Richard Sennett: As cidades na pandemia

Publicado no portal Newcities.org com o título “The State of Exception Becomes the Norm”, traduzido para o francês em versão ampliada por Hélène Borraz no portal AOC – Analyse Opinion Critique. Traduzido pelos geógrafos Luciano Duarte, Wagner Nabarro e Gustavo Teramatsu


Em Homo Sacer, o filósofo italiano Agamben fala da repressão que surge quando um estado de exceção é instaurado. A vida das pessoas se encontra reduzida a um mínimo biológico, como nos campos de concentração nazistas. Mas essa redução pode persistir uma vez que as condições excepcionais passem. O sociólogo Alain Touraine mostrou há muito tempo como a situação em tempos de guerra legitimou a regulamentação estatal da vida das pessoas, bem depois do fim da segunda guerra mundial. As estruturas do poder se servem das crises, usando-as para legitimar um controle mais amplo.

O pânico permite a exploração das crises. Nos países ricos, raros são os jovens que hoje em dia conhecem a disciplina militar, que não tem outro objetivo senão garantir que os soldados, sob fogo, mantenham o controle deles mesmos; entrar em pânico no campo de batalha é morte na certa ou quase isso. Mas a mídia hoje está embriagada de pânico, nos apresentando esses extremos que são a doença e a morte como um destino inevitável. Quando uma boa notícia surge – a redução da doença na China, por exemplo –  o lugar que a mídia lhe dedica, poderíamos dizer, é bem menor que aquela relacionada à comparação da pandemia do Covid-19 com a peste negra do século XIV. É absurdo, mas a comparação empolga. É assim que o poder da mídia serve ao Estado em seu projeto de normalização. 

Não estou minimizando a pandemia atual, apenas dizendo que é preciso respondê-la sem entrar em pânico, e que ela constitui uma “oportunidade”, na falta de uma expressão melhor, que deve ser aproveitada.

Esta é a perspectiva que as cidades enfrentam hoje: as regras de controle das cidades durarão mais do que a pandemia; em particular, as regras que regem o espaço público, que ditam a distância social e que dispersam as multidões persistirão mesmo após nós termos os meios médicos de suprimir a doença. Nós dispomos de um precedente histórico recente. Após o 11 de Setembro, a legislação que regula as reuniões públicas, o controle de acesso aos edifícios e as especificações para construção daqueles à prova de bombas permanecem inscritos nos textos legiferantes desses setores. O “distanciamento social”, necessário na atual crise, ameaça se tornar uma norma imposta pelo governo mesmo que posteriormente, graças a uma vacina eficaz, as pessoas não tenham mais razões imperiosas de temer a proximidade dos outros.

Essa situação nos desafia a refletir sobre os problemas urbanos, no entanto, que durarão mais do que a pandemia. O primeiro é o isolamento social, angustiante primo do distanciamento social. A pandemia nos fez tomar consciência – particularmente na Europa – do problema de lidar com um grande número de pessoas idosas vivendo sozinhas. Em Londres, de onde escrevo, 40% das pessoas idosas vivem sozinhas, em Paris, 68%. Elas já estão experienciando o distanciamento social e a solidão não faz nada bem para sua saúde física ou mental. Os governos, na minha opinião, são incapazes de votar leis capazes de superar a solidão criada pelo distanciamento social imposto. Este é um desafio para a sociedade civil urbana, para o qual precisaremos ter novos conceitos em matéria de comunidade.

A pandemia também desafia os urbanistas a repensar a arquitetura da densidade. A densidade é a lógica das cidades; a concentração das atividades em uma cidade estimula a atividade econômica (o que chamamos de “efeito de aglomeração”); a concentração de pessoas é um bom princípio ecológico para enfrentar a mudança climática, ao permitir economizar recursos de infraestrutura. E isso é uma coisa boa socialmente, ao expor as pessoas a outros grupos aos quais elas não pertencem,  numa cidade densa e diversificada. No entanto, para prevenir ou inibir futuras pandemias, é possível que nós tenhamos que encontrar novas configurações de densidade que permitiriam às pessoas se comunicar, ver seus vizinhos, participar da vida urbana mesmo que elas devam temporariamente que se manter distantes umas das outras. Faz muito tempo que os urbanistas chineses inventaram uma tal forma flexível: o pequeno pátio interior dos shikumen¹. Os arquitetos e urbanistas devem encontrar seu equivalente contemporâneo.

¹ N. dos T.: Estilo de arquitetura residencial que mescla elementos europeus e chineses, difundido durante o século XIX por diversas áreas do território chinês, principalmente em Xangai, mas também Wuhan, primeiro foco da COVID-19.

Os meios de transporte colocam um problema mais difícil de resolver no contexto da densidade. Os transportes públicos têm a vantagem de reunir passageiros de forma massiva e eficiente, mas esta não é uma forma saudável de densificação. Assim, os urbanistas de Paris e Bogotá exploram o que chamamos de “cidades em 15 minutos”, onde as pessoas podem ir a pé ou de bicicleta até pequenos polos de atividades densos, em vez de se deslocar mecanicamente em direção a alguns grandes centros da cidade. Mas isso exigiria uma revolução econômica a ser alcançada – particularmente nas cidades em vias de desenvolvimento ou, como em Bogotá, onde as fábricas se encontram longe dos barrios e favelas (bidonvilles) onde vivem os trabalhadores.

Eis o que coloca em evidência um problema gritante: como conciliar cidade saudável e cidade verde? Existem pontos em comum evidentes na pequena escala, por exemplo, a instalação de meios para que os mais desfavorecidos não tenham mais que queimar seus resíduos e cessem assim de contribuir com a poluição. Porém, considerar a adequação da cidade saudável/cidade verde nos obriga a repensar radicalmente a densidade.

Além disso, a pandemia revela a extensão das desigualdades sociais. O trabalho que as pessoas podem fazer desde suas casas em grande parte é um trabalho de classe média: a coleta de lixo, a canalização ou outros empregos terciários não menos manuais não podem ser feitos online. Se a pandemia atual deixa algum traço durável no mundo do trabalho, receio que este seja o aprofundamento da distância entre o trabalho manual e o trabalho intelectual e o de uma classe operária ainda mais exposta a condições de trabalho potencialmente  insalubres.

A pandemia pode finalmente, humanizar a utilização da alta tecnologia nas cidades. Até agora, os modelos de “cidade inteligente”, implementados há uma geração, foram orientados sobre a regulamentação e o controle – o Estado online. O que está surgindo nesta pandemia são excelentes programas e protocolos capazes de criar a comunidade. Eu estou particularmente impressionado com Londres, pelo número de redes de cuidados mútuos que estão se desenvolvendo nas comunidades como a minha, que se parece com o West Harlem em Nova York, cheia de diversidade, mas não dotada de verdadeira comunidade.  A comunicação online mudou na última semana tudo isso.

Em suma, é hora de temer a oportunidade que a pandemia oferece aos poderes dirigentes, de recusar o espetáculo do pânico produzido pela mídia, de encontrar os meios para lutar contra o fosso que se agrava entre a classe média protegida e a classe trabalhadora exposta, explorar as diferentes formas de diversidade capazes de conciliar a cidade verde e a cidade saudável, e utilizar as novas tecnologias para afirmar o poder da sociedade civil na cidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *