[Entrevista] Edgar Morin: “Sentir mais do que nunca a comunidade de destino de toda a humanidade”

Entrevista a Simon Blin publicada no Libération em 29 de março de 2020, traduzida pelos geógrafos Luciano Duarte, Wagner Nabarro e Gustavo Teramatsu


Quase centenário, o sociólogo, eterno otimista, considera o confinamento como uma ocasião inesperada para regenerar a própria noção de humanismo, mas também para cada um escolher entre o importante e o frívolo.

Confinado, ele diz se sentir “protegido fisicamente em uma comunicação e uma comunhão permanentes” com o mundo que permanece virtualmente conectado. Ele, que sempre viveu plenamente, cujo século de existência é composto de mudanças perpétuas e de engajamentos políticos e intelectuais. Nascido em 1921, Edgar Morin, sociólogo, filósofo, “humanólogo”, como diz ele, escritor mundialmente conhecido, pensador da “complexidade” da obra abundante e englobante (O Método é sua obra principal), viveu a Resistência¹, atravessou o século XX entre admiração e revolta. Ele aborda essas duas loucas semanas em que vimos o mundo inteiro atingido pela propagação do coronavírus. O diretor emérito de pesquisa do CNRS², nonagenário quase centenário de um otimismo inabalável e de um olhar luminoso, vê nesse momento de parada planetária a oportunidade de uma “crise existencial salutar”.

¹ Resistência francesa contra a invasão da Alemanha Nazista.

² Centre national de la recherche scientifique (Centro Nacional de Pesquisa Científica) o correlato francês do CNPq brasileiro.

Como você vive esse grave e inédito momento?

Nós sofremos um confinamento físico mas dispomos de meios para se comunicar por palavras que nos colocam em comunicação com o outro e com o mundo. No estágio atual, em relação ao encarceramento, nós estamos abertos, mais atentos e solidários uns com os outros. São os solitários sem telefone nem televisão, e sobretudo os não confinados, ou seja, os sem abrigo, os muito frequentemente esquecidos pelo poder e pela mídia, que são as vítimas absolutas do confinamento. No que me diz respeito, eu me sinto participando intensamente, mesmo que apenas do confinamento em si, do destino da nação e do cataclismo planetário. Eu me sinto mais protegido do que nunca, dentro da incerta e desconhecida aventura de nossa espécie. Eu sinto mais forte do que nunca a comunidade de destino de toda a humanidade.

Como você qualifica essa crise que nós atravessamos na história?

Atualmente nós estamos sujeitos a uma tripla crise. A crise biológica de uma epidemia que ameaça indiscriminadamente nossas vidas e ultrapassa as capacidades hospitalares, sobretudo onde as políticas neoliberais não cessam de reduzi-las. A crise econômica nascida das medidas de restrição tomadas contra a pandemia e que, reduzindo ou parando as atividades produtivas, de trabalho, de transporte, certamente se agravará se o confinamento se tornar duradouro. A crise de civilização: nós passamos bruscamente de uma civilização da mobilidade a uma obrigação de imobilidade. Nós vivíamos principalmente fora, no trabalho, no restaurante, no cinema, em reuniões, em festas. Aqui somos forçados a um estilo de vida sedentário e à vida privada. Nós vivemos sob  a influência de consumismo, ou seja, do vício em produtos de qualidade medíocre e em virtudes ilusórias, o incentivo ao aparentemente novo, em busca de mais, e não do melhor. O confinamento poderia ser uma oportunidade de desintoxicação mental e física, que nos permitiria selecionar o importante e rejeito o frívolo, o supérfluo, o ilusório. O importante é evidentemente o amor, a amizade, a solidariedade, a fraternidade, o desabrochar do Eu em um Nós. Nesse sentido, o confinamento poderia suscitar uma crise existencial salutar, em que nós refletiríamos sobre o sentido de nossas vidas.

Diante da pandemia, é o conjunto de nosso sistema que está abalado: sanitário, político, econômico e democrático. Seu trabalho intelectual consiste precisamente em pensar a complexidade e a transdisciplinaridade.

Essas crises são interdependentes e estabelecem relações umas com as outras. Se uma delas se agrava, mais ela agrava as outras. Se uma diminui, ela diminuirá as outras. Igualmente, enquanto a epidemia não regredir, as restrições serão mais e mais sensíveis e o confinamento será vivido cada vez mais como um impedimento (de trabalho, de praticar esportes, de ir a reuniões e a espetáculos, de cuidar de seu ciático ou de seus dentes). Mais profundamente, esta crise é antropológica: ela nos revela a face ínfima e vulnerável da formidável força humana, ela nos revela que a unificação técnico-econômica do globo criou, ao mesmo tempo, uma interdependência generalizada e uma comunidade de destino sem solidariedade.

