Oficina da AGB abordou a experiência de elaboração de atlas bilíngue de uma Terra Indígena no litoral paulista

Da esquerda para a direita: professor Vicente Eudes, Rodolfo Finatti, Mariana Freitas, Lincoln Medeiros, Eduardo Bernardo e Cintia Silva, participantes do projeto de extensão e apresentadores da oficina

Texto e fotos: Gustavo Teramatsu (AGB-Campinas)

“Extensão é troca de saberes”

— foi com essa ideia que o professor Vicente Eudes Lemos Alves, do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Campinas e atual diretor da seção de Campinas da Associação dos Geógrafos Brasileiros iniciou a oficina Uma experiência com projeto de extensão comunitária: a construção do Atlas Social Bilíngue (Guarani-Português) da Comunidade e Terra Indígena Rio Silveira (Bertioga e São Sebastião, SP), na noite do último dia 31 de outubro, no Instituto de Geociências da Unicamp.

Segundo o professor Vicente, o projeto de extensão, apoiado pela Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PREAC) da Unicamp, teve início em 2013 na Terra Indígena Rio Silveira, também chamada de Rio Silveiras ou Ribeirão Silveira, localizada na divisa dos municípios de Bertioga e São Sebastião, no litoral de São Paulo, em área adjacente ao Parque Estadual da Serra do Mar. Apesar de viverem a um pouco mais de um quilômetro da Praia da Boraceia, cortada pela Estrada Rio-Santos, onde vendem artesanato em madeira ou de fibras trançadas, palmito jussara e plantas ornamentais, as famílias que ali em vivem sentem os efeitos da crescente especulação imobiliária criada a partir dos loteamentos para construção de residências de veraneio. O processo de homologação da demarcação da terra indígena ainda está em andamento.

Segundo o professor Vicente, a influência dos juruá (não-indígenas) e da língua portuguesa é muito forte e se dá principalmente pelos meios de comunicação, mas também pelos materiais didáticos, uma vez que não havia livros na língua guarani à disposição dos alunos das escolas de Rio Silveira. Assim surgiu a ideia de produzir um Atlas Escolar bilíngue (Tekoha Morutï), acompanhado de um cartilha de apoio didático à alfabetização em guarani (Mbyá Ayvu), comentado pela graduanda do curso de Linguística Mariana Gonzaga Marques de Freitas, bem como um encarte sobre a fauna e a flora (Ka’aguy Regua Kuaxia).

O direito à educação

— os graduandos em Geografia Eduardo Bernardo dos Santos e Lincoln John Leite Medeiros apresentaram o contexto do reconhecimento dos indígenas no Brasil em uma perspectiva histórica, desde o estabelecimento do Serviço de Proteção ao Índio à atualidade, passando pela criação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e pela Constituição Federal de 1988, cuja dimensão passa também pelo direito à educação. Sobre isso, mencionaram o Referencial curricular nacional para as escolas indígenas, as alterações na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, bem como discutiram a representação dos indígenas no currículo escolar do estado de São Paulo, tema da pesquisa de iniciação científica de Eduardo.

Um ‘revoal’ sobre cartografia social participativa

— os estudantes da Escola Estadual Indígena Txeru Bá é Kua-i e da Escola Municipal Indígena Nhembo `E ́ Á Porã participaram ativamente do processo de mapeamento de Rio Silveira. Rodolfo Finatti, doutor em Geografia pela USP, apresentou o que ele mesmo chamou de um “revoal” — isto é, sua revisão pessoal — sobre a cartografia social, fazendo comentários sobre como novos significados foram adquiridos à medida em que avançava o projeto de extensão, alterando as intenções iniciais relacionadas ao mapeamento e passando a buscar como representar o tekoa (território) e o teko (modos de ser), que são indissociáveis na cosmovisão guarani.

“Sem tekoa não há teko”

— a doutoranda em Geografia Cintia dos Santos Pereira Silva, que é antropóloga e autora de uma dissertação de mestrado sobre os Yawaripë Yanomami, é uma das pesquisadoras que participa desde o início do projeto de extensão, pelo qual já passaram diversos estudantes de graduação, ao longo de quatro anos. Nesse período, ela conta, o grupo de extensionistas foi conquistando a confiança dos moradores, sempre com a chancela do cacique. Cintia deu mais detalhes sobre a organização da população indígena e sobre o processo de demarcação de terras indígenas e fez severas críticas à PEC 215, que inclui entre as competências exclusivas do Congresso Nacional a aprovação de demarcação das terras tradicionalmente ocupadas pelos índios e a ratificação das demarcações já homologadas.

Vestibular indígena na Unicamp, inclusive para o curso de Geografia

— devemos, por fim, destacar a importância da realização da oficina com esse tema em um momento em que a Unicamp tem se preparado para o vestibular indígena, com criação de duas vagas em alguns cursos de graduação para alunos indígenas, incluindo o curso de Geografia, a partir de 2019.

Continuaremos a programação de oficinas: a próxima, que encerrará o ano de 2017, acontece no dia 25 de novembro e terá como tema o Mapeamento Ambiental Participativo.

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