João Baptista Ferreira de Mello (1949—2021)

Gustavo Teramatsu

Há um mês Baptista nos deixava. Viva Baptista!

O geógrafo João Baptista Ferreira de Mello se foi no último 10 de julho, aos 72 anos.

Por muitos anos conduziu, com enorme disposição e irreverência, nos Roteiros Geográficos do Rio, frequentes passeios a pé pelas ruas do Rio de Janeiro. O projeto renovou seu reconhecimento pela mídia, que lhe cedia espaço com frequência, tendo sido inclusive colaborador frequente do jornal O Dia. Foi uma exitosa experiência de extensão, com a qual ele não era remunerado, apesar das crises recorrentes de financiamento da UERJ, que lhe atrasavam os salários. Foi assim que o conheci na noite de 7 de junho de 2013, como estagiário da professora Tereza Paes, que fez questão de incluir o roteiro de seu amigo nos trabalhos de campo que organizamos na disciplina de Meio Ambiente Urbano do curso de graduação em Geografia da Unicamp. Baptista nos levou para o Caminhando Entre Luzes no Centro do Rio à Noite, pelos cantos e os antros da cidade — utilizando a expressão do historiador campineiro Amaral Lapa. Fizemos novamente o mesmo percurso na noite do Dia do Geógrafo, em 29 de maio de 2015. Desde então eu acompanhava notícias dele pelo Facebook. Esta homenagem póstuma, vale a ressalva, é feita por alguém que, embora o admirasse, não desfrutou de sua convivência pessoal.

Baptista completou “70 rugas”, como dizia, em abril de 2019. Já se queixava de dores na coluna, descritas como “alucinantes” e “colossais“, que passaram a comprometer os rotineiros roteiros. “Estou surpreso que eu esteja vivo”, escreveu na época. Ele também compartilhou uma tradução livre de um trecho do prefácio do Escapismo de Yi-Fu Tuan, inédito no Brasil:

“Na dor eu tenho desejado estar fora do meu corpo. Isto me é possível, mas num nível muito sofisticado. Um animal come, tem instintos sexuais e mais cedo ou mais tarde morre. Eu? Bem, eu amo, janto e aspiro ser imortal. Cultura é o estágio que me separa de ser animal” (“In pain, I have often wished that I could abandon my body and be elsewhere. It is even possible to do so to a limited degree. (…) An animal eats, has sexual drives, and sooner or later dies. I? Well, I dine, love, and aspire to be immortal. Culture is the totality of means by which I escape from my animal state of being”).

Aconteceu, então, o inimaginável. Na página dos Roteiros, em novembro daquele ano, ele anunciou que estava com mieloma múltiplo, “o mesmo do Luiz Melodia”. Era a causa do seu calvário. Foram longos meses pandêmicos, afastado em definitivo de seus roteiros para tratamento do câncer, que o vitimou. Assim como Luiz Melodia, falecido em agosto de 2017, Baptista foi sepultado no Cemitério de São Francisco de Paula, no Catumbi, que fazia parte de seus Roteiros.

Dele, guardo a memória de seu humor e de sua irreverência, que pude compartilhar em breves mas inesquecíveis momentos. Para mim, Baptista, na condução dos grupos em seus Roteiros — em duplo sentido, como itinerários e como scripts —, era como um ator atuando numa peça, num rico cenário de edifícios e monumentos de tempos diversos. O roteiro era bem escrito, mas estava sempre aberto a improvisos. Mais de uma vez, pessoas que cruzavam nosso caminho, por acaso, tinham a atenção capturada e se juntavam à roda para ouvi-lo falar.

Em 2009, o jornalista Breno Costa, no Jornal do Brasil, descreveu um dos Roteiros: Nove pessoas, algumas com as mãos para trás, outras tomando notas em caderninhos, estão ao redor de um homem com mais de 1,80m, vestido de calça branca, camisa de botão azul pálido, sapatos engraxados e um blazer xadrez de uma cor indescritível que oscila entre bege e cinza. Se fosse de dia, os transeuntes da apinhada Rua Uruguaiana, no Centro, poderiam confundi-lo com um pregador evangélico. Mas não. É noite, ou melhor, é meia-noite. Não há pedestres na rua, apenas dois catadores de lata e um cachorro vira-lata. O suposto pastor é um geógrafo que, há 2 horas e 43 minutos, fala sem parar, com uma empostação de voz típica de Agnaldo Timóteo — mas com uma sobriedade professoral.

Em 2017, o jornalista Élcio Braga registrou em vídeo um dos Roteiros no Beco das Cancelas. Baptista fala ao grupo, simulando vergonha: “Não sei como é que está, mas o pessoal fazia muito sexo aqui à noite”, para espanto dos presentes. Lembro do resgate que a professora Ester Limonad fez uma música do Álbum Branco dos Beatles para falar a usos do território transgressores — Why don’t we do it in the road?.

