Bruno Latour: A crise sanitária incentiva a nos prepararmos para as mudanças climáticas

Publicado no Le Monde em 25 de março de 2020. Tradução inédita dos geógrafos Gustavo Teramatsu, Luciano Duarte e Wagner Nabarro

Bruno Latour, sociólogo e filósofo, antropólogo das ciências, é o notável autor de Les Microbes. Guerre et paix, suivi de Irréductions (Métailié, 1984) e de Où atterrir ? Comment s’orienter en politique (La Découverte, 2017).


A coincidência entre um confinamento geral e o período da Quaresma, ainda que imprevisível, foi muito bem-vinda por aqueles a quem, por solidariedade, pedimos que não façam nada e que estão atrás da linha de frente. Esse jejum forçado, esse Ramadã laico e republicano, pode ser uma bela ocasião para que eles pensem sobre o que é importante e o que é irrisório…

Como se a intervenção do vírus pudesse servir como um ensaio geral para a crise seguinte, aquela em que a reorientação das condições de vida vai se colocar para todo mundo e em todos os detalhes da existência cotidiana que teremos que aprender a organizar com cuidado. Suponho, como muitos, que a crise sanitária está preparando, induzindo e estimulando as pessoas a se prepararem para as mudanças climáticas. Ainda será necessário testar essa hipótese.

O vírus não é mais do que um elo de uma corrente

O que nos autoriza a encadear as duas crises é a súbita e dolorosa percepção de que a definição clássica de sociedade – os humanos entre si – não faz sentido. O estado do social depende a cada instante das associações entre muitos atores, cuja maioria não possui forma humana. Isso é válido para os micróbios – como sabemos desde Pasteur –, mas também para a internet, o direito, a organização dos hospitais, as capacidades do Estado e também para o clima. E, é claro, apesar da confusão em torno de um “estado de guerra” contra o vírus, isto não é nada além de um dos elos de uma corrente em que a gestão de estoques de máscaras ou de testes, a regulamentação de direitos de propriedade, os hábitos civis e os gestos de solidariedade importam igualmente para definir o grau de virulência do agente infeccioso.

Uma vez levada em conta toda a rede da qual ele é apenas um elo, o mesmo vírus não age da mesma maneira em Taiwan, em Singapura, em Nova York ou em Paris. A pandemia não é um fenômeno mais “natural” do que as crises de fome do passado ou a atual crise climática. Há muito tempo a sociedade não se mantém mais dentro dos estreitos limites do social.

A extensão dos poderes e a sirene das ambulâncias

Dito isso, não está claro para mim que o paralelo vá muito além. Pois, de fato, as crises da saúde não são novas e a intervenção rápida e radical do Estado até agora não parece inovar muito. Basta ver o entusiasmo do presidente Macron em assumir a figura de chefe de Estado que tão pateticamente lhe faltava até agora. Muito melhores do que os atentados – que são apenas assuntos de polícia –, as pandemias despertam, nos líderes e nos liderados, uma espécie de obviedade – “nós devemos protegê-los”, “vocês devem nos proteger” – que recarrega a autoridade do Estado e lhe permite exigir aquilo que, em qualquer outra circunstância, seria recebido com protestos.

Mas esse Estado, que não é aquele do século XXI e das mudanças ecológicas, mas sim aquele do século XIX e do que se convencionou chamar de “biopoder”. Para falar como o falecido estatístico Alain Desrosières, é o Estado das assim denominadas estatísticas: gestão das populações sobre uma grade territorial vista de cima e conduzida pelo poder de especialistas. Exatamente o que vemos ressuscitar agora – com a única diferença de que é replicado passo a passo, a ponto de ter se tornado planetário.