É como se o mundo não entrasse mais em nossos quadros de análise. As referências intelectuais também são transformadas.

Essa policrise deveria suscitar uma crise do pensamento político e do próprio pensamento de fato. A fagocitação da política pelo econômico, a fagocitação do econômico pela ideologia neoliberal, a fagocitação da inteligência reflexiva por aquela do cálculo, tudo isso impede de conhecer os imperativos complexos que se impõem: combinar mundialização (para tudo que é cooperativo) e desmundialização (para salvar os territórios desertificados, as autonomias alimentares e sanitárias das nações); combinar desenvolvimento (que o lado positivo do individualismo) e envolvimento (que é solidariedade e comunidade); combinar crescimento e decrescimento (determinando o que deve crescer e o que deve decrescer). O crescimento traz em si mesmo a vitalidade econômica, o decrescimento traz em si mesmo a saúde ecológica e a despoluição generalizada. A associação do que parece contraditório é aqui logicamente necessária.

Nossa capacidade de “viver junto” é colocada à prova. Seria a ocasião de refundar um novo humanismo, de restaurar as bases de uma vida comum, mais solidária na escala do planeta?

Nós não precisamos de um novo humanismo, nós precisamos de um humanismo reforçado e regenerado. O humanismo tomou duas faces antagônicas na Europa. A primeira é aquela da quase-divinização do humano, destinado a dominar a natureza. O outro humanismo foi formulado por Montaigne em uma frase: “eu reconheço em todo homem meu compatriota”. É necessário abandonar o primeiro e regenerar o segundo. A definição do humano não pode se limitar à ideia de indivíduo. O humano se define por três termos tão inseparáveis um do outro quanto a trindade: o humano é ao mesmo tempo indivíduo, uma parte, um momento da espécie humana, e uma parte, um momento da sociedade. Ele é simultaneamente individual, biológico, social. A partir desse momento, o humanismo não saberia ignorar nossa ligação umbilical com a vida e nossa ligação umbilical com o universo. Ele não se esqueceria que a natureza está tanto em nós como nós estamos na natureza. A base intelectual do humanismo regenerado é a razão sensível e complexa. Não somente é necessário seguir o axioma “não há razão sem paixão, não há paixão sem razão”, mas nossa razão deve sempre ser sensível a tudo que afeta os humanos.

Isso suporia uma  inversão dos valores do mundo no qual vivemos antes do coronavírus…

O humanismo regenerado conscientemente extrai das fontes da ética, presentes em toda sociedade humana, que são a solidariedade e a responsabilidade. A solidariedade suscita a responsabilidade e a responsabilidade suscita a solidariedade. Essas fontes permanecem presentes, mas em parte secas e drenadas em nossa civilização sob o efeito do individualismo, da dominação do lucro, da burocratização generalizada. O humanismo regenerado é essencialmente um humanismo planetário. O humanismo passado ignoraria a interdependência concreta entre todos os humanos que se tornou comunidade de destino, que criou a mundialização e que ela faz aumentar sem parar. Como a humanidade está ameaçada por riscos mortais (multiplicação das armas nucleares, desencadeamento de fanatismos e multiplicação de guerras civis internacionais, degradação acelerada da biosfera, crises e desregulação de uma economia dominada pela especulação financeira enlouquecida), ao que se acrescenta agora a pandemia viral que reforça esses riscos, a vida da espécie humana e, inseparavelmente, a da biosfera se tornam um valor prioritário.

Essa mudança é fundamental?

Para que a humanidade possa sobreviver, ela deve se metamorfosear. Jaspers disse logo após a Segunda Guerra Mundial: “se a humanidade quer continuar a viver, ela deve mudar”. O humanismo, ao meu ver, não é somente a consciência de solidariedade humana, é também o sentimento de estar no interior de uma desconhecida e incrível aventura. No seio dessa aventura desconhecida cada um faz parte de um grande ser constituído de sete bilhões de humanos, como uma célula faz parte de um corpo entre centenas de bilhões de células. Cada um participa desse ilimitado, desse inacabado, dessa realidade fortemente tecida de sonho, desse ser de dor, de alegria e de incerteza que está em nós assim como nós nele. Cada um dentre nós faz parte dessa inaudita aventura, no seio da própria espantosa aventura do universo. Ela traz consigo sua ignorância, seu desconhecimento, seu mistério, sua loucura na sua razão, sua inconsciência de sua consciência, e cada um traz em si a ignorância, o desconhecido, o mistério, a loucura, a razão da aventura mais do que nunca incerta, mais do que nunca assustadora, mais do que nunca emocionante.

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