Itamar Vieira Junior: o geógrafo vencedor do prêmio Jabuti

Gustavo Teramatsu / AGB-Campinas

Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado

Atualizado em 26/11/2020, quando do anúncio do Prêmio

No ano passado fizemos um levantamento da participação de geógrafos no Prêmio Jabuti, lembrando que nossa Associação foi uma das primeiras premiadas pela publicação de A Cidade de São Paulo – Estudos de Geografia Urbana, em 1959, na cerimônia que coroou Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado. O maior prêmio da literatura brasileira premiou ainda, ao longo dos anos, Milton Santos e Aziz Ab’Sáber.

Faltou, contudo, um nome importante na lista — que neste ano, na 62ª edição do Prêmio, esteve novamente entre os finalistas, desta vez, na categoria Romance Literário: Itamar Rangel Vieira Junior, autor de Torto Arado, que concorreu com veteranos como Chico Buarque, Edney Silvestre e Luiz Ruffato — e venceu!

Em 2018, Itamar havia vencido o Prêmio LeYa por Torto Arado e também havia sido finalista do Jabuti, na categoria Contos, com A Oração do Carrasco, seu segundo livro.

Nascido em Salvador em 1979, Itamar formou-se geógrafo e mestre em Geografia na Universidade Federal da Bahia — com a monografia A expansão de Salvador: a produção do espaço urbano em uma via metropolitana, de 2005, e a dissertação A valorização imobiliária empreendida pelo Estado e mercado formal de imóveis em Salvador: analisando a Avenida Paralela, defendida em 2007, ambos os trabalhos orientados pela professora Maria Auxiliadora da Silva. O doutorado em Estudos Étnicos e Africanos — “Trabalhar é tá na luta“: vida, moradia e movimento entre o povo Iuna, Chapada Diamantina — concluído em 2017, foi feito na mesma instituição com orientação da Profª Drª Maria Rosário Gonçalves de Carvalho.

Sua carreira profissional, como analista em reforma e desenvolvimento agrário no Serviço de Regularização de Territórios Quilombolas do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária — Incra, nos estados do Maranhão e da Bahia, foi construída paralelamente ao trabalho acadêmico e também ao trabalho como escritor.


Resenha de Torto Arado

pelo professor Marcelo de Andrade Lima da EE Dom João Nery de Campinas

Há um tempo, li um artigo de Gilberto Maringoni na revista Desafios do Desenvolvimento, do IPEA, que falava sobre o destino dos negros após a abolição. Sempre retorno a esse texto para preparar minhas aulas de Geografia — e, agora, de Sociologia.

Recentemente, graças a esses canais em redes sociais voltados à literatura, chegou em minhas mãos Torto Arado de Itamar Vieira Junior, que trata de um desses destinos possíveis do povo negro após a abolição, no sertão da Bahia.

Em primeiro plano, temos Bibiana e Belonísia, irmãs marcadas pelo resto de suas vidas por um acidente. São elas que nos apresentam a história.

O cenário é a Fazenda de Água Negra, onde os descendentes de escravos viviam “como gado, trabalhando sem ter nada em troca”, nem descanso, em uma condição de servidão, só com o “direito de morar”, se assim “os senhores quisessem”.

As tradições religiosas afro-brasileiras e a ancestralidade demonstram e oferecem uma capacidade de sobrevivência para um povo cujo “sofrimento era o sangue oculto a correr nas veias de Água Negra”. A força da mulher negra é o alicerce para a comunidade da fazenda.

As terras que “só tem valor se tem trabalho”, mas as mãos de seus “donos” não dariam conta de trabalhá-las todas, passam, a partir de uma tomada de consciência, a ser objeto pelo direito de posse por um povo que lhe deu sentido.

Em vários momentos li em voz alta, para me fazer escutar as lindas passagens desse livro com suas referências geográficas do lugar, bem como para descrever os personagens, como o pai das irmãs, Zeca Chapéu Grande, curador de Jarê, que tinha “sulcos profundos, vales na sua pele erodida pelo sol e pelo vento”… O escritor é geógrafo.

Que livro. Eu, como professor, vou trabalhar para que essa obra esteja nas salas de aulas. É preciso dar voz para aqueles que foram renegados da historiografia oficial, sempre…


Leia mais — bibliografia disponível gratuitamente

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. Discurso “verde“: produzindo espaço, vendendo paisagem. In: Seminário do Laboratório de Estudos Ambientais e Gestão do Território, 2005, Salvador. Cadernos do Leaget, 2005. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. A valorização imobiliária empreendida pelo Estado e o mercado informal de imóveis em Salvador: analisando a Avenida Paralela. Dissertação de mestrado — Programa de Pós-Graduação em Geografia, Instituto de Geociências, Universidade Federal da Bahia, 2007. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. Territorialidade e etnicidade: debates para a regularização fundiária de quilombos pelo Estado Brasileiro. In: Anales del XIV Encontro de Geógrafos de América Latina 2013 Perú. Lima: Unión Geográfica Internacional – Comité Nacional Perú, 2013. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel; SANTOS, Flavio Luis Assiz. Expressões de territorialidade entre trabalhadores e quilombolas na Chapada Diamantina, Bahia. In: Anais da 29ª Reunião Brasileira de Antropologia, Natal, 2014. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. Quando a memória é patrimônio: expressões de territorialidade de comunidades quilombolas. Geografia em Questão (Online), v. 08, p. 01-163, 2015. [PDF]

VIEIRA JUNIOR, Itamar Rangel. “Trabalhar é tá na luta”: vida, morada e movimento entre o povo da Iuna, Chapada Diamantina. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, 2017. [PDF]

2 comentário em “Itamar Vieira Junior: o geógrafo vencedor do prêmio Jabuti

  1. É de geógrafo, esse que vê as entranhas, a essência dos objetos, descobrindo outros espaços, todos criados e nem sempre usados por seus feitores. Para eles, esses produtorres de vidas e de vivências são jogados como gado. Mas, esses homens sacrificados produzem geografias com todas as vinculações que requer o porvir. Com esse poder hercúleo, o homem submetido amplia o espaço usado, por isso, creio, é um torto arado.
    Parabéns, meu caro colega Itamar, em erigir um monumento a esses tantos irmãos que firmaram a essência do espaço de vida útil.

  2. Que literatura essencial para o Brasil. Caro colega, meus parabéns!!

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