colonialidade dão o tom dos discursos racistas, machistas, homofóbicos, xenofóbicos, higienistas e classistas que têm se acentuado no campo de disputa da política contemporânea. Diante desse contexto, as dinâmicas educacionais, urbanas, rurais e ambientais expõem contradições estudadas pela e por meio da ciência geográfica em suas diversas escalas, o que possibilita criar e fortalecer mecanismos de resistência às hegemonias político-econômicas. A geografia emerge enquanto campo de crítica social para questionar as estruturas hegemônicas, as subordinações imperialistas e sub-imperialistas, hierarquizações e normatizações que escondem as diversidades sob as quais nossa sociedade é construída e se reproduz. Na contramão dessa conjuntura, a Associação dos Geógrafos Brasileiros – enquanto entidade representativa e articuladora da geografia – tem-se construído ao longo dos anos com uma base coletiva, através das Seções Locais e de seus Encontros Nacionais. Diante do avanço das práticas autoritárias, as formas horizontais de organização da AGB surgem como potencialidade de construção de resistências.


13 de julho (segunda-feira) – 19h (horário de Brasília)

Mesa virtual: A ofensiva neoliberal e neoconservadora no(a) Ensino/Educação: o que a Geografia tem a dizer?

Provocador: Rodrigo Coutinho Andrade (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) / integrante do GT de ensino da AGB Niterói)

Palestrantes: Ângela Massumi Katuta (Universidade Federal do Paraná – campus Litoral (UFPR) / AGB Presidente Prudente) e Carlos Josué de Assis (Professor da educação básica na rede de ensino de Fortaleza / AGB Fortaleza).

Historicamente a educação tem tido a função estratégica de produzir subjetividades/objetividades em favor da manutenção da ordem social do capital, determinada pelas necessidades da atual acumulação rentista e da produção de mercadorias, pelo lucro, pela exploração alienante do trabalho. O contexto político pós-eleições de 2018 aprofunda a precarização do trabalho e a desqualificação da docência como profissão, exigindo a análise e o compromisso de enfrentamento dos impactos da ofensiva neoliberal e neoconservadora no(a) Ensino/Educação. A reforma trabalhista e os novos modelos de relação de trabalho tendem a aprofundar a precarização da prática docente, além de confrontá-lo no seu papel efetivo na construção de políticas pedagógicas/ educacionais no cotidiano escolar. As políticas de avaliação externa da educação brasileira (inclusive dos professores, o provão do magistério), política de livros didáticos, currículos de formação de professores e as políticas recém-adotadas pelo Ministério da Educação (MEC) esvaziam e confrontam a formação do pensamento crítico e se articulam a novos modelos de currículos e métodos (BNCC) e um novo papel para o ensino médio (Lei n. 13.415/2017), retenção e/ou redirecionamento do ingresso no ensino superior. Contra estas pautas neoliberais, o papel político da geografia nesse contexto traz à tona a necessidade de reafirmar as bandeiras políticas da AGB na defesa da educação pública, gratuita e de qualidade socialmente referenciada nas lutas do povo brasileiro, da profissão docente e da Geografia como componente curricular. É indispensável que a geografia mostre o que tem a dizer.


14 de julho (terça-feira) – 19h (horário de Brasília)

Roda de conversa: Integração das Geografias da América Latina – Reunião com as entidades do Brasil e da América Latina

Participantes: participarão da atividade entidades de Geografia do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e México.

A necessidade da articulação entre estudantes, professoras(es) e profissionais de Geografia da América Latina há tempos se mostra como necessária. Em abril de 2019, durante o XVII Encontro de Geógrafos da América Latina (EGAL), realizado em Quito (Equador), buscamos promover esta articulação através de uma reunião entre diferentes entidade e coletivos que congregam estudantes, professoras(es) e profissionais de Geografia em todo o subcontinente. Na ocasião houve a tentativa de iniciar a criação de um coletivo de entidades de Geografia da América Latina para debater e pensar ações no âmbito científico, político e profissional da ciência geográfica.  No atual contexto, no qual vivenciamos avanço do neoliberalismo, do fascismo e do neoconservadorismo expresso de modo singular nas periferias do capitalismo mundial, o desmonte de políticas educacionais e a banalização/criminalização do conhecimento científico são práticas cada vez mais frequentes. Assim, a promoção de articulações entre associações, organizações, coletivos e entidades de Geografia na escala da América Latina se torna ainda mais fundamental. Com o objetivo de promover tal articulação, a Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) convida associações, organizações, coletivos e entidades de Geografia da América Latina a compor um espaço de debate a ser realizado durante a Semana “A Geografia toma partido: a Geografia para resistir e a AGB para construir” (13 a 17 de julho de 2020). O intuito do espaço é fomentar o diálogo entre tais entidades neste contexto de diferentes ataques a sociedade.


15 de julho (quarta-feira) – 19h (horário de Brasília)

Mesa virtual: Relações Raciais e Interseccionalidades: Geografias, Lutas antirracistas e a AGB

Provocador: Diego Dhermani (Integrante do GT de Geo raça e racismo da AGB Juiz de Fora e Mestrando em Geografia no PPGEO/Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)).

Palestrantes: Simone Antunes (Integrante do GT de Relações Raciais e Interseccionalidades da AGB Niterói, Professora de Geografia da Rede Pública Estadual do Rio de Janeiro, Integrante do Grupo de Pesquisas NEGRA/FFP e Mestranda no PPGEO/Universidade Federal Fluminense (UFF) e Renato Emerson Nascimento dos Santos (Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) / AGB Rio de Janeiro).

As hierarquizações étnicas e raciais possuem um papel histórico na construção da sociedade e consequentemente na produção científica brasileira. Os ataques a grupos indígenas e quilombolas; o genocídio da juventude negra nas periferias e favelas; as violências aos espaços sagrados das religiões de matriz africana e indígena; e as estruturas de opressão impostas as mulheres negras, são exemplos. A Geografia historicamente tem um papel fundamental na consolidação e naturalização dos “conhecimentos”, que através da colonialidade produzem a dominação de corpos, mentes e lugares. Partir de perspectivas antirracistas pressupõe o diálogo com novos paradigmas para compreender tais relações como elementos constituintes de práticas do espaço geográfico. Deste modo, propõe-se pensar as questões étnicorraciais e suas interseccionalidades não restritas a um campo específico da Geografia.  A AGB advoga estar na trincheira da luta antirracista. Contudo, sabe-se que as dimensões do racismo se difundem socialmente, assumindo caráter estrutural e promove a sua reprodução em diversas escalas. Sendo assim, questionamos: como a AGB se posiciona nas lutas antirracistas? Em que medida e proporção a entidade encampa as teorias científicas, discursos e ações políticas que buscam a superação do racismo brasileiro? Como isso se manifesta nas atuações da associação na dimensão de suas seções locais e nacional? De quais formas a AGB vem atuando como articuladora dessas lutas entre geógrafas e geógrafos no Brasil, uma vez que assim se posiciona a organização?


16 de julho (quinta-feira) – 19h (horário de Brasília)

Roda de conversa: A AGB para construir – Reunião com as Seções Locais da AGB

O objetivo da Roda de Conversas com as Seções Locais da AGB é apresentar as atividades desenvolvidas pelas Seções Locais durante esse período de isolamento social, assim como debater localmente e nacionalmente a atual conjuntura e os seus desdobramentos para a sociedade e para a entidade.

Participantes: Seções Locais da AGB.

Local: Canal do YouTube da AGB Nacional.


17 de julho (sexta-feira) – 19h (horário de Brasília)

Mesa virtualGeopolítica atual e saúde global

Provocador: Raul Borges Guimarães (UNESP Presidente Prudente / AGB Presidente Prudente).

Palestrantes: Cláudia Roma (Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) / AGB Dourados) e Gilberto Vieira dos Santos (Conselho Indigenista Missionário (CIMi) / AGB Presidente Prudente).

A saúde se evidencia enquanto tema de pesquisa na geografia há ao menos duas décadas, pautando o compromisso para construção de uma sociedade mais equitativa. Tendo em vista a relevância cada vez maior do tema “Saúde global” na geopolítica atual, a geografia para a saúde visa compreender os fenômenos que assolam as vidas e não somente se restringir ao mapeamento de enfermidades. Os desafios políticos e territoriais impostos pelo capitalismo, atingindo especialmente a população mais pobre, se intensificam com o avanço do neoliberalismo e a ascensão da ultradireita, colocando a vida humana no limite da suportabilidade. O alinhamento dos pressupostos da Saúde Coletiva na ciência geográfica, principalmente no Brasil, tem como meta construir um desenvolvimento mais humano e democrático que possibilite avanços nas questões ambientais e/ou sociais. Assim, a geografia sai em defesa dos povos da floresta e das(os) trabalhadoras(es), a partir da análise e do enfrentamento das políticas de contaminação por agrotóxicos no campo e na cidade, revelando resistências e formas de produção alternativas, bem como representando a luta pela manutenção do Sistema Único de Saúde, como sistema universal e gratuito.

Geógrafo publica atlas das eleições de 2016 em Campinas

Gustavo Teramatsu / AGB-Campinas

O geógrafo campineiro Lucas Coutinho Marcelino da Silva acaba de publicar, de forma independente, o Atlas – Geografia do voto de Campinas – Eleições 2016. Para o mapeamento, produzido no software livre QGIS a partir de dados do Repositório de dados eleitorais do TSE, o município de Campinas foi dividido em suas sete zonas eleitorais. O atlas inclui os dados gerais da votação em cada zona, como o número de eleitores, o comparecimento e a abstenção. Também apresenta a votação de cada candidato à Prefeitura – foi reeleito em primeiro turno o prefeito Jonas Donizette –, e também a votação para vereador por partido e para cada um dos 33 vereadores eleitos naquele pleito.

Lucas é geógrafo formado na Unesp de Rio Claro e atualmente faz o mestrado em Geografia Humana na USP, sob orientação de Hervé Théry.

Nota da AGB-Campinas à comunidade e aos gestores públicos em relação às ações de combate à Covid-19

O Brasil ultrapassou a triste marca de 1 milhão de casos de Covid-19 e o trágico número de 50 mil vidas perdidas. No estado de São Paulo são 215.793 casos e 12.494 óbitos. Na cidade de Campinas, são 5.317 casos e 211 óbitos, de um total de 9.160 casos e 360 óbitos na região metropolitana. Com isso em vista, a Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Campinas – vem a público se manifestar quanto à necessidade de balizar a tomada de decisão em critérios científicos, que se impõem diante do aumento do número de casos e óbitos, das evidências de subnotificação, do baixo índice de testagem, da inexistência de vacina ou de tratamento eficaz contra a doença e da sobrecarga do sistema de saúde. 

