Erundina e os geógrafos

A atuação da AGB pela criação do cargo de geógrafo e geógrafa na Prefeitura de São Paulo culminou com um projeto de lei assinado pela prefeita Luiza Erundina em 1992

Gustavo Teramatsu / AGB-Campinas

A prefeita Luiza Erundina no dia de sua posse, em 1º de janeiro de 1989 (Claudio Freitas/Folhapress)

A terça-feira 25 de agosto de 1992 foi um dia histórico. Enormes protestos pelo impeachment do presidente Fernando Collor aconteceram em todo o país, os maiores na cidade de São Paulo. Após a concentração em frente ao MASP, pela manhã, a passeata dos estudantes caras-pintadas percorreu a cidade. Ao cair da noite, um grande comício no Vale do Anhangabaú do “Movimento pela Ética na Política” atraiu milhares de pessoas. Falaram à multidão – a maior vista desde as Diretas Já – diversos políticos, entre eles Lula e Luiza Erundina, que declarou que “a indignação individual se transformou em reação coletiva”.

Mais cedo naquele dia, antes de subir no palanque, a prefeita havia finalmente enviado à Câmara Municipal de São Paulo o Projeto de Lei 288/92, que criava trinta cargos de geógrafo e instituía a carreira na Prefeitura. Na exposição de motivos, explicava:

“A matéria originou-se com a representação da Associação dos Geógrafos do Brasil (sic), entidade de classe que congrega esses profissionais, na qual foi solicitada a criação dos cargos e da carreira correspondente. Reconhecida a atuação dos geógrafos nos diversos campos – em especial nas questões relativas à utilização do solo, ao meio ambiente, à poluição e à habitação –, foram realizados estudos no âmbito da Prefeitura, que concluíram pela necessidade de serem criados os cargos, inclusive em razão de existirem servidores admitidos na função de geógrafo”.

Comício no Anhangabaú pelo impeachment de Collor em 1992 (Antonio Milena/Veja)

O projeto de lei, disponível no SPLEGIS [aqui, em PDF], é acompanhado por um ofício da AGB assinado pela presidente Arlete Moysés Rodrigues, da Unicamp, datado de 2 de maio de 1989 — a AGB-Campinas seria fundada no mês seguinte. No documento, a professora Arlete argumentava:

“O geógrafo tem, sem dúvida, contribuições a dar na administração municipal, sejam nas questões relativas ao plano diretor que em breve será objeto de estudo e trabalho nas municipalidades, sejam nas questões de utilização do solo e meio ambiente, do abastecimento alimentar, poluição visual, acústica e do ar, habitação, densidade e fluxo de transporte e da distribuição e classificação das sub-regiões que compõe a aglomeração paulistana, além das questões metropolitanas (…). Dadas as características da formação e atribuições dos geógrafos, consideramos que os mesmos poderão contribuir com competência para a obtenção do pleno exercício da cidadania”.

Arlete havia sido eleita presidenta da AGB no ano anterior, no 7º Encontro de Geógrafos em Maceió, que ficou marcado justamente pela interpelação que a AGB fez ao então governador Fernando Collor na porta do Palácio Floriano Peixoto, sede do governo alagoano, sobre as enchentes do Mundaú, na região de União dos Palmares.


Três anos depois do início dos debates pela criação dos cargos de geógrafos junto à AGB, a proposta encaminhada pelo governo do Partido dos Trabalhadores, devidamente aprovada pela Secretaria Municipal de Planejamento — cujo chefe de gabinete era Guido Mantega —, estava perto de se tornar lei.

Na Câmara Municipal, o projeto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça em 25 de setembro, pela Comissão de Administração Pública em 9 de novembro e, por fim, pela Comissão de Finanças e Orçamento em 26 de novembro. Enquanto isso, ocorriam as eleições municipais. Em 3 de outubro, Paulo Maluf e o senador Eduardo Suplicy (primo em segundo grau do geógrafo Aroldo de Azevedo [1910-1974]), foram ao segundo turno. Em 15 de novembro, Maluf derrotou Suplicy, obtendo 58,08% dos votos válidos, o que marcava uma ruptura iminente na continuidade dos projetos do governo petista.

Era necessário agir. Apensados ao processo do projeto de lei estão diversos documentos pela aprovação do projeto. São apelos dirigidos ao vereador Paulo Kobayashi (1945-2005), então presidente da Câmara, que era formado em Geografia pela PUC São Paulo e se tornou conhecido como professor de Geografia no Objetivo da Paulista.

