Jorge Xavier da Silva (1935—2021)

Faleceu no dia 22 de julho, aos 85 anos, o geógrafo Jorge Xavier da Silva, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde fundou e ainda coordenava o Laboratório de Geoprocessamento — LAGEOP, vinculado ao Departamento de Geografia.

O professor Xavier em fevereiro de 2020

O professor Xavier, considerado pioneiro do geoprocessamento no Brasil, formou-se em 1959 na Faculdade Nacional de Filosofia Universidade do Brasil, que daria origem à UFRJ. Realizou a pós-graduação na Louisiana State University, tendo defendido a tese de doutorado Processes and Landforms in the South American Coast em 1973, orientado por William Grant McIntire. Também nos Estados Unidos, fez pós-doutorado University of California em Los Angeles, ainda nos anos 1970. Também neste período, foi consultor do INPE e participou do projeto Radambrasil, tendo sido responsável pela Divisão de Informática. Durante sua longa carreira científica, produziu extensa bibliografia em geoprocessamento, análise ambiental e geomorfologia. Participou da segunda gestão da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Geografia — ANPEGE, de 1995 a 1997.

Lembrança recente, em março de 2017 ele publicou nO Globo o artigo A geografia é necessária ao jovem cidadão?, argumentando que “o ensino da geografia é fundamental para o desenvolvimento da capacidade perceptiva autônoma do jovem, trazendo-o paulatinamente, ao longo de seu crescimento físico e intelectual, para a compreensão da realidade que forçosamente o cerca”. Também neste ano concedeu entrevista a colegas de Alfenas, publicada na Revista Brasileira de Geografia.

Diretoria Executiva Local da Associação dos Geógrafos Brasileiros — Seção Campinas

Campinas, 23 de julho de 2021.


Nota de pesar do Departamento de Geografia da UFRJ

Nota de pesar da Reitora da UFRJ

Nota de pesar do curso de Geografia da UFRRJ — Seropédica

Uma eulogia para Jorge Xavier da Silva — Blog do Pedlovski


Um complexo poliedro e suas arestas: Tributo a um improvável amigo, Jorge Xavier da Silva

Marcelo Lopes de Souza

Quando examinamos a história da ciência, vemos que houve dois grandes tipos de gigante intelectual: houve aqueles, como Albert Einstein, Max Planck e, mais recentemente, Carl Sagan, que, a despeito do imenso brilho, que tanta inveja despertou, tiveram uma índole agregadora e foram donos de um espírito o mais das vezes suave, capaz de desarmar até muitos adversários e granjear popularidade e simpatia generalizadas; e houve aqueles, como Isaac Newton e, em nossos dias, o ainda vivo Edward Wilson, que se mostraram polêmicos, agressivos até, atraindo para si admiração intelectual e rejeição pessoal em quantidades quase iguais. Jorge Xavier da Silva, Professor Titular Emérito do Departamento de Geografia da UFRJ, falecido ontem, pertenceu a esta última categoria.

A comparação de Xavier a consagrados gênios da ciência poderá parecer estapafúrdia (especialmente a quem detestava a pessoa e, mais amplamente, a quem tem imensa dificuldade de aceitar, por colonialismo introjetado e complexo de vira-lata, que possa existir pioneirismo científico de grande magnitude em nossos “tristes trópicos”). A comparação, contudo, não se refere à envergadura intelectual, mas, como está claro, ao tipo de personalidade e ao efeito que a personalidade exerce sobre o seu meio de atuação. Seja lá como for, Xavier foi, talvez, o geógrafo mais inteligente que conheci, de um ponto de vista estritamente racional (de sua inteligência emocional, falarei mais à frente). Muito mais do que isso, porém, Xavier foi um visionário, uma criatura extremamente criativa, dotado de uma personalidade intelectualmente complexa e, finalmente, um obcecado por seu trabalho e um paladino incansável de suas ideias. É dessa mistura – amiúde antipática ou, pelo menos, de difícil digestão pelos mais próximos – que são feitos, aliás, os pesquisadores realmente brilhantes, os inovadores, coisa tão escassa nos dias de hoje.