Nesse momento em que a pandemia se expande em direção ao interior do território nacional, notadamente do estado de São Paulo, conforme comprova o Radar COVID-19, é fundamental que medidas sejam tomadas para garantir o distanciamento social, que se fundamenta nos principais e mais aceitos estudos científicos realizados pela epidemiologia. Campinas e outros importantes centros urbanos regionais do estado possuem grande responsabilidade no combate ao novo coronavírus, já que concentram os principais serviços de atendimento hospitalar de alta complexidade, como leitos de Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs), além de equipamentos e insumos médicos necessários ao tratamento daqueles mais gravemente afetados pela doença. Tendo em vista a situação geográfica que se configura na cidade, defendemos que a Prefeitura não avance nos planos de flexibilização das medidas de isolamento social.

Diante da crise sanitária, que é igualmente social e econômica, a AGB-Campinas também manifesta sua posição quanto à imediata implementação de medidas de redução de danos voltadas às populações historicamente invisibilizadas pelas políticas públicas, e que se expressam no abismo urbano-social existente na região e no Brasil. Parcela significativa dessa população, além de possuir dificuldades de realizar o devido isolamento social em razão das péssimas condições de moradia a que está submetida, também é diretamente afetada pela precarização e pela ausência de direitos trabalhistas que poderiam assegurar o afastamento temporário de suas funções. É essencial que ações e políticas lhes garantam suporte financeiro, como a renda básica universal.

A AGB-Campinas defende também a aprovação urgente do projeto de lei e a implementação imediata de ações governamentais que organizem a fila única de acesso aos leitos nas redes pública e privada para o atendimento universal das pessoas infectadas com o novo coronavírus, sem discriminação por classe social. Não aprovar esta medida tornará ainda mais evidentes os preconceitos racistas e classistas, a mentalidade elitista e a postura exclusivista que funda a sociedade brasileira e se reflete na população campineira.

Campinas, 21 de junho de 2020

NOTA EM PDF

Lívia de Oliveira (1927-2020)

Memorial

Faleceu neste sábado, 6 de junho, aos 92 anos, a professora Lívia de Oliveira.

Lívia nasceu em Mairinque em 27 de agosto de 1927. Diplomada professora primária, foi para a Universidade de São Paulo, onde formou-se em Enfermagem, em 1948, bem antes de se formar em Geografia e História, em 1958. Matriculou-se no curso noturno, trabalhando como enfermeira no início e, já ao fim da graduação, como professora, em Pedro de Toledo. Foram seis décadas de vida devotadas à Geografia.

Em 1962 foi para Rio Claro ministrar a disciplina de Didática Especial de Geografia. O título de doutora veio em 1967, na época em que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro fez parte da Universidade de Campinas, com a tese “Contribuição ao Ensino da Geografia” – a primeira no Brasil a tratar especificamente do ensino da disciplina –, orientada pelo professor José Ribeiro de Araújo Filho (1911-1994), que a incentivou a seguir na Geografia.

A tese de livre-docência, “Estudo metodológico e cognitivo do mapa”, se tornou livro em 1978 e uma grande referência para a Cartografia Escolar.

Também em Rio Claro, em 1985, organizou o primeiro Encontro Nacional de Prática de Ensino em Geografia, que teve sua 14ª edição em Campinas, em julho passado. No evento, aconteceu exposição do Concurso Cartografia para Crianças, da Sociedade Brasileira de Cartografia, que oferece o Prêmio Profª Lívia de Oliveira. Naquele mesmo mês, a professora Lívia esteve em Campinas, em banca examinadora da tese “O sentido geográfico da identidade: metafenomenologia da alteridade Payayá“.

Costumava dizer que o conceito de percepção do espaço em Jean Piaget (1896-1980) a levou à percepção geográfica. Foi responsável pela tradução dos livros de Yi-Fu Tuan (1930-) para o português (Topofilia, em 1980; Espaço e Lugar, em 1983, ambos pela Difel; e Paisagens do Medo, pela Editora da Unesp, em 2005). E, assim, ajudou a estabelecer a Geografia Humanista no Brasil. Longeva, contribuía ainda ativamente com o Grupo de Pesquisa Geografia Humanista Cultural, onde se concentrou sua produção mais recente, no último decênio.

A AGB-Campinas, com pesar, compartilha o luto com a família e com os numerosos amigos, ex-alunos e admiradores da professora Lívia entre os geógrafos do Brasil.

Diretoria Executiva Local

Campinas, 6 de junho de 2020

Richard Sennett: As cidades na pandemia

Publicado no portal Newcities.org com o título “The State of Exception Becomes the Norm”, traduzido para o francês em versão ampliada por Hélène Borraz no portal AOC – Analyse Opinion Critique. Traduzido pelos geógrafos Luciano Duarte, Wagner Nabarro e Gustavo Teramatsu


Em Homo Sacer, o filósofo italiano Agamben fala da repressão que surge quando um estado de exceção é instaurado. A vida das pessoas se encontra reduzida a um mínimo biológico, como nos campos de concentração nazistas. Mas essa redução pode persistir uma vez que as condições excepcionais passem. O sociólogo Alain Touraine mostrou há muito tempo como a situação em tempos de guerra legitimou a regulamentação estatal da vida das pessoas, bem depois do fim da segunda guerra mundial. As estruturas do poder se servem das crises, usando-as para legitimar um controle mais amplo.

O pânico permite a exploração das crises. Nos países ricos, raros são os jovens que hoje em dia conhecem a disciplina militar, que não tem outro objetivo senão garantir que os soldados, sob fogo, mantenham o controle deles mesmos; entrar em pânico no campo de batalha é morte na certa ou quase isso. Mas a mídia hoje está embriagada de pânico, nos apresentando esses extremos que são a doença e a morte como um destino inevitável. Quando uma boa notícia surge – a redução da doença na China, por exemplo –  o lugar que a mídia lhe dedica, poderíamos dizer, é bem menor que aquela relacionada à comparação da pandemia do Covid-19 com a peste negra do século XIV. É absurdo, mas a comparação empolga. É assim que o poder da mídia serve ao Estado em seu projeto de normalização. 

Não estou minimizando a pandemia atual, apenas dizendo que é preciso respondê-la sem entrar em pânico, e que ela constitui uma “oportunidade”, na falta de uma expressão melhor, que deve ser aproveitada.

Esta é a perspectiva que as cidades enfrentam hoje: as regras de controle das cidades durarão mais do que a pandemia; em particular, as regras que regem o espaço público, que ditam a distância social e que dispersam as multidões persistirão mesmo após nós termos os meios médicos de suprimir a doença. Nós dispomos de um precedente histórico recente. Após o 11 de Setembro, a legislação que regula as reuniões públicas, o controle de acesso aos edifícios e as especificações para construção daqueles à prova de bombas permanecem inscritos nos textos legiferantes desses setores. O “distanciamento social”, necessário na atual crise, ameaça se tornar uma norma imposta pelo governo mesmo que posteriormente, graças a uma vacina eficaz, as pessoas não tenham mais razões imperiosas de temer a proximidade dos outros.

Essa situação nos desafia a refletir sobre os problemas urbanos, no entanto, que durarão mais do que a pandemia. O primeiro é o isolamento social, angustiante primo do distanciamento social. A pandemia nos fez tomar consciência – particularmente na Europa – do problema de lidar com um grande número de pessoas idosas vivendo sozinhas. Em Londres, de onde escrevo, 40% das pessoas idosas vivem sozinhas, em Paris, 68%. Elas já estão experienciando o distanciamento social e a solidão não faz nada bem para sua saúde física ou mental. Os governos, na minha opinião, são incapazes de votar leis capazes de superar a solidão criada pelo distanciamento social imposto. Este é um desafio para a sociedade civil urbana, para o qual precisaremos ter novos conceitos em matéria de comunidade.

A pandemia também desafia os urbanistas a repensar a arquitetura da densidade. A densidade é a lógica das cidades; a concentração das atividades em uma cidade estimula a atividade econômica (o que chamamos de “efeito de aglomeração”); a concentração de pessoas é um bom princípio ecológico para enfrentar a mudança climática, ao permitir economizar recursos de infraestrutura. E isso é uma coisa boa socialmente, ao expor as pessoas a outros grupos aos quais elas não pertencem,  numa cidade densa e diversificada. No entanto, para prevenir ou inibir futuras pandemias, é possível que nós tenhamos que encontrar novas configurações de densidade que permitiriam às pessoas se comunicar, ver seus vizinhos, participar da vida urbana mesmo que elas devam temporariamente que se manter distantes umas das outras. Faz muito tempo que os urbanistas chineses inventaram uma tal forma flexível: o pequeno pátio interior dos shikumen¹. Os arquitetos e urbanistas devem encontrar seu equivalente contemporâneo.

¹ N. dos T.: Estilo de arquitetura residencial que mescla elementos europeus e chineses, difundido durante o século XIX por diversas áreas do território chinês, principalmente em Xangai, mas também Wuhan, primeiro foco da COVID-19.

Os meios de transporte colocam um problema mais difícil de resolver no contexto da densidade. Os transportes públicos têm a vantagem de reunir passageiros de forma massiva e eficiente, mas esta não é uma forma saudável de densificação. Assim, os urbanistas de Paris e Bogotá exploram o que chamamos de “cidades em 15 minutos”, onde as pessoas podem ir a pé ou de bicicleta até pequenos polos de atividades densos, em vez de se deslocar mecanicamente em direção a alguns grandes centros da cidade. Mas isso exigiria uma revolução econômica a ser alcançada – particularmente nas cidades em vias de desenvolvimento ou, como em Bogotá, onde as fábricas se encontram longe dos barrios e favelas (bidonvilles) onde vivem os trabalhadores.

Eis o que coloca em evidência um problema gritante: como conciliar cidade saudável e cidade verde? Existem pontos em comum evidentes na pequena escala, por exemplo, a instalação de meios para que os mais desfavorecidos não tenham mais que queimar seus resíduos e cessem assim de contribuir com a poluição. Porém, considerar a adequação da cidade saudável/cidade verde nos obriga a repensar radicalmente a densidade.

Além disso, a pandemia revela a extensão das desigualdades sociais. O trabalho que as pessoas podem fazer desde suas casas em grande parte é um trabalho de classe média: a coleta de lixo, a canalização ou outros empregos terciários não menos manuais não podem ser feitos online. Se a pandemia atual deixa algum traço durável no mundo do trabalho, receio que este seja o aprofundamento da distância entre o trabalho manual e o trabalho intelectual e o de uma classe operária ainda mais exposta a condições de trabalho potencialmente  insalubres.