Parece-me que a originalidade da situação atual é que, ao permanecermos trancados em casa enquanto do lado de fora não há nada além da extensão dos poderes da polícia e a sirene das ambulâncias, nós interpretamos coletivamente, de uma forma caricatural, a figura do biopoder que parece saída diretamente de um curso do filósofo Michel Foucault. Não falta sequer a obliteração de grande número de trabalhadores invisíveis forçados a trabalhar para que os outros pudessem continuar a se esconder em suas casas – sem esquecer os imigrantes, impossíveis de acomodar. Mas justamente, essa caricatura é a de uma época que não é mais a nossa.

Um abismo imenso

Existe um abismo imenso entre o Estado capaz de dizer “eu protejo vocês da vida e da morte”, ou seja, da infecção por um vírus cujo rastro não é conhecido pelos pesquisadores e cujos efeitos não são compreensíveis para além dos levantamentos estatísticos, e o Estado que ousaria dizer “eu protejo vocês da vida e da morte, porque mantenho as condições de habitabilidade de todos os seres vivos de quem vocês dependem”.

Faça o experimento mental: imagine que o presidente Macron venha a anunciar, com o mesmo tom churchilliano, uma série de medidas para deixar as reservas de gás e do petróleo na terra, para impedir a comercialização de pesticidas e reduzir as aragens profundas e, audácia suprema, proibir o aquecimento dos fumantes na varanda dos bares… Se o imposto sobre a gasolina desencadeou este movimento dos “gillets jaunes”, é estremecedor pensar nos tumultos que incendiariam o país. E, no entanto, a exigência de proteger os franceses para seu próprio bem contra a morte é infinitamente mais justificada no caso da crise ecológica do que no caso da crise sanitária, porque se trata literalmente de todo mundo, e não de alguns milhares de humanos – e não por um tempo, mas para sempre.

Ora, nós notamos que esse Estado não existe. E o que é mais preocupante é que não está claro como ele se prepararia para passar de uma crise à outra. Na crise sanitária, a administração tem o papel pedagógico bastante clássico, e sua autoridade coincide perfeitamente com as velhas fronteiras nacionais – o arcaísmo do retorno das fronteiras europeias é a prova dolorosa.

Para a mudança ecológica, a relação é invertida: é a administração que deve aprender com um povo multifacetado, em múltiplas escalas, a quem pode parecer que a existência sobre os territórios inteiramente redefinidos pela exigência de sair da produção globalizada atual. Ela será absolutamente incapaz de ditar as medidas a partir de cima. Na crise sanitária, é de fato o corajoso povo que deve reaprender, como na escola primária, a lavar as mãos e a tossir no cotovelo. Para a mudança ecológica, é o Estado que se encontra em situação de aprendizagem.

Mas há outra razão para que a imagem da “guerra contra o vírus” se torne incompreensível: na crise sanitária, talvez seja verdade que os humanos, colocados em conjunto, “lutem contra” os vírus – mesmo que estes não se interessem nem um pouco por nós e sigam seu caminho da garganta ao nariz, nos matando sem que esperemos.

A situação é tragicamente inversa na mudança ecológica: dessa vez, o agente patogênico cuja virulência terrível modificou as condições de existência de todos os habitantes do planeta não é o vírus, são os humanos! E não todos os humanos, mas alguns que lutam contra nós sem declarar guerra. Para essa guerra, o Estado nacional está menos preparado, mal calibrado, tão mal desenhado quanto possível, pois as frentes são múltiplas e atravessam cada um de nós. É nesse sentido que a “mobilização geral” contra o vírus não prova em nada que nós estaremos prontos para a mobilização seguinte. Não são apenas os militares que estão sempre atrasados para uma guerra.

De qualquer forma, nunca se sabe, um tempo de Quaresma, mesmo que laica e republicana, pode levar a conversões espetaculares. Pela primeira vez depois de anos, milhões de pessoas, trancadas em casa, reencontram este luxo esquecido: o tempo para refletir e discernir sobre o que geralmente os faz se mover inutilmente em todos os sentidos. Respeitemos esse longo jejum imprevisto.

2 comentário em “Bruno Latour: A crise sanitária incentiva a nos prepararmos para as mudanças climáticas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *