Há 60 anos, ao lado de Jorge Amado, a Associação dos Geógrafos Brasileiros foi a primeira ganhadora do Prêmio Jabuti

por Gustavo Teramatsu

Jorge Amado, em foto de autoria desconhecida

SÃO PAULO, NOVEMBRO DE 1959 – Na noite do dia 25, em sua sede no décimo andar do Edifício Andradas, na Avenida Ipiranga, 1267, a Câmara Brasileira do Livro distribuiu os troféus do recém-criado Prêmio Jabuti para os destaques literários mais recentes. A ocasião ficou marcada especialmente pela coroação de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado (1912-2001), best-seller publicado no ano anterior que levou o prêmio na categoria Romance, cuja importância para a literatura brasileira seria confirmada com o passar dos anos. Pouco tempo depois, em 1961, Amado seria eleito para a Academia Brasileira de Letras. E a “crônica de uma cidade do interior” ganhou o país e o mundo, em adaptações para a televisão e traduções em mais de trinta idiomas.

A geógrafa Gabriele Caricchio Ferreira, em TCC inédito defendido na Unicamp sobre as dimensões geográficas implícitas no romance, a produção intelectual de Jorge Amado “contribuiu para que a sociedade se transformasse de forma crítica, não apenas através de seu ativismo político, mas, principalmente, pela disseminação implícita da crítica social por meio da circulação de seus romances”.

Em sua leitura, o escritor baiano “constrói a sua trama de modo a demonstrar o impacto nos costumes, ideias e valores da sociedade de Ilhéus pela modernização processada por meio das transformações das estruturas sócio-produtivas do coronelismo sob a prosperidade do cultivo do cacau”. E, do ponto de vista da Geografia, a obra discute temas como planejamento e urbanização a partir da decadência da economia agrário-exportadora e o surgimento de uma economia urbano-industrial, as desigualdades regionais e o processo de migração.

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Naquela noite de novembro, a Seção Regional de São Paulo da Associação dos Geógrafos Brasileiros também saiu premiada. A Cidade de São PauloEstudos de Geografia Urbana venceu na categoria Ensaios.

A indicação foi da comissão formada por José Aderaldo Castello (1921-2011), Caio Prado Junior (1907-1990) e Ernani Silva Bruno (1912-1986). Caio Prado Junior, fundador da AGB, ao lado de Antonio D’Elia e Sergio Milliet (1898-1966), também havia feito parte da comissão que escolheu a estatueta de bronze de Bernardo Cid de Souza Pinto (1925-1982) como símbolo das premiações.

Planejada, ainda no fim da década de 1940, para ser publicada em janeiro de 1954, nas comemorações do Quarto Centenário da cidade de São Paulo, a premiada obra veio à luz apenas em outubro de 1956, por iniciativa de Aroldo de Azevedo (1910-1974), em quatro volumes pela Companhia Editora Nacional, com 1400 páginas e mais de trezentas ilustrações, fazia parte da Coleção Brasiliana.

“O melhor do grande edifício bibliográfico que os geógrafos da Universidade de São Paulo puderam dar à Geografia Brasileira nesses últimos anos”, nos dizeres de Aziz Ab’Sáber, em 1960, e “ainda a melhor obra coletiva sobre São Paulo”, na avaliação da geógrafa Sandra Lencioni, em 2012.

As obras dirigidas por Aroldo de Azevedo, para a geógrafa, “atestam a sua capacidade de integrar facetas de um determinado tema envolvendo vários autores. Capacidade esta pouco presente nas inúmeras obras atuais nas quais se reúnem vários textos de diferentes autores que não passam de uma verdadeira somatória de textos que, mesmo interessantes e importantes para o conhecimento, são desintegrados entre si revelando a ausência de um plano comum e integrado metodologicamente, situando-se apenas no nível da composição temática”.

E conclui: “A sabedoria na incorporação de cada elemento do conjunto de uma obra não se constitui num texto em si, muito embora fale por si mesma e permita olhar além das linhas. De certa forma, a construção de uma obra coletiva é como a construção de uma casa, requer um projeto de integração entre as partes, guardando a independência de cada parte”.

Assinam os capítulos, em ordem alfabética, todos sócios da AGB e geógrafos da Universidade de São Paulo, Antonio Rocha Penteado, Aroldo de Azevedo, Ary França, Aziz Nacib Ab’Sáber (1924-2012), Dirceu Lino de Mattos, Elina de Oliveira Santos, Emilia Viotti da Costa (1928-2017), Fernando Flávio Marques de Almeida (1916-2013), José Ribeiro de Araújo Filho, Maria de Lourdes Pereira de Sousa Radesca, Odilon Nogueira de Matos, Pasquale Petrone, Raul de Andrada e Silva, Renato da Silveira Mendes. Colaborou ainda João Soukup, que fora cartógrafo do antigo Império Austro-Húngaro.