A pandemia pode finalmente, humanizar a utilização da alta tecnologia nas cidades. Até agora, os modelos de “cidade inteligente”, implementados há uma geração, foram orientados sobre a regulamentação e o controle – o Estado online. O que está surgindo nesta pandemia são excelentes programas e protocolos capazes de criar a comunidade. Eu estou particularmente impressionado com Londres, pelo número de redes de cuidados mútuos que estão se desenvolvendo nas comunidades como a minha, que se parece com o West Harlem em Nova York, cheia de diversidade, mas não dotada de verdadeira comunidade.  A comunicação online mudou na última semana tudo isso.

Em suma, é hora de temer a oportunidade que a pandemia oferece aos poderes dirigentes, de recusar o espetáculo do pânico produzido pela mídia, de encontrar os meios para lutar contra o fosso que se agrava entre a classe média protegida e a classe trabalhadora exposta, explorar as diferentes formas de diversidade capazes de conciliar a cidade verde e a cidade saudável, e utilizar as novas tecnologias para afirmar o poder da sociedade civil na cidade.

[Entrevista] Edgar Morin: “Sentir mais do que nunca a comunidade de destino de toda a humanidade”

Entrevista a Simon Blin publicada no Libération em 29 de março de 2020, traduzida pelos geógrafos Luciano Duarte, Wagner Nabarro e Gustavo Teramatsu


Quase centenário, o sociólogo, eterno otimista, considera o confinamento como uma ocasião inesperada para regenerar a própria noção de humanismo, mas também para cada um escolher entre o importante e o frívolo.

Confinado, ele diz se sentir “protegido fisicamente em uma comunicação e uma comunhão permanentes” com o mundo que permanece virtualmente conectado. Ele, que sempre viveu plenamente, cujo século de existência é composto de mudanças perpétuas e de engajamentos políticos e intelectuais. Nascido em 1921, Edgar Morin, sociólogo, filósofo, “humanólogo”, como diz ele, escritor mundialmente conhecido, pensador da “complexidade” da obra abundante e englobante (O Método é sua obra principal), viveu a Resistência¹, atravessou o século XX entre admiração e revolta. Ele aborda essas duas loucas semanas em que vimos o mundo inteiro atingido pela propagação do coronavírus. O diretor emérito de pesquisa do CNRS², nonagenário quase centenário de um otimismo inabalável e de um olhar luminoso, vê nesse momento de parada planetária a oportunidade de uma “crise existencial salutar”.

¹ Resistência francesa contra a invasão da Alemanha Nazista.

² Centre national de la recherche scientifique (Centro Nacional de Pesquisa Científica) o correlato francês do CNPq brasileiro.

Como você vive esse grave e inédito momento?

Nós sofremos um confinamento físico mas dispomos de meios para se comunicar por palavras que nos colocam em comunicação com o outro e com o mundo. No estágio atual, em relação ao encarceramento, nós estamos abertos, mais atentos e solidários uns com os outros. São os solitários sem telefone nem televisão, e sobretudo os não confinados, ou seja, os sem abrigo, os muito frequentemente esquecidos pelo poder e pela mídia, que são as vítimas absolutas do confinamento. No que me diz respeito, eu me sinto participando intensamente, mesmo que apenas do confinamento em si, do destino da nação e do cataclismo planetário. Eu me sinto mais protegido do que nunca, dentro da incerta e desconhecida aventura de nossa espécie. Eu sinto mais forte do que nunca a comunidade de destino de toda a humanidade.

Como você qualifica essa crise que nós atravessamos na história?

Atualmente nós estamos sujeitos a uma tripla crise. A crise biológica de uma epidemia que ameaça indiscriminadamente nossas vidas e ultrapassa as capacidades hospitalares, sobretudo onde as políticas neoliberais não cessam de reduzi-las. A crise econômica nascida das medidas de restrição tomadas contra a pandemia e que, reduzindo ou parando as atividades produtivas, de trabalho, de transporte, certamente se agravará se o confinamento se tornar duradouro. A crise de civilização: nós passamos bruscamente de uma civilização da mobilidade a uma obrigação de imobilidade. Nós vivíamos principalmente fora, no trabalho, no restaurante, no cinema, em reuniões, em festas. Aqui somos forçados a um estilo de vida sedentário e à vida privada. Nós vivemos sob  a influência de consumismo, ou seja, do vício em produtos de qualidade medíocre e em virtudes ilusórias, o incentivo ao aparentemente novo, em busca de mais, e não do melhor. O confinamento poderia ser uma oportunidade de desintoxicação mental e física, que nos permitiria selecionar o importante e rejeito o frívolo, o supérfluo, o ilusório. O importante é evidentemente o amor, a amizade, a solidariedade, a fraternidade, o desabrochar do Eu em um Nós. Nesse sentido, o confinamento poderia suscitar uma crise existencial salutar, em que nós refletiríamos sobre o sentido de nossas vidas.

Diante da pandemia, é o conjunto de nosso sistema que está abalado: sanitário, político, econômico e democrático. Seu trabalho intelectual consiste precisamente em pensar a complexidade e a transdisciplinaridade.

Essas crises são interdependentes e estabelecem relações umas com as outras. Se uma delas se agrava, mais ela agrava as outras. Se uma diminui, ela diminuirá as outras. Igualmente, enquanto a epidemia não regredir, as restrições serão mais e mais sensíveis e o confinamento será vivido cada vez mais como um impedimento (de trabalho, de praticar esportes, de ir a reuniões e a espetáculos, de cuidar de seu ciático ou de seus dentes). Mais profundamente, esta crise é antropológica: ela nos revela a face ínfima e vulnerável da formidável força humana, ela nos revela que a unificação técnico-econômica do globo criou, ao mesmo tempo, uma interdependência generalizada e uma comunidade de destino sem solidariedade.

É como se o mundo não entrasse mais em nossos quadros de análise. As referências intelectuais também são transformadas.

Essa policrise deveria suscitar uma crise do pensamento político e do próprio pensamento de fato. A fagocitação da política pelo econômico, a fagocitação do econômico pela ideologia neoliberal, a fagocitação da inteligência reflexiva por aquela do cálculo, tudo isso impede de conhecer os imperativos complexos que se impõem: combinar mundialização (para tudo que é cooperativo) e desmundialização (para salvar os territórios desertificados, as autonomias alimentares e sanitárias das nações); combinar desenvolvimento (que o lado positivo do individualismo) e envolvimento (que é solidariedade e comunidade); combinar crescimento e decrescimento (determinando o que deve crescer e o que deve decrescer). O crescimento traz em si mesmo a vitalidade econômica, o decrescimento traz em si mesmo a saúde ecológica e a despoluição generalizada. A associação do que parece contraditório é aqui logicamente necessária.

Nossa capacidade de “viver junto” é colocada à prova. Seria a ocasião de refundar um novo humanismo, de restaurar as bases de uma vida comum, mais solidária na escala do planeta?

Nós não precisamos de um novo humanismo, nós precisamos de um humanismo reforçado e regenerado. O humanismo tomou duas faces antagônicas na Europa. A primeira é aquela da quase-divinização do humano, destinado a dominar a natureza. O outro humanismo foi formulado por Montaigne em uma frase: “eu reconheço em todo homem meu compatriota”. É necessário abandonar o primeiro e regenerar o segundo. A definição do humano não pode se limitar à ideia de indivíduo. O humano se define por três termos tão inseparáveis um do outro quanto a trindade: o humano é ao mesmo tempo indivíduo, uma parte, um momento da espécie humana, e uma parte, um momento da sociedade. Ele é simultaneamente individual, biológico, social. A partir desse momento, o humanismo não saberia ignorar nossa ligação umbilical com a vida e nossa ligação umbilical com o universo. Ele não se esqueceria que a natureza está tanto em nós como nós estamos na natureza. A base intelectual do humanismo regenerado é a razão sensível e complexa. Não somente é necessário seguir o axioma “não há razão sem paixão, não há paixão sem razão”, mas nossa razão deve sempre ser sensível a tudo que afeta os humanos.

Isso suporia uma  inversão dos valores do mundo no qual vivemos antes do coronavírus…

O humanismo regenerado conscientemente extrai das fontes da ética, presentes em toda sociedade humana, que são a solidariedade e a responsabilidade. A solidariedade suscita a responsabilidade e a responsabilidade suscita a solidariedade. Essas fontes permanecem presentes, mas em parte secas e drenadas em nossa civilização sob o efeito do individualismo, da dominação do lucro, da burocratização generalizada. O humanismo regenerado é essencialmente um humanismo planetário. O humanismo passado ignoraria a interdependência concreta entre todos os humanos que se tornou comunidade de destino, que criou a mundialização e que ela faz aumentar sem parar. Como a humanidade está ameaçada por riscos mortais (multiplicação das armas nucleares, desencadeamento de fanatismos e multiplicação de guerras civis internacionais, degradação acelerada da biosfera, crises e desregulação de uma economia dominada pela especulação financeira enlouquecida), ao que se acrescenta agora a pandemia viral que reforça esses riscos, a vida da espécie humana e, inseparavelmente, a da biosfera se tornam um valor prioritário.

Essa mudança é fundamental?

Para que a humanidade possa sobreviver, ela deve se metamorfosear. Jaspers disse logo após a Segunda Guerra Mundial: “se a humanidade quer continuar a viver, ela deve mudar”. O humanismo, ao meu ver, não é somente a consciência de solidariedade humana, é também o sentimento de estar no interior de uma desconhecida e incrível aventura. No seio dessa aventura desconhecida cada um faz parte de um grande ser constituído de sete bilhões de humanos, como uma célula faz parte de um corpo entre centenas de bilhões de células. Cada um participa desse ilimitado, desse inacabado, dessa realidade fortemente tecida de sonho, desse ser de dor, de alegria e de incerteza que está em nós assim como nós nele. Cada um dentre nós faz parte dessa inaudita aventura, no seio da própria espantosa aventura do universo. Ela traz consigo sua ignorância, seu desconhecimento, seu mistério, sua loucura na sua razão, sua inconsciência de sua consciência, e cada um traz em si a ignorância, o desconhecido, o mistério, a loucura, a razão da aventura mais do que nunca incerta, mais do que nunca assustadora, mais do que nunca emocionante.

Vladimir Satafle: Bem-vindo ao Estado suicidário

Publicado pela n-1 edições. Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, professor convidado das universidades de Paris VII, Paris VIII, Toulouse, Louvain e Stellenboch. É um dos coordenadores do Laboratório de Pesquisas em Teoria social, Filosofia e psicanálise (Latesfip/USP)


Você é parte de um experimento. Talvez sem perceber, mas você é parte de um experimento. O destino do seu corpo, sua morte são partes de um experimento de tecnologia social, de nova forma de gestão. Nada do que está acontecendo nesse país que se confunde com nossa história é fruto de improviso ou de voluntarismo dos agentes de comando. Até porque, ninguém nunca entendeu processos históricos procurando esclarecer a intencionalidade dos agentes. Saber o que os agentes acham que estão a fazer é realmente o que menos importa. Como já se disse mais de uma vez, normalmente eles o fazem sem saber.

