Hilton Federici, o inesquecível professor de Geografia de Aziz Ab’Sáber

Gustavo Teramatsu * / AGB-Campinas

Entrada principal da EE Hilton Federici, na rua Eduardo Modesto

O loteamento da Vila Santa Isabel, no distrito de Barão Geraldo em Campinas, quase no limite setentrional com Paulínia, começou a ser ocupado no fim da década de 1960. O bairro, com população de cerca de 4 mil pessoas, sedia a Moradia Estudantil da Unicamp e está a três quilômetros do campus da universidade, fundada na mesma época.

Na semana passada, um carro de som circulava pelo bairro com a vinheta do “Plantão da Globo” e um recado dos professores da Escola Estadual Hilton Federici, “o Hilton”:

“Prezada comunidade da Escola Hilton Federici: é com tristeza que comunicamos que a nossa escola foi selecionada para se tornar uma escola integral em novo formato. O Programa Ensino Integral, conhecido como PEI, não deveria ser implantado neste momento, pois dependeria de esclarecimentos à comunidade e decisão do conselho de escolar. Ter a resposta por meio de questionários não torna a mudança justa, pois muitos não têm tempo ou acesso à internet. É uma decisão muito importante para todos que fazem parte da nossa amada escola. A grande maioria dos professores da Escola Hilton Federici é contra essa mudança. Amamos nossos alunos e lutamos muito para que a escola se tornasse cada vez melhor e mais amada pela comunidade. Seguimos na luta para que possamos continuar fazendo parte dessa comunidade, pois muitas professoras e muitos professores terão de mudar de escola caso o novo formato seja implantado. Neste momento, precisamos de todo apoio da comunidade. (…) Nos apoie, converse com seus professores e suas professoras e participe das reuniões online. Não queremos transformar um ‘até breve’ em ‘adeus’. Contamos com a ajuda de vocês”.

Para a pedagoga Fabíola Machado da Rosa, que pesquisou a relação do Hilton com o entorno em seu TCC “Recontando a escola e reconhecendo o bairro”, defendido na Unicamp em 2013, “a história da escola não se fez isolada do desenvolvimento do bairro e da relação entre seus habitantes”.

A partir de depoimentos de antigos moradores e comerciantes da vila, Fabíola concluiu que “discursos e práticas, dentro e fora de seus muros, parecem ser resultado de uma construção coletiva que passa por relações pessoais, concepções de educação, expectativas, busca e execução de políticas públicas, embates e interesses em diversos níveis. Conhecer esses elementos torna-se importante para tentar entender as dinâmicas envolvidas entre comunidade e escola a fim de ampliar o olhar sobre as questões educacionais influenciadas por elas”.

Considerando as relações com a comunidade, Fabíola arrisca dizer que “realizar a escuta dos moradores talvez seja uma forma de formular novas relações”. O corpo docente do Hilton está justamente buscando maneiras de envolver a comunidade como um todo para fazer frente à implantação do PEI, ainda que por meio de reuniões virtuais que se tornaram comuns nestes últimos meses de pandemia. O Hilton da Vila Santa Isabel, portanto, completa quarenta anos discutindo seu futuro.

Leia mais sobre o PEI:


O professor Hilton Federici

Em 2020, também completa quarenta anos o falecimento do professor Hilton Federici. Em 13 de outubro de 1980, o governador Paulo Maluf publicava decreto denominando “Prof. Hilton Federici” a recém-criada EEPG da Vila Santa Isabel. Era a segunda instituição de ensino na cidade — depois da inauguração, em julho, de um Parque Infantil (atualmente EMEI) homônimo na Vila 31 de Março — que passaria a carregar em seu nome uma homenagem ao professor de Geografia e História falecido no dia 20 de junho daquele ano, aos 67 anos de idade.

A sala-ambiente do professor Hilton no Colégio Culto à Ciência (data e autoria desconhecidas)
Retrato de Hilton Federici

Hilton Federici chegou a Campinas em 1949. Foi professor de Geografia na Universidade Católica de Campinas e no Colégio Culto à Ciência, onde estudaram seus filhos Reinaldo e Lucilio Plauto. Foi sócio da nossa Associação dos Geógrafos Brasileiros e da Associação Nacional de História — ANPUH, então Associação Nacional dos Professores Universitários de História. Também foi membro da Academia Campinense de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, e teve papel importante na inauguração do Brinco de Ouro da Princesa. Participou da diretoria do Guarani Futebol Clube e em 1964 publicou o pequeno livro A Razão do Nome Guarani.

