Por uma Avenida Milton Santos

Salvador pode ter avenida com o nome do geógrafo baiano

© Carlos Latuff

Por Gustavo Teramatsu / AGB-Campinas

Tramita na Câmara Municipal de Salvador um projeto de lei que propõe a alteração do nome da Avenida Adhemar de Barros para Avenida Milton Santos naquela cidade. A via, que une as avenidas Oceânica (Orla de Ondina) e Anita Garibaldi, está passando por obras de requalificação desde o início do ano e margeia o campus Ondina da Universidade Federal da Bahia.

O vereador Augusto Vasconcelos, do PCdoB, autor do projeto de lei, justifica que “a mudança (…) é uma antiga reivindicação dos moradores locais e dos estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), fruto do reconhecimento ao consagrado professor que já fez parte do quadro acadêmico da instituição, como aluno e docente”.

“É indubitável que Milton Santos é uma figura muito mais representativa do povo baiano, que por sua vez reconhece seus feitos e se orgulha dele como conterrâneo, do que Adhemar de Barros, cuja biografia não possui nenhum ponto de intersecção com a Bahia”, argumenta o edil. “Pela história de vida, feitos e méritos realizados por Milton Santos, nada mais justo que, aproveitando a requalificação realizada na debatida avenida, onde está situada a Faculdade de Geografia e o Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia – UFBA, a atual Avenida Adhemar de Barros passe a ser chamada de Avenida Milton Santos, em homenagem a uma das figuras mais expoentes na Bahia e simbólica para os estudantes daquela instituição e moradores locais”.

Em 2012, Gilmar Santiago, do PT, apresentou a mesma proposta à Câmara Municipal. Na sessão de 26 de novembro de 2013, o vereador “registrou apenas assinar o Projeto de Lei, a iniciativa nasceu de petição dos cidadãos de Salvador”. Em 18 de dezembro, o assunto voltou à discussão:

“Lembrou que Adhemar de Barros foi governador de São Paulo e tem história associada à ditadura, e voltou a questionar que ‘forças ocultas’ estariam a impedir a votação do Projeto. Disse que ficou sabendo que dono de uma tevê tinha parentesco com o ex-governador de São Paulo e não queria a alteração do nome. O edil propôs a realização de um movimento e conclamou a Universidade Federal da Bahia (UFBA) – que aprovou, no Conselho Universitário, que recomendou à Casa a alteração do nome –, a participar. Disse que pediu ao vereador Kiki Bispo, presidente da CCJ, para que o vereador Waldir Pires fosse o relator do Projeto, por ser contemporâneo a Milton Santos e possuir história de vida parecida. Afirmou que uma cidade de maioria negra não pode se curvar ao poder econômico e lembrou que a Casa já votou Projeto e, depois, o revogou por unanimidade, devido ao clamor da cidade. Por fim, disse que várias ruas de Salvador têm nomes de assassinos e traficantes de escravos”.

A iniciativa de Kin Pergentino Guerra Sampaio, estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes da UFBA de 19 anos, foi elogiada em editorial do A Tarde de 29 de agosto de 2013:

“A proposta (…) é daquelas capazes de mexer com o sentimento de cidadania que anda meio entorpecido entre os habitantes de Salvador. Uma aprova é que enquete realizada pelo portal A TARDE contabilizou em poucas horas mais de mil votos, dos quais 90% a favor da mudança. Se não houver impedimento legal, apoio popular parece ter de sobra. E nem há justificativa de transtorno, afinal na avenida principal de Ondina o que predomina são os estabelecimentos comerciais e o principal campus da Ufba, onde está o Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (Ihac). Não há também nenhum saia justa em relação ao homenageado, afinal ninguém conseguiu ainda explicar a razão de Adhemar de Barros ter sido eleito para nomear a avenida”, diz o editorial.

A conclusão do texto chama a atenção: “Nem sequer é preciso invocar o regionalismo, pois a obra de Milton Santos é universal. A partir dos seus estudos, a geografia deixou de ser a ciência dos mapas para incluir o homem e como ele se insere no entendimento sobre espaço real e virtual, inclusive em relação à globalização”.

O projeto de lei 260/2012, contudo, foi rejeitado e arquivado em 2016, justamente por já haver outro logradouro com o nome do geógrafo na cidade, com CEP 41260-065, e por uma lei municipal que veda a alteração de nome de logradouros cuja “tradição já consagrou”.