Esse experimento do qual você faz parte, do qual te colocaram à força tem nome. Trata-se da implementação de um “Estado suicidário” como disse uma vez Paul Virilio. Ou seja, o Brasil mostrou definitivamente como é o palco da tentativa de implementação de um Estado suicidário. Um novo estágio nos modelos de gestão imanentes ao neoliberalismo. Agora, é sua face a mais cruel, sua fase terminal.

Engana-se quem acredita que isto é apenas a já tradicional figura do necroestado nacional. Caminhamos para além da temática necropolítica do Estado como gestor da morte e do desaparecimento. Um Estado como o nosso não é apenas o gestor da morte. Ele é o ator contínuo de sua própria catástrofe, ele é o cultivador de sua própria explosão. Para ser mais preciso, ele é a mistura da administração da morte de setores de sua própria população e do flerte contínuo e arriscado com sua própria destruição. O fim da Nova República terminará em um macabro ritual de emergência de uma nova forma de violência estatal e de rituais periódicos de destruição de corpos.

Um Estado dessa natureza só apareceu uma vez na história recente. Ele se materializou de forma exemplar em um telegrama. Um telegrama que tinha número: Telegrama 71. Foi com ele que, em 1945, Adolf Hitler proclamou o destino de uma guerra então perdida. Ele dizia: “Se a guerra está perdida, que a nação pereça”. Com ele, Hitler exigia que o próprio exército alemão destruísse o que restava de infraestrutura na combalida nação que via a guerra perdida. Como se esse fosse o verdadeiro objetivo final: que a nação perecesse pelas suas próprias mãos, pelas mãos do que ela mesma desencadeou. Esta era a maneira nazista de dar resposta a uma raiva secular contra o próprio Estado e contra tudo o que ele até então havia representado. Celebrando sua destruição e a nossa. Há várias formas de destruir o Estado e uma delas, a forma contrarrevolucionária, é acelerando em direção a sua própria catástrofe, mesmo que ela custe nossas vidas. Hannah Arendt falava do fato espantoso de que aqueles que aderiam ao fascismo não vacilavam mesmo quando eles próprios se tornavam vítimas, mesmo quando o monstro começava a devorar seus próprios filhos.

O espanto, no entanto, não deveria estar lá. Como dizia Freud: “mesmo a auto-destruição da pessoa não pode ser feita sem satisfação libidinal”. Na verdade, esse é o verdadeiro experimento, um experimento de economia libidinal. O Estado suicidário consegue fazer da revolta contra o Estado injusto, contra as autoridades que nos excluíram, o ritual de liquidação de si em nome da crença na vontade soberana e na preservação de uma liderança que deve encenar seu ritual de onipotência mesmo quando já está claro como o sol sua impotência miserável. Se o fascismo sempre foi uma contrarrevolução preventiva, não esqueçamos que sempre soube transformar a festa da revolução em um ritual inexorável de auto-imolação sacrificial. Fazer O desejo de transformação e diferença conjugar a gramática do sacrifício da auto-destruição: essa sempre foi a equação libidinal que funda o Estado suicidário.

O fascismo brasileiro e seu nome próprio, Bolsonaro, encontraram enfim uma catástrofe para chamar de sua. Ela veio sob a forma de urna pandemia que exigiria da vontade soberana e sua paranoia social compulsivamente repetida que ela fosse submetida à ação coletiva e à solidariedade genérica tendo em vista a emergência de um corpo social que não deixasse ninguém na estrada em direção ao Hades. Diante da submissão a uma exigência de autopreservação que retira da paranoia seu teatro, seus inimigos, suas perseguições e seus delírios de grandeza a escolha foi, no entanto, pelo flerte contínuo com a morte generalizada. Se ainda precisássemos de uma prova de que estamos a lidar com uma lógica fascista de governo, esta seria a prova definitiva. Não se trata de um Estado autoritário clássico que usa da violência para destruir inimigos. Trata se de um Estado suicidário de tipo fascista que só encontra sua força quando testa sua vontade diante do fim.

É claro que tal Estado se funda nessa mistura tão nossa de capitalismo e escravidão, de publicidade de coworking, de rosto jovem de desenvolvimento sustentável e indiferença assassina com a morte reduzida a efeito colateral do bom funcionamento necessário da economia. Alguns acham que estão a ouvir empresários, donos de restaurantes e publicitários quando porcos travestidos de arautos da racionalidade econômica vêm falar que pior que o medo da pandemia deve ser o medo do desemprego.

Na verdade, eles estão diante de senhores de escravos que aprenderam a falar business english. A lógica é a mesma, só que agora aplicada à toda a população. O engenho não pode parar. Se para tanto alguns escravos morrerem, bem, ninguém vai realmente criar um drama por causa disso, não é mesmo? E o que afinal significa 5.000, 10.000 mortes se estamos falando em “garantir empregos”, ou seja, em garantir que todos continuarão sendo massacrados e espoliados em ações sem sentido e sem fim enquanto trabalham nas condições as mais miseráveis e precárias possíveis?

A história do Brasil é o uso contínuo desta lógica. A novidade é que agora ela é aplicada a toda a população. Até bem pouco tempo, o país dividia seus sujeitos entre “pessoas” e “coisas”, ou seja, entre aqueles que seriam tratados como pessoas, cuja morte provocaria luto, narrativa, comoção e aqueles que seriam tratados como coisas, cuja morte é apenas um número, uma fatalidade da qual não há razão alguma para chorar. Agora, chegamos à consagração final desta lógica. A população é apenas o suprimento descartável para que o processo de acumulação e concentração não pare sob hipótese alguma.

É claro que séculos de necropolítica deram ao Estado brasileiro certas habilidades. Ele sabe que um dos segredos do jogo é fazer desaparecer os corpos. Você retira números de circulação, questiona dados, joga mortos por corona vírus em outra rubrica, abre covas em lugares invisíveis. Bolsonaro e seus amigos vindos dos porões da ditadura militar sabem como operar com essa lógica. Ou seja, a velha arte de gerir o desaparecimento que o Estado brasileiro sabe fazer tão bem. De toda forma, there is no alternative. Esse era o preço a pagar para que a economia não parasse, para que os empregos fossem garantidos. Alguém tinha que pagar pelo sacrifício. A única coisa engraçada é que sempre são os mesmos quem pagam. A verdadeira questão é outra, a saber: Quem nunca paga pelo sacrifício enquanto prega o evangelho espúrio do açoite?

Pois vejam que coisa interessante. Na República Suicidária Brasileira não há chance alguma de fazer o sistema financeiro verter seus lucros obscenos em um fundo comum para o pagamento de salários da população confinada, nem de enfim implementar o imposto constitucional sobre grandes fortunas para ter a disposição parte do dinheiro que a elite vampirizou do trabalho compulsivo dos mais pobres. Não, essas possibilidades não existem. There is no alternative: será necessário repetir mais uma vez?

Essa violência é a matriz do capitalismo brasileiro. Quem pagou a ditadura para criar aparatos de crimes contra a humanidade na qual se torturava, estuprava, assassinava fazia desaparecer cadáveres? Não estavam lá dinheiro de Itaú, Bradesco, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Fiesp, ou seja, todo o sistema financeiro e empresarial que hoje tem lucros garantidas pelos mesmos que veem nossas mortes como um problema menor?

Na época do fascismo histórico, o Estado suicidário mobilizava-se através de uma guerra que não podia parar. Ou seja, a guerra fascista não era uma guerra de conquista. Ela era um fim em si mesmo. Como se fosse um “movimento perpétuo, sem objeto nem alvo” cujos impasses só levam a uma aceleração cada vez maior. A ideia nazista de dominação não está ligada ao fortalecimento do Estado, mas a um movimento em movimento constante. Hannah Arendt falará da: “essência dos movimentos totalitários que só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia”. Uma guerra ilimitada que significa a mobilização total de todo efetivo social, a militarização absoluta em direção a uma guerra que se torna permanente. Guerra, no entanto, cuja direção não pode ser outra que a destruição pura e simples.

Só que o Estado brasileiro nunca precisou de uma guerra porque ele sempre foi a gestão de uma guerra civil não declarada. Seu exército não serviu a outra coisa que se voltar periodicamente contra sua própria população. Esta é a terra da contrarrevolução preventiva, como dizia Florestan Fernandes. A pátria da guerra civil sem fim, dos genocídios sem nome, dos massacres sem documentos, dos processos de acumulação de capital feitos através de bala e medo contra quem se mover. Tudo isso aplaudido por um terço da população, por seus avós, seus pais, por aqueles cujos circuitos de afetos estão presos nesse desejo inconfesso do sacrifício dos outros e de si há gerações. Pobres dos que ainda acreditam que é possível dialogar com quem estaria nesse momento a aplaudir agentes da SS.

Pois alternativas existem, mas se elas forem implementadas serão outros afetos que circularão, fortalecendo aqueles que recusam tal lógica fascista, permitindo enfim que eles imaginem outro corpo social e político. Tais alternativas passam pela consolidação da solidariedade genérica que nos faz nos sentir em um sistema de mútua dependência e apoio, no qual minha vida depende da vida daqueles que sequer fazem parte do “meu grupo”, que estão no “meu lugar”, que tem as “minhas propriedades”. Esta solidariedade que se constrói nos momentos mais dramáticos lembra aos sujeitos que eles participam de um destino comum e devem se sustentar coletivamente. Algo muito diferente do: “se eu me infectar, é problema meu”. Mentira atroz, pois será, na verdade, problema do sistema coletivo de saúde, que não poderá atender outros porque precisa cuidar da irresponsabilidade de um dos membros da sociedade. Mas se a solidariedade aparece como afeto central, é a farsa neoliberal que cai, esta mesma farsa que deve repetir, como dizia Thatcher: “não há essa coisa de sociedade, há apenas indivíduos e famílias”. Só que o contágio, Margareth, o contágio é o fenômeno mais democrático e igualitário que conhecemos. Ele nos lembra, ao contrário, que não há essa coisa de indivíduo e família, há a sociedade que luta coletivamente contra a morte de todos e sente coletivamente quando um dos seus se julga viver por conta própria.

