O Acampamento Marielle Vive de Valinhos, por professores de Geografia que lá estiveram

Em outubro de 2018, no 6º Encontro Regional de Ensino de Geografia, organizado pelo APEGEO e pela AGB-Campinas, os professores Fabiana Bardela Lopes, Marcos Zacarias Farhat Jr. e Wellingon Donizeti Strabello, da rede municipal de Campinas, apresentaram prática de ensino intitulada “A questão da terra no Brasil: um debate no Grupo de Estudos de Geografia e História”. Este grupo de reúne semanalmente e, naquele ano, visitaram o Acampamento Marielle Vive em atividade de campo.

Segue o que eles escreveram sobre o acampamento, onde foi morto, nesta quinta-feira (18/07), Luiz Ferreira da Costa.

Leia a prática educativa na íntegra, publicada nos Anais do 6º Encontro Regional de Ensino de Geografia.

O acampamento é organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sub-região de Campinas, e se situa em uma propriedade rural na Estrada do Jequitibá, sentido Itatiba, na altura do quilômetro 6 (seis), entre os bairros Alpinas e Chácaras São Bento, de propriedade de uma empresa do setor imobiliário denominada Fazenda Eldorado Empreendimentos Imobiliários Ltda.

No final da madrugada de 14 de abril de 2018, sábado, cerca de 350 pessoas, divididas em, aproximadamente, 25 ônibus e dezenas de automóveis individuais, ocuparam uma propriedade rural alegadamente improdutiva, lindeira à Estrada do Jequitibá, nas terras altas da Serra dos Cocais, Valinhos/SP. Inicialmente, famílias de Sumaré, Hortolândia e Campinas formaram as primeiras levas que ocuparam a propriedade improdutiva. Ao longo das semanas, famílias de outras cidades aportaram no acampamento, inclusive de Valinhos, e em razão do destaque conferido na imprensa regional.

O Acampamento “Marielle Vive”, em homenagem à vereadora do PSOL recentemente assassinada no Rio de Janeiro, faz parte de uma jornada ampla de ocupação de terras improdutivas organizada pelo MST, e que ocorre ao longo do país. Também faz parte de uma agenda de denúncia à prisão do ex-presidente Lula, considerado um preso político pela direção do movimento. Inclusive, a ocupação em Valinhos foi uma das primeiras após a prisão do ex-presidente, e ganhou bastante projeção em razão da região escolhida.

Desde o primeiro dia de ocupação, ao longo das semanas, diversas famílias foram para a área em busca de um quinhão, do sonho de uma terra própria. Até o dia 18 de maio, aproximadamente 1.000 famílias estavam acampadas na propriedade, em condições extremamente precárias, pois não existe infraestrutura básica (água, eletricidade, etc.). As famílias do Acampamento “Marielle Vive” têm contado com doações de alimentos, água, roupas, cobertores, utensílios domésticos, produtos de higiene pessoal, cadernos e livros, brinquedos, entre outros. Diversas entidades da região, associações, igrejas, sindicatos, entre outros, prestaram solidariedade aos acampados.

É particularmente assustadora a quantidade de casais idosos no acampamento, com idades superiores a 70 anos. Muitos deles trabalhavam em fazendas da região, alguns, em regime de colonato, e, ao envelhecerem, foram demitidos, não tendo capital suficiente para adquirir um imóvel próprio.

Uma das pautas denunciadas pelo MST é a especulação imobiliária na região conhecida como Serra dos Cocais. A propriedade ocupada faz parte de um pool de áreas que estão sob o controle de empresas do setor imobiliário. Estas empresas – a maioria de Valinhos – têm feito lobby junto ao poder público local objetivando a alteração do zoneamento daquela região, de rural para urbano, com vistas à execução de um grande projeto imobiliário, denominado Região dos Lagos, já protocolado na prefeitura de Valinhos, consistindo na construção de 27 condomínios horizontais, totalizando aproximadamente 5.000 unidades residenciais.

A ocupação suscitou esse debate na cidade, pois grande parte da população valinhense se diz contraria à realização dos condomínios na região.

O ponto central desse debate é a água. O MST defende a realização de um projeto de reforma agrária baseado em um sistema agroecológico de produção, como forma de recuperar os solos bastante degradados ao longo de décadas, a vegetação nativa e favorecer a infiltração de água no subsolo, comportando as inúmeras famílias de diversas cidades da região, formando um cinturão verde e produtor de alimentos saudáveis na Região Metropolitana de Campinas (RMC).

As famílias que constroem o acampamento “Marielle, Vive!” são, principalmente, das cidades de Limeira, Valinhos, Americana, Sumaré, Hortolândia e da periferia de Campinas. Elas reivindicam que as terras da fazenda ocupada, chamada de El Dourado sejam destinadas à reforma agrária para que possam construir suas moradias e produzir alimentos saudáveis com técnicas da agroecologia” (MST, 2018).

Também está atrelado a este modelo a não utilização de agrotóxicos, dentro de uma proposta de produção de alimentos orgânicos, alinhado com a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA, 2018), projeto que se encontra em tramitação na Câmara dos Deputados, aguardando, neste momento, pareceres das comissões internas do poder legislativo nacional para o seu andamento.

O PNARA prevê a redução de uma série de agrotóxicos no campo brasileiro, muitos já proibidos nos Estados Unidos e na União Europeia, e se coloca na contramão do Projeto de Lei 6.299/2002, conhecido como ‘PL do Veneno’. Referido projeto foi apresentado em 2002, pelo então senador e atual Ministro da Agricultura, Blairo Maggi, um dos maiores sojicultores do mundo. Se o PL do Veneno se tornar a nova lei de agrotóxicos no Brasil, inúmeras substâncias, proibidas na União Europeia, terão o seu uso liberado e/ou ampliado no país. Conforme defende a geógrafa e pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP), em recente entrevista à BBC Brasil:

“Para se ter uma ideia, eles (os europeus) acabaram de proibir o uso de inseticidas chamados de neonicotinoides, que são dos mais vendidos no mundo, por que pesquisas mostravam uma relação entre eles e a mortandade de abelhas. Aqui, essas substâncias ainda são usadas. E agora, com o novo projeto de lei, ainda vamos ampliar o leque de agrotóxicos disponíveis no mercado” (BBC News Brasil, 2018)

Foto 1: Vista aérea do acampamento “Marielle Vive!”

Integrantes do Grupo de Estudos de Geografia e História no Acampamento “Marielle Vive!”

Acampamento “Marielle Vive!”

Fotos: MST e Grupo de Estudos de Geografia e História da SME-Campinas (2018)

Referências

BBC News Brasil. Na contramão da Europa e EUA, Brasil caminha para liberar mais agrotóxicos. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44621328. Acesso em 05 de setembro de 2018.

MST. Acampamento “Marielle, Vive” resiste há quase um mês em Valinhos (SP). Disponível em: http://www.mst.org.br/2018/05/10/acampamento-marielle-vive-resiste-ha-quase-um-mes-em-valinhos-sp.html. Acesso em: 05 de setembro de 2018.

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