A página Movimento Avenida Milton Santos ainda está ativa no Facebook, com mais de 1500 seguidores.

O projeto de lei deste ano também já foi rejeitado pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação Final — CCJ da Câmara Municipal de Salvador, em parecer do relator Alexandre Aleluia. Augusto Vasconcelos recorreu, salientando a importância do homenageado.

O jornal A Tarde, para o qual Milton Santos colaborou por mais de dez anos, informa sobre um abaixo-assinado virtual organizado pela jornalista Christiane Gurgel Turisco y Baqueiro lançado no último dia 17 de setembro. A campanha também ganhou as redes sociais, com páginas no Facebook e no Instagram, e lista oito razões para apoiar a causa:

  1. Milton Santos foi um grande baiano e ainda não recebeu de Salvador uma homenagem à altura de sua importância.
  2. Foi um dos maiores pensadores brasileiros sobre o espaço urbano. É reconhecido internacionalmente com o Prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel da Geografia.
  3. Possui uma ligação estreita com a UFBA: foi aluno e professor da instituição. Tem tudo a ver o maior campus da universidade ser localizado na Av. Milton Santos.
  4. Adhemar de Barros foi um político paulista que não tinha nenhuma ligação especial com Salvador. Não fez nada relevante para a cidade.
  5. A trajetória política de Adhemar de Barros foi marcada por escândalos de corrupção. Para se ter ideia, a expressão “rouba, mas faz” foi inspirada nele.
  6. Apesar de ser uma cidade majoritariamente negra, Salvador tem pouquíssimas vias relevantes homenageando personalidades negras. Representatividade importa!
  7. Agora é um ótimo momento para a troca: a avenida está sendo reformada e já pode ser reinaugurada com o novo nome.
  8. A homenagem vai torná-lo mais conhecido pelos baianos e inspirar mais pessoas a repetir sua trajetória de estudos e pesquisa.

Em poucos dias, a campanha já reúne apoiadores de peso, como o filósofo e reitor da UFBA João Carlos Salles, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e o desenhista Carlos Latuff.

Adhemar, personagem dos anos 1950

Aniversário de Adhemar de Barros em abril de 1953 (Bandeirante na Tela 546 / Acervo Cinemateca Brasileira, capturado por Rodrigo Archangelo)

Nascido numa família de cafeicultores, Adhemar de Barros (1901-1969) formou-se médico nos anos 1920 e participou da Revolução Constitucionalista, em 1932, contra Getúlio Vargas (1882-1954), mas foi por este indicado interventor federal em São Paulo durante o Estado Novo (1938-1941).

A professora Mônica Sampaio Machado, no artigo A produção intelectual de Milton Santos vista através de sua trajetória espacial: uma interpretação, descreve o efervescente contexto político do Brasil nos anos 1950, do qual Adhemar de Barros é um dos protagonistas.

O político paulista, que havia ainda sido governador (1947-1951), era um “presidenciável” quando passou a dar nome à avenida em Salvador, já de olho na sucessão de Getúlio na presidência da República. A homenagem se deu em 25 fevereiro de 1953, quando a lei ordinária 378 foi sancionada pelo prefeito Osvaldo Velloso Godilho (1907-1996). A Bahia era governada então por Luís Régis Pacheco Pereira (1895-1987). Homenagens a viventes eram comuns, tanto que a nova Avenida Adhemar de Barros em Salvador fazia cruzamento com a Avenida Presidente Vargas, a avenida Oceânica de hoje.

O fundador do Partido Social Progressista, ao qual era filiado o vice-presidente da República Café Filho (1889-1970), seria ainda prefeito da cidade de São Paulo (1957-1961) e novamente governador (1963-1966), tendo sido derrotado, neste período, em duas eleições presidenciais, em 1955 e 1960.

Quem seria o ademarista baiano que lhe rendeu homenagem? Verificando os resultados das eleições daquela época, é possível avaliar a popularidade de Adhemar na terra de Milton Santos. Na eleição presidencial de 1955, ele teve 51 mil votos na Bahia, ou 11% dos votos nominais, ficando em último lugar no pleito, atrás do integralista Plínio Salgado (1895-1975) (63 mil votos), de Juarez Távora (1898-1975) (149 mil votos) e do presidente eleito Juscelino Kubitschek (1902-1976) (200 mil votos). Em 1960, sua votação na Bahia foi ainda menor: 47 mil votos (8,9% dos votos nominais).