Como disse anteriormente, alternativas existem. Elas passam por suspender o pagamento da dívida pública, por taxar enfim os ricos e fornecer aos mais pobres a possibilidade de cuidar de si e dos seus, sem se preocupar em voltar vivo de um ambiente de trabalho que será foco de disseminação, que será a roleta russa da morte. Se alguém soubesse realmente fazer conta nas hostes do fascismo, ele lembraria o que acontece com um dos únicos países do mundo que recusa seguir as recomendações de combate à pandemia: ele será objeto de um cordão sanitário global, de um isolamento como foco não controlado de proliferação de uma doença da qual os outros países não querem nunca mais partilhar. Ser objeto de um cordão sanitário global deve ser realmente algo muito bom para a economia nacional.

Enquanto isto nós lutamos com todas as forças para encontrar algo que nos faça acreditar que a situação não é assim tão ruim, que tudo se trata de derrapadas e destemperos de um insano. Não, não há insanos nessa história. Esse governo é a realização necessária de nossa história de sangue, de silêncio, de esquecimento. História de corpos invisíveis e de capital sem limite. Não há insanos. Ao contrário, a lógica é muito clara e implacável. Isso só ocorre porque quando é necessário radicalizar sempre tem alguém nesse país a dizer que essa não é ainda a hora. Diante da implementação de um Estado suicidário só nos restaria uma greve geral por tempo indeterminado, uma recusa absoluta em trabalhar até que esse governo caia. Só nos restaria queimar os estabelecimentos dos “empresários” que cantam a indiferença de nossas mortes. Só nos restaria fazer a economia parar de vez utilizando todas as formas de contra-violência popular. Só nos restaria parar de sorrir, porque agora sorrir é consentir. Mas sequer um reles pedido de impeachment é assumido por quem diz fazer oposição. No que seria difícil não lembrar dessas palavras do evangelho: “Se o sal não salga, de que serve então?”. Deve servir só para nos fazer esquecer do gesto violento de recusa que deveria estar lá quando tentam nos empurrar nossa própria carne servida a frio.

[Entrevista] Achille Mbembe: “Pandemia democratizou poder de matar”

entrevista a Diogo Bercito publicada na Folha

Filósofo camaronês Achille Mbembe estuda como governos decidem quem viverá e quem morrerá

O coronavírus está mudando a maneira como pensamos sobre o corpo humano. Ele virou uma arma, diz o filósofo camaronês Achille Mbembe.

Ao sair de casa, afinal, podemos contrair o vírus ou transmiti-lo a outras pessoas. Já há mais de 775 mil casos confirmados e 37 mil mortes no mundo. “Agora todos temos o poder de matar”, Mbembe afirma. “O isolamento é justamente uma forma de regular esse poder.”

Mbembe, 62, é conhecido por ter cunhado em 2003 o termo “necropolítica”. Ele investiga, em sua obra, a maneira como governos decidem quem viverá e quem morrerá —e de que maneira viverão e morrerão.

Ele leciona na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo. Na sexta-feira (27), a África do Sul registrou as primeiras mortes pelo coronavírus.

A necropolítica aparece, também, no fato de que o vírus não afeta todas as pessoas de uma maneira igual.

Há um debate por priorizar o tratamento de jovens e deixar os mais idosos morrerem. Há ainda aqueles que, como o presidente Jair Bolsonaro, insistem que a economia não pode parar mesmo se parte da população precisar morrer para garantir essa produtividade.

“Alguns vão morrer? Vão morrer. Lamento, essa é a vida”, disse o brasileiro recentemente.

“O sistema capitalista é baseado na distribuição desigual da oportunidade de viver e de morrer”, diz Mbembe. “Essa lógica do sacrifício sempre esteve no coração do neoliberalismo, que deveríamos chamar de necroliberalismo. Esse sistema sempre operou com a ideia de que alguém vale mais do que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado.”

Quais são as suas primeiras impressões desta pandemia? Por enquanto, estou soterrado pela magnitude desta calamidade. O coronavírus é realmente uma calamidade e nos traz uma série de questões incômodas. Esse é um vírus que afeta nossa capacidade de respirar…

E obriga governos e hospitais a decidir quem continuará respirando. Sim. A questão é encontrar uma maneira de garantir que todo indivíduo tenha como respirar. Essa deveria ser a nossa prioridade política. Parece-me, também, que o nosso medo do isolamento, da quarentena, está relacionado ao nosso temor de confrontar o nosso próprio fim. Esse medo tem a ver com não sermos mais capazes de delegar a nossa própria morte a outras pessoas.

O isolamento social nos dá, de alguma maneira, um poder sobre a morte? Sim, um poder relativo. Podemos escapar da morte ou adiá-la. A contenção da morte é o cerne dessas políticas de confinamento. Isso é um poder. Mas não é um poder absoluto porque depende das outras pessoas.

Depende de outras pessoas também se isolarem? Sim. Outra coisa é que muitas pessoas que morreram até agora não tiveram tempo de se despedir. Diversas delas foram incineradas ou enterradas imediatamente, sem demora.

Como se fossem um lixo de que precisamos nos livrar o mais rapidamente possível. Essa lógica de descarte ocorre justamente em um momento em que precisamos, ao menos em tese, da nossa comunidade. E não existe comunidade sem podermos dizer adeus àqueles que partiram, organizar funerais. A questão é: como criar comunidades em um momento de calamidade?

Que sequelas a pandemia deixará na sociedade? A pandemia vai mudar a maneira como lidamos com o nosso corpo. Nosso corpo se tornou uma ameaça para nós próprios. A segunda consequência é a transformação da maneira como pensamos no futuro, nossa consciência do tempo. De repente, não sabemos como será o amanhã.

Nosso corpo também é uma ameaça a outros, se não ficarmos em casa. Sim. Agora todos temos o poder de matar. O poder de matar foi totalmente democratizado. O isolamento é precisamente uma forma de regular esse poder.

Outro debate que evoca a necropolítica é a questão sobre qual deveria ser a prioridade política neste momento, salvar a economia ou salvar a população. O governo brasileiro tem acenado pela priorização do resgate da economia. Essa é a lógica do sacrifício que sempre esteve no coração do neoliberalismo, que deveríamos chamar de necroliberalismo. Esse sistema sempre operou com um aparato de cálculo. A ideia de que alguém vale mais do que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado. A questão é o que fazer com aqueles que decidimos não ter valor. Essa pergunta, é claro, sempre afeta as mesmas raças, as mesmas classes sociais e os mesmos gêneros.

Como na epidemia de HIV, em que governos demoraram a agir porque as vítimas estavam nas margens: negros, homossexuais, usuários de droga? Na teoria, o coronavírus pode matar todo o mundo. Todos estão ameaçados. Mas uma coisa é estar confinado num subúrbio, numa segunda residência em uma área rural. Outra coisa é estar na linha de frente. Trabalhar num centro de saúde sem máscara. Há uma escala em como os riscos são distribuídos hoje.

Diversos presidentes têm se referido ao combate ao coronavírus como uma guerra. A escolha de palavra importa, neste momento? O senhor escreveu em sua obra que a guerra é um claro exercício de necropolítica. Existe dificuldade em dar um nome ao que está acontecendo no mundo. Não é apenas um vírus. Não saber o que está por vir é o que faz Estados em todo o mundo retomar as antigas terminologias utilizadas nas guerras. Além disso, as pessoas estão recuando para dentro das fronteiras de seus Estados-nação.

Há um maior nacionalismo durante esta pandemia? Sim. As pessoas estão retornando para o “chez-soi”, como dizem em francês. Para o seu lar. Como se morrer longe de casa fosse a pior coisa que poderia acontecer na vida de uma pessoa. Fronteiras estão sendo fechadas. Não estou dizendo que elas deveriam ficar abertas. Mas governos respondem a esta pandemia com gestos nacionalistas, com esse imaginário da fronteira, do muro.

Depois desta crise, vamos voltar a como éramos antes? Da próxima vez, vamos ser golpeados de uma maneira ainda mais forte do que fomos nesta pandemia. A humanidade está em jogo. O que esta pandemia revela, se a levarmos a sério, é que a nossa história aqui na terra não está garantida.

Não há garantia de que vamos estar aqui para sempre. O fato de que é plausível que a vida continue sem a gente é a questão-chave deste século.


ACHILLE MBEMBE, 62
Filósofo e cientista político camaronense, é formado em história na Sorbonne e em ciência política no Instituto de Estudos Políticos. Lecionou nas universidades Columbia, Yale e Duke; é atualmente professor na Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo. É conhecido pelo ensaio “Necropolítica”, publicado em 2003, em que discute como governos escolhem quem vive e quem morre; escreveu também sobre o pós-colonialismo no continente africano.

[Entrevista] Alain Touraine: “Choque econômico do coronavírus pode produzir reações fascistas”

entrevista por telefone a Marc Bassets publicada em El País


O sociólogo francês é um dos últimos sobreviventes de uma geração que marcou o pensamento ocidental. Ele diz que agora sente um grande vazio

Alain Touraine (Hermanville-sur-Mer, 1925) é um dos últimos sobreviventes de uma geração brilhante que marcou as ciências sociais e o pensamento ocidental desde meados do século XX até o início do XXI. Como sociólogo, seu campo de estudos abrangeu desde as fábricas que no pós-guerra elevaram o país à sociedade pós-industrial até os movimentos sociais e a crise da modernidade. Com suas intervenções no debate público —na França, mas também em outros países europeus, como a Espanha, e na América Latina—, Touraine se tornou uma referência do que em seu país chamam de segunda esquerda —de caráter social-democrata e claramente antitotalitária. O sociólogo conversou com o Ideias por telefone de sua quarentena em Paris.

PERGUNTA. Estamos em guerra, dizem Donald Trump, Emmanuel Macron e Pedro Sánchez. É correto?

RESPOSTA. Tecnicamente, quem enfrenta a guerra é um exército. Que invade o território do país B. São necessários pelo menos dois agentes e ocorre entre humanos. Aqui, em vez disso, o que vemos é o humano contra o não humano. Não critico o uso da palavra guerra, mas seria uma guerra sem combatentes. Não há estrategista: o vírus não é um chefe de Governo. E, do lado humano, acho que vivemos em um mundo sem atores.

P. Sem atores?

R. Nunca tinha visto um presidente dos Estados Unidos tão estranho como Donald Trump, tão pouco presidencial, um personagem tão fora das normas e fora de seu papel. E não é por acaso: os Estados Unidos abandonaram o papel de líder mundial. Hoje não já há nada. E na Europa, se você olhar para os países mais poderosos, ninguém responde. Não há ninguém no topo.

P. E abaixo?

R. Não existe um movimento populista, o que há é um colapso do que, na sociedade industrial, criava um sentido: o movimento operário. Em outras palavras, hoje não há atores sociais nem políticos, nem mundiais nem nacionais nem de classe. Então o que acontece é o oposto de uma guerra, com uma máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e grupos sem ideias, sem direção, sem programa, sem estratégia, sem linguagem. É o silêncio.