Xavier possuía, como já está evidente, um temperamento que não costumava gerar simpatias fáceis. Mais do que isso, ele era dono, entretanto, de uma personalidade contraditória. Aliás, suas contradições não se limitavam ao plano pessoal, mas se faziam presentes no próprio exercício da atividade intelectual. De certa maneira, senti sempre, ao conviver com ele desde 1983 (inicialmente como aluno, depois como estagiário, em seguida como assistente de pesquisas já formado e, por fim, como colega na UFRJ), que os lados intelectual e pessoal, que as dimensões racional e emocional se entrelaçavam, nele, de modo visceral e até desconcertante. Essa complexidade passou, em grande medida, desconhecida para quase todo mundo, que não o conheceu ou não quis conhecê-lo mais de perto. (Diga-se de passagem, eu só comecei a conhecê-lo mais de perto por obra de um destino caprichoso, após ter me indisposto com a professora de quem eu havia sido estagiário e ter perdido minha bolsa de pesquisas. Convidado por Xavier para trabalhar com ele, hesitei, pois não via afinidade entre as nossas ideias. Após consultar meu amigo e mestre Orlando Valverde, fui tranquilizado: “Vá em frente, você precisa de dinheiro. Xavier é um quantitativista, mas é muito inteligente e não é tão conservador quanto pensam. Encare como um trabalho e, quando puder, se desvincule.” Porém, os anos foram passando, e, apesar dos conflitos, vi que eu tinha muito a aprender com aquela convivência profissional. De quebra, ganhei um amigo. Um amigo difícil, cujas atitudes eu mesmo era o primeiro a criticar. Mas um amigo que, em momentos cruciais, diante de perseguições, me auxiliou e apoiou como ninguém mais).

Para uma ou duas gerações, Xavier foi apenas um geomorfólogo que aderiu à Geografia neopositivista (“quantitativa”), sendo visto, nos anos 1970 e início dos 1980, como pouco mais que um mero apregoador da Estatística e da Teoria Geral dos Sistemas. Aquele Xavier incrivelmente culto, capaz de citar de memória García Lorca, de discorrer sobre Filosofia, de enveredar por temas variados da história universal, de ler com perspicácia a alma de personagens da política ou da ciência, de conversar sobre artes plásticas – esse Xavier, creio eu, pouquíssimos imaginavam que pudesse existir. Mas existiu, e de modo superlativo, embora apenas para alguns poucos, que lhe deram e se deram chance de conhecer o homem que havia por trás do personagem vaidoso, autoritário e, não raro, agressivo (se bem que se tratasse de uma agressividade em parte encenada, quase teatral, e inclusive quase bufa). “Xavier, você se boçaliza; você afasta as pessoas de você, e depois reclama delas” – disse eu, recém-formado, com o atrevimento de quem sabia que poderia levar uma descompostura por palavras tão duras e petulantes, mas que intuía que, no fundo, aquela grande alma, que por mim sempre teve enorme apreço, não iria reagir tão mal assim. “É a vaidade, é a vaidade, Marcelinho; não consigo controlá-la”, respondeu ele, com uma humildade que causaria estranheza a muita gente, mas que revelava um lado que eu fui aprendendo a conhecer. O Xavier recalcado, eternamente recalcado, por sua condição de classe muito humilde (foi filho e neto de tecelãs, tendo sido praticamente criado pela mãe e pela avó). O Xavier inseguro, ao mesmo tempo possuidor de uma personalidade tremendamente machista – de um machismo abjeto e que me chocava, e que eu nunca deixei de criticar, a ponto de termos atritos frequentes por causa disso – e, por outro lado, dono de uma personalidade sempre à procura de aceitação, tanto intelectual quanto afetiva, inclusive por parte das mulheres. Sua inteligência descomunal o levava a perceber que errava, e onde errava; mas, como ele dizia, não conseguia se refrear, não conseguia ser diferente. Restou-lhe a frustração de se achar sempre incompreendido e injustiçado, reagindo de formas que, no fundo, atuaram como a profecia que se autocumpre.

Politicamente, por sua personalidade de “macho alfa” bastante assertivo e impositivo, uma vez ou outra até mesmo colérico, muita gente o interpretava como alguém “de direita”. Não raro, “fascista” era o adjetivo que aparecia, sussurrado, ontem como hoje, de maneira um tanto simplista. Sem sombra de dúvida, Xavier possuía uma “personalidade autoritária”, no sentido que Theodor Adorno atribuiu a esse conceito. Ele não era, porém, reacionário, no sentido mais convencional: no plano político explícito, era um admirador de Leonel Brizola (outro caudilho…) e de Luís Carlos Prestes (mais um caudilho…); ele foi um simpatizante socialista ou mesmo comunista, enfim, mas que, entre a defesa de Stálin e o alinhamento com Trotsky, preferiu ficar com o primeiro, como tantos de sua geração. (Aliás, essa foi uma das primeiras das muitas polêmicas que tivemos.) Anarquista, libertário – bem, disso Xavier estava a muitos anos-luz de distância, evidentemente. A despeito disso, mesmo assim, sua sensibilidade, em muitos e muitos momentos, abrandava os traços mais duros e aparava as várias arestas de temperamento de um jeito que até a mim mesmo, e mesmo depois de anos de convivência, ainda surpreendia um pouco: testemunhei muitos momentos de genuína empatia interpessoal da parte dele, em especial pelo destino e pelas atribulações dos trabalhadores pobres. Da última vez em que o vi, em 2019, vociferou uma caracterização de Jair Bolsonaro como uma “aberração da natureza”, com um desprezo tão profundo que valeu por toda uma análise de conjuntura.

Pioneiro do geoprocessamento no Brasil, Xavier não foi “só isso” – como se isso tivesse sido pouco! Após uma carreira de jovem geomorfólogo talentoso, colaborando com João Bigarella e também com a jovem colega (também brilhante, mas de personalidade tão oposta à dele, porque introspectiva) Maria Regina Mousinho de Meis, Jorge Xavier voltou dos Estados Unidos (de seu pós-doutorado), em 1977, com a ideia fixa de introduzir o geoprocessamento entre nós. Tinha encontrado o caminho que o tornaria amplamente reconhecido, e que se associaria para sempre ao seu nome.

Faço uma pausa, agora, para acrescentar mais uma nota bastante pessoal, já que mencionei Maria Regina. Paixão do jovem Xavier, a jovem Maria Regina não quisera saber dele – em sua opinião, por ser ela de família de classe média alta, enquanto ele era um “pé-de-chinelo” (não lhe ocorria, ou ele não queria admitir, que essa rejeição, assim como outras, tivessem muito a ver com o seu difícil temperamento). O fato é que, ao saber dessa história, passei a observar melhor o quanto alguns aspectos de suas simpatias à esquerda se mesclavam com um profundo ressentimento de classe, que persistiu mesmo após o imenso sucesso profissional e material que ele teve. Em 1985, quando Maria Regina teve um enfarte fulminante no Departamento de Geografia, foi Xavier que, como um relâmpago, ao saber do ocorrido, a tomou nos braços e a levou para o Hospital Universitário da UFRJ. Já era tarde demais. E ainda me lembro da profunda, da imensa desolação daquele homem, ao voltar para o seu laboratório, balbuciando coisas enquanto se lembrava da colega que tanto admirava, com quem tinha trabalhado, por quem tinha sido apaixonado e por quem, finalmente, havia se sentido rejeitado. Naquele momento, a fragilidade se corporificou na impotência de quem não poderia ter salvo e, pior, não teve, nunca, a oportunidade de dizer o que gostaria de ter dito àquela que partiu tão prematuramente. (Interessantemente, mesmo sendo capaz de assediar e ser agressivo com alunas e colegas do sexo feminino, Xavier sempre viu e tratou Maria Regina com enorme respeito, sem se permitir sequer gracinhas de qualquer tipo.)

Voltando ao geoprocessamento, dizia eu que Xavier não foi “apenas” um pioneiro. Aliás, o pioneirismo que se restringe a importar ideias e tecnologias de fora do país, como uma espécie de “corretagem de ideias” (por analogia com o corretor de imóveis, que intermedia sem nada acrescentar), não poderia ser senão um pioneirismo entre aspas. Não se tratou disso: Xavier pensou o geoprocessamento nos marcos de um país (semi)periférico; pensou-o, pois, como algo a ser concretizado sob a forma de pacotes e programas conversacionais, acessíveis a qualquer usuário, e que tivesse baixo custo, podendo se disseminar com facilidade pelas prefeituras e órgãos públicos do país. Xavier era um nacionalista, de perfil brizolista (ele era, aliás, um admirador de Darcy Ribeiro, de quem tinha sido aluno) e, como já foi também dito, um tanto stalinista, nas convicções e nos modos. Defensor de um Estado de bem-estar, sua repulsa ao neoliberalismo era genuína, e se manifestava na prática. De sua obsessão nasceu o SAGA – o Sistema de Análise Geo-Ambiental -, embrião e símbolo de seu laboratório de Geoprocessamento (o LAGEOP), que hoje em dia muitos conhecem pelo Brasil afora, tanto em universidades quanto em órgãos públicos e ONGs, como ele tanto queria. Sua teimosia o fez resistir com intensidade desproporcional a softwares mais comerciais, que inevitavelmente se impuseram, relegando o SAGA, aos poucos, ao ostracismo, quando não a um objeto de pilhéria. Difícil saber como ele poderia, sendo o obsessivo que foi, ter conciliado sua visão do SAGA com o “pragmatismo” que hoje reina; um “pragmatismo” fácil de ser defendido para quem não vê para além do geoprocessamento e dos SIGs (ou das “geotecnologias”) de um ponto de vista estreitamente instrumental, ser abraçar uma visão de país e de universidade. É possível discordar da visão de país e de universidade que ele advogava, mas ele a tinha; por isso, seria injusto e absurdo reduzir as opções de Xavier a uma simples “falta de visão”, a uma reles e tacanha “teimosia”, como ouvi tanta gente (de boa ou má fé) dizer nos últimos vinte anos. Em uma época em que “projeto” se limita a uma palavra que designa um jeito de conseguir financiamento para pesquisas (não raro de duvidosa utilidade social), Xavier sonhava com um projeto para o Brasil. E o geoprocessamento, em seu sonho, era parte indissociável disso.

