Milton Santos responde Michel Foucault: uma geografia da medicina

Desenhos de Caitlin Hinshelwood e Saulo Nunes

Em julho de 1976, Michel Foucault endereçou diversas questões à revista Hérodote. As respostas, elaboradas por diversos geógrafos, foram publicadas na edição n. 6, no segundo trimestre de 1977. As questões e as respostas foram traduzidas na íntegra por Ana Maria Leite de Barros, revisadas por Cláudio Zanotelli e publicadas na revista Geografares, do Programa de Pós-Graduação em Geografia e do Departamento de Geografia da UFES, edição 21 (jan-jun 2016). Milton Santos respondeu a última questão proposta por Foucault, reproduzida a seguir.

Michel Foucault: Vocês pensam que é possível fazer uma geografia – ou geografias, de acordo com as escalas – da medicina (não de doenças, mas de instituições médicas com sua zona de intervenção e modalidade de ação)?

Milton Santos: Supondo que seja possível uma geografia em particular da medicina, a primeira coisa a lembrar é que as “modalidades de ação”, assim como os estabelecimentos médicos não são definidos localmente; as doenças a serem tratadas também não. A explicação da localização dos investimos médicos (materiais e humanos) e de sua “zona de intervenção” está em uma escala que ultrapassa aquela do lugar e frequentemente a ultrapassa muito, quando a decisão de criar um hospital ou posto de saúde é tomada em Berna, Boston ou Estocolmo. É preciso sempre recorrer a uma unidade de análise situada em um nível mais elevado para encontrar na totalidade do movimento social as razões específicas, particulares, aparentemente locais, de uma (se você quiser) dada geografia médica.

A cada movimento da sociedade o Todo renovado irrompe em uma multiplicidade de funções realocadas para lugares diferentes. Não são apenas funções médicas que, em termos absolutos ou relativos, são redistribuídas no espaço total, mas todas as outras.

A geografização dos serviços médicos obedece a uma política comandada por interesses de classe tanto do ponto de vista quantitativo quanto do ponto de vista qualitativo. A redistribuição das potencialidades da formação social e o consequente rearranjo do espaço total dependem, tanto nesse caso como em muitos outros, de um mecanismo no qual a forma de poder não é indiferente. O estabelecimento de serviços médicos obedece a duas fontes essenciais de poder. De um lado, o Estado os localiza de acordo com seu poder discricionário. Por outro lado, existem empresas e instituições de caridade, cujos motivos e decisões de localização são diferentes.  De fato, certos equipamentos privados obrigam o Estado a criar outro; é o que ocorre quando há uma população que faz reivindicações e que é numerosa.  O critério que define a distribuição no espaço total das possibilidades sociais totais existentes em um dado momento é político-econômico. Essas decisões concernem aos tipos de doenças, à modalidade de tratamento, à qualidade dos serviços e à sua frequência e as frações de classes sociais e da população em geral que tem acesso.

Uma outra ciência espacial

Geneticamente, o espaço se analisa pelo intermédio da reconstituição da história de sua produção; mas o processo de reprodução ao qual o espaço participa é assumido pela luta de classes criada pelo próprio processo de produção. Isso explica também porque a ciência espacial que desejamos não é a geografia oficial; e a geografia, viúva do espaço, não é a ciência espacial que ela deveria ser. A geografia ajuda sem dúvida a desenvolver e a manter um “saber” ideológico, enquanto que as outras disciplinas espaciais dão os instrumentos – métodos e técnicas – que serão utilizados para tornar as ideologias uma realidade concreta, e isso a serviço do grande capital.

O novo conhecimento dos espaços tem como tarefa essencial denunciar as mistificações que a geografia foi capaz de criar, defender e publicizar, assim fazendo transparecer os mecanismos reais: o estudo da criação do espaço humano como resultado da interação permanente entre homem e natureza, por meio do processo de produção.

Postagem: Gustavo Teramatsu

Caricatura de Foucault por Wiaz na Hérotode n. 6 que pertenceu a Milton Santos, atualmente sob guarda do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Foto: Luciano Duarte

1 comentário em “Milton Santos responde Michel Foucault: uma geografia da medicina

  1. Querid@s geograf@s da AGB Campinas.
    Agradeço imensamente por essa publicação. A Geografia do século XXI, precisa ouvir e sentir os passos já trilhados.

    Muito grato.

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