Quando se aposentou, em 1968, encerrando trinta anos de magistério, o professor Hilton também ocupou o cargo de secretário de Educação e Cultura na gestão do prefeito Ruy Hellmeister Novaes, substituindo a professora Jacy Milani.

Aziz e Hilton

Depois de se formar em História e Geografia na USP e fazer o curso de formação pedagógica no Instituto de Caetano de Campos, em 1938, o jovem professor Hilton Federici se mudou para Caçapava, no Vale do Paraíba, onde lecionou História Geral e do Brasil por cerca de dois anos no Ginásio Estadual. A escola foi instalada de forma improvisada no Paço Municipal, , na Praça da Bandeira. O edifício que abrigava a Câmara Municipal estava sem uso, já que o Governo Vargas havia dissolvido o poder legislativo em 1937, com o Estado Novo. Atualmente funciona ali, em um prédio mais moderno, a EE Prof. João Gonçalves Barbosa, o Estadinho.

O Paço Municipal de Caçapava, onde foi instalado do Ginásio (autoria desconhecida)

Aqueles anos no ginásio permaneceram nas reminiscências de seus antigos estudantes, entre os quais um adolescente vindo de São Luiz do Paraitinga: Aziz Nacib Ab’Sáber (1924-2012). Em diversas ocasiões, como à Ciência Hoje, em 1992, e em um depoimento que deu à revista Fórum em 2002, o geógrafo relatou a influência decisiva que o professor Hilton teve em sua escolha profissional. No antológico depoimento a Cynara Menezes, a Socialista Morena, que originou o livro “O que é ser geógrafo” (Record, 2007), explicou:

“Até então ninguém tinha conseguido fazer com que eu me interessasse pela geografia. Os professores exigiam que os alunos decorassem muitos nomes — litoral, país, capital, litoral da América do Sul, desde Venezuela até Argentina —, só. Nem cenários apareciam. De repente, assisti às aulas de um professor de história que se apoiava em fatos da geografia regional, situava os acontecimentos em cima do espaço real, a expansão de certos tipos de fatos sobre áreas diversas do mundo. E me senti muito estimulado e interessado por aquela interface entre tempo e espaço — ou espaço e tempo. O professor de chamava Hilton Friedericci [sic], que depois veio para Campinas e passou a ser professor da PUC (…) — infelizmente, perdi a trajetória dele.

(…) Estava com 17 anos ao terminar o ginásio e, por influência indireta de Friedericci [sic], resolvi ir para São Paulo fazer uma sondagem sobre o curso de história e geografia”.

Enquanto o jovem Aziz tentava a sorte na capital, o professor Hilton tinha se transferido para Itapira, onde lecionou no ginásio de 1940 a 1944. Mudou-se então, para Guaratinguetá, onde lecionou na Escola Normal entre 1944 e 1949. Neste anos esteve novamente perto de sua terra natal, Cruzeiro, onde nascera em 9 de março de 1913, às margens do Paraíba do Sul.

É certo que Hilton e Aziz tiveram contato novamente em Campinas — este foi professor de Geografia do Brasil e de Elementos de Geologia na FFCL da Universidade Católica de Campinas, no Solar do Barão de Itapura, e não deixou de mencionar o nome de seu antigo mestre em seu artigo Vinte e cinco anos de Geografia em São Paulo (1934-1959), publicado na 34ª edição do Boletim Paulista de Geografia em 1960 e republicado em 2005.

Um dos graduandos em Geografia da época, vale dizer, era Antonio Christofoletti, que publicaria o livro A Terra Campineira com Federici em 1972.

Universidade Católica de Campinas na década de 1950 / Acervo Museu da PUC-Campinas

Em maio de 2011, aos 87 anos de idade — mais de sete décadas depois das aulas de Hilton em Caçapava — em entrevista ao Boletim Paulista de Geografia, de maneira mais resumida, Aziz ainda recordava: “A partir do último ano do ginásio eu conheci alguns professores que foram formados aqui na Universidade de São Paulo, os primeiros, os mais antigos e entre eles um historiador que marcou muito a minha vida, Hilton Federici, que dava história, mas em cima dos fatos geográficos. Eu achei aquilo maravilhoso e então foi por essa razão que escolhi História e Geografia”.

Naquele mês, o geógrafo visitou Campinas pela última vez, para o lançamento do livro A Obra de Aziz Nacib Ab’Sáber.

* aos colegas Ricardo de Sampaio Dagnino, que percebeu antes a relação entre Hilton (e a escola) e Aziz, e Bruna Regina de Oliveira Lima, professora de Geografia e diretora da APM do Hilton

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