Melissa Anjos, Olga Maíra Figueiredo e Ivo Venerotti, que participavam também dos Roteiros, homenagearam seu orientador com um capítulo no recém-lançado segundo volume do Dicionário dos Geógrafos Brasileiros de André Martin e Mônica Sampaio Machado: O indivíduo, o lugar e o pensamento: João Baptista Ferreira de Mello e a sua inovadora Geografia Humanística. Nele se obtém alguns detalhes biográficos: nascido na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, em 8 de abril de 1949, Baptista teve uma infância pobre, sem pai, criado de cortiço em cortiço pela mãe, Dona Neucides, empregada doméstica. Começou a se interessar pela Geografia, por meio da Corografia do Brasil de Mário da Veiga Cabral. Na juventude, trabalhou como office boy flanando pelas ruas do Centro do Rio.

Aí estava o germe do Baptista geógrafo, que uniria a sua paixão pela sua cidade natal à sua paixão pela música, evidenciada pela edição do Jornal do Brasil de 13 de agosto de 1969, onde está publicada uma carta dele, que tinha então vinte anos:

Protesto contra a coordenação do Festival da Canção Popular, parte nacional, que aceitou algumas músicas de iê-iê-iê. O festival não pode ser um mero veículo de distração, mas também de cultura, um espetáculo de elevado nível artístico (…) — João Baptista Ferreira de Mello — R. Barão de Petrópolis, 293 — Rio

Baptista cursou a Licenciatura em Geografia entre 74 e 77 na Faculdade de Filosofia de Campo Grande, na Estrada da Caroba, enquanto era secretário-datilógrafo do IBGE. Em seguida, passou para o cargo de geógrafo, tendo concluído o curso de bacharelado em 1983 pela PUC-Rio. Titulou-se mestre e doutor em Geografia pela UFRJ, com orientação do professor Roberto Lobato Corrêa. Era professor do Instituto de Geografia da UERJ, onde coordenava, desde 2010, o Núcleo de Estudos sobre Geografia Humanística, Artes e Cidade do Rio de Janeiro — NeghaRIO.

A consolidação de sua carreira acadêmica, ao longo da década de 1990, veio no âmbito do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura — NEPEC. Em 2000, ele defendeu a tese de doutorado Dos Espaços de Escuridão aos Lugares de Extrema Luminosidade – o Universo da Estrela Marlene como Palco e Documento para a Construção de Conceitos Geográficos. Foi, aliás, com Marlene, quase como uma epifania, no show Praça Onze dos Bambas, que ele percebeu a relação entre música e espaço. Daí nasceu a dissertação O Rio de Janeiro dos compositores da Música Popular brasileira 1928/1991 : uma introdução à Geografia Humanística foi defendida em 1991 e é considerada um trabalho seminal da Geografia Humanista no Brasil. Na capa está a gravura de Bruno Liberati, que ilustra a reportagem O mapa musical da cidade, do grande Tim Lopes, no Jornal do Brasil de 14 de dezembro de 1989.

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Tudo começou em 1986, quando ele causou reação positiva no Encontro Nacional de Geógrafos de Campo Grande, ao apresentar o trabalho A Organização Espacial da Cidade do Rio de Janeiro vista pelos Compositores da Música Popular Brasileira, também apresentado no ano seguinte no 1º Encontro de Geógrafos da América Latina (EGAL), em Águas de São Pedro. Foi quando ele deu início ao mestrado, para o qual obteve uma licença remunerada do IBGE. Reencontrei também uma reportagem publicada pelO Globo em 30 de junho de 1987. O tijucano vivia então na rua Eduardo Ramos, número 11.

“A repercussão de sua defesa de mestrado foi intensa, acolhedora e impactante pois, após esse momento, João Baptista Ferreira de Mello virou referência nos estudos humanistas em Geografia no Brasil. Ao mesmo tempo, a dissertação foi incensada e mesmo abraçada pela comunidade externa à universidade, bem como divulgada na grande mídia justamente por seu caráter inovador, ou seja, por aproximar a academia da sociedade transmutando o discurso acadêmico em linguagem legível e acessível a todos”, atestam seus orientandos.

Como prova, encontramos Baptista em edição do Jornal do Brasil de 16 de junho de 1991 em reportagem a ele dedicada — Viva o compositor popular — ao lado de uma poesia de Paulo Mendes Campos; e na Revista de Domingo de 14 de julho — A cidade das canções.

São 117 canções no trabalho, talvez quase oito horas de músicas, que merecem ser reunidas numa playlist. O tema renderia também um bom documentário. Caberia, quem sabe, atualizar esse trabalho, que completa neste ano trinta anos, com as canções cariocas das últimas três décadas — o que dizer do fenômeno Anitta, a Girl From Rio?

Ao NeghaRIO, meus sinceros votos de que possam prosseguir pelo caminho que Baptista corajosamente abriu. Ele estará, com certeza, ao lado de Marlene e de outras tantas estrelas, iluminando novos roteiros pela Olímpica e Maravilhosa Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e de São Jorge Guerreiro.

4 comentário em “João Baptista Ferreira de Mello (1949—2021)

  1. Parabens pela postagem. JB jamais será esquecido.

  2. Grande João Baptista. Sua marca fica forte na geografia brasileira e nas ruas do Rio. Eterno!

  3. Todo e qualquer homenagem a João Baptista é “pequena”. João Baptista é muito, muito mais !!! Ficará para sempre eternizado na Geografia, especialmente na Geografia Carioca. Saudades querido, meu querido Josueéééééé….

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