Reprodução do sumário da obra

A SEMANA DO LIVRO GEOGRÁFICO DE 1959

Correio da Manhã, n 20302, ano 56, p. 2, edição de 4 de junho de 1959

Mais cedo naquele ano de 1959, no início de junho, Aroldo de Azevedo esteve no Rio de Janeiro, durante a 1ª Semana do Livro Geográfico, organizada pelo Conselho Nacional de Geografia, para o lançamento de A Cidade de São PauloEstudos de Geografia Urbana na Livraria Civilização Brasileira, em coquetel com a presença de Américo Jacobina Lacombe (1909-1993). Na Semana, também foi lançada a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros.


OS GEÓGRAFOS E OS JABUTIS

Jabuti na sede da Associação dos Geógrafos Brasileiros, na Universidade de São Paulo. Foto: Paulo Rufino/AGB-Campinas

Não há notícia de que tenha havido outras edições da Semana do Livro Geográfico. O Prêmio Jabuti, contudo, ampliou-se e chega à 61ª edição neste ano de 2019. Além da equipe de São Paulo, coordenada por Aroldo de Azevedo por meio da AGB, outros geógrafos receberam o prêmio, em diferentes momentos.

Em 1986, a geógrafa Magda Adelaide Lombardo (1951-) levou o Jabuti na categoria Ciências (Tecnologia) pelo livro llha de Calor nas Metrópoles: o Exemplo de São Paulo (Hucitec, 1985), decorrente de sua pesquisa de doutorado em Geografia Física na USP, orientado pelo professor José Roberto Tarifa (1946-).

Em 1997, os geógrafos Aziz Nacib Ab’Sáber e Milton Santos (1926-2001) fizeram dobradinha e foram agraciados com os prêmios Jabuti em Ciências Humanas pela publicação dos livros Amazônia: do Discurso à Práxis (Edusp, 1996) e A Natureza do Espaço (Hucitec, 1996).

Naquele mesmo ano, Jurandyr Ross (1947-) levou o prêmio na categoria de livros didáticos de 1º e 2º graus pela publicação de Geografia do Brasil (Edusp, 1996). Na mesma categoria, o casal Maria Madalena Cavalcanti Lacerda e Gilberto Giovannetti foram premiados pelo Dicionário de Geografia da Editora Melhoramentos.

Em 2001, Marcelo Lopes de Souza (1963-) foi vencedor na categoria Ciências Humanas pela publicação do livro O Desafio Metropolitano: um Estudo sobre a Problemática Sócio-Espacial nas Metrópoles Brasileiras (Bertrand Brasil, 2000).

Em 2002, aconteceu uma nova dobradinha nas Ciências Humanas, com O Brasil: Território e Sociedade no Início do Século XXI, de Milton Santos e María Laura Silveira (1965-) (Record, 2001) e Espaço-Tempo na Metrópole (Contexto, 2001), de Ana Fani Alessandri Carlos (1952-), fruto de sua tese de livre-docência.

Naquele ano, na categoria “Didático 1° e 2° Graus”, venceu o Atlas Geográfico Escolar de Juiz de Fora, publicado em 2001 pela Editora UFJF, de autoria de Valéria Trevizani Burla de Aguiar (1951-). Valéria, estudiosa dos atlas escolares, fez uma tese de doutorado na Unesp de Rio Claro orientada por Livia de Oliveira e é uma referência no assunto.

Em 2003, O País Distorcido (Publifolha, 2002), coletânea de textos publicados por Milton Santos na Folha de S. Paulo entre 1981 e 2001, ganhou o prêmio na categoria Capa, produzida pela designer Paula Astiz – um retrato em close-up do geógrafo baiano. E o Atlas Geográfico Melhoramentos – edição de 2002 do famoso atlas do Padre Geraldo José Pauwels (1883-1960) – ganhou menção honrosa na categoria Didático do Ensino Fundamental e Médio.

Em 2005, São Paulo – Ensaios Entreveros, de Aziz Ab’Sáber (Edusp, 2004) foi vencedor na categoria Ciências Humanas.

Neste ano de 2019, Roberto Marques Neto (1978-) está entre os finalistas na categoria Ciências, com o livro Zoogeografia do Brasil: a fauna, a paisagem e as organizações espaciais, publicado pela editora CRV. Em 2015, Marcos César Ferreira (1957-), do Departamento de Geografia da Unicamp, foi finalista na categoria Engenharias, Tecnologias e Informática com Iniciação à análise geoespacial (Editora da Unesp, 2014).

A Geografia no Prêmio Jabuti

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