Manuel Castells: Depois da guerra

Publicado em La Vanguardia em 28/03/2020, com tradução dos geógrafos Gustavo Teramatsu e Wagner Nabarro


Todas as guerras terminam. Mesmo quando estão contra um inimigo invisível que ameaça os seres humanos como espécie. A questão é como, quando, com que sofrimento e quais serão suas consequências.

É difícil pensar no dia seguinte quando estamos mergulhados em angústia, confinados, mascarados, sentindo doenças e morte por toda parte. E, no entanto, sabemos que em algum momento haverá um surto de alegria, de voltar a sentir o prazer do passeio, do jogo, do abraço, da vida nas ruas, nos parques, nas praias, nos bosques e em restaurantes cheios de festa. A vida, agora em suspensão, retornará. Com a adição de uma nova filosofia espontânea do infinito prazer das pequenas coisas. Sentir a beleza da vida sem mais delongas, apreciar o simples fato de ser e de estar, de amar e ser amado, com um novo sentimento de solidariedade, como se estivéssemos sempre aplaudindo às oito horas. A luz retornará. Com seus tons rosados de amanhecer e avermelhados de pôr do sol, com um ar fresco renovado porque paramos de poluir por um tempo.

Nada será como antes. Todos sairemos transformados dessa experiência. Mas teremos aprendido alguma coisa sobre nosso modo de viver, de produzir, de consumir, de administrar? Seremos capazes de interpretar esse aviso brutal para evitar outras pandemias, claramente possíveis devido à nossa interconexão global? E a catástrofe ecológica prevista pelos cientistas e cujos sinais se multiplicam enquanto os congressos se divertem? Podemos corrigir coletiva e institucionalmente a dinâmica de autodestruição em que entramos? Nunca tivemos tanto conhecimento e nunca fomos tão irresponsáveis com o seu uso. Talvez o pós-guerra seja o ponto de virada que estávamos esperando.

Mas o pós-guerra será difícil, todos eles são. Após o momento de euforia para gozar o riso e os jogos de nossos filhos em liberdade, teremos que enfrentar a realidade de uma crise econômico-financeira que pode ser tão grave quanto a de 2008, com um aparato produtivo danificado, um sistema de saúde exaurido, uma cooperação europeia em risco, uma economia global caoticamente desglobalizada, um renascimento do nacionalismo primitivo de fechamentos de fronteiras contra o mal vindo de fora, uma proliferação de notícias falsas prejudiciais, disseminados por poderes de fato ou mentes febris, uma ordem geopolítica interrompida pela superioridade chinesa na resposta à crise, enquanto a política errática de outros países terá mostrado a destruição da ideologia neoliberal na vida das pessoas.

Esse pós-guerra deve ser preparado desde já, porque o modo como administramos a crise, com absoluta prioridade à saúde da população, tornará a reconstrução mais ou menos difícil. Uma economia de guerra terá que ser sucedida por uma economia pós-guerra, na qual os gastos públicos são o motor da recuperação, como tem sido em todos os períodos de pós-guerra. Mas isso só será consolidado se se gera emprego e se as pessoas se sentem seguras e recuperam sua vida cotidiana.

O financiamento dessa política expansionista, além do endividamento obrigatório, exigirá imaginação para criar uma nova arquitetura financeira e capacidade de gestão para operar uma economia diferente, que não caia na armadilha antiga da austeridade dos serviços essenciais. Porque o Estado de bem-estar é a fonte de produtividade que é a fonte de riqueza. Mas também seria hora de experimentar modelos não consumistas que levem à transição ecológica e cultural tão amplamente proclamada, mas ainda timidamente praticada. A economia pode ser reativada reduzindo o consumo supérfluo? Somente se houver uma mudança nos padrões de gastos que facilitam o investimento, mantêm o emprego e aumentam a produtividade.

Os serviços básicos (o que se cortou nas destrutivas políticas de austeridade) deveriam ser não apenas o motor do investimento, mas também da demanda. Não haverá outra forma de financiá-los a longo prazo a não ser mediante um aumento da carga fiscal de grandes bolsões de acumulação de capital que hoje em dia são pouco ou nada tributados. Reinventar a fiscalidade quer dizer superar o enfoque de tributar sobretudo as pessoas ou as empresas para centrar-se em uma regulação impositiva do mercado global de capitais que hoje em dia perdeu grande parte de sua função produtiva para incrementar seus ganhos mediante a criação de valor virtual e crescentemente instável. Uma fiscalidade inteligente adaptada a nosso tempo poderia, por sua vez, gerar recursos para gastos públicos de maneira não inflacionista e regular os fluxos globais de capital. Entre a desglobalização aventureira e a globalização descontrolada de capital há margem para iniciativas coordenadas dos Estados que assumam um controle estratégico da economia em um marco pelo menos europeu.

Essa economia deveria, além de ser sustentável, incluir um Estado de bem-estar desburocratizado e preparado para os choques vindouros. Choques que serão tanto menos danosos quanto encontremos um equilíbrio entre produzir, viver e conviver. Conviver entre nós e com esse maravilhoso planeta azul que seguimos maltratando. Depois da guerra podemos desembocar em uma espantosa crise econômico-social ou em uma nova cultura do ser, sem a qual não sobreviveremos muito tempo.

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