P. Recorda-se de algum momento semelhante em sua vida?

R. Talvez o mesmo sentimento existisse durante a crise de 1929, eu nasci um pouco antes: tudo desaparecia e não havia ninguém, nem à esquerda nem nos Governos. Mas é verdade que o vazio foi rapidamente preenchido pelo senhor Hitler. O que mais me impressiona agora, como sociólogo e historiador do presente, é que fazia muito tempo que eu não sentia esse vazio. Há uma ausência de atores, de sentido, de ideias, até mesmo de interesse: a única preferência do vírus é pelos velhos. Também não há remédio nem vacina. Não temos armas, estamos com as mãos nuas, estamos encerrados sozinhos e isolados, abandonados. Não se deve estar em contato e é preciso ficar trancado em casa. Isto não é a guerra!

P. O senhor tinha 14 anos em 1940, no início da verdadeira guerra, a Segunda Guerra Mundial. Isto o faz recordar daquele momento?

R. Não. Naquela época, para um garoto francês da minha idade, não havia nada mais banal do que uma guerra franco-alemã. Aquilo já fora jogado várias vezes. Mas, depois, a ocupação, sim, marcou toda a minha juventude. Agora é outra coisa: estamos no vazio, reduzidos ao nada. Não falamos, não devemos nos movimentar nem compreender.

P. Como chegamos aqui?

R. Vivemos dois bons séculos na sociedade industrial, em um mundo dominado pelo Ocidente por cerca de 500 anos. Hoje acreditamos, e foi o caso nos últimos 50 anos, que vivíamos em um mundo americano. Agora talvez viveremos em um mundo chinês, mas também não tenho certeza. Os Estados Unidos estão afundando e a China está em uma situação contraditória, que não pode durar eternamente: quer praticar o totalitarismo maoísta para gerenciar o sistema capitalista mundial. Nós nos encontramos em lugar nenhum, em uma transição brutal que não foi preparada nem planejada.

P. O senhor fala do momento de hoje, em confinamento total, ou do nosso tempo em geral?

R. Ambos. Mas eu gostaria de dar o ponto de vista de alguém trancado. Hoje mesmo não estou em lugar nenhum, pois não tenho o direito de sair à rua.

P. Esta situação o deixa angustiado?

R. Não, porque minha vida consiste em estar em casa trabalhando. Eu me sinto, de alguma forma, protegido nas mesmas condições de todos os dias.

P. Onde está a Europa?

R. O senhor ouviu muitas mensagens europeias nos últimos dias? Eu, não. Sou muito europeísta, provavelmente demais. A saída do Reino Unido não é pouca coisa. A ascensão de iliberais como Matteo Salvini na Itália, também não. Esta epidemia ocorre em um período em que não sabemos nem como nem por quê. É muito cedo para saber o que fazer financeiramente, e politicamente não nos pedem outra coisa a não ser ficar trancados em casa. Estamos no não sentido, e acho que muita gente ficará louca pela ausência de sentido.

P. Haverá um retorno do nacionalismo e do populismo?

R. Mas isso já estava aqui. Existem agora duas decisões fundamentais para a Europa. Primeiro, a libertação por meio das mulheres. Ou seja, a derrubada da razão no centro da personalidade e a recomposição dos afetos em torno da razão e da comunicação, uma sociedade do care [em inglês, cuidados]. E segundo, a recepção dos imigrantes, que considero um problema de peso. Nossos países europeus se definem hoje por sua atitude em relação aos imigrantes.

P. O vírus não muda tudo? As consequências econômicas, novos costumes sociais com mais distância, outras prioridades…

R. Acho que não. Haverá outras catástrofes. Eu ficaria muito surpreso se nos próximos dez anos não houver catástrofes ecológicas importantes, e os últimos dez anos foram perdidos. Atenção, as epidemias não são tudo. E acho que estamos entrando em um novo tipo de sociedade: uma sociedade de serviços, como diziam os economistas, mas de serviços entre humanos. Esta crise vai elevar a categoria dos cuidadores: não podem continuar sendo mal pagos. Ao mesmo tempo, com essas crises há possibilidades de que um choque econômico produza reações que chamo de tipo fascista. Mas não gostaria de falar muito sobre o futuro, prefiro me concentrar no presente.

P. Hoje o vírus nos governa.

R. Não o vírus, e sim nossa impotência para combatê-lo, mas acabará sendo encontrada uma vacina.

FEAC mapeia população mais vulnerável à Covid-19 em Campinas

O diagnóstico territorial divulgado pela Fundação FEAC (Federação das Entidades Assistenciais de Campinas) identificou quinze áreas de atenção em Campinas durante a pandemia da Covid-19, cruzando os dados microterritoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Censo de 2010) relacionados à densidade demográfica, à idade da população –considerando a população idosa do grupo de risco, mais de 60 anos – e à taxa de saneamento básico.

A geógrafa Thainá Oliveira, formada pela PUC-Campinas e integrante da Fundação FEAC, explica que o diagnóstico foi produzido pelo Núcleo de Inteligência que dá suporte a mais de uma centena de programas e projetos da fundação. “Lá centralizamos e analisamos evidências com dados quanti-qualitativos para melhor direcionar nossos investimentos sociais, baseados nos territórios de vulnerabilidade social. Todos esses dados são trabalhados dentro do SIG e análises geográficas”, destaca a pesquisadora. 

São elas:

  1. Conjunto Habitacional Mauro Marcondes e Conjunto Habitacional Vida Nova (Ouro Verde)
  2. Parque Floresta e Jardim Bassoli (Campo Grande)
  3. DICs (Ouro Verde)
  4. Jardim Campo Belo
  5. Jardim São Marcos
  6. CDHU San Martin
  7. Flamboyant
  8. Região Central
  9. Parque Oziel e Jardim Monte Cristo
  10. Vila Castelo Branco
  11. Parque Florence I e II e Jardim Rossin (Campo Grande)
  12. Parte do Jardim São Marcos e Matão e Arredores
  13. Sousas
  14. Região Central
  15. Jardim Londres e Jardim Garcia

Outras publicações da FEAC

MAPA DA VIOLÊNCIA DE CAMPINAS – Diagnóstico Socioterritorial (atualizado em outubro de 2019)

DIAGNÓSTICO SOCIOTERRITORIAL (Edição 2017)


Mobiliza Campinas

O #MobilizaCampinas, lançado pela FEAC com aporte inicial de R$ 5 milhões da própria fundação, pretende duplicar a meta e arrecadar até R$ 10 milhões para auxiliar até dez mil famílias de Campinas em situação de vulnerabilidade durante o período de cinco meses, por meio da distribuição de cartões alimentação com duzentos reais por mês.

As doações – de qualquer valor – devem ser feitas pelo site mobilizacampinas.org.br em uma conta da Fundação FEAC (Federação das Entidades Assistenciais de Campinas, CNPJ 46.002.176/0001-83, Banco Itaú (341), Agência 8484, Conta Corrente 01637-6) ou por meio do pagseguro que está no site.


A Campinas “que não se isolou”

Reportagem de capa do Correio Popular publicada hoje (1º de abril) dá conta de “uma Campinas que não se isolou”. E reproduz o depoimento do comandante da Guarda Municipal, Márcio Frizarin: “Podemos observar que, hoje, nós temos duas Campinas: a do lado de lá da [Rodovia] Anhanguera (região central e bairros do entorno) que está cumprindo o isolamento, e a do lado de cá, que não entendeu que a prioridade, agora, é manter as pessoas em casa e os comércios fechados” — região populosa que coincide com diversas áreas mapeadas pela FEAC como de risco.

Raúl Zibechi: O mundo pós-pandemia

Publicado em La Jornada, com tradução publicada na Revista IHU On-line


“O período compreendido entre 1990 a 2025/2050 provavelmente será um período de pouca paz, pouca estabilidade e pouca legitimação”, escrevia Immanuel Wallerstein em 1994 [1]. Em períodos de turbulência e confusão, convém consultar bússolas. Ele era uma das mais notáveis e, além disso, era um de nós.

A rigor, grandes eventos globais, como guerras e pandemias, não criam novas tendências, mas aprofundam e aceleram as existentes.

Três tendências fundamentais, que nasceram provavelmente como resultado da revolução de 1968, estão se desenrolando de maneira formidável no momento: a crise do sistema-mundo, com a consequente transição hegemônica do Ocidente-Oriente, a militarização das sociedades, diante da incapacidade dos Estados-nação de integrar e conter as classes perigosas, e as múltiplas insurgências dos de baixo, que são o aspecto central deste período.

Quem pensa na centralidade do conflito entre Estados, na hegemonia e na geopolítica, pode confiar que a tendência à ascensão da Ásia-Pacífico, em particular da China, e o declínio dos Estados Unidos está se acelerando durante a pandemia.

O Pentágono e outras agências farão tudo o que for possível para desacelerar esse processo, uma vez que não podem revertê-lo, com as mais diversas medidas, incluindo um não descartável confronto nuclear, que acreditam que podem vencer. Nem mesmo algo tão sinistro pode modificar as tendências de fundo.

Aqueles de nós envolvidos na luta contra o patriarcado, o colonialismo e o capitalismo não podemos confiar nos Estados que estão militarizando rapidamente nossas sociedades. Quero me concentrar em como a situação atual afeta os povos/sociedades em movimento na situação atual.

Primeiro, acelera-se a crise civilizatória, que se sobrepõe à crise do sistema-mundo. Não estamos enfrentando mais uma crise, mas o início de um longo processo (Wallerstein) de caos sistêmico, atravessado por guerras e pandemias, que durará várias décadas até que se estabilize uma nova ordem.

Este período que, insisto, não é uma conjuntura ou uma crise tradicional, mas algo completamente diferente, pode ser definido como colapso, desde que não entendamos por isso um evento pontual, mas um período mais ou menos prolongado.

Durante esse colapso ou caos, produz-se uma forte concorrência entre estados e capitais, um poderoso conflito entre classes e povos com esses poderes, em meio a uma crescente crise climática e de saúde.

Por colapso, entendo (seguindo Ramón Fernández e Luis González) [2] a diminuição drástica da complexidade política, econômica e social de uma estrutura social. Sistemas complexos perdem resiliência na medida em que aumentam sua complexidade para responder aos desafios que enfrentam. As sociedades baseadas na dominação tendem a aumentar sua complexidade em resposta aos desafios que vão enfrentando (p. 26, t. I).

