Nota de pesar e de repúdio da AGB-Rio: Marielle, presente!

NOTA DE PESAR E DE REPÚDIO AO ASSASSINATO DE MARIELLE FRANCO E ANDERSON PEDRO GOMES. EXIGIMOS INVESTIGAÇÕES RIGOROSAS!

A Associação dos Geógrafos Brasileiros Seção Rio de Janeiro vem a público engrossar o coro da sociedade no sentido de exigir investigação rigorosa a respeito do assassinato da Vereadora Marielle Franco, que vitimou também o motorista do carro em que ela estava, Anderson Pedro Gomes.

Marielle, mulher, negra, mãe, feminista, socióloga, nascida no Complexo da Maré (Zona Norte do Rio de Janeiro), teve sua vida da política (dentro e fora do Estado) dedicada à militância na defesa dos direitos humanos e contra ações violentas nas favelas. Em 2016, em sua primeira disputa eleitoral, foi eleita com 46.502 votos para o cargo de vereadora, tendo sido a quinta mais votada na cidade do Rio de Janeiro.

A Câmara dos vereadores do Rio de Janeiro possui 51 parlamentares, 7 deles representado por mulheres, sendo Marielle a única mulher negra entre os parlamentares. Em um ano de mandato, apresentou 16 projetos, onde oito deles eram individuais. Sempre apontando a necessidade dos direitos das mulheres serem garantidos procurando assim dar visibilidade à violência que ocorre no Brasil tendo questões de gênero e raça como cortes fundamentais. Em uma sociedade onde o machismo e o racismo são institucionais, a execução da mulher negra que ocupava cargo político representa um ato político que ameaça a democracia e violenta o Estado democrático de direito.

Todos os assassinatos são inaceitáveis. É preciso dar um basta no genocídio do povo negro, que cotidianamente é exposto à diversas modalidades de violências. Marielle tinha como bandeira de política denunciar e lutar contra estas violações, expondo os problemas da sociedade e de suas instituições – que muitas vezes atuam não no sentido de combater injustiças sociais, mas de praticá-las e naturalizá-las. Desde 2014, ao menos outros 24 líderes comunitários, ativistas e militantes políticos foram executados em diferentes regiões do Brasil, oito deles apenas em 2018*. Contudo, ao assassinar uma representante no poder legislativo escolhida pela população que comunga de duas pautas, seus anseios e de seus ideais de sociedade, é mostrar que a repressão deu um passo largo à frente.

Se não houver investigações sérias e comprometidas em desvelar a complexa teia de articuladores deste assassinato, corremos o sério risco de abrir as portas para uma série de repressões violentas como o que acabamos de duramente presenciar. É evidente que não foi um crime cometido de forma direcionada somente à Marielle. Foi direcionado à sociedade, buscando impetrar o medo e provocar o recuo daquelas e daqueles que lutam por justiça social e contra os crimes cometidos dentro e fora do Estado.

Há quem diga que as nossas instituições estão funcionando regularmente. Mas, afinal, com qual propósito? Temos que problematizar o funcionamento e a finalidade das nossas instituições. Se elas não forem problematizadas, já temos a resposta para a pergunta acima.

Isto posto, exigimos a rigorosa investigação sobre o funcionamento, as relações e os desvios das forças policiais em todas as suas esferas. Isso se faz necessário se quisermos defender as instituições públicas, para não mais desacreditá-las.

Exigimos que todos os envolvidos neste ato de extrema violência sejam devidamente identificados e levados a julgamento. Caso contrário, o Brasil continuará sendo um país inseguro para quem almeja justiça social. Caso contrário, passaremos o recado de que no Brasil o errado é exercer a democracia e buscar soluções políticas para as lutas, e que não há constrangimentos em assassinar representantes eleitas e eleitos pela população.

Nos solidarizamos com todos os familiares e amigos de Marielle.

Diretoria da AGB-Rio – biênio 2017-2018

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