A obsessão de Xavier pelo geoprocessamento era tão grande que o levou a ver a tecnologia como parte de um projeto emancipatório, para o que ele, muitas vezes, citou e se buscou se amparar em seu amigo Paulo Freire. Sim, Paulo Freire: o autoritário Xavier teve, inicialmente graças à sua esposa, Aurenice (uma professora de Matemática, pernambucana arretada e inteligentíssima, de firme caráter, que havia trabalhado estreitamente com o grande educador no início dos anos 1960), a oportunidade de conhecer aquele que foi um dos maiores pensadores brasileiros de todos os tempos. Lembro-me do almoço de nós três, em São Paulo, em 1987, na casa de Paulo Freire, que havia enviuvado há pouco tempo. Um almoço bem nordestino e simples, com carne seca desfiada com abóbora, feijão, arroz e farinha. Nesse almoço, Xavier perguntou a Paulo se ele toparia prefaciar o nosso livro Análise Ambiental (que saiu depois pela Editora da UFRJ), e Paulo pediu para ler o livro, dizendo que só o faria se se sentisse realmente à vontade. Pelo visto, se sentiu, pois escreveu um belo prefácio, ressaltando, apesar da aspereza do tema, o seu caráter didático e a sua importância (político-)pedagógica. Esse livro, assim como a amizade de Paulo Freire, foram sempre, para Xavier, como que um desagravo, diante das incompreensões que ele colheu (mas que ele próprio ajudou a semear).

Ao mesmo tempo brilhante e criativo, capaz de pensar em termos como o de uma “nova semiótica” – expressão que ele passou a usar regularmente após a publicação de um artigo importantísssimo, “Um modelo digital do ambiente”, que saiu publicado em 1982 em português e inglês -, Jorge Xavier era um obstinado e, mais do que isso, meio cabeça-dura. Se o seu interesse era o de que um algoritmo ou programa fosse testado, ele faria de tudo para que você criasse um problema científico ou delineasse um projeto de pesquisa que se adaptasse à tecnologia, quando deveria ser, por óbvio, o contrário. Óbvio, sim, mas não para ele… E isso dificultou incrivelmente qualquer colaboração nossa depois de eu retornar de meu doutorado, muito embora eu tivesse proposto várias oportunidades de utilização do SAGA. Que pena! Depois de 1993, continuamos amigos, e fomos amigos até o fim. Um carinho que se alimentava de muitas lembranças e de pequenos gestos. Mas as conversas, tensas e ao mesmo tempo produtivas (sobre os limites da tecnologia, sobre o futuro da informática, sobre os potenciais, os riscos e os efeitos do geoprocessamento sobre a Geografia, e sobre a vida também, pura e simplesmente), tornaram-se mais escassas. Os encontros foram rareando, embora eu me ressentisse disso (e sei que ele também).

Em uma época em que mais vale o “parecer” do que o “ser”, em que “celebridades” são criadas (e descartadas e substituídas) a cada par de semanas ou, no máximo, de meses, Jorge Xavier da Silva era um anacronismo. Talvez, existencialmente, sempre o tenha sido (grandes indivíduos com frequência o são, especialmente quando polêmicos: à frente de seu tempo e, apesar disso, com dificuldade e resistência em acompanhar a dinâmica de seu tempo, no plano psicológico e dos costumes). Xavier era muito mais do que parecia ser – tanto emocional quanto intelectualmente. Creio que mesmo os que o admiraram, em geral não o conheceram na enorme extensão de sua cultura, de suas capacidades, de sua flexibilidade mental, de sua imensa criatividade. Ele foi, de certo modo, por tudo o que falei, um personagem um tanto trágico, apesar de seu enorme sucesso profissional. Foi um titã – um titã incômodo, não raro irritante, volta e meia exasperador e até mesmo muito reprovável em vários sentidos, mas também capaz de atitudes comoventes e de profunda honestidade e sentido de amizade e gratidão, além de uma fidelidade institucional e pessoal extraordinária. Acima de tudo, enfim, isso: um titã. Nesta quadra da história, em que mais vale o sorriso superficial que o desconforto provocado por um pensamento autêntico e pela disposição em lutar com unhas e dentes por uma ideia, Xavier parecerá um personagem de um passado distante. Triste presente! Da minha parte, honras ao titã, pelo que ele foi – e a despeito de todas as ressalvas.

23 de julho de 2021.

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