O professor de Geografia Paulo Kobayashi, então presidente da Câmara Municipal de São Paulo (autoria desconhecida)

A Seção São Paulo da AGB, em 29 de outubro, por meio de seu secretário Dalterli Rubens Castrisana (lamentavelmente falecido no ano seguinte, aos 27 anos), encaminhou à Câmara um documento de seis páginas intitulado O papel do geógrafo na administração do município, que mencionava que a AGB tinha, então, 5 mil associados em todo o Brasil, 1500 dos quais em São Paulo.

Finda a 43ª Reunião de Gestão Coletiva da AGB, realizada em Curitiba, no feriado de Finados daquele ano, o professor Zeno Soares Crocetti, que presidia a Diretoria Executiva Nacional da AGB, assinou ofício defendendo a aprovação do projeto: “Diversos municípios brasileiros já contam com geógrafos em seus quadros e nos causa estranheza o fato de que em São Paulo — a maior cidade do Brasil — não se dispõe destes profissionais na administração”.

Há também telegramas, incluindo dois enviados pela Seção Local Presidente Prudente, todos com textos semelhantes, evidenciando uma campanha: “Solicitamos vossa especial atenção na análise do projeto de criação de cargo e carreira de geógrafo”.

A Geografia da UFRGS também enviou apoio por meio de ofício assinado pela professora Neiva Otero Schäffer, chefe do Departamento.

Na USP, os professores do Departamento de Geografia organizaram um abaixo-assinado pela aprovação do projeto. “Entendemos que os trabalhos de planejamento e gestão do território desta Metrópole, bem como o estudo de prevenção dos impactos ambientais de grandes projetos não podem prescindir da contribuição e conhecimentos destes profissionais”, diz o texto, subscrito por diversos docentes, alguns dos quais já falecidos: Milton Santos (1926-2001), Armando Corrêa da Silva (1931-2000), Eduardo Abdo Yázigi (1941-2019), Felisberto Cavalheiro (1945-2003) e Antonio Carlos Robert Moraes (1954-2015).

O Centro de Estudos Geográficos – CEGE também organizou outro abaixo-assinado: “Temos a certeza da necessidade do trabalho do Geógrafo junto aos órgãos municipais, visto que sua formação lhe permite atuar competentemente nesta, contribuindo assim, nas diversas ações desenvolvidas pela PMSP”. Seguem centenas de assinaturas, entre as quais as de Anselmo Alfredo, Júlio Cesar Suzuki, Vicente Eudes Lemos Alves, Larissa Mies Bombardi, Nilo Américo Rodrigues Lima de Almeida, Rita de Cássia Ariza da Cruz, Rubens de Toledo Junior, Paula Borin, Flávia Christina Andrade Grimm, Silvia Lopes Raimundo e Paulo Roberto de Albuquerque Bomfim. Quantos deles foram caras-pintadas?

O projeto de lei, contudo, não foi à votação em 1992. Em 13 de janeiro de 1993, Paulo Maluf, de volta à Prefeitura, solicitou seu arquivamento, para ser “objeto de reexame pelos órgãos municipais competentes”. O processo foi arquivado em março daquele ano e não foi reaberto desde então.


Em 2020, Erundina é candidata a vice-prefeita de Guilherme Boulos pelo Partido Socialismo e Liberdade. Circula na internet um manifesto de geógrafos (com geólogos e engenheiros) em apoio à candidatura que está colhendo assinaturas. A deputada federal teve participação nas últimas cinco eleições municipais da capital paulista. Em 2016, foi candidata pelo PSOL com Ivan Valente como vice, tendo obtido 184 mil votos (5º lugar); em 2012, declinou da candidatura como vice-prefeita de Fernando Haddad por divergências políticas com o PT (entrou Nádia Campeão, do PCdoB); em 2008, foi impedida pelo PSB de ser candidata a vice-prefeita de Marta Suplicy (entrou Aldo Rebelo, do PCdoB); em 2004, foi candidata do PSB com Michel Temer (PMDB) como vice, tendo obtido 244.090 votos (4º lugar); em 2000, com Emerson Kapaz (PPS), foi candidata com 546.766 votos (5º lugar); em 1996, com Aloizio Mercadante, foi ao segundo turno contra Celso Pitta, obtendo 1.291.120 votos no 1º turno e 1.924.630 no 2º.

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