Por exemplo: gastam energia, tornam-se mais hierárquicas e rígidas e não podem evoluir. Concretamente, a grande cidade é muito mais vulnerável do que uma comunidade rural. Esta é autossuficiente, usa a energia necessária, não polui, é menos hierárquica e, portanto, é mais eficiente. Aquela não tem saída, exceto o colapso.

Em segundo lugar, durante esse longo processo de colapso, mais parecido com uma pedra rolando por uma ladeira que caindo de um precipício, haverá uma enorme destruição material e, infelizmente, de vidas humanas e não humanas. É a condição para passar do complexo, grande, rápido e centralizado, para o simples, lento, pequeno e descentralizado (p. 337, t. II).

O que nos absorve como povos e classes é um processo de barbárie que implica a canibalização das relações sociais e no que diz respeito à natureza. Sobreviver como povos será tão árduo como foi para os povos originários da invasão colonial espanhola. Um cataclismo que chamaram de “pachakutik”.

A terceira questão é como agir como movimentos antissistêmicos. O básico é entender que vivemos no interior de um campo de concentração, algo evidente nestes dias de confinamento obrigatório. Como se resiste e muda o mundo dentro de um campo?

Organizarmo-nos é a primeira coisa. Fazer isso com discrição, para que os guardas não descubram (da direita e da esquerda), pois é uma condição de sobrevivência.

O que se segue: trabalhar em coletivo (minga/tequio), comunitariamente, para garantir autonomia de alimentos, água, saúde, em uma palavra: reprodução da vida. Decidir em coletivo, em assembleia.

Podemos agir assim. Os povos originários em movimento fazem isso diariamente: zapatistas, mapuche, nasa/misak, entre outros. Assim como os companheiros da Comunidade Acapantizingo de Iztapalapa (Cidade do México), na barriga do monstro.

Podemos construir arcas. Exemplos não nos faltam.

Notas
[1] “Paz, estabilidad y legitimación”, en “Capitalismo histórico y movimientos anti-sistémicos”, Akal, 2004.

[2] “En la espiral de la energia”, Libros en Acción/Baladre, 2014.

Raúl Zibechi: Epidemia de neoliberalismo

Publicado em La Jornada, com tradução publicada na Revista IHU On-line


Séculos atrás, pudemos aprender a importância dos ambientes sociais e naturais onde os vírus se enraízam e se multiplicam, porque vivemos com eles e nem sempre nos ameaçam. A peste negra deveria ter nos ensinado que os vírus pré-existentes se multiplicam e se espalham quando são criadas as condições apropriadas. No nosso caso, essas condições foram criadas pelo neoliberalismo.

Em Plagas y pueblos, William McNeill destaca algumas questões da atualidade, quando analisa a peste negra que varreu a Europa, a partir de 1347. Os cristãos, ao contrário dos pagãos, cuidavam dos doentes, ajudavam-se mutuamente em tempos de pestilência e, desse modo, continham os efeitos da peste (Siglo XXI, p. 122). A saturação de seres humanos, a superpopulação, foi fundamental na disseminação da peste (p. 163).

A pobreza, uma dieta pouco variada e a não observação dos hábitos, costumes locais das cidades, devido à chegada de novos habitantes, transformaram as pestes em desastres (p. 155).

Braudel acrescenta que a peste, ou hidra de mil cabeças, constitui uma constante, uma estrutura da vida dos homens (As estruturas do cotidiano, p. 54). No entanto, como aprendemos pouco.

A peste negra destruiu a sociedade feudal, devido à escassez aguda de mão de obra resultante da morte, em poucos anos, de metade da população europeia e, também, pela perda de credibilidade das instituições. Esse é o medo que agora leva os estados a fechar milhões.

A epidemia de coronavírus em andamento tem algumas peculiaridades. Vou me concentrar no social, porque ignoro questões científicas elementares.

A epidemia atual não teria o impacto que tem, se não fosse por três longas décadas de neoliberalismo, que causou danos ambientais, de saúde e sociais provavelmente irreparáveis.

A Organização das Nações Unidas, através do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), reconhecem que a epidemia é um reflexo da degradação ambiental. O relatório observa que as doenças transmitidas de animais para humanos estão crescendo e piorando na medida em que os habitats selvagens são destruídos pela atividade humana, porque os patógenos se espalham mais rapidamente para rebanhos e seres humanos.

Para prevenir e limitar as zoonoses, é necessário interromper as múltiplas ameaças aos ecossistemas e à vida selvagem, entre elas, a redução e fragmentação de habitats, o comércio ilegal, a contaminação e proliferação de espécies invasoras e, cada vez mais, a mudança climática.

As temperaturas no início de março (inverno) em algumas regiões da Espanha estão até 10 graus acima do normal. Além disso, as evidências científicas relacionam a explosão de doenças virais com o desmatamento”.

A segunda questão que multiplica a epidemia são os cortes acentuados no sistema de saúde. Na Itália, nos últimos 10 anos, 70.000 leitos hospitalares foram fechados, foram fechados 359 departamentos e vários pequenos hospitais foram abandonados. Entre 2009 e 2018, os gastos com saúde cresceram 10%, frente aos 37% da OCDE. Na Itália, existem 3,2 leitos para cada mil habitantes. Na França 6 e na Alemanha 8.

Entre janeiro e fevereiro, o setor de saúde espanhol perdeu 18.320 trabalhadores, em plena expansão do coronavírus. Os sindicatos do setor denunciam abuso na contratação de temporários e precariedade no emprego, enquanto as condições de trabalho são cada vez mais duras. Essa política neoliberal em relação ao sistema de saúde é uma das razões pelas quais a Itália colocou o país inteiro em quarentena e a Espanha pode seguir o mesmo caminho.

A terceira questão é a epidemia de individualismo e de desigualdade, cultivadas pelos grandes meios de comunicação que se dedicam a incutir medo, informando de maneira enviesada. Por mais de um século, sofremos uma poderosa ofensiva do capital e dos estados contra os espaços populares de socialização, enquanto são abençoadas as catedrais do consumo, como os shoppings.

O consumismo despolitiza, desidentifica e implica uma mutação antropológica (como alertou Pasolini). Hoje, há mais pessoas que desejam ter animais de estimação do que filhos. Este é o mundo que criamos e pelo qual somos responsáveis.

As medidas que se tomam, a longo prazo, podem agravar as epidemias. O Estado suspende a sociedade ao isolar e confinar a população em suas casas, proibindo até mesmo o contato físico.

A desigualdade é como a da Idade Média (por volta de 1500), quando os ricos corriam para suas casas de campo, quando se anunciava a peste, enquanto os pobres eram deixados sozinhos, prisioneiros da cidade contaminada, onde o Estado os alimentava, isolava, bloqueava e vigiava (Braudel p. 59).

O modelo do panóptico carcerário digitalizado, que suspende as relações humanas, parece ser o objetivo estratégico do capital para não perder o controle na atual transição sistêmica.

Raúl Zibechi: Coronavírus: a militarização das crises

Publicado em La Jornada, com tradução publicada na Revista IHU On-line


É necessário voltar aos períodos do nazismo e do estalinismo, há quase um século, para encontrar exemplos de controle de população tão extenso e intenso como os que acontecem na China, nesses dias, com a desculpa do coronavírus. Um gigantesco panóptico militar e sanitário, que limita a população a viver trancada e sob permanente vigilância.

As imagens que nos chegam sobre a vida cotidiana em amplas áreas da China, não apenas na cidade de Wuhan e na província de Hubei, onde vivem 60 milhões, dão a impressão de um enorme campo de concentração a céu aberto pela imposição de quarentena a todos os seus habitantes.

Cidades desertas, onde transita apenas gente da segurança e da saúde. Mede-se a temperatura de todas as pessoas na entrada de supermercados, centros comerciais e conjuntos residenciais. Se há membros da família em quarentena, apenas um membro tem o direito de sair, a cada dois dias, para comprar mantimentos.

Em algumas cidades, aqueles que não usam máscaras podem acabar na prisão. Estimula-se o uso de luvas descartáveis e lápis para pressionar os botões do elevador. As cidades da China parecem lugares fantasmas, a ponto de que em Wuhan você quase não encontra pessoas nas ruas.

É necessário insistir em que o medo está circulando em maior velocidade que o coronavírus e que, ao contrário do que se faz crer, o principal assassino na história da humanidade foi e é a desnutrição, como destaca uma imprescindível entrevista no portal Comune-info.

O habitual na história foi colocar em quarentena pessoas infectadas, mas nunca se isolou deste modo a milhões de pessoas saudáveis. O médico e professor do Instituto de Saúde Global, da University College London, Vageesh Jain, questiona: Justifica-se uma resposta tão drástica? O que acontece com os direitos das pessoas saudáveis?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cada infectado com o coronavírus pode contagiar mais dois, ao passo que o sarampo contagia de 12 a 18 pessoas. Por isso, Jain afirma que mais de 99,9% dos habitantes da província de Hubei não estão infectados e que a grande maioria da população presa na região não está mal e é pouco provável que se infecte.

O boletim 142 do Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP) reflete: A China desencadeou um plano de ação de emergência de magnitude sem precedentes, após somente 40 mortes em uma população de 1,2 bilhão de pessoas, sabendo que a gripe mata 3.000 pessoas na França todos os anos. Em 2019, a gripe matou 40.000 pessoas nos Estados Unidos. O sarampo mata 100.000 pessoas todos os anos e o influenza (gripe) meio milhão no mundo.

O LEAP argumenta que estamos enfrentando um novo modelo de gestão de crises, que conta com a aprovação do Ocidente. A Itália seguiu esse caminho ao isolar 10 povoados com 50.000 habitantes, quando havia apenas 16 pessoas com coronavírus.

A China exerce um sofisticado controle da população, desde a videovigilância, com 400 milhões de câmeras nas ruas, até o sistema de pontos de crédito social que regula o comportamento dos cidadãos. Agora, o controle se multiplica, incluindo a vigilância territorial com brigadas de moradores voluntários em cada bairro.

Gostaria de entrar em várias considerações, não do ponto de vista da saúde, mas daquele que deixa o manejo dessa epidemia aos movimentos antissistêmicos.

A primeira é que sendo a China o futuro hegemon global, as práticas do Estado em relação à população revelam o tipo de sociedade que as elites desejam construir e propõem ao mundo. As formas de controle que a China exerce são extremamente úteis às classes dominantes de todo o planeta, para manter os de baixo na linha, em períodos de profundas convulsões econômicas, sociais e políticas, de crise terminal do capitalismo.

A segunda é que as elites estão usando a epidemia como um laboratório de engenharia social, com a finalidade de estreitar o cerco sobre a população com uma dupla malha, em escala macro e micro, combinando um controle minucioso em escala local com outro geral e extenso, como a censura na Internet e a videovigilância.

Considero que estamos diante de um ensaio que será aplicado em situações críticas, como desastres naturais, tsunamis e terremotos, mas, sobretudo, diante das grandes convulsões sociais capazes de provocar devastadoras crises políticas para os de cima. Em suma, eles se preparam para eventuais desafios à sua dominação.

A terceira é que as pessoas ainda não sabem como enfrentaremos esses poderosos mecanismos de controle de grandes populações, que se combinam com a militarização das sociedades, diante de revoltas e levantes, como está acontecendo no Equador.

Manuel Castells: Depois da guerra

Publicado em La Vanguardia em 28/03/2020, com tradução dos geógrafos Gustavo Teramatsu e Wagner Nabarro


Todas as guerras terminam. Mesmo quando estão contra um inimigo invisível que ameaça os seres humanos como espécie. A questão é como, quando, com que sofrimento e quais serão suas consequências.

É difícil pensar no dia seguinte quando estamos mergulhados em angústia, confinados, mascarados, sentindo doenças e morte por toda parte. E, no entanto, sabemos que em algum momento haverá um surto de alegria, de voltar a sentir o prazer do passeio, do jogo, do abraço, da vida nas ruas, nos parques, nas praias, nos bosques e em restaurantes cheios de festa. A vida, agora em suspensão, retornará. Com a adição de uma nova filosofia espontânea do infinito prazer das pequenas coisas. Sentir a beleza da vida sem mais delongas, apreciar o simples fato de ser e de estar, de amar e ser amado, com um novo sentimento de solidariedade, como se estivéssemos sempre aplaudindo às oito horas. A luz retornará. Com seus tons rosados de amanhecer e avermelhados de pôr do sol, com um ar fresco renovado porque paramos de poluir por um tempo.

Nada será como antes. Todos sairemos transformados dessa experiência. Mas teremos aprendido alguma coisa sobre nosso modo de viver, de produzir, de consumir, de administrar? Seremos capazes de interpretar esse aviso brutal para evitar outras pandemias, claramente possíveis devido à nossa interconexão global? E a catástrofe ecológica prevista pelos cientistas e cujos sinais se multiplicam enquanto os congressos se divertem? Podemos corrigir coletiva e institucionalmente a dinâmica de autodestruição em que entramos? Nunca tivemos tanto conhecimento e nunca fomos tão irresponsáveis com o seu uso. Talvez o pós-guerra seja o ponto de virada que estávamos esperando.

Mas o pós-guerra será difícil, todos eles são. Após o momento de euforia para gozar o riso e os jogos de nossos filhos em liberdade, teremos que enfrentar a realidade de uma crise econômico-financeira que pode ser tão grave quanto a de 2008, com um aparato produtivo danificado, um sistema de saúde exaurido, uma cooperação europeia em risco, uma economia global caoticamente desglobalizada, um renascimento do nacionalismo primitivo de fechamentos de fronteiras contra o mal vindo de fora, uma proliferação de notícias falsas prejudiciais, disseminados por poderes de fato ou mentes febris, uma ordem geopolítica interrompida pela superioridade chinesa na resposta à crise, enquanto a política errática de outros países terá mostrado a destruição da ideologia neoliberal na vida das pessoas.

Esse pós-guerra deve ser preparado desde já, porque o modo como administramos a crise, com absoluta prioridade à saúde da população, tornará a reconstrução mais ou menos difícil. Uma economia de guerra terá que ser sucedida por uma economia pós-guerra, na qual os gastos públicos são o motor da recuperação, como tem sido em todos os períodos de pós-guerra. Mas isso só será consolidado se se gera emprego e se as pessoas se sentem seguras e recuperam sua vida cotidiana.

O financiamento dessa política expansionista, além do endividamento obrigatório, exigirá imaginação para criar uma nova arquitetura financeira e capacidade de gestão para operar uma economia diferente, que não caia na armadilha antiga da austeridade dos serviços essenciais. Porque o Estado de bem-estar é a fonte de produtividade que é a fonte de riqueza. Mas também seria hora de experimentar modelos não consumistas que levem à transição ecológica e cultural tão amplamente proclamada, mas ainda timidamente praticada. A economia pode ser reativada reduzindo o consumo supérfluo? Somente se houver uma mudança nos padrões de gastos que facilitam o investimento, mantêm o emprego e aumentam a produtividade.

Os serviços básicos (o que se cortou nas destrutivas políticas de austeridade) deveriam ser não apenas o motor do investimento, mas também da demanda. Não haverá outra forma de financiá-los a longo prazo a não ser mediante um aumento da carga fiscal de grandes bolsões de acumulação de capital que hoje em dia são pouco ou nada tributados. Reinventar a fiscalidade quer dizer superar o enfoque de tributar sobretudo as pessoas ou as empresas para centrar-se em uma regulação impositiva do mercado global de capitais que hoje em dia perdeu grande parte de sua função produtiva para incrementar seus ganhos mediante a criação de valor virtual e crescentemente instável. Uma fiscalidade inteligente adaptada a nosso tempo poderia, por sua vez, gerar recursos para gastos públicos de maneira não inflacionista e regular os fluxos globais de capital. Entre a desglobalização aventureira e a globalização descontrolada de capital há margem para iniciativas coordenadas dos Estados que assumam um controle estratégico da economia em um marco pelo menos europeu.

Essa economia deveria, além de ser sustentável, incluir um Estado de bem-estar desburocratizado e preparado para os choques vindouros. Choques que serão tanto menos danosos quanto encontremos um equilíbrio entre produzir, viver e conviver. Conviver entre nós e com esse maravilhoso planeta azul que seguimos maltratando. Depois da guerra podemos desembocar em uma espantosa crise econômico-social ou em uma nova cultura do ser, sem a qual não sobreviveremos muito tempo.

Manuel Castells: Tempo de vírus

Publicado em La Vanguardia e tradução publicada na Revista IHU On-Line


E de repente, tudo mudou. Nossa saúde, nossos hábitos, nossa economia, nossa política, nossa psicologia, nosso horizonte temporal e existencial. Ainda não absorvemos inteiramente o choque brutal que isto representa para nossas vidas, em particular o medo da doença ou a perda de nossos entes queridos.

Não estávamos preparados para uma pandemia destas proporções e com tal velocidade de propagação. Nós a subestimamos quando surgiu, inclusive eu mesmo. Há esperança de que possamos superá-la, ao menos em sua dimensão sanitária, como demonstra o fato de que a China e a Coreia já parecem ter conseguido frear o contágio. Embora a China tenha demorado mais de um mês para levar a sério a epidemia por ignorância burocrática dos avisos que foram dados pelos médicos de Wuhan, com o sacrifício da vida de um deles.

Agora, sabemos que a única coisa que funciona para deter a propagação é o isolamento social. Foi o que China e a Coreia fizeram com métodos diferentes. Além dos testes em todos, frente ao menor sintoma, o que foi essencial na Coreia. Investindo massivamente desde o início em material de saúde. Na Espanha, não pudemos fazer testes em todos simplesmente porque não havia material suficiente. Isso mudou, em parte mediante a doação e compra de material, obtido sobretudo da China, que está mostrando uma solidariedade internacional que contrasta com outros países.

Claro que só estaremos livres desta praga quando tivermos remédios para o abrandamento do contágio e, depois, uma vacina eficaz. Vacina que provavelmente terá que ser aplicada na maioria da população do planeta para poder consolidar as defesas que vão sendo geradas em nosso sistema imune. Embora a capacidade de mutação do vírus ainda seja desconhecida.

Agora, percebemos a importância da ciência e da tecnologia para nos proteger como espécie dos desastres que nós mesmos geramos. Porque a difusão massiva de um vírus originado em um mercado de uma cidade chinesa não pode ser entendida sem a globalização incontrolada na qual se baseia nosso sistema econômico e nossa forma de vida. A globalização, que dinamizou a economia mundial e contribuiu para a melhora das condições de vida de um quarto da população, também criou uma interconexão para qualquer processo, seja o terrorismo, a mudança climática ou epidemias antes locais.

Vivemos em uma rede global de redes globais que estruturam cada âmbito da atividade humana. De modo que tudo o que acontece funciona de acordo com uma lógica de rede, em que cada nó se comunica com múltiplos nós que, por sua vez, ampliam as conexões a outros tantos nós, o que se chama de “small world phenomenon”, onde um só nó pode gerar uma gigantesca estrutura, dependendo de sua velocidade de conexão. Assim funcionam as telecomunicações e assim funcionam os novos vírus que se expandem sem controle até que encontremos o antídoto. O que não previne de futuros vírus que possa haver, em particular por transmissão de outras espécies aos humanos (por isso não deveríamos comer animais).

E como a globalização implica contínuos movimentos de pessoas viajando de um continente a outro, em poucas horas, em um tráfego constante de atividades comerciais, burocráticas e turísticas, a abertura de fronteiras e o relaxamento de controles que a globalização acarreta tornam os sistemas de proteção do passado inoperantes. Daí a tentação de ressuscitar as fronteiras e os controles de todos os tipos, desmentindo a utopia liberal de “cidadãos do mundo”. Talvez a ordem liberal seja a primeira vítima desta pandemia.

Mais profundo ainda é a mudança no pessoal. Vamos percebendo, sem acreditar completamente, como em um pesadelo, a fragilidade de nossas vivências. Rotinas presentes em nosso cotidiano e que agora lamentamos com o desespero de não as ter valorizado em sua simplicidade. A maravilha de viver e de se relacionar livremente que, em momentos como agora, se torna uma ameaça constante, que esvazia de sentido o que fazemos, ainda que consigamos manter nossa sociabilidade pela internet, cuja utilidade agora apreciamos em seu justo valor.

Os problemas que nos pareciam insuportáveis agora cobram sua verdadeira dimensão de futilidades diante da ameaça de perder o trabalho, o ensino, a cultura, respirar em um parque ou pegar ondas. Sob pena de perder a saúde ou ser punidos por incivilidade. Porque só aceitando essas limitações poderemos sair desta crise multidimensional, na qual o vírus corrói nossos corpos, nossa economia, nossas paixões e nossas fantasias.

Sairemos, sim, mas não sairemos da mesma forma como entramos neste tempo de vírus. Pode ser que tenhamos que atravessar um longo período de mudança de modelo de consumo. Mas também pode ser que saiamos regenerados, recuperando o simples prazer de viver, ancorados em nossas famílias, nossas amizades e nossos amores. Porque para além da irritação normal de um longo período de clausura, são estes sentimentos e nosso apoio mútuo o que nos sustentará. Talvez reaprendamos o valor da vida e isso nos permita prevenir outras catástrofes que nos aguardam, caso sigamos em nossa corrida destrutiva e pretensiosa para não se sabe onde, nem por qual razão.