AGB manifesta apoio a Ricardo Galvão, diretor exonerado do INPE

A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) vem por meio desta repudiar veementemente a recente ação irresponsável do então presidente Jair Bolsonaro para com o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). Desde sua eleição e posse para presidência do Brasil, uma série de ataques diretos do governo vem questionando às atribuições, relevância e contribuições de instituições nacionais (sobretudo autarquias) de produção de dados e de conhecimento. Infundadas, assentadas em um achismo exacerbado e ideologicamente alinhado a visões e forças conservadoras de mundo, tais críticas buscam deslegitimar as produções, pesquisas, estudos e análises dessas instituições historicamente referenciadas, isso sem uma mínima fundamentação.

Como reflexo de insatisfações rasas e improcedentes, o primeiro órgão a sofrer com ataques ideológicos foi o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já em fevereiro deste ano. De modo unilateral e infundado, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, exigiu mudanças a respeito do Censo Demográfico 2020 realizado pela instituição, propondo a simplificação de seu questionário. Isso demonstra claramente um desprezo e desconhecimento a relevância e pertinência de tal levantamento. Por  consequência, em total desacordo para com às determinações do governo, o gerente da Coordenação de Métodos e Qualidade do próprio instituto, José Guedes pediu exoneração.

No último domingo, 04 de agosto 2019, o (des)governo atual novamente se mostrou avesso a dados e resultados obtidos por instituições de produção de conhecimento.  Após não concordar com dados publicados pelo INPE, que constatam o avanço do desmatamento na Floresta Amazônica, Jair Bolsonaro confirmou a exoneração de seu atual diretor, Ricardo Galvão. Tal postura se constitui como um verdadeiro ataque e desqualificação à produção científica e à entidades e órgãos que se propõem a produzir um conhecimento sobre a realidade brasileira e que possam subsidiar ações e melhorias na qualidade de vida da população.

O INPE historicamente se constitui como referência na produção de informações e dados espaciais que, por sua vez, servem de base para o planejamento e implementação de políticas públicas para o país. Este é responsável ainda pela sistematização e disponibilização das mais variadas bases de dados que alicerçam incontáveis pesquisas no âmbito da geografia e demais ciências, como organização e disponibilização de imagens de satélites, monitoramentos e projeções sobre desmatamentos e incêndios, divulgação de informações climáticas, bem como a execução de projetos vinculados a observações astronômicas.

Além do papel fundamental nessa produção e publicação de informações e dados sobre o território brasileiro o INPE também possui um papel fundamental quando se trata da formação de profissionais. Isso através dos diversos cursos de Pós-Graduação que oferece, como Astrofísica, Engenharia e Tecnologias Espaciais, Geofísica Espacial, Computação Aplicada, Meteorologia, Sensoriamento Remoto e Ciência do Sistema Terrestre. Lembremos que centenas (senão, milhares!) de geógrafas e geógrafos continuaram suas respectivas carreiras acadêmicas nos programas de pós-graduação do INPE, estudando os mais diversos temas de pesquisa geográficos e contribuindo com o avanço teórico-metodológico científico. Com isso, produzindo e difundindo significativos conhecimentos e dados para a implementação de políticas públicas, como já mencionado anteriormente.

 É nítida a insanidade moral discursiva do atual presidente. Seu desconhecimento sobre a importância e magnitude destas instituições e a sua irresponsabilidade política, através das anti-republicanas posturas tomadas, ferem os princípios democráticos de um estado de direito, previstas em constituição. Sobretudo colocam em risco a autonomia e a liberdade da produção científica. Tais ações contribuem para um retrocesso sem tamanho da capacidade e possibilidade de interpretação e compreensão da realidade social e ambiental, pois nos impossibilita estabelecer parâmetros, projeções e, assim, possíveis e factíveis intervenções no território brasileiro.

Dessa forma, reiteramos nossa insatisfação e indignação diante do modo com o qual o atual governo vem atuando. Nos solidarizamos fraternalmente ao diretor Ricardo Galvão, reforçando que o INPE não pode ficar subordinado a decisões arbitrárias e desprovidas de diálogo por parte de qualquer esfera de poder.

Diretoria Executiva Nacional – AGB 
07 de agosto de 2019

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