Naquele ano de 1953, o jovem Milton Santos (1926-2001), voltando a residir em Salvador depois de alguns anos como professor e correspondente do jornal A Tarde na zona cacaueira, em Ilhéus, publicava Os estudos regionais e o futuro da geografia — tese de concurso para docência livre apresentada à cadeira de Geografia Humana da Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia. Começava a participar da política baiana como redator do mesmo jornal.

Adhemar de Barros e Fidel Castro (1926-2016) em 5 de maio de 1959, na residência de Maria do Carmo Cesário Alvim de Mello Franco (1907-2001) e José Thomaz Nabuco de Araújo (1902-1994), na Rua Icatu, em Humaitá, Rio de Janeiro. Foto: Agência O Globo

A petição de Christiane chama a atenção para as denúncias de corrupção nos governos de Adhemar. Neste sentido, vale a pena a leitura da dissertação Adhemar de Barros (1901-1969): a origem do “rouba, mas faz, de autoria de Luiza Cristina Villaméa Cotta. Em 1954 Adhemar perdeu a eleição ao governo do estado de São Paulo para seu antagonista Jânio Quadros (1917-1992), que lhe chamava de “Ali Babá” e seria eleito presidente em 1960 apoiado no discurso anticorrupção da “vassourinha”.

Jânio, assim como Milton Santos, era bacharel em Direito e havia lecionado Geografia.

Quando Jânio e Milton foram para Cuba

Em abril de 1960, Milton Santos, na condição de jornalista do A Tarde, indicado por seu chefe Jorge Calmon (1915-2006), participou da comitiva de Jânio Quadros numa viagem a Cuba. O deputado, candidato à Presidência, havia sido convidado, assim como seu adversário Marechal Henrique Lott (1894-1984) — que recusou a proposta — pelo Movimento 26 de julho a conhecer a ilha pós-Revolução. Disso resultou uma série de reportagens publicadas ao longo de um mês com o título “Visita a uma Revolução”, que estão reproduzidas no livro Milton Santos: correspondente do Jornal A Tarde (1950-1960), organizado por Maria Auxiliadora da Silva e William Antunes na série Livros Geográficos, da UFSC.

O próprio Milton Santos, em entrevista à revista Geosul em 1989, narrou a aventura: “Nesta viagem foi uma plêiade de intelectuais que foram com os jornalistas Rubem Braga [(1913-1990), correspondente de O Globo], Fernando Sabino [(1920-2004), correspondente do Jornal do Brasil], e este que é o maior cronista politico do Brasil — Carlos Castelo Branco [(1920-1993), representando a revista O Cruzeiro]”.

Rubem Braga e Fernando Sabino lançaram na época o livro Furacão sobre Cuba, com textos traduzidos de Jean-Paul Sartre (1905-1980), que estivera no país caribenho com Simone de Beauvoir (1908-1986) quase na mesma época, também por convite dos revolucionários. Suas impressões também saíram em jornal — o France-Soir.

Continua o geógrafo: “Todos foram contemplados por Jânio quando este foi presidente. Em 1960 o Jânio me chamou porque queria me nomear embaixador… Ele precisava urgentemente nomear um embaixador negro, mas eu estava em Paris, onde a primavera estava linda e assim atrasei meu regresso. Ao chegar aqui, o presidente me nomeou sub-chefe do seu gabinete civil e seu representante pessoal na Bahia. Este convívio com o poder me deu completo sentimento da fatuidade do poder”.

Milton Santos participou do breve governo Jânio Quadros (reprodução do Diário Oficial da União)

“Durante o tempo em que esteve em Havana, o geógrafo manteve diálogos cordiais com o candidato Jânio Quadros, conquistou sua simpatia e demonstrou que havia entre ambos alguma identificação no campo político. Santos acabou convidado a participar de seu governo tendo ocupado a subchefia do gabinete Civil”, narra o historiador Bruno de Oliveira Moreira no artigo “Visita a uma Revolução”: uma análise dos escritos de Milton Santos sobre a revolução cubana (1960).

A indicação ocorreu em março de 1961 para a chefia do sub-gabinete da Casa Civil da Presidência da República na Bahia, cargo que o geógrafo ocupou durante o breve governo janista, conforme registra também o historiador baiano Thiago Machado de Lima no artigo Um intelectual na mira da repressão: Milton Santos e o golpe de 1964.

Em entrevista a Jesus de Paula Assis que deu origem ao livro Testamento Intelectual, publicado postumamente em 2004, Milton Santos retoma o assunto:

“Eu deveria ter sido nomeado embaixador em Gana, só que no início do governo estava na França (…). Ele queria nomear um negro (…) então nomeou outro negro, Raymundo de Souza Dantas [(1923-2002)], pra embaixador em Gana. Quando eu cheguei, ele me disse: ‘A imprensa está dando que nomeei um embaixador negro em Gana e que isso é pouco. Você vai ser embaixador na Suécia, mas por enquanto fique na Bahia’. Mas não deu tempo de ir para a Suécia, porque ele renunciou”.

“Não conseguimos aferir o peso do convívio político na formação do pensamento de Santos; contudo, é inegável que tal engajamento resultou em um importante grau de influência e na ocupação de significativos cargos, culminando na subchefia da Casa Civil na Bahia, durante o governo Jânio Quadros. Mais adiante, tal prestígio político se reverte após o golpe de 1964”, observa o geógrafo Breno Viotto Pedrosa no artigo O périplo do exílio de Milton Santos e a formação de sua rede de cooperação.

1964: o ano que mudou a vida de Adhemar e de Milton

Dona Leonor de Barros (1905-1992), então primeira-dama de São Paulo, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 19 de março de 1964. Foto: Folhapress

Tudo mudou para Adhemar de Barros e Milton Santos com o golpe de 1964. Milton, que ocupava a presidência Fundação Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia, foi detido entre 9 de abril e 23 de junho daquele ano e se exilou por treze anos, o que marcou profundamente sua produção intelectual.

O cálculo político do governador Adhemar de Barros o levou a apoiar o golpe. Ele ainda nutria a pretensão de se tornar Presidente da República. Em 1965, veio o AI-2, e Adhemar passou a fazer oposição a Castello Branco (1897-1967), chegando a sugerir sua renúncia e a realização de eleições diretas. Teve então os direitos políticos cassados em junho de 1966. Era o fim de sua vida pública.

O político faleceu no exílio na França, depois de um infarto numa visita ao santuário de Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, em março de 1969. Em julho, a VAR-Palmares, liderada por Carlos Lamarca (1937-1971), roubou um cofre mantido por sua amante em uma casa em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, com 2,6 milhões de dólares que seriam de Adhemar. Este capítulo póstumo da biografia de Adhemar foi resgatado durante a campanha da eleição presidencial de 2010, por supostamente envolver Dilma Rousseff, e é contado por Tom Cardoso no livro O cofre do dr. Rui.

Populista e patrimonialista, os negócios de Adhemar tinham diversos tentáculos. Em 1952, era chamado de “homem mais rico do Brasil”, sendo a ele atribuída uma fortuna de “quatro bilhões de cruzeiros representados por fábricas de chocolate, cimento, tecidos, laminadoras de aço, empresa de aviação, terrenos e imóveis na capital paulista e no Rio de Janeiro, fazendas agrícolas e de gado no interior paulista etc.”. A Lacta, conhecida fábrica de chocolates, pertenceu à família de Adhemar — que comprou a empresa de Assis Chateaubriand (1892-1968) — por mais de cinquenta anos. O político também investiu na aviação, tendo adquirido a Aerovias Brasil, controlada pela VASP, e na comunicação, tendo fundado o jornal O Dia no Rio de Janeiro e sido o segundo proprietário da Rádio Bandeirantes, vendida a seu genro João Jorge Saad (1919-1999). No Morumbi, por meio da Imobiliária e Construtora Aricanduva, ele loteou os terrenos do Jardim Leonor, cujo nome é uma óbvia homenagem à esposa. No bairro, não por acaso, está a sede do Grupo Bandeirantes de Comunicação. O próprio estádio do Morumbi foi uma doação da empresa imobiliária de Adhemar ao São Paulo Futebol Clube, que era presidido por Laudo Natel (1920-2020), que também era seu vice. Muito perto dali, alguns anos mais tarde, Adhemar também negociou com a família Matarazzo a desapropriação do Palácio dos Bandeirantes — assombrado, dizem alguns, pelo seu fantasma…

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