Ailton Krenak e Chico Mendes na Terra Livre

Gustavo Teramatsu / AGB-Campinas. Fotos: Alice Yumi Hattori (Ailton Krenak) Denise Zmekhol (Chico Mendes)

Em tempos em que pessoas como Salles (o ministro do meio ambiente que desconhecia Chico Mendes), Bolsonaro (o presidente da que alegou na Assembleia Geral da ONU que “a floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior” e que “os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados”), Pazuello (o general ministro da saúde e ex-comandante da 12ª Região Militar que se atrapalhou ao relacionar o inverno amazônico com a influência do hemisfério norte), Mourão (o vice-presidente que recentemente afirmou que as queimadas são “narrativas tiradas da cartola”) et caterva estão no poder e promovem intensa campanha de desinformação sobre a Amazônia brasileira, vale a pena a leitura de dois breves textos publicados pela AGB na revista Terra Livre (que acaba de chegar à 54ª edição) no fim da década de 1980.

Ailton Krenak: Tradição Indígena e Ocupação Sustentável da Floresta

Chico Mendes: A Luta dos Povos da Floresta

“Desde o assassinato de Chico Mendes, a Amazônia tem sido palco de debates em todos os setores da sociedade e em escala mundial”, afirmava o professor Bernardo Mançano Fernandes, então coordenador de publicações da AGB, apresentando a edição n. 6 da revista Terra Livre, com o tema “Território e Cidadania: da luta pela terra ao direito à vida”.

O assassinato de Chico Mendes, divulgado amplamente pela mídia internacional, deu visibilidade à luta dos povos da floresta. Meses depois de seu assassinato, o sindicalista morto chegou mesmo a receber uma homenagem do ex-beatle Paul McCartney, que lhe dedicou uma música em seu novo disco.

Continuava o geógrafo: “O Governo Federal apresenta o programa ‘Nossa Natureza’, sob a égide de um protecionismo desavisado. As Nações indígenas, em sua organização, procuram sobreviver às estradas, barragens e outros projetos. A BR-364 e as usinas hidrelétricas, inclusive a ex-Kararaô, são citadas como meios de desagregação e/ou destruição das comunidades amazônicas. A grilagem de terras, prática constante nas terras do Brasil, gerando violência, expulsão e migração e, por conseqüência, gerando a luta popular e a re-volta para a terra, estudada através do processo de conscientização de grupos que criam o agir, a ação própria e o avanço da luta na reconquista do direito de ser CIDADÃO”.

Ailton Krenak, coordenador Nacional da União das Nações Indígenas, fez um discurso na Assembleia Nacional Constituinte pelos direitos dos indígenas que se tornou muito conhecido. Era setembro de 1987.

No texto da Terra Livre – Tradição Indígena e Ocupação Sustentável da Floresta – Ailton provocada: “Como assegurar regiões preservadas e garantir uma economia sustentável para nossas comunidades, diante da barbárie do progresso? O que fazer com regiões tradicionais que foram agredidas ao ponto do grave comprometimento dos ecossistemas?”. Estas são, ainda hoje, questões prementes.

Em abril deste ano, Ailton foi o primeiro entrevistado na série de vídeos Vozes da Floresta – A Aliança dos Povos da Floresta de Chico Mendes a Nossos Dias. Além disso, publicou recentemente os livros Ideias para adiar o fim do mundo (2019), O amanhã não está à venda (2020) e A vida não é útil (2020) pela Companhia das Letras.


Em junho de 1988, Chico Mendes esteve na USP a convite da AGB e do Departamento de Geografia. A transcrição da palestra, em cinco partes no canal do YouTube da professora Arlete Moysés Rodrigues, que era então a presidente da AGB, foi publicada postumamente na sétima edição da Terra Livre (Geografia: Pesquisa e Prática Social). O texto recebeu o título de A Luta dos Povos da Floresta.

“Se continuar o desmatamento, se continuar se investindo nos incentivos e na criação de grupos agropecuários para a Amazônia, então o nosso futuro estará ameaçado. Eu acho que o futuro da Amazônia depende muito da organização da resistência da sociedade brasileira e principalmente dos trabalhadores brasileiros. E quando eu falo em trabalhadores não são só os seringueiros, nem os índios, mas também os estudantes, os professores, enfim todos os segmentos da sociedade brasileira”, declarava o líder dos seringueiros de Xapuri.

Ele seria assassinado em dezembro daquele ano. Na palestra, que fazia parte de um périplo que fazia pelo país, Chico Mendes comentou sobre os atentados que havia sofrido e as ameaças de morte. “Eu pelo menos fui vítima até hoje, a partir de 1977, de seis atentados; felizmente escapei de todos eles por incrível que pareça. Recentemente eles atacaram um acampamento nosso, no dia 26 de maio, e dois companheiros foram baleados; um seringueiro recebeu sete balaços e outro companheiro duas balas. Felizmente eles conseguiram sobreviver até hoje. A minha casa está sendo guarnecida por quatro seringueiros, onde dois permanecem até meia-noite e os outros dois até o amanhecer do dia. A sede do sindicato diariamente está sendo cercada por pistoleiros; hoje mesmo recebi notícias de Xapuri de que esta noite vários pistoleiros tentaram invadir a sede do sindicato”.

Mauricio Waldman, que esteve na palestra na USP, conta que a partir dali se formou o Comitê de Apoio aos Povos da Floresta de São Paulo, que no ano seguinte publicaria a cartilha Chico Mendes – O Seringueiro em colaboração com o Conselho Nacional de Seringueiros e com o Departamento Rural da Central Única dos Trabalhadores, que também deixamos disponível para download (clique na capa ao lado).

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